O artigo explora o significado clínico da forte presença do corpo e das ações em análise, em detrimento das associações verbais. Procura-se compreender a função e significado das manifestações, em ato e no corpo, na clínica dos casos-limite. Procura-se demonstrar a importância de rever a noção de associatividade, tomando as atuações e manifestações corporais como mensagens enviadas ao entorno, resíduos de uma relação primitiva em que ainda não dispunha da linguagem verbal como meio de comunicação. Em seguida, utilizando-se recortes clínicos, são investigados aspectos da técnica na clínica dos casos-limite, partindo de considerações relativas à estrutura, dinâmica e angústias fundamentais (abandono-intrusão) dos pacientes fronteiriços. Conclui-se que intervenções que se dão num espaço intermediário favorecem a construção de uma relação menos verticalizada e de um campo comunicacional onde o paciente pode se apresentar com mais liberdade e confiança. Em termos de técnica propõe-se também ser fundamental a utilização do modelo do jogo de esconde-esconde no trabalho com estes pacientes, cujo cerne é a busca do delicado equilíbrio entre proximidade e distância.
Artigo recebido a 06/05/2016 e aceite para publicação em 07/09/2016
Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Membro do Departamento Formação em Psicanálise – Instituto Sedes Sapientiae, Trainee – Parent Infant Program – Columbia University (NY). E-mail: marinafibe@usp.br
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Professora Titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. E-mail: emiglia@usp.br
Antes do texto freudiano Além do princípio de prazer, de 1920, os psicanalistas entendiam que, quando o paciente repetia algo, ele o fazia porque o desejava (cf. Garcia, 2007). Ao constatar que o homem também repete experiências insatisfatórias, Freud passou a pensar para além do princípio do prazer, ampliando sua concepção de repetição e, portanto, da transferência. Surgiu uma nova hipótese, a de que repetimos enquanto não conseguimos integrar uma experiência, isto é, repetimos experiências precoces enquanto não conseguimos integrá-las ou calá-las. No artigo de 1937, Construções em Análise, Freud propõe que escutemos as experiências arcaicas que vêm se misturar à conversa psicanalítica. Pretende-se mostrar que esta é uma evolução necessária à medida que nos confrontamos com sofrimentos, processos e casos-limite.
Neste texto, portanto, serão investigados aspectos da experiência transferencial na clínica dos casos-limite, tendo em vista a importância da dimensão não-verbal da transferência e a necessidade de o analista atribuir sentido ao que é da ordem do ato e do corpo. O artigo visa articular a experiência clínica da autora à literatura psicanalítica existente sobre o tema. O principal objetivo, porém, é questionar o lugar da interpretação e sugerir mudanças na técnica psicanalítica na análise desses pacientes, demonstrando que a necessidade de adequação da técnica justifica-se pela presença do conflito melancólico de base nos casos-limite. Será proposto o modelo do jogo do esconde-esconde (Roussillon, 2007 e 2013) como importante referencial no trabalho com pacientes borderline. Este modelo se baseia em observação pessoal confirmada pela experiência clínica, de que quando estão em jogo problemáticas narcísicas severas, todo discurso do paciente tem valor de proteção contra a intrusão do analista; a proteção, porém, faz com que o sujeito fique perdido na intensidade mesmo de suas defesas, cabendo ao analista encontrar uma maneira de buscá-lo, “não para encontrá-lo, mas para comunicar que estamos à sua procura” (Roussillon, 2013, p. 69).
Os procedimentos consistem da apresentação de recortes clínicos nos quais se evidenciam os fenômenos que se quer investigar e a discussão das questões delimitadas como foco do texto à luz da bibliografia psicanalítica selecionada. Trata-se, portanto, de um artigo de conteúdo teórico-clínico, em que exemplos extraídos principalmente da clínica, articulados ao pensamento dos autores que norteiam o trabalho, fundamentam a elaboração teórica e a construção do texto. O material clínico permitirá uma melhor apreensão do objeto
investigado, e a argumentação se dará a partir da articulação da experiência com referências bibliográficas.
Os recortes clínicos consideram acima de tudo os fenômenos psíquicos; o material narrado visa evidenciar tais fenômenos, sem qualquer informação que permita identificar os pacientes. O estilo de reprodução dos recortes clínicos é “mais narrativo e menos reprodução literal” (Mezan, 1998, p. 454), o que se justifica pela presumida suficiência dos exemplos assim apresentados para se atingir os objetivos da investigação e pela arquitetura geral do texto, em que os fragmentos clínicos são utilizados como disparadores de discussão, e não com a pretensão de se proceder a uma compreensão de cada caso em profundidade e multiplicidade de aspectos.
Figueiredo (2000) mostra que nos E.U.A. e na Inglaterra, principalmente, fala-se em personalidade ou paciente limite (borderline personality ou borderline patient), o que nos leva a traduzir tais termos, em português, para caso-limite. Na França, por outro lado, fala-se em estados ou situações-limite. “Muitas vezes, um livro americano sobre borderline patients é traduzido para o francês como se fosse sobre états-limites” (p. 63).
Para designar o que será estudado, será utilizado o termo borderline, bem como sua tradução para o português, caso-limite, visando assim designar uma estrutura singular de personalidade caracterizada pela falta de estruturação psíquica estável, devido às falhas na constituição dos limites do eu – daí o significado do uso, por autores como Roussillon, da expressão problemática narcísica, ora utilizada. Esta “doença das fronteiras do ser” derivaria do fracasso na discriminação eu-outro, com duas angústias fundamentais: a de separação, abandono e perda do objeto, por um lado, e a de invasão ou anulação do eu pelo objeto, por outro (cf. Figueiredo, 2000, p. 67).
Green (1988) descreve o paciente fronteiriço como aquele cujas estruturas de significado estão fora de ação. Ele afirma que a exclusão somática e a expulsão via ação, que empurram o conflito para fora da esfera psíquica, são duas importantes defesas utilizadas nestes casos. De acordo com Green, a exclusão somática seria o oposto da conversão, porque promove uma separação corpo-psique, restringindo o conflito psíquico ao soma, e não ao corpo libidinal. A energia libidinal, neutralizada em energia puramente somática, produziria manifestações somáticas assimbólicas capazes inclusive de pôr em perigo a vida do sujeito. O ego se defende da desintegração “mediante uma exclusão que se assemelha a uma atuação-fora, mas que agora está dirigida para o ego corporal não libidinal” (p. 45).
Ainda segundo Green (1988), o recurso ao ato e ao corpo falha em assegurar a função de comunicação com o outro, tendo como principal função aliviar a psique de uma quantidade intolerável de estímulos. Roussillon (2008a), por outro lado, discorda daqueles que vêem no apelo ao corpo e o ato apenas tentativa de evacuação de sentido. Segundo o autor, no contexto analítico as manifestações em ato e no corpo devem ser entendidas como mensagens endereçadas, à espera de um objeto que lhes permita, aos poucos, adquirir significado. Ele defende que a psicanálise recupere a possibilidade de ver no corpo e no ato mais organização e sentido do que lhes tem sido atribuído.
Considero a posição de Roussillon extremamente pertinente, pois na análise dos casos-limite é fundamental que as manifestações em ato e no corpo sejam tomadas como parte da cadeia associativa. O autor demonstra ser necessária uma mudança paradigmática para analisar estruturas que não eram tradicionais na clínica psicanalítica padrão, como as formas variadas de adições ou casos fronteiriços, que para ele são diferentes expressões de problemáticas narcísico-identitárias. Como o período decisivo de configuração destes quadros é anterior ao da aquisição da linguagem verbal, que acontece em torno dos dois anos de vida, surge a necessidade de descobrir como apreender, em análise, as marcas das experiências precoces. Seria preciso capacitar os analistas a detectar, na transferência, restos ou sinais de experiências que teriam ocorrido antes da aparição da linguagem verbal. Estas experiências fariam sua aparição não via conteúdos verbais, mas sob a forma mesma de seu primeiro registro: “elas retornam na ‘linguagem da época’ de seu registro, linguagem do afeto, linguagem da sensório-motricidade, do ato, linguagem do corpo, contemplados como linguagens narrativas” (Roussillon, 2012b, p. 16).
