Nesta conferência, o autor desenvolve três princípios essenciais: 1) que a relação analítica é uma investigação; 2) que aquilo que investiga é a realidade e as formas de a transformar; 3) e que só transformando a realidade presente se projecta e constrói uma realidade futura diferente e melhor. Defendendo que estes três princípios podem ter implicações importantes na forma como o terapeuta aborda o próprio tratamento, o autor apresenta um exemplo clínico no qual privilegia a perspectiva do paciente acerca do que é e de como se constrói a relação analítica; e questiona também se essa relação é – e se é, porque é que é – uma relação excepcional na vida do paciente.
ANTE-SCRIPTUM
“Ao princípio não percebia – e ainda não percebo completamente – a influência desta relação na minha vida. Para mim, você está sempre aí, sentado, como se não tivesse uma existência real. Ao mesmo tempo esta relação acompanha-me lá fora… como se fizesse parte de mim, não sei explicar.
Eu percebo que você se põe no meu lugar, mas parece que preciso também que se ponha no lugar da outra pessoa, no lugar de quem – vou percebendo – nunca esteve lá. Parece que sozinha não consigo proteger-me, defender-me… [Terapeuta – Ainda!…]. (silêncio) … Antes interpretava isso como se me dissesse: “não pense que vai ficar aqui para sempre!”, mas agora interpreto… sinto simplesmente que você confia em mim. E eu no meu futuro.”
[Extracto de uma sessão]
Comunicação apresentada no “II Colóquio de Psicoterapia Psicanalítica – Desenvolvimentos e Investigação em Psicoterapia Psicanalítica”; Lisboa, 6 e 7 de Novembro de 2009.
Psicólogo Clínico.
Recebido para publicação em 19 de Julho de 2010. Revisão recebida em 19 de Novembro de 2010. Aceite para publicação em 30 de Novembro de 2010.
Em princípio, a relação analítica é uma investigação realizada por duas pessoas – numa base de complementaridade entre ambas – acerca de um problema da vida mental de uma delas. Por um lado, temos o terapeuta, investigador mais experimentado porque está mais habituado a investigar a sua vida mental e a dos outros, mas que sabe menos acerca do objecto de estudo em causa; por outro lado, o paciente, investigador menos experimentado, mas que sabe mais sobre si próprio.
Sendo a relação analítica uma investigação, aquilo que investiga – isto é, o seu objecto epistémico – é a realidade, pois é a realidade (das relações afectivas) que está na base da vida mental, e não a fantasia. Quer dizer, a vida mental produz e é composta por representações mentais, mais ou menos deformadas ou fantasiosas, mas que são construídas a partir da realidade; sendo, portanto, sobre esta que verdadeiramente nos interrogamos.
É claro que existe uma relação dialéctica (Ogden, 1986) entre os conceitos de fantasia (intrapsíquica) e de realidade (intersubjectiva): afirmam-se e negam-se reciprocamente e um não existe sem o outro. A fantasia, que a priori carece de verificação objectiva, pode ser realizada (concretizada) e a realidade, podendo ser fantasiada (imaginada), verifica-se objectivamente pela existência de um segundo sujeito em relação ao – na relação com o – primeiro. Sozinho imagino/fantasio que sou amado, mas só em relação realizo/verifico que o sou, ou não. Não se trata de hierarquizar, mas se quisermos fazê-lo, concluímos que é a verificação do fenómeno que autentifica a sua existência: se não é verificável, o fenómeno não existia, era uma ilusão/alucinação ou uma fantasia /delírio. “De médico e de louco todos temos um pouco”, mas o “louco” acredita sem verificar (pensa, logo existe), enquanto o “médico” verifica para acreditar (existe pensando). Assim, no que concerne ao objecto epistémico da investigação analítica, se não investigamos para além da fantasia e da representação, podemos cometer (pelo menos) dois erros.
A) O primeiro erro seria o de pensarmos que são as fantasias que produzem a realidade da doença mental e que, por conseguinte, será modificando apenas essas fantasias que tratamos a doença mental. Mas não será transformando efectivamente a realidade (das relações patológicas), que tratamos a doença, porque é na realidade que a patologia
tem a sua origem? Sendo o objecto interno uma representação do objecto externo, primeiro tem que mudar a relação com o objecto externo (real), só depois se pode alterar o objecto interno (fantasmático, mas representativo do externo). A inversão desta sequência parece ser ilógica, patológica e patogénica – ou iatrogénica, se a metodologia terapêutica assentar nessa inversão. Pensar que sou deprimido porque fantasiei que a minha mãe não gostava de mim, é radicalmente falso! Tal como se adoecer com gripe A, não vou pensar que é porque sonhei com o vírus H1N1! Se sou deprimido é porque alguma vez na vida os meus primevos objectos de amor não me deram o afecto suficiente; muito embora possa fantasiar (e todo o fantasma neurótico se move nesse sentido) que esses objectos eram/são bons, óptimos, fantásticos (mas é porque assim os fantasio, distorcendo a realidade).
Há, naturalmente, uma excepção: na psicose o sujeito “imagina” (delira com) o que não existe. Porém, mesmo aí, existe ou existiu algo real, como o próprio Freud (1938) observou em “Construções em Análise” – no fundo do delírio há sempre um grão de verdade. E os trabalhos sobre o double bind e sobre a dinâmica familiar na esquizofrenia (Migone, 1995) confirmam-no. A fantasia, o sonho e o delírio são traduções ou interpretações simbólicas, míticas ou delirantes, mas que têm sempre por base a realidade.
B) O segundo erro seria o de pensarmos que a pessoa é doente apenas porque tem uma tendência compulsiva para repetir ou recriar, ele próprio, as realidades relacionais originalmente traumáticas (a partir das quais a sua própria patologia se originou). Muito embora seja essa a teoria clássica/pulsional da transferência : a pulsão modela a relação e o paciente teria, por si só, uma compulsão a transferir a relação arcaica para a situação terapêutica.
Mas parece mais lógico que o impulso/necessidade natural do paciente seja precisamente a oposta! Por hipótese: “Se caí na primeira vez que andei de bicicleta, a minha vontade/impulso não é repetir a queda! Mas se daí resultou uma lesão – uma fragilidade, que ignoro, mas que condiciona o meu subsequente desenvolvimento –, aumentam as probabilidades de voltar a cair (mas isso nada tem a ver com uma compulsão para voltar a fazê-lo) e interpreto as quedas seguintes de forma enviesada, por desconhecimento dos factores, internos e externos, condicionantes envolvidos.”
