Privar com Roosevelt Cassorla é um privilégio e uma inspiração. Combinando tranquilidade com desassossego, o seu pensamento olha a psicanálise a partir do prisma da intersubjetividade e da tolerância à dor mental. Acompanhar o curso das suas reflexões baseadas numa vasta e rica experiência, faz-nos perceber que estamos na presença de um senhor da psicanálise contemporânea.
O contacto com a obra de Cassorla deve-se ao interesse que desenvolvi em torno dos fenómenos contratransferenciais presentes no campo analítico em geral e do enactment em particular. Tema atual e controverso, o enactment interroga tanto a psicanálise como o psicanalista do ponto de vista conceptual, mas também clínico e até ético. Estabelecendo uma ligação por excelência entre a teoria e a prática, é um assunto que, embora possa ser considerado residual ou periférico, acredito que seja nuclear e transversal a toda a formação dos psicanalistas.
A contratransferência, tema incontornável da psicanálise contemporânea, do ponto de vista conceptual configura a importância da comunicação inconsciente no encontro analítico, ao mesmo tempo que coloca o psicanalista perante si próprio, desafiando-o a repensar a sua ética e a sua técnica. À semelhança do atual paradigma das ciências, através do qual o conhecimento é visto como uma construção a partir da relação entre sujeito e objeto epistémicos, os autores da psicanálise contemporânea tendem a considerar a dinâmica transferencial-contratransferencial como o resultado de uma interação entre o inconsciente do analista e o inconsciente do analisando. Assim, o psicanalista é tido como parte integrante do processo, que resulta na criação de um campo (Baranger, 1962), de um espaço potencial (Winnicott, 1967), ou de um terceiro analítico (Ogden, 1994). Apesar da parte mais importante da contratransferência ser inconsciente, o reconhecimento a partir dos seus derivados conscientes permite ao psicanalista fazer uso dos efeitos contratransferenciais em si despertados, tornando-a um instrumento fundamental ao serviço do método analítico.
Por vezes, a opacidade contratransferencial pode levar a que o analista atue, fazendo emergir para o plano da realidade um conflito inconsciente até então inodoro, inaudível, invisível e ininteligível. Num convite a visualizar, na feliz expressão anglo-saxónica, the big picture, o enactment, tantas vezes tido como o parente pobre do constructo metapsicológico, obriga a uma revisão do próprio quadro. Vivido como impasse ou problema, por vezes será pela mão deste e através da encenação dramática dos objetos internos em relação, que se abrem janelas de oportunidade em termos do acesso a pontos cegos do mundo interno e à sua potencial transformação como, aliás, os conceitos de enactment crónico e agudo desenvolvidos pelo autor vêm esclarecer e sistematizar.
Ganha aqui particular relevo a recomendação de Freud no sentido de que a análise seja interminável (Freud, 1937) uma vez que, para o analista, este contacto permanente com o seu próprio inconsciente e seus fantasmas, conflitos e representações, é tido não só enquanto reflexo, mas também como fonte geradora de intencionalidades, de combinações e de transformações. Ou, como defende Green (1983), para acentuar que a importância da contratransferência na prática clínica é incontestável, por vezes andando lado a lado com a transferência e, por outras,
Artigo recebido e aceite para publicação em Setembro de 2016.
Psicanalista; Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). E-mail:
interagindo de tal forma que não se sabe qual vem antes e qual vem depois.
Mas se a contratransferência é o instrumento mais pessoal da psicanálise contemporânea, o enactment expõe inexoravelmente o analista interrogando a sua capacidade negativa, a sua autoanálise e a sua ética pessoal. Embaraçoso mas fértil, o enactment é o elemento agridoce do caldo analítico, mas o seu manejo depende fortemente da capacidade de o trabalhar, numa espécie de trama inconsciente, palco de identificações e de encenações que, como numa dimensão onírica (conceito de área de sonho elaborado por Cassorla), precisam ser decifradas.
Porquê o interesse por este tema? Enquanto psicanalista, motiva-me, de forma muito particular, pensar a prática clínica a partir da relação: investigar a teoria com base na experiência emocional; identificar invariantes no quadro da singularidade e da subjetividade; procurar na falha a dúvida e transformar ambas em fonte de conhecimento; construir, a partir do encontro entre dois sujeitos, um objeto estético; estabelecer pontes para uma ética relacional.
Numa perspetiva histórica da psicanálise, compreendemos que o interesse por este fenómeno só se tenha verdadeiramente desenvolvido à luz do paradigma contemporâneo através do qual o conhecimento é tido como uma construção em que a relação entre sujeito e objeto epistémicos é, em si mesma, matéria e fonte de investigação. A psicanálise nasce como um modelo de compreensão do subjetivo e cresce através da riqueza que reside na intersubjetividade da sua praxis.
Na sua metapsicologia, Freud começa por admitir a existência de uma dimensão emocional inconsciente organizadora do psiquismo. Mas a própria preocupação em justificar o estatuto de cientificidade da sua teoria, limita a investigação psicanalítica sobre os fenómenos contratransferenciais que parecem comprometer a validação cartesiana de hipóteses conceptuais e clínicas.
