Ao escutarmos uma sessão analítica como se de um sonho se tratasse podemos descobrir, através da narrativa do paciente, representantes de diferentes facetas do próprio sonhador assim como das diversas fases da sua vida pulsional. Confrontamo-nos com diferentes personagens que, através das suas narrativas, representam os processos primários e secundários do Eu. A escuta do que ocorre no campo da relação, a partir do modelo do sonho, permite-nos mostrar e ter acesso, de uma forma ampliada, à relação do self com os seus objectos internos e externos e às complexas configurações das fantasias, das ansiedades e das defesas que mostram o equilíbrio psíquico que ocorre na dupla analítica.
“Nada efectivamente aconteceu até ter sido contado”
Pensámos, ao aceitar fazer este trabalho sobre a escuta analítica no processo clínico, que esta tarefa seria muito mais fácil do que à primeira vista se nos apresentou. Com o amadurecimento e o conhecimento que o tempo nos traz, fomos constatando, pouco a pouco, que as diferentes componentes da ordem psicológica que entravam na escuta eram de origens e qualidades diversas que se entrecruzavam numa dinâmica específica que era a da relação analítica. Enquanto nos interrogávamos
Comunicação apresentada nas Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise de Lisboa, subordinadas ao tema “A Escuta na Clínica Psicanalítica”, a 6 de Março de 2010.
Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association – IPA. Presidente da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
sobre como abordar este tema da escuta analítica surgiram-nos na nossa mente, através da associação livre, várias questões. Naturalmente, nem todas terão respostas. Mas, na realidade, o que significa escutar? Escutar é ouvir alguém, mas mais do que isso é perceber o sentido do afecto que o outro nos quer transmitir. Desta forma, a escuta analítica é de uma qualidade bem diferente da escuta do nosso dia-a-dia. Podemos interrogar-nos sobre quais os caminhos psíquicos que nos levam ao entendimento e compreensão dessa escuta. O que fazemos analiticamente com a escuta do material que obtemos dos nossos pacientes? Interpretamos a partir da escolha que fazemos dos diferentes dados que escutamos? O que é que o paciente escuta e o que pensa ele da interpretação do analista?
Parece-nos importante desde logo sublinhar que se ouvir é uma função fisiológica, escutar é muito mais complexo e pressupõe a entrada de variáveis que pertencem à dinâmica psíquica da relação dos intervenientes neste processo de relação. Escutar é uma forma de estarmos atentos ao que uma pessoa nos diz mas, mais do que isso, é perceberemos o que outro nos quer comunicar e, sobretudo, podermos apreender a ressonância que as suas palavras, os seus silêncios e as suas respectivas melodias desencadeiam dentro do nosso mundo fantasmático e do nosso inconsciente. Neste sentido a escuta analítica é muito difícil e, metaforicamente, forma uma complexa rede de diferentes níveis de comunicação entre o analista e o paciente. Como entendemos a escuta no processo analítico?
Para que o analista possa construir esse espaço de escuta é imprescindível que mantenha certas regras ou certas condições no seu trabalho analítico. Assim, para que esta escuta se processe, – como Freud (1912) sublinhou –, é necessário que, da parte do analista, haja uma atenção livre e flutuante, sem vigilância selectiva ou controlada sobre a narrativa do paciente. O analista deve simplesmente escutar e não se preocupar em recordar-se ou fixar o que o paciente narra. Segundo Freud, este estado de espírito facilita a formulação das interpretações pois “o analista deve voltar o seu próprio inconsciente, como um órgão receptor, na direcção do inconsciente transmissor do inconsciente do paciente” (Freud, 1912). Desta maneira, o inconsciente do analista sente-se capaz, partindo dos derivados do inconsciente do paciente que lhe são comunicados, através das associações livres, de reconstruir esse mesmo inconsciente. A escuta analítica, como constatamos no nosso trabalho clínico, é complexa
porque depende de diferentes factores que intervêm na dinâmica da relação. Desde logo o analista tem necessidade de representar mentalmente ou figurabilizar a linguagem do inconsciente e das pulsões do paciente em formas de pensamentos, sentimentos, fantasmas ou comportamentos. Desta forma, o analista sintetiza os elementos do inconsciente, ligando-os ou unindo-os aos diversos aspectos da narrativa do paciente de maneira a poder dar um sentido, através de uma interpretação, ao que está a viver na dinâmica da relação. A comunicação analítica, como referiu Freud (1912), é sempre uma dupla escuta entre dois inconscientes, a do paciente e a do analista. Inconscientes constituídos por conteúdos recalcados que são investidos pela energia pulsional que se organiza segundo as regras do processo primário. Esses conteúdos tentam voltar à consciência e à acção depois de terem sido submetidos a deformações da censura. A