Se a ignorância – o reduzido conhecimento de si mesmo na relação com o outro – é a mãe da doença relacional, importa então re-equacionar
a clássica teoria da compulsão à repetição, mas agora à luz da actual teoria das relações objectais internalizadas (esboçada por Balint [1950] e desenvolvida por Fairbairn [1952]). O paradigma inverteu-se: é, antes de mais, a relação intersubjectiva que modela o padrão interno, a pulsão e, por conseguinte, a fantasia.
Não se trata de negar a existência de repetição, inegável enquanto sintoma transversal da neurose em sentido lato; nem de transferência, tanto mais porque nos doentes mais graves a transferência é a regra. Trata-se sim de questionar a sua causa princeps: o sujeito traumatizado não procura compulsivamente objectos e relações traumatizantes, da mesma forma que “aquele que não vê” também não procura repetidamente embater contra paredes que “aquele que vê” evitaria. A nossa conclusão só seria essa se não soubéssemos da condição/deficiência que o afecta (cegueira). A “compulsão a repetir” não é a causa, mas sim uma defesa contra a causa e portanto uma consequência/sintoma da doença; muito embora, retroactivamente, agrave a própria doença. Por exemplo, a anorexia não é a causa mas sim a defesa (regressão à oralidade) contra a causa do problema (dificuldade na progressão genital).
A causa prima do problema não está na representação (do sujeito), mas sim na acção (do objecto) que a gerou, e, posteriormente, na inter-acção que se repetiu (e internalizou). Porque as acções do objecto (“animal na posição alfa”, na linguagem da etologia) e do sujeito (“animal na posição ómega”) não são simétricas, na medida em que pressupõem a anterioridade do envolvimento emocional do objecto (Pedro, 2010). É o objecto quem primeiro age emocionalmente sobre o sujeito, daí resultando uma representação – um conhecimento relacional (Stern, 2006) – do segundo em relação ao primeiro. E se é com base nesse conhecimento experiencial (que resulta da experiência) que o sujeito age e interage, a nossa investigação tem de considerar não só a internalização que o sujeito fez/faz dessa relação, mas também as características reais do objecto com quem o sujeito se relacionou (objectos parentais) e relaciona (terapeuta).
Utilizando as lentes (dedutiva e intuitiva) do nosso microscópio mental, observamos directamente o sujeito (na relação com ele) e, indirectamente, o seu objecto, utilizando a intuição para a construção mental desse objecto “ausente”. A intuição não é “instinto” e muito menos “adivinhação”; as neurociências mostram-nos que a intuição não é mais do que o tratamento de dados e memórias implícitas, cujo processamento (também ele implícito) coloca à nossa disposição um
conhecimento experiencial (resultante de experiências anteriores) e que, em microssegundos, infiltra e influencia preponderantemente a tomada de decisões e, também, o nosso padrão relacional.
Antes da repetição neurótica se instalar (como fenómeno secundário) já existem défices, distorções e incoerências no processamento das experiências afectivas, e, também, na articulação entre a experiência (implícita/explícita) e o conhecimento (experiencial/conceptual) que o sujeito vai construindo acerca da relação com o seu objecto. São, no fundo, dificuldades em “aprender com a experiência”, na linguagem de Bion. Quando o objecto emite uma mensagem verbal/explícita (“aceito-te”) e uma outra infra-verbal/implícita contraditória (“rejeito-te”), o sujeito experiencia uma incoerência, difícil de processar, que dificulta o desenvolvimento do seu pensamento e a construção do seu conhecimento acerca do objecto em particular e do mundo em geral. Quando, para além disso, a representação implícita é a que está mais de acordo com a realidade (do objecto), então é essa que o sujeito intimamente capta, sente e ressente. Entende-se, pois, a sua necessidade de a negar/substituir pela representação explícita (“aceitas-me”); ou, por outras palavras, a sua necessidade de substituir a realidade pela fantasia.
Em resumo: o neurótico sofre, não porque tem uma compulsão para sofrer, mas porque não sabe – não vê, não conhece nem reconhece – melhores objectos, sofre porque não descobriu nem experienciou melhores relações. O masoquismo é um bom exemplo. O “masoquista” não tem prazer em sofrer, mas o seu sofrimento reduz o desprazer que deriva de um outro sofrimento existente mas não reconhecido pelo próprio. O “masoquista” não gosta de não ser gostado (como muitas vezes o próprio pensa, confundindo-se); o problema é que, não sendo realmente gostado, vive na fantasia – e é daqui que retira o prazer – de ser ou poder vir a ser gostado!
Isto porque o neurótico mantém uma visão fantasmática, mas errada, da realidade dos seus objectos originais. E quando encontra (não significa que procure) objectos com a mesma qualidade relacional dos originais, expõe-se aos mesmos riscos! A mesma incapacidade para observar a realidade (do objecto) e para reconhecer a sua malignidade3 é complementada pela criação de uma fantasia com sinal oposto à realidade
O psicótico (ou o paciente com núcleos de funcionamento psicótico) é a excepção que confirma a regra: a sua dificuldade é reconhecer a existência de benignidade nos objectos do seu mundo relacional, e, nomeadamente, no terapeuta.
que o paciente procurou, e procura, negar. Não é tanto que eu reveja a mesma fantasia numa realidade que é diferente, é porque essa realidade não é assim tão diferente que a mesma fantasia serve para a negar. Por exemplo: se a minha mãe não me ligava, mas dizia que se sacrificava por mim, eu acreditava; mais tarde, se sou explorado pelo meu patrão, que me diz que o sacrifício é para o bem da empresa e para o meu próprio bem, eu também acredito.
Se repito a experiência má, não é por ela ser má, mas por não conhecer realmente a experiência boa (se conhecesse experiencialmente, escolhê-la-ia). Intelectualmente até posso “saber” que a minha experiência com o objecto é má; mas acredito que é possível – porque ideal ou intelectualmente tudo é possível – que venha a ser boa; muito embora a experiência me mostre o contrário. E é desta experiência afectiva implícita que deriva aquilo que a pessoa realmente sente, mesmo que não a integre/transforme num saber experiencial.
Se não sei experiencialmente é porque não retiro conclusões a partir de experiências comparativas, e, por conseguinte, não efectuo escolhas informadas, baseadas na realidade da qualidade relacional dos objectos (antigos e actuais). A relação analítica promove essa capacidade para a comparação de experiências, ao mesmo tempo que é, ela própria, uma experiência relacional comparativa – a comparação está implícita, podendo e devendo ser oportunamente explicitada.