João iniciou a análise aos 6 anos e o atendi por dois anos. Seus pais consideravam seu comportamento muito desafiador e desobediente. Em casa ele era “indomável”, e na escola não parava quieto, provoca os amigos e tinha dificuldades de aprendizagem.
A mãe temia sair sozinha com João pois ele pode desgarrar-se, sair correndo e sumir, ou ameaçar jogar-se de algum lugar alto, como já havia feito.
Desde o início de meus contatos com João me vi diante de um menino extremamente perturbado, fortemente incapaz de conter suas ansiedades e excitação, e de muito difícil acesso. Em geral ele não conseguia brincar, a não ser por períodos muito curtos. Qualquer atividade em que se envolvesse logo ganhava um caráter nitidamente compulsivo e angustiante: puxava os lenços da caixinha desenfreadamente, até acabarem; puxava o rolo de barbante até desenrolar todo o fio; cortava o barbante, ou papel, até se cansar, num movimento repetitivo e que não tinha fim. Quando pegava as canetas, ao invés de desenhar logo passava a decalcar sua ponta com força até estragá-las. Até os seis meses de tratamento João passou sessões e sessões repetindo o mesmo ‘roteiro’: corria sem parar, riscava o chão e as paredes, arrancava e comia as folhas das plantas, quebrava brinquedos, molhava móveis…
Apesar de as sessões serem verdadeiramente caóticas, quando estava menos desorganizado ele conseguia conversar comigo, conter-se e ser muito irônico e bem-humorado. Como estas ocasiões eram raras meus sentimentos ao atendê-lo eram, em geral, de grande agonia e impotência.
As mudanças na análise de João se deram quando ampliei as possibilidades de compreensão de seus comportamentos. Sabe-se que o sentido que o analista atribui aos fenômenos que presencia e compartilha é determinante da contratransferência e das possibilidades de intervenção.
Em O papel da ilusão na formação simbólica (1991), Marion Milner narra a análise de um menino de 11 anos em que ela interpretava a agressão do paciente enfatizando os mecanismos de projeção e as defesas persecutórias. Ela escreve: “no entanto, quando eu assim o fazia, a agressão não diminuía e por vezes fiquei desesperada em relação à sua qualidade implacável” (p. 107).
Milner relata como o caráter da análise mudou completamente quando ela passou a ver o uso que o menino fazia de sua pessoa não só como uma regressão defensiva, mas também como “uma fase recorrente essencial no desenvolvimento de uma relação criativa com o mundo” (p. 109). Segundo a autora, o principal progresso da análise aconteceu quando ela pôde lidar com a contratransferência negativa. Para tanto foi decisivo o contato com novas ideias psicanalíticas, que transformaram sua visão da transferência. Entre tais ideias, Milner destaca as considerações sobre a necessidade de a criança poder experimentar o estágio da ilusão antes de poder experimentar o alívio da defusão (p. 109).
Quando pude entender as ações de João não como ataques, mas como apelos, uma profunda mudança no caráter da análise se deu. Passei a conter melhor meu ódio e sentimento de impotência, o que me libertou do receio de intervir mais espontaneamente.
É importante ressaltar também que a história de João não deixa dúvidas de que ele foi vítima de intromissões corporais e psíquicas, bem como ameaças de abandono e castigos violentos constantes por parte dos pais, com pouquíssima possibilidade de continência. Em seu caso o domínio da função antipensamento relacionava-se diretamente à problemática do trauma.
Durante as entrevistas, a mãe de João acusava o pai de ser muito agressivo e abusar de algumas substâncias, e o pai culpava a mãe por ser violenta com João. A mãe falava naturalmente de episódios como: “outro dia o João tentou por a mão no fogo do fogão, eu gritei e disse que da próxima vez que ele fizer isso vou cortar todos os dedos dele fora.” Também relatou seu hábito de dizer que iria embora de casa, deixando-o só com o pai. A mãe não lhe dava banho nem trocava ou alimentava. Todas essas funções eram feitas pelo pai. Este, por sua vez, levava João para passeios e costumava deixá-lo sozinho por horas dentro do carro.
Às vezes João passava uma semana inteira sem defecar. Quando finalmente conseguia ‘fazer cocô‘, muitas vezes machucava o ânus, pois as fezes já estavam muito endurecidas. Não usava fraldas no dia-a-dia e só conseguia evacuar quando estava em casa – pedia as fraldas para os pais, ia para um canto e, sozinho, deixava as fezes saírem.
Em certa sessão João brincava com os carrinhos. Pegou um deles e bateu com força na parte de trás de outro carrinho. Repetiu várias vezes esta sequência, com excitação crescente, até que, de repente, a brincadeira se interrompeu. Ele me dirigiu um olhar desesperado e eu lhe perguntei: você fez cocô? Ele continuou me olhando angustiado e apenas fez que sim com a cabeça – as fezes haviam “escapado”. Eu falei: “vamos fazer o seguinte: você pode ir no banheiro, lá tem papel e sabão, você pode se limpar, e se precisar de alguma coisa eu estou aqui”. Ele foi até o banheiro e eu fiquei esperando do lado de fora. Ele gritou de lá de dentro: “chama meu pai!” – figura que toma
conta de sua higiene até hoje, manipulando seu corpo de uma forma que, segundo a descrição do próprio pai, é absolutamente inapropriada. Eu achei que era uma boa oportunidade de tentar fazer um corte e perguntei: “você não acha que consegue se limpar sozinho? Eu acho que você consegue!”, ao que ele respondeu: “não, chama meu pai!!”. Então eu chamei; o pai veio, entrou no banheiro e era impossível não ouvir seus berros. Ele gritava “Da próxima vez avisa antes! Porra!”, e continuou aos berros até irem embora.
Neste recorte clínico vemos como a carga de realidade dos eventos somáticos impõe-se quando se desfaz a mediação simbólica entre corpo e aparelho psíquico, o que diferencia as manifestações corporais que ora estão sendo consideradas de outros tipos de fenômenos, como os sintomas conversivos. Até certo ponto João conseguiu manter a brincadeira; em dado momento, porém, a intermediação possibilitada pela representação se perdeu, e o que estava sendo simbolizado regrediu para o registro do vivido no corpo.
As ocasiões em que João deixava as fezes escaparem na sessão tornaram-se mais frequentes, e isto ainda precisou acontecer duas vezes até que eu aprendesse a identificar os sinais que ele emitia de que estava “apertado” e pudesse lhe sugerir que fosse ao banheiro antes de se sujar. Das últimas vezes percebi em sua mudança de comportamento, e seu andar acelerado e ansioso, os indícios de que ele estava com vontade de “fazer cocô”. Nesses momentos eu lhe perguntava: “você está apertado? Quer ir ao banheiro?”, ao que em geral ele respondia que não. Então eu dizia: “estou vendo que você esta com vontade de ir no banheiro, acho melhor você ir agora. Não precisa esperar mais, já está na hora”. Ele concordava, e passou a ir ao banheiro e se limpar sozinho, sem solicitar a ajuda do pai. Pouco tempo depois o próprio João passou a pedir para ir ao banheiro quando sentia necessidade.
Klein (1997) dizia que podemos esperar realizar com crianças uma análise tão profunda e extensa quanto a análise de adultos, ou
“até mais, na realidade. Na análise de crianças somos capazes de voltar a experiências e fixações que na análise de adultos frequentemente só podem ser reconstruídas, ao passo que a criança as mostra para nós como representações imediatas.” (p. 28-29)
No recorte relatado João revelou sem disfarces seu conflito em relação à analidade. A cena começou representada pela brincadeira, mas logo regrediu para uma manifestação da pulsão em estado bruto. Se para Klein as fixações da criança podiam ser consideravelmente resolvidas com a ajuda de interpretações, quando João tinha vontade de evacuar na sala de análise era preciso intervir em um nível radicalmente diferente do interpretativo, que envolve o reconhecimento dos sinais corporais e a nomeação do que se passa no plano sensorial.