partir da relação destes dois inconscientes do analista e do paciente, no nosso ponto de vista, constrói-se um campo dinâmico que liga esta dupla de participantes numa configuração fantasmática, como expressão psíquica das pulsões, a partir do qual se inspira a narrativa do paciente e a interpretação do analista. Estamos de acordo com Baranger (1993) quando descreve este campo analítico como uma relação intersubjectiva em que cada participante é definido pelo outro, isto é, por um elo que é o resultado da relação de dois participantes e que os envolve numa dinâmica e num processo criativo específico e único. Esta mesma autora esclarece que o conceito de campo não tem o mesmo significado da relação de união entre transferência e contratransferência. Acrescenta ainda que quando Freud descreveu a comunicação de inconsciente para inconsciente era no sentido bidireccional que é muito diferente e distante do conceito de campo. O campo é uma estrutura diferente da soma dos dois componentes inconscientes, é qualquer coisa de novo que surge e que nasce desse encontro e, curiosamente, acrescenta, para exemplificar a essência dessa relação, que ela é como “a melodia que é diferente da soma das suas notas” . Para a autora, o campo é estruturado segundo três níveis de funcionamento: o funcional da análise, o diálogo analítico e a estrutura da dinâmica inconsciente por detrás deste diálogo. Este campo nasce, naturalmente, das fantasias que brotam do inconsciente de cada um dos membros da dupla analítica e formam um campo de relação que é único para cada paciente. Mas a criação deste campo não é fácil porque a escuta e a interpretação do analista, no seu trabalho clínico, são influenciadas por certas contradições que nascem das suas próprias experiências, de
A nossa experiência clínica mostra-nos como a escuta do paciente em relação à interpretação do analista pode criar o efeito de dominó, isto é, a descoberta de diferentes caminhos e de novas reinterpretações sobre o que foi dito. É possível em certas situações clínicas que a reintrepetação do paciente seja tingida das cores do padrão de comunicação que tem com os seus objectos internos e que estão na origem do seu sofrimento mental. As reintrepetações dos pacientes podem surgir por caminhos distantes ou opostos àqueles que o analista formulou, indicando-nos que estamos a tocar em aspectos do paciente de “difícil acesso” (Joseph, 1975) e que a mudança pode ser sentida como problemática e vivida como uma irreparável perda dos objectos internos com que se identificou muito precocemente e que não quer abandonar. Abandoná-los é sentir-se desamparado. Assim, a escuta da interpretação e dos silêncios do analista e as suas reintrepetações podem ser construídas de uma forma manifesta ou latente e surgem, quase sempre, como consequência
das identificações inconscientes às diferentes qualidades dos seus objectos internos. A propósito desta questão Haidée Faimberg (1996) ressalta que, durante a sessão analítica, a partir da escuta do material, se pode desenhar uma interpretação que por sua vez será escrutinada através de uma filtração inconsciente do paciente que dará uma nova interpretação sobre a interpretação do analista. Esta mesma autora recorda Freud, quando aborda, a propósito desta questão, a elaboração retroactiva em que “os materiais presentes sob a forma de traços mnésicos sofrem de tempos em tempos em função de novas experiências uma reorganização, uma reinscrição”. Assim, o analista, ao escutar as diversas formas que o paciente dá à sua interpretação pode, segundo a mesma autora, “retroactivamente assinalar um novo sentido ao que foi dito” e, segundo o nosso ponto de vista, pode aproximar-se de experiências internas precoces que dificilmente poderiam ser representadas. Neste sentido, o paciente activará no seu psiquismo um “significado inconsciente” ao ouvir a interpretação do analista que pode, segundo o nosso ponto de vista, funcionar como um estado de alerta da forma e da condição como se encontram os seus objectos internos com que se identifica, através da compulsão de repetição, ou pode ser sentido como novas formas da expansão da mente em relação a diferentes e renovadas aberturas que criam diferentes perspectivas na relação analítica. A interpretação do analista pode ser escutada consoante o estado mental do paciente, que pode oscilar conforme a diferente qualidade da transferência que vacila entre fantasmas com afectos positivos, negativos ou neutros que o paciente está a viver nesse momento. Mas o que nos parece importante ressaltar é que essa escuta do paciente em relação às interpretações do analista, que são acompanhadas de reintrepetações ou silêncios, surge como uma necessidade vital de poder, por um lado, viver as diferentes qualidades dos objectos internos com que se identifica mas por outro, também acalentar a esperança de poder “utilizar os objectos” ou viver com eles. Embora sentindo-se em desacordo, não os danifica, nem os destrói mas aceita-os tal como são.