Se o tratamento analítico se baseia na investigação da realidade e se procura sê-lo porque procura alterar a realidade, daqui decorre que não podemos alterar a realidade passada – muito embora seja nossa função investigar e compreender (retrospectivamente) a origem dos fenómenos – mas tão somente alterar a realidade presente (Stern, 2006), de forma a podermos esperar, prever e construir (prospectivamente) uma realidade futura diferente, melhor e mais saudável.
Estes três pontos – que a relação analítica é uma investigação, que aquilo que investiga é a realidade e as formas de a alterar, e que só pode alterar a realidade presente – podem ter implicações importantes na forma como o terapeuta aborda o próprio tratamento e a construção da relação analítica.
Se pensamos que o paciente revê a mesma fantasia em realidades diferentes, perguntamo-nos “o que é que isto tem a ver com o seu passado e connosco”; como se assumíssemos, de antemão e inconscientemente, que a relação que estabelecemos com o paciente é, na realidade, semelhante à relação passada e patogénica. Se pensamos que o paciente só revê a mesma fantasia em realidades pelo menos semelhantes – o que é muito mais lógico – ficamos mais livres para questionar “o que é que isto não tem a ver com o passado nem connosco”, seguros de que a relação que estabelecemos com o paciente é realmente diferente da relação patogénica. É assim o início de qualquer investigação: à partida, e até prova em contrário, nada (!) do que o paciente diz tem a ver com o passado ou connosco!
A ideia de que aquilo que o paciente diz tem a ver com o terapeuta pode, por vezes, ser uma invenção/fantasia (narcísica) do próprio terapeuta e que, uma vez posta em acção, vai repetir a relação patogénica, na qual tudo tinha mais a ver com o objecto do que com o sujeito. Porque aí o sujeito era menos um parceiro (objecto complementar de relação: pai/filho, homem/mulher, paciente/terapeuta) e mais uma parte do outro (objecto narcísico de completação do outro). Nesse caso, se repetição existe é precisamente aquela que o terapeuta permite, promove ou inventa, ao adoptar uma postura relacional semelhante à dos objectos do paciente. Voltaremos a esta questão – a da transferência – após a apresentação do exemplo clínico.
O problema não é o paciente fantasiar realidades antigas, mas sim oferecermos-lhe uma realidade semelhante às antigas; o problema de fundo não é o que parece, é o que é – ou não é – real. É claro que esta questão toca no incontornável problema da psicose. Também aí consideramos que o querer mais profundo do psicótico não é o de que a realidade de ontem se repita hoje. Será, também, precisamente ao contrário – só que, por um lado, a intensidade dos afectos que impregnam a sua fantasia é tal, que esta adquire o cunho de realidade; por outro lado, mesmo quando a realidade com a qual se depara é efectivamente diferente e benigna, ele tem mais dificuldade em observá-la e em reconhecê-la, porque a sua capacidade para observar a realidade é muito mais frágil, ficou atrofiada, não se desenvolveu suficientemente.
E isto porque, realmente, é mais difícil observarmos e estabelecermos uma ligação com a realidade quando ela é predominantemente negativa; não é essa realidade que pré-concebemos ou intuímos; não é, da parte do outro, a resposta esperada porque necessária ao nosso desenvolvimento
(Matos, 2001). E perante um acontecimento inesperado e assustador, a nossa reacção instantânea é fechar os olhos, é não observar o acontecimento. E como a função faz o órgão, se a função é precoce e defensivamente inibida, o órgão não se desenvolve suficientemente. Quando o órgão/aparelho mental não se desenvolve no sentido natural – o da experimentação, observação, captação e registo de dados sensoriais, para serem armazenados, processados e pensados –, então recorre predominantemente à fantasia e à projecção; o conhecimento experiencial é substituído pela crença, pelo mito ou pelo delírio.
Esta regressão do pensamento racional para o mítico é reacção compensatória/necessária, (dada a realidade das circunstâncias originais), que não interessa reprimir ou suprimir. Interessa, sim, desenvolver o aparelho de investigação do paciente, apresentando-lhe uma realidade diferente, melhor, mais saudável; para ele poder reflectir acerca da realidade original, para comparar experiências, para escolher por si próprio e evoluir na relação com o outro.
É claro que no princípio da relação analítica todo o paciente é um investigador pouco experimentado e pouco objectivo da sua vida mental: vê-se pouco como objecto de reflexão de si por si mesmo, faz pouca separação entre o Eu observador e o Eu vivencial, pelo que a sua tendência – em maior ou menor grau, consoante a severidade da patologia – é para confundir a realidade vivida com a imaginada. E tem, por essa razão, uma maior tendência para se confundir a si mesmo (quando ouve mais os seus objectos internos do que se ausculta a si próprio) e para confundir o terapeuta (com esses mesmos objectos internos). Necessita, portanto, de ser esclarecido pelo outro, real, que des-confunde o paciente e se des-confunde desse outro, fantasiado.
1a SESSÃO
Paciente (Ana) – Já fiz terapia no Porto, com um terapeuta assim mais velhote… Imaginava-o a si de cabelos brancos e óculos na ponta do nariz… (…) Logo quando eu nasci houve ali uma rejeição por parte do meu pai, soube disto depois, quando ouvi a minha mãe a falar do meu pai, que ele não queria que a minha mãe me tivesse, uma história assim… Mas cresci muito ligada ao meu pai, era o meu herói, nunca falei com ele sobre isso porque ele sempre foi um bom pai, superou aquela coisa inicial…
Terapeuta – Se é que existiu! Ver para crer, já dizia o São Tomé…
P – Pois é… [pensativa] … sim, de facto, as pessoas falavam dessa rejeição do meu pai, mas eu nem ligava muito!
T – Claro, se gritarem “fogo!”, não nos atiramos logo da janela abaixo! Primeiro confirmamos.