Dito de outra forma, não realizei nenhuma comunicação verbal visando explicitar os desejos sexuais, agressivos, nem o temor de punição e sentimentos de culpa da criança. Quando o paciente chegou a evacuar na sessão, colocando o corpo em cena sem intermediários, o essencial na interação foi a resposta da analista e a qualidade afetiva do encontro, que, diferente do que se passava no encontro de João com seus pais, não implicou um acréscimo de tensão na forma de excitação ou angústia, mas sim um clima de acolhimento e tranquilidade. Esta cena inédita vivida em análise permitiu dar início a um rearranjo dos modos de inscrição e satisfação pulsional, sendo a repetição da vontade de “fazer cocô” na sessão uma oportunidade para tanto. Nestas ocasiões a analista nomeava e atribuía sentido às mensagens vindas de seu corpo, o que permitiu que a função somática fosse progressivamente controlada por ele, garantindo a constituição dos diques que permitem reorganizar a tópica.
Estes episódios ocorreram após mais de um ano de tratamento, quando João finalmente pôde tornar atual, no vínculo comigo, uma situação deficitária ou traumática vivida no ambiente original, na esperança de encontrar uma experiência restauradora, que lhe permitisse inscrever as excitações em um novo circuito.
A situação traumática era dada pela indisponibilidade de um ambiente protetor e, especificamente no que diz respeito à encoprese, à experiência repetida de João ter sua higiene sempre feita pelo pai, após o uso das fraldas. Este manipulava o corpo do filho de forma abrupta e violenta, como relatou em nossas conversas (tínhamos encontros quinzenais), ao questionar, ele próprio, se esta forma de interagir com João poderia estar relacionada às dificuldades do menino para evacuar. O pai percebia que o filho ficava tenso e amedrontado quando ele o limpava. Abordar o assunto com os pais permitiu explorar suas concepções sobre o cuidado com João e o que imaginavam que o menino sentia quando era tocado pelo pai. Também
foi possível conversar sobre porque o pai fazia questão de trocá-lo, que tipo de troca tinha com João neste momento, e questionar o papel da mãe. O pai mostrou-se impactado pela conversa, e relatou nunca ter pensado que João pudesse sentir o contato com ele como violento ou que ficasse muito agitado e excitado com o toque do pai.
Como relatado anteriormente, até este momento da análise João só evacuava em casa, nas fraldas. Em sessão realizada com os pais do paciente após João passar a evacuar na sessão, eles relataram que o filho ainda solicitava as fraldas, mas vinha “fazendo cocô” com frequência diária, tendo deixado de apresentar prisão de ventre. Em seguida João parou de evacuar em análise, e o padrão das sessões mudou – ele passou a brincar principalmente de esconde-esconde, como veremos adiante. Um mês após a última sessão em que João deixou as fezes escaparem no consultório, os pais relataram terem se surpreendido com a ida espontânea do filho ao banheiro para evacuar. Desde então os pais não mencionaram mais o uso de fraldas por João, e deixaram de relatar preocupações com este tema.
Claro que o trabalho com uma criança abre possibilidades de interação que não existem no trabalho com adultos; além disso em uma criança as marcas do vivido não-representado, que com o tempo tendem a se coagular no corpo, ainda estão mais frescas e acessíveis, podendo ser mais facilmente evocadas e transformadas pela situação analítica. De qualquer forma, as situações descritas permitem pensar sobre como chegar, na análise de adultos, à possibilidade de reorganização dos circuitos pulsionais precariamente inscritos. Neste sentido, ao apontar a fecundidade das ideias de Ferenczi, Pontalis (2005) observa: “Para ir ao encontro ‘da criança no adulto’, não basta reconstruir a neurose infantil. Para atingir o recalcamento primário, é preciso possibilitar ao paciente ir aquém da representação, no agir.” (2005, p. 216 – grifos meus).
Há outros pacientes, adolescentes e adultos que, como João, apelam à sensorialidade, às ações, ao corpo e à motricidade para evitar a emergência da angústia. A fragilidade dos limites egóicos e suas poucas possibilidades elaborativas fazem com que os afetos dolorosos ameacem o ego, por isso recorrem à excitação corporal: experimentam (sensações) para não sentir (afetos).
A motricidade, a excitação corporal e o superinvestimento do sensorial podem ser usados como proteção contra a emergência da dor psíquica. Roussillon (1995) afirma que a criação de uma zona de dor localizada tem a função de evitar o desenvolvimento de uma neurose traumática, pois a criação de uma região de excitação corporal pode ser utilizada como anti-estímulo psíquico. Ele observa ser frequente, na análise dos casos-limite, que o analisando “tenha necessidade de apelar à motricidade impulsiva ou ao ato para sufocar aumentos de excitação disruptivos ou para tratar de conter/descarregar aquilo que ameaça sua organização.” (p.183)
Ao abordar a presença das manifestações do sensorial em análise, Botella e Botella (2002) lembram que Freud (1932) estabeleceu um paralelo entre o desaparecimento dos afetos, no sonho, e a força sensorial das imagens oníricas: a energia suprimida dos afetos é utilizada para incrementar a sensorialidade das imagens do sonho. Assim, no trabalho do sonho a energia dos afetos se desloca no sentido da figurabilidade, aumentando a força sensorial das imagens até excitar o pólo perceptivo – momento em que a figuração, ou representação por imagens, se transforma em alucinação. Na clínica o deslocamento do quantum afetivo para a força sensorial das representações pode ser entendida, então, como uma maneira de inibir a produção de afetos dolorosos.
A representação de palavra e o aparelho de linguagem verbal que a transmite têm inegável vocação à expressão intersubjetiva e subjetiva, e lugar central no trabalho clínico, mas o valor mensageiro do afeto tem sido cada vez mais reconhecido, diz Roussillon, “mesmo pelos psicanalistas de língua francesa” (2008b, p. 8). A matéria psíquica inscrita somente como representação de coisa, diz o autor, teria adquirido valor mensageiro desde os desenvolvimentos relativos à identificação projetiva, reforçando a importância de se estender a escuta analítica ao material não-verbal e ao que é agido no encontro, além de estar no centro de toda concepção da utilização da contratransferência. Para o autor francês, reconhecer na clínica tais manifestações exige considerar a ideia de ‘mensagem agida’, ou seja, de uma ação mensageira da pulsão que impacta o outro.
Para ilustrar o que foi abordado até agora utilizarei material de outra paciente. Ela chegou à análise com 17 anos e praticamente nada disse, mas me mostrou muito de si. Gabriela se comunicou todo o tempo todo
por vias não-verbais. Seu corpo e aparência falavam; ela chorava, e às vezes desenhava, mas não falava. O corpo tinha lugar privilegiado nesta análise, servindo como meio de expressão do que a paciente não podia dizer. Cabia a mim olhar, ver, sentir e traduzir para ela o que se passava entre nós, transformando em palavras as mensagens que ela emitia por outras vias.
Nos 6 meses anteriores à sua chegada ao consultório, Gabriela perdera 15 quilos e a família temia que estivesse deprimida. Quem marcou a primeira entrevista disse “a Gabriela ainda não sabe que eu to ligando, mas se a gente falar pra ela ir ela vai, ela é muito boazinha, não reclama de nada”. Ou seja, no meio familiar a paciente também pouco falava ou verbalizava suas queixas. Seu incômodo e desacordo eram expressos de outras formas: nunca tirava uma maquiagem carregada e peculiar, tinha um corte de cabelo exótico que ela mesma fazia, e usava acessórios e penduricalhos corporais que chamavam muita atenção e podiam deformar o corpo. As roupas eram originais mas monocromáticas, todas no mesmo tom escuro. Os pais a descreviam como sempre tendo sido muito fechada. Em nosso primeiro encontro Gabriela ficou muda, apenas respondendo o que eu lhe perguntava enquanto lágrimas escorriam contínua e ininterruptamente, por todo o tempo da sessão.