Quais os problemas técnicos que se colocam ao analista quando escuta um paciente? Ao escutarmos uma sessão analítica, como se de um sonho se tratasse, podemos descobrir através da narrativa do paciente representantes de diferentes facetas do próprio sonhador, assim como as diversas fases da sua vida pulsional. Confrontamo-nos com diferentes personagens
que através das suas narrativas representam, através de deslocamento, condensação e figuração, os processos primários do eu. O analista na sua escuta analítica, no nosso ponto de vista, deve utilizar as suas experiências de rêverie, sonhos diurnos, assim como deve ouvir a narrativa do paciente como se de um sonho se tratasse, para mais facilmente se colocar numa posição de acesso ao seu próprio inconsciente e ao do paciente. O modelo proposto por Freud (1900) da formação do sonho e da sua compreensão com as suas respectivas regras que nos dão acesso ao inconsciente, parece-nos que deve ser utilizado como instrumento de escuta, indispensável na técnica analítica. Lewin (1972) compara a formação do sonho à formação da situação analítica em que “o texto manifesto de sonho coincide com o material analítico manifesto do paciente que se exprime sob formas transformadas de pensamentos latentes que se tornam fonte de comunicação com o analista”. Acrescenta ainda que, segundo o seu ponto de vista, a organização do sonho deve ser comparada “à formação da situação analítica”, isto é, constrói-se um campo de relações onde experiências internas infantis podem ser vividas e, através da simbolização e do deslocamento, emergir à luz do dia, ou seja, a tomada de consciência de vivências muito precoces. Tal situação remete-nos para a qualidade da escuta do analista que, no nosso ponto de vista, deverá aproximar-se dos mesmos atributos e semelhanças das qualidades da relação materna que, através de identificações projectivas positivas, pode perceber e colocar-se no lugar do seu bebé e assim, com maior facilidade, recebe, elabora e transforma as comunicações psíquicas e sentimentos precoces da criança, que ainda não podia verbalizar, em afectos mais suportáveis de serem vividos pela sua mente infantil. A escuta analítica vivida, como se de um sonho se tratasse, remete-nos para territórios desconhecidos e para experiências infantis que não podiam ter sido pensadas abrindo-nos novas formas de olhar para a dupla da relação analítica. Recordamos um paciente que nos fala de uma personagem escondida e enigmática que vai habitar as memórias da sua infância, por quem se sentia preso e enclausurado. Ao falar dessa personagem interrompe a sua narrativa para contar um sonho que “nada” tinha a ver com essa figura. Ao escutarmos o sonho desse paciente ele tem um lapso a propósito de uma personagem do sonho que desencadeava um sentimento de culpabilidade por imaginar ter sido ele o responsável pela sua morte e desaparecimento. A palavra morte foi, através de um lapso, substituída pela palavra casamento. Esta simples palavra permitiu ao analista perceber como, por intensa culpabilidade, o paciente fez uma
Assim, a escuta analítica, na dinâmica da relação de campo, mostra-nos como as personagens que surgem, através da narrativa do paciente, nos podem indicar as diferentes qualidades do eu e a forma como se organiza na sua peculiar capacidade para sintetizar e unificar os processos mentais mas, também, de os diferenciar entre os processos primários e secundários. Para a dupla analítica, a escuta do que ocorre no campo da relação, a partir do modelo do sonho, permite mostrar de uma forma ampliada, por isso mesmo mais visível, a relação do eu com os seus objectos internos e as diferentes qualidades dos elos que os ligam. Também permite perceber as diferentes qualidades do “equilíbrio psíquico” (Joseph, 1992) da relação analítica, que mostra um complexo sistema de fantasias, ansiedades e defesas que se exprimem na relação de campo analítico. O analista, escutando o material trazido pelo paciente, como se de um sonho se tratasse, aproxima-se com maior facilidade de experiências internas precoces de difícil representação, mas que são fonte de uma grande dor mental. Freud (1900) mostra-nos como o contacto com o nosso próprio sonho nos faz conviver com a criança que sobrevive, com as suas diferentes pulsões, dentro de cada um de nós. O modelo do sonho, como forma de escuta, aproxima-nos e abre portas para o infantil que está dentro de cada um de nós, ou seja, permite com maior facilidade contactar com o nosso inconsciente.
