Com uma pequena introdução teórica e a partir de três exemplos – um clínico, outro da literatura francesa, e outro da realidade social – a autora pretende articular a realidade externa com o paradigma psicanalítico da realidade interna.
“A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mesma, porque o progresso moral da sociedade depende exclusivamente da sua independência.”
A primeira questão que podemos colocar sobre a liberdade é: como articular a objetiva liberdade exteriormente existente com a sua vivência, a que nos permite viver com afeto, sentimento, ou mesmo paixão?
Em Filosofia, a liberdade pode ser compreendida a partir de uma perspectiva que denota a ausência de submissão e de servidão, ou a partir da capacidade de autonomia e espontaneidade de um sujeito racional. Contudo, como sabemos, esta racionalidade articula-se sempre com o inconsciente, ou seja, com o não compreendido.
Nesse sentido, precisamos de ir além desta simples definição e completá-la com uma visão psicanalítica, na qual se considera o medo como a ponte entre o verdadeiro e o imaginável, entre o eu e o outro, entre a vida e a morte. É, pois, o medo, que dá a coesão ao afeto sentido. Desta instabilidade nascem lacunas que têm de ser preenchidas e que serão geradoras de novas perplexidades, mas estas lacunas vão-se sucessivamente preenchendo, dando origem à criatividade da vida. Este sentimento produz uma mudança que ocorre simultaneamente no corpo e na mente, integrando o eu e construindo o self.
Podemos observar no desenvolvimento psicológico várias etapas da evolução do medo: o medo primário, ainda não mentalizável na relação precoce; o medo da falha narcísica; o medo da falta de amor de si próprio; o medo da perda do amor do “outro”; o medo da desvalorização atribuída pelo seu rival com a consequente perda de poder; entre outros.
Vamos assim construindo a liberdade interna em contraponto com o sentimento de liberdade externa imposta pela realidade social. Considerando esta dualidade, deveremos abordar um outro conceito psicanalítico: o de traumatismo.
Este é um dos conceitos fundamentais na teoria dinâmica que assume na psicanálise contemporânea, mais recentemente, um lugar destacado e revalorizado, mas controverso e difícil. Controverso, tal como Freud entendia, na medida em que gera uma dificuldade de entendimento entre o real e o imaginário. Difícil, por ser apanágio da própria definição de inconsciente, e ter de ser encarado a partir de todos os ângulos da metapsicologia. Citando Freud (1926), “O eu sente-se enfraquecido, entregue à situação, entregue a um influxo de excitações excessivas para o seu próprio psiquismo”.
Este conceito abre caminho para a compreensão da relação da realidade externa com a realidade interna. Estabelece-se, assim, a ponte entre o acontecimento e aquilo que o precipita. O impacto da realidade, especialmente de certos acontecimentos sobre a vida interior e, consequentemente, sobre a sua fantasia, é indiscutível.
Qual será então o principal condicionante desta dualidade imposta? Voltamos ao medo como objecto real e externo, ou ao medo como introjecto desenvolvido ao longo do desenvolvimento psíquico na relação com a alteridade?
Este último vai-se transformando não só na sua vivência, mas também na sua essência, podendo atenuar aquilo que mais lhe causa sofrimento. Contudo, para o sofrimento ser minimizado, o eu utiliza os mecanismos de defesa mais adequados à situação. Surge, assim, a sintomatologia mais variada: desde o pânico, a fobia, a sideração, até à passagem ao acto. Esta descrição comporta em si
Artigo recebido a 5 de Dezembro de 2016 e aceite para publicação em 29 de Abril de 2017.
Comunicação apresentada no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”, em Abril de 2016.
Psiquiatra, Psiquiatra da Infância e da Adolescência e Psicanalista. Membro convidado permanente da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). e-mail: marialuisdecastro@gmail.com
mesma a evidência da restrição da liberdade interna com a consequente confinação da vida relacional. Como se vai então construindo a realidade interna?
Pierre Lüquet, afirmava “O pré-consciente meta-primário é o sistema onde se organizam todas as relações objectais que constroem a estrutura do eu”. Nas situações de um desenvolvimento psicoafectivo normal, a estrutura do pensamento, que permite uma normal comunicação regular, terá de ser plástica e leve, dando origem a uma sólida elaboração - sólida porque não rígida. Assim se cria uma estrutura elaborativa.