P – Hum… mas eu se calhar atirei-me logo! Nunca tinha pensado nisso… porque sempre acreditei no que ouvi sobre a rejeição do meu pai… sempre acreditei na minha mãe… agora, fiquei a pensar… para mim, a minha mãe era… é… perfeita, até porque trabalhei muito na terapia anterior a relação de “paixão” pelo meu pai, as traições dele, o ele ter-me rejeitado… Entretanto casei-me, vim para o Algarve, tenho uma filha de 3 anos, profissionalmente tenho uma vida estável… mas… tenho andado deprimida, assim mortiça…
T – E como tal também esperava encontrar um terapeuta deprimido, mortiço…
P – Talvez!… O meu marido, o Jorge, é gestor, tem grandes capacidades de liderança… antes tinha muitos ciúmes dele e fazia umas cenas terríveis, mas na terapia anterior percebi que isso tem a ver com o meu pai, que era muito ausente… Mas quando ele chegava a casa trazia-me aquelas prendas todas… é como o meu marido, costuma vir muito cansado, coitado, trabalha imenso e ainda lhe exijo tantas atenções. Portanto, não tenho motivos para andar deprimida, não sei qual é a sua opinião…
T – A minha opinião, para já, é que ouve demasiado as opiniões dos outros; é melhor começar por ouvir a sua.
COMENTÁRIO – A relação analítica estabelece-se, ab initio, como uma relação de investigação de si por si próprio, através dos próprios instrumentos de observação, pensamento e reflexão. A hipótese inicial é que paciente tinha uma identidade própria pouco firme, acreditando mais nas “verdades” transmitidas e reveladas pelos outros (fantasias/mitos) e menos nas verdades adquiridas através da sua experiência pessoal.
Para além disso, neutralizava os estímulos internos como forma de adaptação ao meio externo “mortiço”. O recalcamento da pulsão sexual era acompanhado e suportado também pela denegação que fazia do ambiente relacional pouco estimulante: a relação com a mãe tinha sido afectivamente pouco viva, tal como era agora a relação sexual com o marido.
2a SESSÃO
P – Sonhei que “estava num jardim com amigos, têm um ar sujo e grosseiro, digo para eles se irem embora… estou num edifício onde aparentemente ia haver um espectáculo… havia um grande controlo à entrada, mas há alguém que me ajuda a entrar no espectáculo… alguém que me diz que tenho que chamar o elevador, mas o elevador encrava com uma mulher lá dentro e eu vou pedir ajuda… Depois estou no telhado de um prédio no Porto, de onde fico a olhar para as pessoas cá em baixo, em grande animação, há uma mulher no meio da rua que está numa orgia com vários desconhecidos; que horrível… Estava cansada e fui dormir, e, dentro do sonho, sonho que estou num caixão, mas como sei que estou a dormir e que o meu marido está ali ao lado, espero que ele me acorde, mas acordo aos gritos, em pânico”. Não percebi nada disto!
T – O sonho mostra a realidade da relação sexual com o seu marido: está mortiça, você ainda espera que ele a acorde mas ele não acorda (por isso a Ana sexual está no caixão); no entanto, a sua sexualidade está bem viva (orgia).
P – (pensativa) Sim… a relação sexual com o meu marido é… muito rara, já há muitos anos…
T – Tentou resolver o problema, sozinha, até manda embora esses homens sujos e grosseiros (de quem tem medo, porque só pensam em sexo), e resolve vir ter com alguém/comigo para que eu a ajude a entrar no espectáculo da vida, da sexualidade; alguém que lhe diz que precisa de fazer algo, precisa de subir no elevador, não lhe posso mostrar o espectáculo se você não quiser entrar nele.
P – Pois, tenho estado acomodada estes anos todos…
T – Ainda há o telhado, no fundo vai subindo até ao céu e acaba por morrer acomodada, só a ver os outros, mas sem realizar nada.
COMENTÁRIO – O sonho é uma reconstrução intrapsíquica (de natureza fantasmática) e também uma tradução, porque traduz algo sobre o que se passa na relação intersubjectiva (é uma aproximação/representação da realidade). No entanto, também pode servir uma função defensiva, indicando – tal como no caso da nossa paciente – que a pessoa tem tendência a viver mais no sonho e na fantasia do que propriamente na realidade. A sessão seguinte é disso mesmo paradigmática.
SESSÃO APÓS AS PRIMEIRAS FÉRIAS DE NATAL
P – O meu marido foi ontem de viagem. Hoje sonhei… “Tinha chegado mais cedo para uma sessão, sentei-me na sala de espera e comecei a ouvir através da parede… você estava a falar com uma mulher, e ela estava a acusá-lo de traição; fui para casa, mas depois quis voltar atrás para ver quem é que saia daqui, só que as indicações na estrada estavam erradas e perdi-me”. Acordei muito angustiada. Isto tem a ver com as traições do meu pai à minha mãe, que ela me contava, estou a transferir para si, não é?… (…). Aquela minha amiga vai sair da empresa, fiquei muito irritada com ela, mas isto não tem a ver com ela, já sei que tem a ver consigo, com a sua ausência nas férias, claro…
T – Sim, tem a ver comigo, mas não é como você julga: marido ausente, você sente-se mal-amada, está desconfiada, mas receia falar sobre isso comigo. Acha que eu vou interpretar como o outro terapeuta [a transferência está aqui!]. Mas é a história da sua vida: fica só a ouvir através da parede (através dos outros, e, fundamentalmente, da sua mãe), em vez de ver com os próprios olhos. E perde-se.
COMENTÁRIO – A paciente desvalorizava tanto o seu próprio aparelho de investigação da realidade que, mesmo estando a ser traída, fantasiava que não (negava a realidade); ao mesmo tempo recalcava ou nem sequer tornava conscientes a suas impressões (a sua intuição), e daí o sonho (que é uma recomposição daquilo que ela já “sabia”). Mas era, evidentemente, com a realidade que precisava de se confrontar, para a poder transformar (em vez de a ela se adaptar).
SESSÃO, ALGUMAS SEMANAS DEPOIS
P – Andei estes anos todos a fazer figura de parva, já há um ano que ele andava com uma colega de trabalho (…) há momentos em que penso que ele é, com ela, aquela pessoa que eu queria para mim, sobretudo a nível de afecto (chora), será que a abraça com força, que a beija de forma diferente… eu procurava sempre mais carinho e afecto e achava que ele me dava sempre tão pouco… vivia com esse pouco, mas tinha a noção de que era pouco… o resto era sempre eu gostar dele e a tentar ver se isso despertava nele a mesma coisa. Sinto vontade de desaparecer… porque… no fundo, fui eu que criei esta situação, com as minhas fantasias… (silêncio) …
T – As fantasias não criam nada: a realidade é que quando as pessoas desinvestem, você ainda investe mais!
P – Sim, é verdade, eu investi tanto… eu realmente gostava de gostar dele… mas porque é que eu faço isto?…
T – Porque se engana: “não é que o meu marido esteja a desinvestir, coitado, trabalha tanto; não é que a minha mãe não me ligue muito, está é muito ocupada a falar mal do meu pai”.