Porém, a par dos modelos da ciência vigente, Freud encontrou inspiração nas disciplinas humanísticas. Argumentando a favor da universalidade do seu modelo, Freud encontra na mitologia clássica o recurso metafórico para ilustrar inúmeras das suas premissas. Assim, haverá um discurso latente radicado num processo primário que subjaz à história de cada um e de todos nós, que organiza, através do mito, as angústias universais da condição humana. Conflitual, em permanente busca de sentido, é fácil associar uma dimensão cénica e dramática ao fenómeno psíquico.
O enactment pressupõe uma ação mas ocorre no quadro de uma relação particular e condensa diferentes níveis de significação. Durante muito tempo, caiu sobre si a suspeita da falha técnica e/ou ética e o estigma da passagem ao ato tida como expressão menor da organização mental narcísico-identitária, sinónimo da incapacidade de simbolizar.
Mas, apesar da sua forma agida, alguns investigadores – entre os quais se destaca Cassorla – olharam para este fenómeno através de um outro ângulo, podendo observar nestes episódios um valor de comunicação inconsciente do par analítico que encerra em si mesmo potencial de significação e de transformação.
Os desenvolvimentos nas teorias de relação de objeto e a compreensão de uma dimensão não patológica na identificação projetiva sustentam em grande medida a assunção deste fenómeno como indicador de conhecimento clínico e como recurso terapêutico importante.
Bion descreve o trabalho analítico como catastrófico e atemporal (Bion, 1977), na sua flutuação entre integração e dispersão. Nesta lógica, o acontecimento transferencial é a prova da análise: não é possível esquecê-lo pois ele é portador do incognoscível, ou seja, sem futuro. A postura psicanalítica sem memória, sem desejo, sem compreensão (Bion, 1970) cria o estado mental de abertura para que a intuição funcione como atractor, para além do campo saturado das experiências, das expetativas e dos conhecimentos prévios.
Denis (1996) refere-se à transferência como instrumento que possibilita o acesso a esta dimensão. O processo analítico talvez consista em caminhar na direção do tempo para conquistá-lo, torná-lo vivo e real, expandindo-o até ao passado e ao futuro, para, enfim, começarmos a inscrever o presente no ciclo da vida. Nesse movimento, a repetição torna explícita a procura do sentido de si na presença do outro. Nesta medida, transferência e contratransferência poderão ser entendidas à luz da repetição incessante do passado ou, numa expansão deste modelo, como a possibilidade plástica de ser moldada uma outra relação.
Por outro lado, o conhecimento sobre o inconsciente, que deriva da manifestação dos seus efeitos paralelos e aos quais se acede de forma indireta, consolida o reconhecimento da importância dos instrumentos psicanalíticos. É assim que, neste quadro, contratransferência e enactment, percebidos originalmente
enquanto erros ou falhas do processo, podem agora ganhar nova leitura e valor heurístico.
Segundo Winnicott (1968) o paciente pode induzir o analista a falhar, mas é precisamente pela possibilidade de regressão expressa no pedido de ajuda que as falhas ambientais podem ser recuperadas. No curso da análise, revisitam-se experiências não-verbais precoces fazendo com que o trauma original irrompa para ser vivido num ambiente de confiança, e é nessa medida que se percebe como a falha do analista reproduz as vivências traumáticas. Segundo este autor, o reconhecimento por parte do analista da sua contratransferência leva-o a entender o ponto de vista daquele paciente, e este, no reencontro com o seu ponto de vista, recupera o seu verdadeiro self. A intersubjetividade, compreendida como um terceiro sujeito intersubjetivo (Ogden, 1994), mais do que uma relação entre dois sujeitos, constitui-se enquanto um novo sujeito.
Em qualquer dos casos, podemos concordar que a situação analítica cria um espaço através do qual existem experiências que convocam o analista a encenar um papel que, muitas vezes, podendo achar-se refém de um passado, pode também vir a projetar-se no futuro e, nesse sentido, o seu percurso existencial permanece em aberto, conjugando todas as temporalidades.
Do caos aparente em que, pela ausência de tempo, se desorganizam as relações de contiguidade e onde os fenómenos de clivagem, projeção, deslocamento e de condensação, por exemplo, utilizam um critério de inclusão de classes de forma desordenada, a virtude do método psicanalítico é dar sentido. Este sentido decorre da construção de representações a partir da integração do afeto na história de vida do sujeito. A capacidade simbólica, o processo de fantasmatização, são atributos determinantes no desenvolvimento do psiquismo. À angústia perante a noção de arbitrariedade e de aleatoriedade, contrapõe-se a responsabilidade e a liberdade de se saber em abertura à reconstrução. Esta permanece a base da esperança. Essa será também a grande riqueza da psicanálise e dos seus modelos contemporâneos, segundo os quais a relação objetal e a relação transferencial configuram uma mutação em que a compreensão de ambas permite transformar a primeira, ou seja: em si, dentro de si e, simultaneamente, com o outro, singular ou plural, i. e. nas suas relações com o mundo.