Eu a analisei por um ano e meio, até ela partir para um intercâmbio no exterior. Neste tempo, nunca, em nenhuma sessão, ela falou espontaneamente. Não faltava e era extremamente pontual, mas ficava absolutamente quieta, por sessões inteiras. Quando eu fazia perguntas, e eu fiz muitas, respondia brevemente. Em tais ocasiões era possível ter acesso a conteúdos expressos verbalmente, valiosos, mas ainda assim escassos. Mesmo que ela parecesse afetivamente disponível para o encontro comigo, nesses momentos eu sentia estar ‘fuçando’ sua vida contra sua vontade, e o material verbal continuava sendo secundário em relação aos conteúdos não-verbais disponíveis para associações.
Em certo período Gabriela, a meu pedido, desenhou na sessão, e espontaneamente trouxe desenhos que fazia em casa, o que nos abriu um canal de comunicação. Eu conversava sobre o que via nas imagens produzidas por ela, ela se mostrava receptiva e doce, mas não contribuía com nenhuma associação verbal. Creio que ela pôde usar muito do que eu lhe disse, mas logo passou a usar estes procedimentos a serviço da resistência – dava um jeito de nunca terminar os desenhos, para que o tempo da sessão fosse todo preenchido com essa atividade. Tendo em vista os objetivos desse texto, não me estenderei em detalhes a respeito da evolução da análise de Gabriela. O fato é que ela parece ter se beneficiado da possibilidade de comunicação comigo por intermédio da técnica do desenho, pois em um ano e meio parou de usar antidepressivos, teve alta do tratamento psiquiátrico, entrou na faculdade e começou a namorar. Além disso, no fim da análise sua maquiagem era nitidamente menos pesada, e ela já não chorava.
As mudanças parecem relacionadas à maior possibilidade de Gabriela estabelecer ligações com a realidade externa e objetos diferentes das figuras parentais. A relação com a analista pode ter servido como intermediário entre a paciente e o mundo, e é inegável que muitas mudanças seguiram-se ao início do tratamento, inclusive a interrupção da perda de peso. Certamente suas conquistas fora da análise também contribuíram para aliviar os sentimentos depressivos, fortalecendo os impulsos de vida. Este caso é de especial interesse porque, durante toda a análise, a paciente utilizou predominantemente canais de expressão diferentes do discurso. A respeito deste tema vale lembrar o que diz Zygouris (2011) sobre às vezes serem necessários anos de preparação para que um paciente possa realizar uma “análise clássica”. Neste período preparatório ocorreria muitas vezes “uma análise totalmente atípica e subterrânea, na qual as expressões discursivas não figuram em primeiro plano.” (p. 13)
Certamente Gabriela e João não realizaram uma “análise clássica”, tampouco em seus tratamentos as figuras discursivas estavam em primeiro plano. Por isso a experiência com eles convida à pesquisa e à reflexão.
Utilizando as palavras de Roussillon (2005), e visando entender o que possibilitou mudanças nos referidos casos, diríamos que em análise o diálogo se estabelece simultaneamente em dois níveis: “de um lado ele se estabelece em nível verbal, que possui sua coerência própria, mas de outro lado se desenvolve um diálogo mimo-gesto-postural que também tem sua ‘lógica’ própria e não necessariamente dada ao diálogo verbal”. (p. 375, tradução livre)
Laplanche e Pontalis (2004), no verbete Associação do Vocabulário da Psicanálise, explicam que uma pesquisa extensa sobre o tema precisaria acompanhar a difusão da doutrina associacionista na Alemanha, durante o século XIX, mostrando como ela foi integrada e transformada pela teoria freudiana
sobre as leis do inconsciente. Buscando definir o conceito de forma sintética, contudo, os autores escrevem: “No fundo, o termo ‘associações’ designa o conjunto do material verbalizado no decorrer da sessão psicanalítica.” (p. 36 – grifo meu)
Roussillon (2008a), por outro lado, demonstra que a posição de Freud não é a de que a associatividade é apenas verbal. O aparelho psíquico busca se organizar como aparelho de linguagem, mas nem sempre consegue, por isso seria preciso uma concepção da associatividade, aqui entendida como encadeamento de elementos psíquicos, que integre não apenas a linguagem verbal mas também a dos gestos, posturas, atos, tom de voz e movimentos corporais.
A proposta de Roussillon, corroborada no presente texto, é que a escuta analítica compreenda não só o material verbalizado na sessão, mas que alcance também as formas primárias de expressão, que se apoiam no corpo. Cabe ao terapeuta captar e destrinchar o proto-sentido contido nas demonstrações feitas via ações e comportamentos do paciente. A hipótese clínica de Roussillon (2008a) é que a sintomatologia dos pacientes borderline manifesta, em ação ou psicossomática – manifestação corporal –, as tentativas frustradas de comunicação. O não-reconhecimento e não-qualificação das comunicações corporais e afetivas da criança constituem ataques narcísicos repetidos que fragilizam globalmente o ego do indivíduo, e as mensagens degeneradas vão se manifestar nos quadros psicopatológicos da criança, do adolescente ou do adulto.
Vimos que na análise dos pacientes fronteiriços a tarefa principal é constituir os limites do eu e atrair o trauma para o sistema de representações. Nestes casos há a dificuldade de significar o que é da ordem do sensorial, corporal e motor. Mas além do desafio colocado pela dificuldade de articulação das duas lógicas – força e sentido – no trabalho analítico, nas análises dos casos-limite o analista precisa lidar com uma qualidade específica de relação, relações de objeto caracterizadas por cisões e pela predominância de afetos negativos, persecutoriedade, inveja, falta de confiança, inacessibilidade… Incluir na discussão a qualidade dos afetos e a dinâmica das relações de objeto característica do mundo interno desses pacientes é essencial para a compreensão do que estamos tratando. Pois onde há trauma e quantidades inassimiláveis, há relações sádicas, identificação com o agressor, tentativas de subjugar o outro etc.
Segundo Green (1988), no atendimento aos pacientes borderline as relações objetais que tomam corpo na transferência aparentemente são triádicas, com mãe e pai representados na estruturação edípica. Num exame mais aprofundado, porém, o analista se dá conta de que a diferença entre as figuras parentais não se deve à distinção entre os sexos, nem a uma discriminação de suas funções, estando a diferenciação dada por dois outros critérios: o bom x mau, por um lado, e a ausência (nulidade ou perda) x presença dominadora, de outro. O bom seria justamente o inacessível, nunca presente de forma suficientemente duradoura. O mau seria intrusivo, onipresente, desaparecendo do espaço mental somente em raríssimos intervalos. (p. 47)
Na análise de João houve momentos bastante ilustrativos da ocupação do ego pelo objeto. Já em nosso terceiro encontro ele voltou sua atenção para um saco transparente onde havia bonecos de pano que formavam uma família, além de um pequeno sabonete. Cheirou um dos bonecos e disse “vamos ver se está cheiroso”. Em seguida falou que sim, estava. Então começou a esfregar o sabonete em um bebê maior, repetindo “olha, vamos ver se fica cheiroso”. Cheirou o boneco e falou que não, dizendo “será que se esfregar mais forte fica cheiroso?”. Esfregou novamente. Até então estava calmo, mas subitamente atirou o boneco com força dentro da caixa, e parecendo ter incorporado um personagem, gritou em tom muito alto e grosso “é, ficou cheiroso!”. Fui surpreendida por este rompante de agressividade, especialmente pela repentina transfiguração de seu olhar e tom de voz. Foi como se tivesse sido tomado por outra personalidade, uma outra voz que falava dentro dele. A análise estava no início e João ainda não manifestara agressividade como aconteceria no período seguinte, mas começava a expressar seu mundo interno.