P – (entre o choro, solta uma gargalhada ténue). E sempre detestei que falassem mal do meu pai!!… Com as outras pessoas reclamava… mas com a minha mãe, enfim, ela já sofria tanto, sentia-a tão frágil… por isso eu amochava.
T – E com o seu marido também! Ou seja, desculpava-os!
COMENTÁRIO – Como referimos anteriormente, o problema não reside tanto no facto de a paciente rever a mesma fantasia (de ser traída e rejeitada/abandonada) em realidades diferentes (pelo marido, mas “ao mesmo tempo e noutro nível” [Grotstein, 2009], pelos pais), mas sim, e fundamentalmente, no facto de as realidades não serem assim tão diferentes. A mãe prestava-lhe cuidados básicos, mas afectivamente insuficientes e o pai era idolatrado por ela, mas não correspondia com uma esperada e desejada relação de encantamento, paixão e interesse mútuos; depois, “num outro tempo, mas em níveis semelhantes”, o próprio marido não a amava como pessoa nem como mulher. Essa similitude ou consonância psíquica – de base relacional e origem real –, que a paciente captava, registava e ressentia, era recalcada (tal como denegada era a percepção da realidade correspondente), sendo substituída (num plano mais consciente) por fantasias que não eram, afinal, assim tão desajustadas da realidade, muito pelo contrário. A sessão seguinte, bastante tempo depois, representou um ponto de viragem importante no rumo da sua vida e história mentais.
ÚLTIMA SESSÃO ANTES DAS FÉRIAS DE VERÃO
P – (Primeiros minutos em silêncio). Aconteceu uma coisa! Lembra-se do Miguel, do curso de pintura?… Ele veio a minha casa… eu estava com medo, mas deixei-o entrar e… dormimos juntos!
T – Pois, são coisas da vida.
T – (alguns minutos em silêncio) … A sua reacção deixa-me confusa… a minha mãe disse-me “vê lá agora não te vás enrolar com qualquer um, ainda ficas mal falada, uma mulher com uma filha!”… e como o Miguel é assim um homem alto, bonito, um bocado como o meu pai, vinha para aqui a pensar que você também me diria: “Lá está você a querer conquistar o seu pai!”
T – Não, está é a tentar conquistar a sua liberdade!…
P – Também acho que sim… ando a fazer as coisas mais livremente, mas a relação com o meu pai ainda pesa dentro de mim e por isso sinto-me culpada…
T – Culpada ou com medo? Penso que o que lhe ficou do seu pai é que era um homem bonito, mas pouco fiel; então tem medo que o Miguel não seja fiel, tem medo de não o conseguir interessar.
P – … Pois é, estava com medo… mas não era por causa da minha mãe, nem do que o outro terapeuta dizia, já ligo pouco a isso, embora depois me confunda…
T – E a mim com eles…
P – Pois… mas, no fundo, estava era com medo de me envolver com o Miguel, porque ele tem tantas mulheres à volta dele, e eu estava com medo de não estar à altura! …
PRIMEIRA SESSÃO A SEGUIR ÀS FÉRIAS, APÓS FALTAR A PRIMEIRA SEMANA
P – Houve uma festa da minha filha lá na escola e apareceu lá a namorada do Jorge, continuo a não gostar que ela esteja ao pé da minha filha… o Jorge deixa a filha com qualquer pessoa, mas acusa-me a mim de ser negligente… aquilo da namorada dele… eu já tinha visto aquele dia antes de ele acontecer e à mesma aquilo fez-me confusão…
T – Confusão… ou raiva? Contrariou a raiva, que seria natural, e isso é que dá a confusão!
P – Talvez… raiva da minha “rival”, como você lhe chamou… sim, no fundo, ainda lhe tenho raiva. Fui de férias com o Miguel nesta primeira semana de Setembro – por isso faltei – e conheci a família dele… mas acho que não controlei bem as coisas, porque às tantas ele já está a ficar lá em minha casa e a mim faz-me confusão, ver ali uma pessoa na minha casa… ele vive o amor a 100% e eu já não vivo as coisas assim…
T – Já não vive, ou ainda não vive?
P – Não sei se é por ter saído de um casamento, se é por ser com o Miguel…
T – Penso que não. O que penso é que ainda não se desligou, não esqueceu completamente o Jorge, por isso ainda não tem 100% de disponibilidade para o Miguel.
P – Pois será… não sei, mas olho para o Jorge e não sinto… isto é no meu consciente, não sei se para além disso haverá…
T – Ah, por isso lhe faz confusão ver lá em casa outro homem, pois, conscientemente está desligada do Jorge, mas insconcientemente não está! Por isso, ficou perturbada ao ver a namorada dele.
P – Mas não me sinto atraída por aquele homem, pelo contrário, ele continua a ser uma desilusão.
T – Porque ainda pensa na ilusão; não resolveu o problema ainda.
P – Ah, com o Jorge a culpar-me, acabei por sonhar que estava numa cidade, a correr, aflita porque tinha deixado a minha filha com alguém mas não sabia com quem, as pessoas na rua perguntavam-me o que se passava e eu só dizia que tinha mandado a miúda e não sabia com quem… eu dizia ao telemóvel: “deixem-se estar aí que eu vou já buscá-la”, mas eu não conseguia chegar ao sítio, sentia-me muito culpada porque a tinha deixado… (começa a chorar), a ansiedade é como eu tinha abandonado a miúda…
COMENTÁRIO – A hipótese mais clássica de interpretação deste sonho (e em concordância com a perspectiva clássica da transferência) seria a relacionar o sentimento de desamparo/abandono que aparece no sonho com a ausência do terapeuta durante as férias. Mas, para isso, teríamos que ter como válidos os seguintes pressupostos: (A) – Que a paciente se sentiu desamparada durante as férias e (B) – que esse desamparo resulta fundamentalmente da ausência do terapeuta. Isso é possível e, até certo ponto, natural, dado que a relação terapêutica é realmente – sempre que e enquanto necessário – também uma relação de amparo4; e interpretar nesse sentido seria realçar o óbvio, o que, não causando danos (a menos que fosse falso), não produziria muito trabalho mental.