Mas, afinal, o que é mesmo esse tal de enactment como nos interroga Cassorla? O autor tem uma obra extensa, rica e estimulante sobre o tema, da qual este texto com que gentilmente nos presenteia, não é exceção. Através da sua narrativa, o autor conquista e desafia tanto o leitor mais avalizado quanto o menos experiente, pois transparece no seu cativante estilo literário, uma evidente clareza de pensamento e numa forte intuição clínica que por sua vez nutre um conhecimento fundado na honestidade intelectual. Tolerar não saber, encarar a falha como oportunidade de conhecer mais, colocar-se no centro (no palco) do problema para fazer parte da solução, tomar-se como pessoa ao serviço da relação (masoquismo materno, como nos sugere no seu trabalho Cassorla?), sendo requisitos da psicanálise dos nossos dias são, também, qualidades do psicanalista.
O próprio mundo interno, percebido enquanto palco interno de múltiplas personagens em relação, enquadra a noção de como, através do jogo de identificações e contraidentificações, o psiquismo ativa e infinitamente se interroga e se (re)constrói.
Ao ler este texto e ao propor-me comentá-lo, convite com o qual a direção da Revista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise me honrou, eis que me deparo com este cenário e dou por mim a pensar nas origens clássicas do teatro.
O teatro nasce na Grécia antiga, ligado à mitologia e, na sua origem, Tragédia e Comédia comungam raízes. Considerado como o mais nobre dos estilos literários, na Tragédia o herói sofre sem culpa as agruras de um destino que, precedendo-o, parece escapar-lhe, o que suscita o terror e a piedade por parte do público, ao passo que a Comédia versa o homem comum partindo das suas emoções e intrigas relacionais.
É como se estas duas faces da realidade se interpenetrassem e se ressignificassem no teatro interno da mente. O quadro psicanalítico, favorecendo a mise-en-scène destas constelações, em que novos vínculos se estabelecem, permite que a história se reinvente, sob o signo da integração de partes nobres, ideais ou idealizadas, com os aspetos mais triviais da natureza humana. Para haver transformação tem de haver conhecimento sobre a experiência emocional profunda, mas também a aceitação do lugar nesse arranjo coreográfico das diferentes faces do objeto interno na sua relação com o self. Humanidade pressupõe grandeza e humildade: a fragilidade, a igualdade perante a morte. E a estas leis a relação analítica não é estranha.
Ao ler o texto de Cassorla e os seus relatos clínicos, e quando penso no enactment
a partir da minha prática, há qualquer coisa de trágico-cómico que se lhe associa. Esta reflexão leva-me a enunciar algumas ideias a propósito do humor, qualidade mental intimamente relacionada com a criatividade e os afetos.
Qual o papel do humor na psicanálise? E qual a sua ligação com o enactment? Podendo funcionar como defesa ao serviço do ego, no sentido de o proteger das ansiedades mais narcísicas ou da fragilidade perante a angústia de morte estabelecerá, por ventura, uma ponte ou uma solução de compromisso entre pulsão de vida e de morte, entre inconsciente e consciente, numa lógica mais freudiana. Freud refere-se às anedotas no seu trabalho “Psicopatologia da Vida Quotidiana” (Freud, 1901), estabelecendo equivalências com os lapsos, atos falhados, e o trabalho do sonho enquanto derivados do processo primário e reveladores de intencionalidade inconsciente.
Do meu ponto de vista o humor parece ser transversal a todas as dimensões metapsicológicas, estabelecendo-se como um vínculo, no sentido de Bion, pois que permite a ligação ao mesmo tempo que favorece a procura de sentido (dispersão/integração ou PS→D) e, nessa procura de sentido, fá-lo na desconstrução do mesmo conjugando, sem confundir, amor e ódio em favor do conhecimento.
Emergente do espaço potencial e assimilável ao jogo, no sentido de Winnicott, o humor vincula-se ao erro e à falha e condensa, pelo absurdo de premissas lógicas opostas combinadas de forma paradoxal, potenciais de mudança.
A capacidade de “rir de si próprio” é conotada como sinal de saúde mental, permitindo um contacto profundo e reparador do sujeito com os seus objetos internos. Por sua vez, rir na relação com o outro, veicula e contém o ódio, em simultâneo. Nesta medida, situa o sujeito perante a sua ambivalência, condensando ataque e reparação do objeto interno, num mesmo movimento, na consciência da separação com o objeto real, o que favorece o prazer e reforça os laços de intimidade.
Se o enactment crónico, como nos explica Cassorla, mantém no plano do impensável a dolorosa consciência da separação, através da dramatização relacional e intersubjetiva do enactment agudo, é como se tragédia e comédia dessem as mãos, num clímax transformacional do qual o par analítico pode emergir mais conhecedor, mais humilde, mais humano.