Na sessão seguinte João se interessou pelos pratos de brinquedo e bonecos crianças. Pegou os pratos e os bonecos, dizendo: “vou lavar a louça”. Sugeri que usássemos pequenos objetos como comida e repentinamente ele soltou um berro, usando um tom de voz que não era o seu: não! Não pode!. Novamente sua atividade era perturbada por uma irrupção de agressividade. Disse outras frases com violência, repetindo: não faz assim!, Vem aqui agora! Gritava muito, muito alto, até que eu perguntei “quem grita assim com você?” João se deteve, pareceu cair em si e respondeu,
agora em voz quase inaudível, baixando os olhos: “minha mãe”.
Nos encontros seguintes voltou a falar muito alto e grosseiramente. Dizia coisas como: “não vou te dar comida porque você ta me enchendo o saco”, ou “vou dar suco pro bebê gigante” (segurando um boneco de borracha, um bebê de tamanho médio). Então encenava dar bebida ao bebê, mas com muita força e violência, e numa quantidade muito maior do que o bebê parecia querer, até fazê-lo passar mal. Na sequência João apertava o boneco e dizia que ele tinha vomitado. Como estávamos no começo da análise, limitei-me a observar e participar da brincadeira, realizando as tarefas que ele solicitava.
Não ignoro a influência do sadismo, agressividade e sentimentos de culpa de João, mas ressalto o impacto do ambiente familiar, que neste caso era extremamente perturbador. Presenciei sua interação com os pais, observando que frequentemente era tratado aos gritos e ameaças, feitos em voz alta e grave tanto pelo pai quanto pela mãe. Como mencionado anteriormente, os pais relatavam ter pouca tolerância com o filho, dada a situação precária da família, tanto financeira quanto emocional. Por isso, mesmo reconhecendo o papel dos impulsos destrutivos de João, considero importante destacar a qualidade do ambiente original.
No caso de João e outras crianças podemos observar como o objeto de fato vive no mundo interno. Era muito forte a impressão de que ele estava efetivamente possuído – e cabe refletir sobre este termo – por outra pessoa. Como diz Roussillon (2013), mímicas, gestos e posturas do paciente podem não ser dele, mas do objeto incorporado; às vezes surge em sessão um timbre diferente, porque o paciente está tomado pela voz do objeto, e por isso às vezes é a sombra do objeto incorporado que faz o analista ter certas experiências.
Uma das características mais marcantes no caso de João era a total inoperância das interpretações. Green (1988) e Roussillon (2013; 2012b) mostram que nos casos borderline (no dizer de Green) ou patologias narcísico-identitárias (para Roussillon), há uma dupla ameaça no encontro com objetos: se são muito próximos, são intrusivos, mas se se distanciam muito, estão abandonando. Nestes casos toda interpretação vai ser intrusiva e toda não-interpretação vai ser um abandono.
Green (1988) sintetiza:
“O modelo implícito da neurose do passado levou-nos de volta à ansiedade de castração. O modelo implícito destes estados fronteiriços conduz-nos de volta à contradição formada pela dualidade de ansiedade de separação/ansiedade de intrusão. Daí a importância da noção de distância.” (p. 46)
Voltemos aos primórdios da constituição subjetiva. Winnicott (1975) mostrou que aquilo que contém e permite ao sujeito se encontrar é o reflexo enviado a ele, através do rosto da mãe, da maneira como o segura, do handling, da forma como se interessa por seu desenvolvimento e como lhe apresenta os objetos. Se os estados emocionais e movimentos do bebê nunca são refletidos para ele, acontece uma falha fundamental. Isto pode ocorrer, por exemplo, quando há uma inversão em que o filho cuida dos pais, ou em situações de negligência e maus-tratos, como eu observava no caso de João. O que vivi com este paciente me parece confirmar as ideias de Roussillon (2013), para quem as patologias que ora abordamos se estruturam em torno de uma problemática melancólica relacionada à decepção precoce: a sombra do objeto (decepcionante) recai sobre o eu. Mas o que isto significa?
A sombra do objeto, segundo Roussillon (2013), é o que o objeto não envia ao sujeito sobre ele mesmo, ou seja, o que o objeto não esclarece sobre seu mundo interno. Nestas situações o objeto sempre se sobressai em relação ao sujeito, seja por sua ausência excessiva, seja por sua presença assoladora. A mãe não exerce a função de continência e uma série de potencialidades da criança não se desenvolve, provocando um sofrimento fundamental primitivo, que é o de o sujeito estar completamente perdido em relação ao que vive. A experiência de intoxicação interna faz com que sujeito se retire de si mesmo através de uma série de processos de tipo autístico que estão na raiz das problemáticas narcísicas: há espaços vazios dentro do sujeito e há um objeto intrusivo que invade o vácuo deixado pela reclusão do sujeito.
Fontes (2010) cita Kristeva (2000) e lembra as ideias desta autora a respeito do trabalho com pacientes em dificuldades com a discriminação eu/não-eu. Fontes escreve: “Considerando o trabalho de promover uma ‘gestação psíquica’, J. Kristeva fala em ‘enxertos de interpretação’ – enxertos, pelo fato de a associação não vir do paciente, mas do próprio analista”. (p. 23)
Penso que o analista precisa fantasiar, imaginar e elaborar pelo paciente aquilo que ele ainda não pode pensar. Nos casos que
ora examino porém, o problema narcísico, ou da constituição do eu, é como tornar o objeto ausente, ou como chegar a criar um espaço psíquico que não seja invadido, por isso o modo de conversar com estes pacientes exige atenção redobrada do analista. A interpretação pode ser sentida como extremamente invasiva, ato por meio do qual se reedita uma relação traumática em que alguém “superior” e onipotente detém um saber sobre o paciente que não parte dele.
Esta forma de compreender o conflito de base dos casos-limite é essencial para as proposições que podem ser feitas em termos de técnica. Embora não haja espaço para aprofundar o estudo da metapsicologia da melancolia, destaco estas ideias porque vivi com João o desafio de encontrar a distância ideal. Como ser uma presença viva e confiável (que não abandona) sem, no entanto, ser invasiva?
É importante esclarecer que entendo interpretação como uma comunicação verbal feita ao paciente visando dar a ele acesso ao sentido latente em suas palavras e comportamentos, apontando o conflito defensivo. Acompanho Klein (1997), para quem a interpretação tem o papel de explicitar verbalmente os desejos sexuais e agressivos que a criança expressa em seu jogo, o que aliviaria seu sentimento de culpa e diminuiria a pressão excessiva do superego. Quando eu fazia tentativas de interpretação, porém, era comum João começar a falar no meio das minhas falas, ou me mandar diretamente calar a boca. Se eu tentasse, por exemplo, dizer que ele estava me mostrando que existia uma bagunça enorme dentro dele, forte como um furacão, que o fazia desejar destruir tudo e todos à sua volta; se dizia que acabava com os brinquedos porque às vezes também se sentia em pedaços por dentro; ou se tentava interpretar a transferência negativa, dizendo que ele temia que eu não conseguisse entender como se sentia, ou pior, que o castigasse por querer me agredir ou por desejar destruir os pais, não havia nenhum efeito, a não ser o de ele ficar mais furioso e querer arremeter contra tudo mais intensamente. Invariavelmente João se mostrava ressentido e menos acessível após as interpretações.