No entanto, sendo possível, é difícil de sustentar objectivamente, pois o amparo psicológico (único pelo qual o terapeuta se responsabiliza durante o processo terapêutico), quando é suficientemente consolidado (o que demora muito tempo), não desaparece durante a ausência física do terapeuta. Não sendo, por muitas razões, o amparo terapêutico suficientemente bem estabelecido pelo terapeuta (e/ou suficientemente vivido pelo paciente), então permanece o desamparo original (relacionado com os objectos primevos e não com o terapeuta). Assim, aludir ao segundo
Não é desprimor ver a relação analítica como uma relação de amparo. É uma relação de amparo e de análise do desamparo originalmente sentido. O que distingue a verdadeira relação de amparo das outras (que não o são) é que o amparo analítico não prende o sujeito ao objecto (isso não é amparo, é prisão e dependência), mas liberta-o do(s) primevo(s) objecto(s) de amparo/desamparo; porque cria condições para o sujeito passar da necessidade de amparo à criação de novas formas de relação, nas quais o amparo de si mesmo surge como pré-condição para a realização de desejos individuais e projectos relacionais – “andar ao colo” (dependência) só serve quando e enquanto não se pode “andar a pé” (autonomia) ou se tem medo de “correr”(em liberdade).
desamparo, mas sem uma base lógica e objectiva para poder reenviar para o desamparo original, nada mais é do que o terapeuta atribuir-se a si próprio uma importância que não tem na vida mental do paciente. E, de certa forma, “inventar” um desamparo – por falta do terapeuta – quando a verdadeira causa do desamparo – falta dos pais – permanece intocada e inconsciente.
Sem (A) nem (B), interpretar (C) – que a paciente confunde o desamparo provocado pelos pais com o desamparo provocado pelo terapeuta – nada mais faria do que desviar a paciente do que estava a acontecer e para acontecer na sua vida mental: um recuo perante a actual relação amorosa e, também, no próprio “trabalho de luto” da antiga relação amorosa (dificuldade em investir um novo objecto por insuficiente desprendimento do antigo, mas também pela existência de dúvidas legítimas e naturais acerca desse novo objecto). É claro que em qualquer investigação há sempre mais do que uma hipótese interpretativa para o fenómeno que se observa – não se trata, portanto, de restringir o problema a uma única explicação, mas pensamos que é a melhor hipótese (a mais lógica) que determina o progresso da investigação, e, por isso mesmo, a evolução terapêutica.
(continuação da sessão)
T – O que o sonho mostra é que parece que está com medo que o Miguel não trate bem da sua filha, eventualmente terá que a deixar com ele; como não é o pai, interroga-se se ele a vai tratar bem.
P – Sim, no fundo penso nisso… e talvez por isso já andasse a ser um bocado agressiva com o Miguel, a rejeitá-lo um bocado… na verdade a minha raiva era com o Jorge, ando novamente a acreditar naquilo de que ele me acusa, a sentir-me uma mãe negligente…
NUMA SESSÃO POSTERIOR
P – Você cobrou-me as sessões a que faltei na primeira semana de Setembro…
T – É o preço da liberdade!… E está no nosso contrato.
P – Pois, eu já estava habituada a pagar as sessões a que faltava com o outro terapeuta, mas não queria que pensasse que faltei – como ele me dizia – por retaliação da sua ausência durante as férias de Verão…
T – Não, o que se passa é que na relação comigo foi ficando mais livre e por isso ficou mais à vontade para faltar e mais descomprometida para ir viver a sua vida!… Só mostra que não ficou com sentimentos de dever, isso é que seria patológico!
P – Pois, fui à vontade, faltei porque percebi que devia aproveitar aqueles dias para conhecer melhor o Miguel…
COMENTÁRIO – Apesar de raramente ser referido nos trabalhos teórico-clínicos, o pagamento é um dos fundamentos do tratamento analítico que é fundamentado: o paciente paga a alguém que o acompanha, não para o prender (dependência), mas para o libertar (autonomia). O paciente paga a sua própria conquista de liberdade e autonomia; e, com essa finalidade terapêutica, paga a criação e manutenção de um dos requisitos básicos para o desenvolvimento da autonomia: a constância do terapeuta, que é um objecto (externo e progressivamente internalizado) total e pós-ambivalente.
Objecto total porque não é apenas uma “parte de pessoa” (não é um objecto parcial) ou uma “função sob a forma de pessoa”; é, pelo contrário, uma pessoa com uma função. Parece-nos uma distinção importante: a função analítica existe e é realmente exercida pelo terapeuta na relação com e na presença do paciente (no espaço intersubjectivo da relação analítica); mas também existe e é exercitada no interior do terapeuta (no seu espaço intrapsíquico) na ausência do paciente (quando o terapeuta pensa no paciente na ausência deste). O paciente não paga a uma função; paga a uma pessoa que está presente, que tem uma função, uma função que, para além de estar presente, é exercida na presença, mas também exercitada na sua ausência do paciente.
Objecto pós-ambivalente porque não é univalente (sempre bom/certo ou sempre mau/errado) nem mítico (não é nem deus nem diabo); nem ambivalente (não é sempre bom…), mas sobretudo pós-ambivalente (… não é sempre bom, mas é tendencial e predominantemente bom).
SESSÃO DO 3.° ANO DE TERAPIA
P – Hoje não me apetecia vir, acordei com o rabo destapado, tenho dias assim… mas depois chegou à hora de vir e vim… sabe, ao princípio não percebia – e ainda não percebo completamente – a influência desta relação na minha vida. Para mim, você está sempre aí, sentado, como se não tivesse uma existência real. Por exemplo, corro o Algarve e nunca o encontrei… (silêncio).
T – É natural, também não anda à procura, sabe onde estou!
P – Sim, era isso que ia dizer… porque ao mesmo tempo esta relação acompanha-me lá fora… saio daqui desamparada, agora menos, porque falo consigo fora daqui, como se fizesse parte de mim, não sei explicar.
Também não sei como gosto, hoje, mais de mim própria… penso que o seu interesse transformou-se em interesse – e gosto – de mim por mim própria, ao gostar de cá vir… não sei, as coisas vão para aí e voltam para mim, não sei explicar…
COMENTÁRIO – O benefício terapêutico: embora em uníssono, observamos aqui dois fenómenos diferentes, com origens diferentes – a pessoa gosta de si ao ser gostada pelo outro; também gosta de si ao gostar do outro; embora a primeira condição pareça ser uma condição sine qua non para que a segunda se verifique. De facto, é muito fácil, natural – e lógico (é lógica das relações e dos afectos: simétrica) – que eu (A) goste de mim ao gostar do outro que gosta de mim; o que é difícil (e não natural) é que eu (B) goste de mim ao gostar do outro que não gosta de mim (é ilógico e, também por isso, patológico). Esta mudança de paradigma afectivo (de B para A) é uma das causas do fortalecimento narcísico que ocorre naturalmente durante o processo terapêutico.
