Trabalho apresentado no Fórum de “Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica”, organizado pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise, em Fevereiro de 2015.
Psiquiatra, Psicanalista, Membro didata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise/IPA. E-mail: orlando_fialho@hotmail.com
A distinção entre psicanálise e psicoterapia psicanalítica, não é um problema actual, em vários momentos da sua obra, Freud utiliza o termo “psicoterapia psicanalítica”, para designar o que se nomeia hoje de psicanálise. Por exemplo, refere Freud (1953) em “A técnica psicanalítica”: “Eu posso dizer que o método analítico de psicoterapia é o mais profundo, o que tem maior impacto e aquele pelo qual os doentes podem melhor ser transformados”.
Como recorda Roussillon (2008), “Nos escritos técnicos de Freud a psicanálise é também uma psicoterapêutica, mesmo se ela não é apenas isso”.
Esta temática é de tal forma importante que Daniel Widlocher, em 2006 organizou uma investigação sobre as práticas psicoterapêuticas. Seleccionou catorze psicanalistas de formações diferentes e questionou-os acerca das suas práticas psicoterapêuticas em função do modelo da cura tipo. Sobre esta base, organizou em 2008 um debate em que as conclusões constam de um livro intitulado “Psicanálise e psicoterapia”.
Jean Laplanche (2008), um dos psicanalistas que participaram no debate concluiu que:
“A psicanálise e psicoterapia não são domínios separados mas que em toda a psicanálise há necessariamente análise e psicoterapia”.
No mesmo livro, Perron, R. (2008), coloca a seguinte questão: “Será legítimo estabelecer uma distinção entre psicanálise (cura psicanalítica propriamente dita) e psicoterapias psicanalíticas?”
A sua resposta é a seguinte: “mas isso é a mesma coisa”.
O XII Simpósio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, intitulado “Psicanálise/Psicoterapias”, realizou-se em 1998. Neste simpósio, fui convidado a comentar um trabalho do Prof. Pedro Luzes.
Em determinado momento, nesse trabalho refiro: “É muito difícil dizer quando é que um analista deixa de fazer análise para fazer psicoterapia ou se quisermos quando é que um analista deixa de ser analista para ser psicoterapeuta.”
Actualmente, mantenho a mesma opinião e quero sublinhar a ideia de que o psicanalista será sempre “O Psicanalista” independentemente do ‘setting’ em que está a operar.
Anzieu (1991), defendeu que: “Não existe apenas uma teoria psicanalítica, da mesma forma que não existe uma teoria unitária em física moderna. Há teorias psicanalíticas, cada uma mais adaptada a um determinado tipo de doente, ou de analisando, ou mesmo de analista ou a determinado momento da cura. O funcionamento psíquico, é duma variedade, duma riqueza (e por vezes duma pobreza) que desafia toda a classificação e toda a explicação estrutural sistematizada”.
Refere ainda Anzieu (1991), “Cada psicanalista, de acordo com a sua personalidade, o seu estilo, a sua experiência, o seu analisando, apoia-se sob partes de teorias psicanalíticas mais ou menos diversas, que lhe servem de apoio, de protecção e podemos dizer, de garante simbólico para o seu trabalho psíquico de compreensão e para o seu trabalho psicanalítico de interpretação. A ortodoxia psicanalítica reside e subsiste apenas na técnica”.
Green (2010), em “Ilusões e desilusões do trabalho Psicanalítico”, faz referência aos princípios metodológicos da psicanálise e das psicoterapias referindo que constatou que um trabalho analítico clássico em muitos casos tem de ser abandonado, para se introduzir um tratamento em face a face. Para o autor, a diferença fundamental entre a psicanálise e as psicoterapias está relacionado com a utilização do divã. No divã tratar-se- ia de uma psicanálise, em face a face, de uma psicoterapia.
Sublinha ainda que é importante constatar que em nenhum caso, a diferença entre as duas técnicas, não teria que ver com o número de sessões semanais.
Diatkine e Simon (1972) escreveram um livro intitulado “A psicanálise precoce”, no qual apresentam o tratamento de Carine, uma criança pré-psicótica de três anos e meio, em que mostram que o processo analítico se instalou, apesar da frequência das sessões ser apenas de uma vez por semana.
Aquilo que caracteriza a profundidade de um processo analítico, não será tanto a quantidade de sessões semanais, mas a qualidade analisante do paciente e a qualidade analítica do terapeuta. Penso que o caso de Carine ilustra este aspecto. É a qualidade da díada que permite uma experiência vivida, transformadora dos processos repetitivos que o paciente viveu até então. Como refere Resnik (1999) “É a qualidade da díade que permite ao Eu infantil do paciente viver as suas peripécias lúdicas”.
Objectivando o conceito de Psicoterapia psicanalítica, Gabbard (2010), define a psicoterapia psicanalítica como: “Uma terapia que implica uma atenção particular à interacção entre o paciente e o terapeuta, com uma interpretação no tempo adequado das resistências e da transferência, fundada sobre a apreciação fina da contribuição do terapeuta para a relação dual com o paciente”.
Eu pergunto-me qual é a diferença entre esta definição de psicoterapia e a psicanálise?
Laplance e Pontalis (1968), referem-se à psicoterapia analítica como: “Uma forma de psicoterapia, que se apoia sobre os princípios teóricos e técnicos da psicanálise, sem no entanto, realizar as condições de uma cura psicanalítica rigorosa”.
Como se para Laplanche e Pontalis (1968), a psicoterapia analítica fosse uma psicanálise de segunda categoria. O que me leva a citar Freud de 1918/19, quando se refere “à mistura de uma quantidade significativa de cobre ao ouro puro da psicanálise, para criar (uma psicoterapia popular) a fim de tratar uma parte importante da imensa miséria neurótica sobre a terra”.
Frisch (2002), no Dicionário Internacional da Psicanálise, refere que a noção de “conflito” central em psicanálise é introduzida no movimento psicanalítico sobre o seu futuro e identidade: isto quer dizer, que pode evoluir para o isolamento, para manter a sua pureza (psicanálise), ou adaptar-se às mudanças sociais para sobreviver (psicoterapia psicanalítica), com o risco de perder a sua alma.
Para finalizar, quero concluir que organizar um Curso de Psicoterapia Psicanalítica, no Instituto de Psicanálise, pode ser o equivalente a destruir a alma da psicanálise.
Defendo tal como Green (2006), sublinhando as ideias de Bion que todo o psicanalista deverá ser um psicanalista quando está com um doente. A posição da Associação Psicanalítica de França, vai precisamente no mesmo sentido. No seu Instituto de formação, a Associação propõem-se formar psicanalistas.
Não se trata de recusar a existência de práticas psicoterapêuticas dos analistas, mas pelo contrário, de afirmar que só a formação do psicanalista pode permitir a prática da psicoterapia de inspiração psicanalítica.
No nosso Instituto devido à grande procura de casos com impossibilidade de fazerem uma cura tipo e com indicação analítica, críamos em Setembro de 2013, o Gabinete de Psicoterapia Psicanalítica.