Winnicott mostrou em muitos pontos de sua obra o quanto interpretações podem ser inadequadas e prejudiciais. No livro Consultas Terapêuticas (1984) o autor utiliza o jogo do rabisco, onde analista e criança interagem por meio de desenhos para auxiliar a criança a aproximar-se do núcleo de sua ansiedade. Através da expressão gráfica o paciente passa por uma série de descobertas, e Winnicott destaca que “um dos objetivos principais deste jogo é atingir a despreocupação da criança e, assim, suas fantasias e depois seus sonhos”. (p. 126) Neste contexto a postura de Winnicott se baseava em sua “política de não fazer interpretações” (p. 83), ao menos não até o traço essencial da criança ser revelado por ela mesma, sublinhando que “a interpretação do inconsciente não é o ponto mais importante.” (p. 17-18). Em O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil (1975), Winnicott mostra como a interpretação prematura pode ser traumática e contrária ao processo de amadurecimento, aniquilando a criatividade ao interromper um processo em que o paciente, sentindo-se vivo e ativo, faz descobertas por si mesmo (p. 160-161).
Candi (2010) lembra também que Winnicott sublinhou a importância de o terapeuta reconhecer e testemunhar as falhas ambientais ocorridas no desenvolvimento afetivo de seus pacientes, mesmo não podendo consertá-las. Para Winnicott era fundamental levar em conta o papel da subjetividade do paciente e dos componentes intrapsíquicos na organização de seus conflitos, mas também a contribuição do ambiente e a interferência dos objetos primários. “Sem o reconhecimento da falha ambiental, não poderia acontecer um processo de integração e de simbolização. A falha precisava ser registrada e reconhecida para poder passar por um processo de simbolização.” (p 108-109). Candi destaca que Green chegou a nomear o antissímbolo, que tem lugar quando um não acontecido, não reconhecido, obtura a possibilidade de dar sentido à experiência traumática, na linha do desmentido ferencziano.
É preciso lembrar, porém, que o narcisismo destes pacientes exige uma requalificação. Por isso o imprescindível reconhecimento de suas necessidades e vivências só pode efetuar-se em uma lenta aproximação, através de um processo cujo domínio eles precisam conservar. (Roussillon, 1995, p. 198) O narcisismo, como sabemos, inicialmente foi concebido por Freud como característico de uma fase em que o ego é tomado como objeto de amor. Tratar-se-ia de uma fase intermediária da evolução sexual, entre o auto-erotismo e o amor pelo objeto, em que o ego torna-se o alvo dos investimentos libidinais. Posteriormente o termo narcisismo passou a remeter também à constituição egóica, já que o ego em sua totalidade só pode ser investido libidinalmente uma vez que exista como unidade (cf. Laplanche & Pontalis, 2004, p. 287-288).
Aos poucos João foi indicando caminhos. Certo dia ele e eu elegemos um canto da sala como local onde ficávamos “escondidos da polícia” – brincadeira iniciada por ele – e o batizamos de “cantinho secreto”. Surpreendentemente, neste “cantinho” João mostrou um estado emocional que eu não vira antes. Parecia viver o lugar como sagrado. Lá reinavam o silêncio e um outro ritmo. Reflexivo e calmo, João dispunha cuidadosamente os objetos no limitado espaço disponível, entre a parede e um móvel, empenhado em produzir a maior beleza possível.
O que compartilhávamos nestes momentos não tinha palavras, mas era pleno de afeto. Ali João parecia reencontrar-se. A única tentativa que fiz de falar, quando ele brincava com carrinhos e encenava um namoro dos bonecos, foi desastrosa. Ele deixou o boneco despencar no chão, expressou em seu rosto toda a sua decepção, e teve grande dificuldade de retomar a brincadeira.
Felizmente João não desistiu de me ajudar a compreendê-lo. Além do cantinho secreto, mostrou-me o que precisava quando, em outro encontro, por acaso, começamos a brincar de esconde-esconde, em um momento em que ele estava sob a escrivaninha e achei que seria interessante propor este jogo. Ele topou a atividade e novamente sua reação me surpreendeu. Seu esconderijo sob a escrivaninha tinha que ser “blindado”. Ele se enfiava em um espaço minúsculo, contra uma parede, e cobria a parte que ficava acessível à minha visão com o que estivesse ao seu alcance: almofadas empilhadas, brinquedos, pufe e tudo mais que pudesse tapar qualquer fresta. Ficava isolado, mas falava comigo. Do lado de fora eu perguntava em voz alta “onde estará o João? Ele sumiu!”, e chamava por ele. Ouvia suas risadas animadas e o procurava até ele determinar o momento em que eu deveria achá-lo. Era importante que eu não o encontrasse antes, mas que também não demorasse quando ele queria ser reavisto por mim.
Digo que sua reação me surpreendeu pois eu não esperava vê-lo tão animado com este jogo; também não esperava vê-lo solicitar a repetição da brincadeira, como fez incontáveis vezes, e tampouco me habituara a uma interação tão “fácil”, em que ele se mostrava comunicativo e disposto a vincular-se. Após inúmeras sessões em que nos escondíamos – parte da diversão era ver-me hermeticamente escondida, como ele, para achar-me em seguida -, em dado encontro João saiu de seu esconderijo e pôs-se a mexer em toda a sala. Não somente nos objetos, mas em todos os móveis. Promoveu um verdadeiro rearranjo espacial, alocando cada peça da mobília como o aprazia. O mais importante era que ficasse bem diferente do que ele encontrara, que fosse algo seu em oposição ao meu. Pareceu-me ter havido uma clara conexão entre a experiência de resguardar-se, estar sozinho (mas na minha presença) e ser encontrado por mim quando bem entendesse, e a nascente possibilidade de reordenação de seu mundo interno, representada pelo total rearranjo da sala de análise.
Após esta sessão houve uma transformação marcante na dinâmica das sessões. João “esqueceu” o jogo do esconde-esconde e elegeu o futebol como sua atividade preferida. Passamos, portanto, de um jogo em que a presença do objeto-analista era meticulosamente controlada por ele para uma brincadeira em que havia dois – eu e ele – participando de uma atividade em que ora cooperávamos, ora competíamos. Ainda era essencial que eu o deixasse ganhar e que ele pudesse escolher onde os móveis deveriam ficar, de modo a delimitar o '“campo” e o tamanho do gol, o número de chutes a que cada um tinha direito etc. A possibilidade de existir e se relacionar com o objeto era incipiente, ainda era necessário manter o controle, mas minha presença era mais suportável, menos ameaçadora. Passou a ser freqüente cantarmos juntos enquanto jogávamos, o que ele adorava. Este período, em que houve uma transformação na modalidade e qualidade afetiva da interação com João em análise, coincidiu com o relato dos pais de uma melhora em seu comportamento e desempenho escolar.
Há uma infinidade de possibilidades de leitura desta experiência, mas vamos nos ater ao que é possível aprender com as imagens do cantinho secreto e, principalmente, do jogo do esconde-esconde.
Roussillon propõe uma técnica baseada no jeu du cou-cou – em tradução livre, jogo do esconde-esconde (2007; 2013) – para lidar com os impasses dos tratamentos de pacientes difíceis, que, como vimos, derivam da dupla posição que o analista tende a assumir transferencialmente nestas análises: a de objeto que abandona versus a de intérprete perseguidor. O autor atribui o impasse ao fato de termos que lidar com dois lados antagônicos ao mesmo tempo, uma vez que, na transferência, assumimos ora o papel de objeto subjugado, ora o de objeto opressor. Para Roussillon a solução é parar de interpretar e desenvolver algumas formas de jogo.