(continuação da sessão)
P – Eu percebo que você se põe no meu lugar [É a Função/Resposta Empática do Terapeuta], mas parece que preciso também que se ponha no lugar da outra pessoa [É a Função/Resposta Complementar], no lugar de quem – vou percebendo – nunca esteve lá: para olhar para mim… ou por mim, sei lá!
T – Sim, que eu perceba que ainda hoje se sente desprotegida, não sabe puxar a roupa e acorda destapada; não se sentiu suficientemente protegida pela sua mãe, e ainda precisa de ser protegida enquanto aprende a proteger-se.
COMENTÁRIO – A transferência e a função real do terapeuta: aquilo que surge nesta sessão não é, na nossa opinião, um movimento transferencial (transferência da pulsão) ou regressivo (regressão a um padrão relacional infantil em face de condições do presente que ultrapassam a capacidade adaptativa do Eu), mas apenas e só uma necessidade desenvolvimental suspensa (no sentido que lhe dá Matos, 2001), porque não suficientemente satisfeita.
Ou seja, o que parece haver é uma ligação lógica, embora implícita – que é explicitada na interpretação –, entre o sentimento de desamparo/desprotecção (“acordo destapada, não me sei tapar”), a necessidade de protecção (“preciso que me tapem, aconcheguem, etc.”), a
dúvida sobre a capacidade do objecto para perceber e aceitar isso (“hoje não me apetecia vir”), em súmula, para estar atento àquilo que a paciente ainda não consegue fazer sozinha.
A questão da transferência merece um comentário adicional. A transferência é a forma como o paciente revive (na relação actual com o terapeuta) o que já viveu, mas que entretanto esqueceu, porque recalcou ou denegou; mas recalcou e denegou as partes (os acontecimentos) da sua história infantil em que, fundamentalmente:
(A) Não sentiu que o seu amor (ou a sua agressão) tivesse sido aceite ou aceitável pelos objectos parentais (é a vertente objectal: amar/odiar). O que está em causa aqui é a pulsão – libidinal e/ou agressiva – que, sendo recalcada, pode ser transferida: “Desejo (ou agrido) o terapeuta porque este representa, transferencialmente, por deslocamento da pulsão oriunda do Id (ou por projecção da proibição oriunda do supereu) o objecto proibido (ou proibidor)”.
(B) Não sentiu que tivesse sido amado (ou em que sentiu que foi agredido) pelos objectos parentais (é a vertente narcísica: ser amado/odiado). O que está em jogo aqui é a percepção – da realidade decepcionante ou agressiva – que, sendo renegada, também pode ser reafirmada: “Sou amado (ou agredido) pelo terapeuta como não fui amado (ou como fui agredido) pelo objecto decepcionante (ou agressor)”.
Portanto, o que o que está em causa na transferência é sempre o amor ou agressão proibidos – ou seja, é o amor sexual (por oposição ao amor terno) e a agressão real (por oposição à agressão simbólica) dirigidas aos objectos parentais; porque no extremo teríamos o incesto, o matricídio/parricídio e o filicídio – ou seja, a involução e, potencialmente, o fim da espécie humana. Portanto, aquilo que é estritamente proibido, recalcado e potencialmente transferido é o amor sexual (e o ódio destrutivo), e não a necessidade – tal como a necessidade básica de amar e ser amado, e, também, a necessidade humana básica de reconhecimento (Todorov, 2002)5.
A diferença entre desejo e necessidade, ainda que subtil, é que o desejo recalcado fica registado no “inconsciente recalcado” e, por via do seu dinamismo, pode ser transferido de objecto para objecto – corresponde à noção de transferência daquilo que, uma vez consciente, foi tornado
A que se acrescenta, ainda, a necessidade básica de afirmação identitária – a capacidade de dizer “não” ao objecto –, de competição com os rivais e de retaliação justa e justificada perante a acção injusta do objecto (o que implica, naturalmente, um recrutamento da agressividade instrumental).
inconsciente. Enquanto que a necessidade insuficientemente entendida, atendida e realizada não é propriamente consciente nem é formalmente recalcada, permanece apenas como expectativa implícita, suspensa no inconsciente implícito (Stern, 2006). Permanece simplesmente não satisfeita (sob a forma de esperança de satisfação) e/ou frustrada (quando existe uma promessa/projecto adiado, a esperança alterna com a desesperança).
Se existem duas qualidades de funcionamento inconsciente – recalcado e implícito – e a noção de transferência deriva da noção de recalcado (Freud, 1912), então o termo transferência aplica-se ao que está recalcado (o desejo), e não ao que não está recalcado (a necessidade).
Por exemplo: “se fui injuriado pela professora primária, mas não me defendi e recalquei o meu impulso agressivo, posso transferi-lo para um professor universitário no qual projecto a imagem da primeira professora (é um deslocamento, tal como acontece com a transferência na situação terapêutica); se a professora primária não me ensinou a ler, eu não recalco o facto de não saber ler, simplesmente não sei ler, muito embora espere aprender um dia”.
Aquilo que quase sempre surge na esperança implícita do paciente é a necessidade de amor terno (o carinho, o embalo, a protecção e a segurança), mas não só; também e sobretudo a necessidade de amor-conhecimento de si por si mesmo, mas, fundamentalmente, de si pelo outro: é a necessidade de reconhecimento6 por parte do objecto; que encontra resposta no desejo e na acção do objecto de conhecer o sujeito; e que se realiza quando o sujeito se vê reconhecido/identificado nas suas verdadeiras características e vê confirmado o valor que essas mesmas características têm para o objecto. É o oposto do elogio gratuito, desajustado e irrealista (isso é uma armadilha perversa e um erro técnico grave); e, na técnica, é diametralmente oposta à “experiência emocional correctiva”, de Franz Alexander (1950), pois nada tem a ver com o terapeuta ser para o paciente “o oposto” do que os pais foram (o terapeuta é ele próprio, independentemente de terceiros).