Tentámos, na medida do possível, mostrar como a escuta analítica é complexa, quer para o paciente, quer para o analista, porque envolve diversas variáveis, a maior parte delas inconscientes, que se conjugam numa relação de campo (Baranger, 1993) entre a dupla analítica. Esta relação de campo dinâmico não representa a soma dos dois intervenientes da relação analítica, mas é uma situação que brota da confluência de dois inconscientes que se entrelaçam num forte desejo de se comunicarem e de se conhecerem. Mostrámos também como a construção inconsciente desse campo faz brotar configurações fantasmáticas que nascem de experiências do infantil (Freud, 1909) e como representação psíquica da vida
pulsional que, naturalmente, funciona sempre em ligação com os objectos internos que se apresentam, como anteriormente sublinhámos, de diferentes maneiras e formas no processo analítico. A escuta analítica, a interpretação e reinterpretação feita pelo paciente, só poderão ocorrer na relação do quadro analítico que obedece a certas regras e condições. Estabelecido esse quadro constitui-se um campo de relação entre os objectos internos do analista e do paciente e dessa interligação surgem as qualidades dos afectos, das defesas e das angústias. A escuta do que ocorre no campo da relação, a partir do modelo do sonho, permite-nos mostrar e ter acesso, de uma forma ampliada, à relação do self com os seus objectos internos e externos e às complexas configurações das fantasias, das ansiedades e das defesas.
ABSTRACT: If we listen an analytical session as if it was a dream we can discover, through the patient dialogue, representations of different aspects of the dreamer itself and, also, different stages of his life drives. Through the patient's narrative, we deal with different personas which represent the primary and secondary processes of the self. From the perspective of the dream model, what is listened on the therapeutic relational field allows us to explain and gain access to the relation of the self with its internal and external objects and, also, to the complex configurations of the fantasies, anxieties and resistances which reveal the psychic equilibrium that occurs between the analytical duo.
KEYWORDS: Analytical listening; Dream as an analytical listening model; Links between two unconscious minds.
referências teóricas, dos contextos da história do paciente, da fase em que se encontra o tratamento analítico e por tudo o que é imprevisto e desconhecido que ocorre nesta relação. A interpretação surge na sessão quando, na dinâmica da relação, emergem sinais de ansiedade e inquietação, que nos levam a pensar que estamos a aproximar-nos de material fantasmático importante e significativo que emerge do inconsciente do paciente. A interpretação surge como o resultado “de um ponto de urgência” (Baranger, 1993) que nasce da mente do analista em contacto com o inconsciente do paciente. Esta configuração fantasmática de campo constitui a fonte a partir da qual surge a discurso do paciente e a interpretação do analista. Pensamos que é no encontro da inter-relação dos dois inconscientes que se constrói uma matriz autónoma, como um campo dinâmico específico para cada paciente, onde podemos interpretar e o paciente construir o seu ponto de vista sobre o que está a ocorrer na relação. Podem surgir momentos de paralisação da dinâmica de campo que nos levam a repensar o que verdadeiramente está a ocorrer e a determinar tal estado da relação da dupla analítica. Os aspectos defensivos podem inundar a relação de campo impedindo que o verdadeiro self brote da relação. Os aspectos destrutivos da mente, alimentados pelas pulsões destrutivas, podem trazer distorções da escuta do paciente face à escuta analítica e o paciente pode vir a sentir-se incompreendido pelo analista.
identificação do casamento à personagem do sonho como defesa da dor e da culpa de uma perda irreparável e inconsolável de que nunca tinha falado, nem pensado anteriormente. Esta personagem do sonho representava a sombra da outra figura importante da sua vida infantil que era sentida como se estivesse envolvida pelas brumas do recalcamento que a culpa não podia reconhecer.