O jogo do esconde-esconde, proposto pelo autor no contexto da análise de adultos, consiste em comunicar ao paciente que estamos à sua procura. Sobre o jogo de esconder das crianças, ele explica:
Eles não estão bem escondidos, estão excitados porque é terrível, e sabemos de cara onde eles estão. Mas se vamos procurá-los onde eles estão, não tem brincadeira; então não fazemos isso. A gente vai para o outro lado, a gente fala alto ‘será que fulano está escondido ali atrás?‘ (…) A brincadeira/jogo consiste em se aproximar progressivamente. Em primeiro lugar, não abandono porque eu procuro e, em segundo lugar, e, em segundo, não invado porque eu não acho! (Roussillon, 2013, p.69)
Para Roussillon este é o modelo que o analista deve ter em mente ao analisar estes pacientes. Não se trata, de maneira nenhuma, de um trabalho interpretativo, mas sim de um trabalho de jogo que visa responder à dupla angústia já mencionada, levando em conta que perdido está o sujeito (de si mesmo), e não o objeto. Considerando que o objeto desalojou o sujeito de si, o trabalho clínico será ir em busca desse sujeito, não para encontrá-lo, mas para comunicar que estamos à sua procura. O analista dirá, por exemplo: “você me disse isso, depois me disse aquilo, eu me pergunto se você quer dizer aquilo”, onde o “eu me pergunto” comunica sua busca pelo paciente. (Roussillon, 2012a; 2013)
A análise de João se deu muito antes de eu conhecer esta proposta, mas quando a conheci, dado o que foi narrado, considerei-a extremamente pertinente. João mostrou diretamente, com sua empolgação com o esconde-esconde e com a demonstração involuntária do quanto se beneficiou com esta atividade, o quanto é importante o analista se colocar, diante do paciente, na posição de quem o procura, o acompanha à distância, mas só o encontra quando ele mesmo sinaliza ser capaz de suportar e mesmo desejar o encontro.
Um artigo de Winnicott (1983) traz ideias que anunciam o modelo do jogo do esconde-esconde. Winnicott descreve o sonho de uma paciente, em que duas mulheres examinavam minuciosamente todos os seus pertences. Ele entende que a paciente “fazia troça” das duas mulheres, que “estavam bancando as tolas pelo seu modo de examinar tudo”, sem conseguir chegar a seu self. Winnicott relata que, na infância, a mãe da paciente roubou seu caderno de poemas e provérbios. Neste caderno a paciente escrevera “meu caderno secreto”, e na primeira página anotara um pensamento: “o homem é aquilo que pensa em seu íntimo”. Ao comentar o caso, Winnicott aponta a importância de a mãe permitir ao filho ter um segredo:
Na verdade, sua mãe lhe tinha perguntado: ‘de onde você tirou esse pensamento?‘. Isso foi mau porque significou que a mãe devia ter lido seu caderno. Estaria bem se a mãe o tivesse lido mas não tivesse dito nada. Eis aí o quadro de uma criança estabelecendo um eu privado que não se comunica, e ao mesmo tempo querendo se comunicar e ser encontrada. É um sofisticado jogo de esconder em que é uma alegria estar escondido mas um desastre não ser achado. (p.169 – grifos do autor)
Outro breve exemplo permitirá mostrar como esse “sofisticado jogo de esconder” pode ser um referencial importante na condução da análise de adultos.
O paciente era um rapaz de 25 anos, que dos 14 aos 24 não saiu de casa. Ele deixou de frequentar a escola antes de terminar o ensino médio e se isolou, passando a se relacionar com o mundo somente através da internet. Sua mãe era sua grande aliada; o pai e os dois irmãos, seus maiores inimigos, a ponto de ele impor regras como a de que nenhum irmão poderia passar pela sala quando ele estivesse presente, ou de que não dormiria no mesmo horário que os irmãos, pois não suportava estar no mesmo ambiente que eles. Achava que o vigiavam e imitavam tudo que estava fazendo, e também que o criticavam e tiravam sarro dele o tempo todo.
Sempre foi muito difícil atendê-lo, a começar do fato de que, mesmo estando de frente para mim, ele jamais olhava nos meus olhos. À medida que a análise avançava, a transferência negativa começou a dar sinais e aos poucos dominou completamente o quadro. Conversar com ele tornou-se praticamente impossível, pois qualquer fala minha, tivesse ela a intenção de mostrar compreensão, acolhimento, incentivo, ou interpretar, era tomada como tentativa de manipulação. Em certo momento ele disse que sabia que eu trabalhava com programação neurolinguística e percebia as intenções por trás de minhas falas.
Só consegui voltar a me comunicar com o paciente quando passei a conversar com
ele exclusivamente por meio de perguntas. Tudo que eu lhe dizia passou a ser colocado sob a forma de indagação, um convite para pensarmos. Com esta maneira de proceder, sua persecutoriedade foi amenizada e sua hostilidade diminuiu sensivelmente. Parecia claramente menos ameaçado quando sentia que minha fala lhe dava mais liberdade para decidir se aquilo tinha algum sentido, se podia ou não ter alguma utilidade. Por exemplo: quando ele voltou para a escola, após mais de um ano de análise, logo tornou-se “inimigo” de um professor de filosofia. Disse ter dado “uma encarada” no professor, olhando-o por cima de seus óculos. Achava que o professor tinha percebido esta encarada, e que o havia encarado de volta, e agora temia que o professor o prejudicasse, que falasse mal dele na sala dos professores etc. Pensei em sua impossibilidade de me encarar/olhar, mas achei cedo para interpretar a transferência, então apenas perguntei “será que você já conseguiu alguém para combater na escola também?”, o que o fez rir muito. Ficou em silêncio e apenas disse “É…”, talvez percebendo haver ali a repetição de um padrão. Certa vez eu disse algo em um tom que o deixou em dúvida, e ele reagiu: “isso é uma afirmação ou é uma pergunta?”. Eu respondi “é uma pergunta”; então ele se tranquilizou e pôde dar seguimento ao seus pensamentos.
O período inicial da análise foi carregado de persecutoriedade, mas permitiu descobrir como acessar este paciente. O primeiro contato com ele, que, como dito, há 10 anos não saía de casa, foi por telefone. Me apresentei, expliquei como funcionaria o tratamento, e perguntei se ele gostaria de ter um encontro presencial. Ele disse não saber, falou pouco, mas dispôs-se a pensar. Conversamos novamente por telefone na semana seguinte, e ele concordou em comparecer. Foi preciso aproximar-me do paciente, num primeiro momento, garantindo que suas fronteiras não fossem invadidas. Eu o achava via telefone, mas seu esconderijo em casa estava assegurado.
Imediatamente após o início dos contatos presenciais, a possibilidade de ser visto e conhecido mostrou-se amedrontadora. Demorei, porém, a compreender que não se tratava apenas de resistência, mas do medo de estar exposto, de ser invadido pelo objeto e ficar à sua mercê. Foi preciso encontrar uma forma mais despretensiosa de estar com ele, e o jogo de esconde-esconde surgiu como um referencial inspirador. Interpretações que apontavam a necessidade de controle total de seu espaço e dos objetos externos – pais, irmãos –talvez despertassem o temor de sua própria agressividade. Tais intervenções não só faziam com que se fechasse, ficando muitas vezes em silêncio pelo resto da sessão, como o deixavam paranoico em relação ao que eu supostamente “sabia” sobre ele, conforme manifesto em sua fantasia de que eu trabalhava com programação neurolinguística. Aproximar-me por meio de perguntas revelou-se uma técnica altamente facilitadora para ultrapassar e diminuir a dificuldade de contato com esse paciente.
Outra decorrência do uso dessa técnica foi o desaparecimento das faltas e o paciente pôde expressar-se mais abertamente, manifestando, por exemplo, a fantasia de que as férias da analista fossem mentira, uma desculpa para não atendê-lo. Falamos sobre a sensação de que eu saía de seu controle e a raiva que meu afastamento despertava; ele suportou o período de separação e retornou após o mesmo. Mudei de país quando o paciente começava a aprender a dirigir e mudara para a casa de outro familiar. Ele aceitou o encaminhamento feito por mim e continua em análise.