Portanto, a transferência é sempre a transferência do desejo (Id) e/ou do medo (Supereu), que engana o paciente – e, por vezes, o próprio terapeuta (pois o desejo proibido recobre e esconde a necessidade insatisfeita) –,
Reconhecimento enquanto operação mental de nomeação/atribuição de um nome ou identidade específicos, através identificação objectiva das características únicas, idiossincráticas ou definitórias de algo ou alguém.
entrava a expansão e crescimento do Eu (dependente, em primeira instância, da satisfação de necessidades psicológicas básicas, e só posteriormente da realização de desejos) e perturba a evolução do próprio processo analítico.
Existe, portanto, uma diferença crucial entre o terapeuta transferencialmente associado à realização de desejos (inconscientes porque proibidos) e o terapeuta realisticamente associado à satisfação de necessidades psicológicas básicas (implícitas, suspensas, porque nunca en/atendidas). É, pois, toda a diferença entre o luxo (desejo) e o básico (necessidade) e, bem vistas as coisas, a relação analítica não é uma relação de luxo, mas sim uma relação de necessidade. Só por perversão – psicológica, social, cultural – se pode considerar a saúde mental um luxo e não um bem de primeira necessidade, uma base do desenvolvimento psicológico, social e cultural.
Neste sentido, a função real do terapeuta não é a de ser um objecto de transferência da pulsão (isso é ilógico, irrealista e irrealizável, e, por isso mesmo, transferencial na verdadeira acepção da palavra), mas sim a de ser um objecto realmente complementar de desenvolvimento do sujeito, o que não é só lógico, como constitui uma realidade inescapável: não há desenvolvimento psicológico, nem evolução terapêutica, sem real e genuína relação complementar (relação continente/conteúdo, na linguagem de Bion).
Assim sendo, a manifestação – quase sempre implícita – de uma expectativa de cumprimento dessa função real por parte do terapeuta não é uma manifestação transferencial, pois não há propriamente, naquilo que o paciente manifesta, um impulso recalcado ou uma repetição/revivência de algo que aconteceu; há sim uma expectativa de realização do não realizado, de que aconteça algo que não aconteceu. Em resumo: a transferência é uma relação fantasmática (ou uma forma de expressão simbólica) que nos mostra (quando mostra) o problema real; o principal não é alterar o fantasma, mas sim resolver o problema real. Porque o fantasma desvanece, perde peso, importância ou razão de existir e as expressões simbólicas alteram-se naturalmente quando os problemas reais começam a ser resolvidos.
(Continuação)
P – Parece que sozinha não consigo fazer isso, proteger-me, defender-me…
T – Não consegue ainda!…
P – (silêncio) … Pois, antes, eu interpretava isso como se me dissesse “não pense que vai ficar aqui para sempre!” – como a minha mãe me dizia ou me fazia sentir, quando me pegava ao colo, quando eu já não teria idade para isso –, mas agora interpreto [Interpretação Revolucionária]… sinto simplesmente que você confia em mim. E eu no meu futuro.
COMENTÁRIO FINAL – O essencial da relação analítica: parece que o essencial da relação de análise – e estará aqui, quiçá, o seu carácter de excepcionalidade – é, fundamentalmente, o facto de ser uma relação de síntese, de construção, na qual o paciente, para além de ou mais do que analisar o passado, sintetiza/constrói alicerces básicos e necessários para a projecção do seu futuro relacional, que perduram para além da relação analítica.
Que alicerces serão esses que o paciente constrói na relação analítica? Constrói sobretudo a capacidade de fazer perguntas (torna-se ele próprio um investigador), a capacidade de obter ele mesmo as suas próprias respostas e, por último mas não menos importante, a capacidade de obter melhores respostas por parte dos outros, a começar ali, na relação analítica – e é precisamente por isso que é ali, na relação analítica, que o paciente começa a mudar a sua vida mental e a redireccionar o seu futuro relacional. E que respostas serão essas que o paciente obtém? Serão certamente várias, mas optamos por destacar três:
De si mesmo, obtém a resposta que resulta do que poderíamos chamar uma interpretação revolucionária, que é a interpretação que o paciente faz da interpretação do terapeuta e que altera o rumo da sua história mental (tal como o “25 de Abril” alterou o rumo da história em Portugal).
Do terapeuta obtém, fundamentalmente, dois tipos de respostas:
A resposta empática, aquela que “empata”/sintoniza (é o attunement, de Stern, 1985) o terapeuta com o seu paciente (permite saber “onde o paciente está”), por isso constitui o principal instrumento de compreensão e diagnóstico. É uma resposta que reflecte e resulta do conhecer relacional implícito (Stern, 2006) do terapeuta acerca do seu paciente; e é, também a resposta que permite ao paciente reconhecer-se (responde à necessidade de reconhecimento): “reconheço-me naquele que interpreta quem eu sou e assim percebo que não estou sozinho, porque há alguém que se põe no meu lugar e que assim me compreende”.
A resposta complementar, aquela que “desempata”/muda o estado mental e a posição desenvolvimental do paciente (depois de saber “onde o paciente está”, permite “ir ao seu encontro” para o fazer avançar), por
isso constitui o instrumento de intervenção e tratamento. É uma resposta que transcorre na experiência vivencial implícita de encontro do terapeuta com o seu paciente (Stern, 2006) e que, a partir daí, re-coloca o terapeuta, não no lugar do paciente, mas no lugar do objecto afectivo complementar, progressivamente ajustado e afinado com as necessidades psicológicas desenvolvimentais do paciente. Porque não basta não estar sozinho, é preciso estar bem acompanhado – nas palavras da paciente: “não preciso só que o meu terapeuta se ponha no meu lugar, preciso que se ponha também no seu próprio lugar…”. E, acrescentamos nós: “… que forme comigo o complemento que precisei e preciso para me desenvolver”. De facto, posso jogar sozinho imaginando adversários, mas sem um parceiro real, dificilmente me torno um jogador a sério; posso compreender que estive mal acompanhado no passado, mas se não tiver hoje um parceiro que me compreenda e que me complemente (que me acompanhe), dificilmente estarei bem acompanhado no futuro.
Muito obrigado pela vossa atenção e – sobretudo – companhia.
ABSTRACT: In this conference, the author develops three essential principles underlying the analytic relationship: 1) the analytic relationship is an investigation; 2) it investigates the reality and the ways to transform it; 3) and that it is only by transforming present reality that we can project and construct a different and better future reality. The defence of these three principles can have important implications in the way that the therapist approaches the treatment; the author presents a clinical example in which he favours the patient's perspective about what is the analytic relationship and how it is built, and questions also if that relationship is – and if it is, why – an exceptional relationship in the patient's life.
KEYWORDS: Analytical relationship; Investigation; Reality; Future.