Estabelece-se, então, uma fluidez que permite um vai e vem reversível entre inconsciente e consciente. Designa-se pré-consciente meta-primário a este espaço inconstante e solto em que tudo pode ser integrado porque aceite sem angústia nem depressão, como uma nova forma de vivência. Poderíamos dizer que é a arte da vida.
No pré-consciente meta-primário, o pensamento mantem-se inteiramente simbólico e representativo, e a representação pode aparecer sobre todas as formas de espaço novo, ou seja, estabelecer novas ligações a partir de todos os aspectos produtivos da criatividade.
A incomunicabilidade é, seguramente, a maior tragédia humana. Se forte e racional, pode gerar ódio, que se vai consumindo no desespero. Se totalizante e sem possibilidade de ser vivenciada, leva à interrupção de pensamento, se não mesmo à destruição do aparelho psíquico.
Contudo, felizmente para todos nós, existem por vezes laivos de relação, pontes que se estabelecem entre o nada e o representável, que nos permitem imaginar para lá do imaginável e viver sentimentos para lá do próprio sentimento.
Falar do não representável é por definição uma utopia. No entanto, se o sentimento estiver ligado ainda que a um vazio, pode ter algo de substrato ligado ao imaginável que, por vezes, nos permite estabelecer uma comunicação dita “absurda”, no sentido em que não realizada pelos mesmos métodos, nem seguindo os mesmos caminhos.
Abre-se, assim, o caminho para a construção do mito, representante mais elaborado da realidade interna. Nas palavras do historiador Maurílio Adriani “A mitologia não pode consistir numa pura invenção, numa simples imaginação de aventuras mais ou menos miraculosas. Esta traz sempre consigo, ora patente, ora latente, um núcleo de verdade interna e de verdade histórica. Os mitos são sempre a roupagem poética de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos, de situações experimentadas, vividas”. Logo, existe um mito pessoal, que é a narrativa da nossa realidade interna.
Um pequeno apontamento de um caso clínico bem ilustrativo desta forma de mitologia pessoal e transgeracional de perda de liberdade. O João tem seis anos e veio à consulta por alterações graves do comportamento: pequenos incêndios e esfaqueamento de cortinas em casa.
É uma criança bonita, fisicamente bem constituída para a idade, de olhar atento, por vezes provocador. Apresentou-se extremamente bem arranjado.
Não eram evidentes sinais de excitação ou de agitação, nem de dificuldade de concentração, pelo que concluí não haver um quadro clínico de hiperatividade ou instabilidade.
Era, indiscutivelmente, uma criança inteligente, com boa capacidade simbólica, revelada por um desenho rico de metáfora. Logo pude concluir que tinha um aparelho psíquico organizado, o que não é habitual em casos graves como este.
Os pais são ambos jovens, licenciados em Gestão, e provenientes de famílias de alta condição social. Tomaram, face a mim, uma postura adequada, mas ansiosa, pois sentiam-se incapazes de resolver “por palavras” a situação do João.
O pai diz-me a certa altura com grande veemência: “sou incapaz de exercer represálias físicas contra o meu filho! Na nossa casa não há violência, nem nunca haverá”. A veemência com que esta frase me foi dita fez-me retê-la no pensamento, mantendo-me numa atitude expectante, aguardando o timing favorável para novamente a poder abordar.
E, realmente, no decorrer da terceira entrevista, quando a mãe – contendo o choro por desespero pela situação do filho, que mais uma vez tinha cortado as cortinas do seu próprio quarto – me diz: “já não posso aguentar mais esta situação!”. Eu digo-lhe “a violência física do seu filho?”. Após uma pausa, ela acrescenta: “a verdade é que penso sempre no trisavô do meu marido… Foi herói da guerra contra as etnias negras no tempo do Mouzinho de Albuquerque. É uma história muito célebre na família. Dizem que ele foi um dos oficiais que ajudou a queimar e a destruir, com catanas, as barracas dos negros revoltosos…”.
Para não me alongar mais, dispenso-me de vos descrever o desenrolar da situação. Penso, no entanto, ser este um claro exemplo da fantasia transgeracional projectiva do medo não elaborado e passado ao acto com a consequência da perda da liberdade interna desta família. Neste caso, podemos bem afirmar que sem liberdade interna: eu não penso, atuo! Sem consciencializar o medo, ataco; se ataco, posso perder a representação da vida. Esta representação é veiculada pela ligação, ou seja, pela vinculação estabelecida com o outro, mas com liberdade. Assim, a vida vivida na relação com plasticidade cria e acentua a maturidade e o prazer.