Sabemos que a discussão em psicanálise a respeito do que fazer nos casos em que a interpretação não parece promover avanços vem de longa data. Balint (1993) ressaltava que, se o analista puder manter uma atmosfera tolerante por um período suficientemente longo, sem interpretações que interfiram, o paciente pode passar a cooperar de forma diferente, tornando-se capaz de encarar seus objetos e aceitar o mundo a seu redor, que pode ser de fato indiferente e pouco atraente (p. 169). Freud concebeu a interpretação como instrumento privilegiado de intervenção psicanalítica, mas sua eficácia continua sendo questionada por autores como Zygouris (2011), para quem
As análises freudiana e lacaniana partem de um mesmo pressuposto, o de que o analisando está, desde o início, em condições de ‘pensar’. É óbvio que todo mundo pensa, mas o método analítico é algo de particular e se apóia sobre uma modalidade de pensamento à qual não se tem acesso de imediato. (p. 13 – grifo meu)
Sem pretender estender a investigação sobre as condições do pensar, lembro que a função de pensamento se origina na possibilidade de representação do objeto, como postergação da ação. O paciente borderline tem seu espaço psíquico permanentemente ocupado pelo objeto; por nunca estar ausente, o objeto
não pode ser pensado (cf. Green, 1988). Ressalto ainda que os efeitos da interpretação dependem da capacidade do ego de fazer ligações, e que nos casos-limite o drama não se deve à luta entre o recalcado inconsciente e o ego, e sim “a uma incapacidade estrutural para articular uma tópica que permita simbolizações com um grau maior de ligação.” (Bleichmar, 2005, p. 173).
No recorte clínico vimos que interpretar pode ser não só ineficaz, mas prejudicial, e que perguntar pode ser uma forma de ajustar a distância, demonstrando que ainda não sabemos onde está o paciente, mas o estamos buscando. Usar perguntas seria uma forma de aplicar o modelo do jogo do esconde-esconde à análise de adultos.
Intervenções que ocupem uma área intermediária entre o sim e o não, a presença e a ausência, a afirmação e a negação, têm mais chance de ser bem-sucedidas. Como resume Green (1988), em casos assim
A única solução é dar ao paciente a imagem da elaboração, situando o que ele nos dá em um espaço que não é nem vazio nem preenchido até o transbordamento, mas um espaço ventilado, um espaço que não é nem aquele de ‘isto é ausente de significado’ nem o de ‘isto significa que’, mas de ‘isto pode significar que’. É o espaço do potencial e da ausência, pois, como Freud foi o primeiro a verificar, é na ausência do objeto que a representação dele é formada, a fonte de todo pensamento. (p. 48-49)
No prefácio ao livro de René Roussillon (1995), Donnet comenta ainda que, ao abordar as situações fronteiriças em análise, Roussillon indica que os intercâmbios falados “valem infinitamente menos por seu conteúdo semântico do que por sua dimensão virtual de jogos de linguagem” (p. 17), graças à qual podem ecoar nos registros onde se inscrevem as primeiras formas de interação.
Além disso, ao examinar o jogo da espátula, que considera um “precursor” do jogo do carretel de Além do Princípio de prazer (Freud, 1920), Roussillon (1995) mostra que o elemento crucial para o sucesso do intercâmbio com a criança era a não-reação de Winnicott ao seu ato (a mordida). A não-reação ativa do terapeuta à criança, ou do analista à agressividade do paciente, constitui a proteção anti-estímulo que permite à pulsão ser refletida e voltar transformada. Inicialmente, a mordida é pulsão em estado bruto. Graças à presença não reativa do analista, ela ganha potencialidade auto-erótica e se transforma em “mordisco”, ou jogo, mostrando que “o espaço do jogo se apóia em um espaço de não-jogo no qual a pulsão se ‘manifesta plenamente’ ” (cf. Donnet, no prefácio ao livro de Roussillon, 1995, p. 16).
Para concluir, vale a pena ressaltar que interpretar sistematicamente o material trazido pelo paciente expõe o analista ao risco de instalação e perpetuação do enactment, pois, como diz Donnet (1995, p. 16), a exacerbação da atividade teorizante do analista instaura, nestes casos, um ciclo de ação e reação. A atitude de passividade receptiva que, segundo o autor, remete à noção winnicottiana de feminilidade “como modo de ser”, parece adequar-se melhor às necessidades destes pacientes. No que diz respeito à técnica, Donnet observa que as construções feitas pelo analista a partir de suas vivências são enunciados menos comprometedores, que evitam o silêncio punitivo e têm menos risco de serem rejeitados do que a interpretação. Mas mesmo em se tratando de construção,
O simples fato de que atestem a atividade psíquica do analista bastará para suscitar o mais destrutivo ataque invejoso. Nestas situações, ninguém pretenderá prever ou controlar o efeito de uma palavra, e o essencial é sempre levar em conta sua ‘recepção’ pelo paciente. (prefácio ao livro de Roussillon, 1995, p. 15)
Embora não seja possível neutralizar os ataques dos pacientes, suscitados pela percepção de que há vida interior no analista – como observei em todos os casos ora apresentados – o modelo do jogo do esconde-esconde auxilia o analista a ajustar o tom de suas intervenções. Ter em mente esta referência favorece que o terapeuta sustente as funções de plasticidade e indestrutibilidade. Plasticidade porque se modifica segundo as necessidades do paciente; procura-o mas não o descobre precocemente; e deixa-o livre para mostrar-se em seu ritmo, sem revelar nada que deva permanecer oculto. Indestrutibilidade porque a atitude de procura ativa do paciente pelo terapeuta mostra que este permanece vivo, atento, e com uma disposição interna positiva em relação ao analisando. Com esta imagem internalizada, mudei a forma de conversar com meus pacientes, o que claramente lhes provocou menos persecutoriedade, inveja e agressividade.
Pontalis (2005) comenta a imagem de analista que herdamos de Freud, em
que “parecem combinar-se os traços de um decifrador, de um detetive e de um arqueólogo” (p. 219). O analista aderido a esta imagem fica perdido diante de pacientes difíceis, propondo um jogo transferencial que os pacientes não sabem jogar:
Quando Freud arrisca uma comparação da análise com um jogo, é numa partida de xadrez que ele pensa: o jogo mais distante possível do playing de Winnicott! Reconheçamos também que havia uma singular homologia entre a estrutura mental de Freud e a daquele que foi seu campo preferido: a psiconeurose, e singularmente, a neurose obsessiva, sobretudo no fato de que nela o processo de pensamento é privilegiado. (p. 219-220)
A necessidade de os pacientes anteriormente mencionados manterem o controle – desbancando, portanto, o analista astuto, intensamente pensante, jogador de xadrez – seria herança da experiência traumática com o primeiro objeto, sentido como controlador, onipotente, extremamente presente e excitante. Quando eu conversava com eles de forma a configurar um espaço menos saturado de significado e ‘sabedoria analítica’, eles tiravam mais proveito de nossos encontros, o que aos poucos levou à consolidação de uma relação menos verticalizada e de um campo comunicacional onde podiam se apresentar com mais liberdade e confiança.
ABSTRACT
This paper investigates the clinical meaning of the strong presence of the body and actions in analysis, to the detriment of verbal associations. It explores understanding the function and meaning of the actions and of the corporal manifestations in the borderline cases clinic. It aims to demonstrate the importance of reconsidering the notion of associativity, taking actions and manifestations in the body as messages sent to one's environment, the residue of a primitive relationship in which no verbal language exists as a means of communication. Then it uses clinical vignettes to investigate aspects of the psychoanalytic technique in the borderline cases clinic, starting from considerations related to structure, dynamics and fundamental anxiety (abandonment-intrusion) of borderline patients. It is proposed that it is of fundamental importance to use the hide and seek model in working with these patients, the goal of which is to seek out the delicate balance between proximity and distance. It concludes that interventions that occur in an intermediate space encourage the construction of a less verticalized relationship and of a field of communication where the patient may present himself with greater freedom and trust.
KEYWORDS: body; psychoanalytic clinic; act; borderline states; hide and seek game.