Mas não se pode falar da perda de liberdade interna, sem pensar no conto L'Hôte, de Albert Camus. Para quem não conhece, ou para aqueles que se não lembram, o fim desta narrativa é
impressionante. Descreve a entrega de um árabe, assassino de um primo, de um polícia a um professor primário, numa escola localizada num ponto desértico. Devido à impossibilidade do “gendarme” conduzir o prisioneiro até à prisão, é este que o entrega. O professor recebe o pedido do polícia e amigo com relutância, no entanto, aquiesce ao pedido deste. Posteriormente, organiza um farnel para o árabe e entrega-lho com a indicação de partir sozinho para a prisão.
Sendo uma tradução minha, passo à transcrição do fim do texto do autor, no qual as duas personagens já estão a caminhar há longas horas: “Daru acena com a cabeça em direcção ao árabe e diz-lhe: Pára. Agora deixo-te! Ele vira-lhe as costas e dá dois grandes passos na direcção da escola; olhando para trás, viu o ar imbecil e estupefacto do árabe imóvel e partiu. Durante alguns minutos, ele apenas ouviu os seus próprios passos, sonoros sobre a terra fria, não sentindo a necessidade de olhar para trás. Após alguns instantes, no entanto, ele volta-se. O árabe mantinha-se no extremo da colina, os braços caídos, mas agora fixando o olhar no professor. Daru sentiu a garganta embargada. Mas, com impaciência, fez um gesto largo e voltou a partir…”
Mais à frente: “Alagado em suor, Daru voltou à colina… Os campos de rochas do sul desenhavam-se nitidamente sobre o céu azul e, na planície, a leste, aumentava a bruma provocada pelo calor. E nessa ligeira bruma, Daru, com o coração apertado, descobriu o árabe, que caminhava lentamente na estrada que conduz à prisão”.
Este excepcional texto, centenas de vezes interpretado no domínio da Literatura, creio que ilustra bem, do ponto de vista psicanalítico, algo tão importante nesta teoria como a culpabilidade. Esta pode desencadear afectos e comportamentos auto e hétero destrutivos. O crime merece castigo e com esta convicção surge a esperança de repor um equilíbrio psicológico, sem o qual o sofrimento tornar-se-á insuportável.
Quando a convicção não é patológica é algo que o eu utiliza para a criação de uma estabilidade, que o poderá reforçar no seu desejo de esperança, a linha de continuidade de vida. A esperança transforma a nossa vivência de descontínua em contínua: apaga os momentos e realça a extensão no tempo.
Aqui, neste exemplo do conto de Camus, é como se a culpabilidade se confundisse com culpa. A rixa e a morte entre primos, entre irmãos do mesmo clã, transforma-se num crime fratricida, tabu inicial da humanidade. O desejo de punição é aqui superior ao medo da perda da liberdade. Só aquela (a punição) poderá reparar o dano devastador da estrutura do super-eu. A liberdade interna deixou de ser passível de ser vivida.
Do ponto de vista psicanalítico, consideremos agora os actos de terrorismo perpetrados ultimamente no mundo: debruçando-me sobre uma tentativa de compreensão da construção do aparelho psíquico destes agentes de violência que matam indiscriminadamente pessoas, acabando muitas vezes por se suicidar (embora haja outras já aventadas por outros colegas psicanalistas), não poderei deixar de referir um dos objectos do constructo freudiano da organização deste aparelho – o Eu Ideal. Depois, farei uma pequena abordagem às perturbações da construção do narcisismo.
O Eu Ideal é o objeto interno formado pela internalização das construções de expectativas dos outros em relação a si próprio. Inicialmente, identificação inconsciente com aquilo que os pais queriam que ele fosse e depois, construção de uma imagem idealizada de si, construída com base em figuras de identificação idealizadas: professores, figuras públicas, cantores, actores, etc.
O afecto dominante do Eu ideal é a vergonha de não ser capaz de corresponder às expectativas esperadas pelo outro. É, assim, gerador do sentimento de defraudar o objeto (ou seja, de defraudar-se a si próprio, pois o objeto que gera a expectativa foi também interiorizado), não sendo suficientemente bom para cumprir com o mandamento do Eu ideal. É o Eu ideal que começa a ser formado a partir do momento em que os pais começam a devolver à criança a imagem daquilo que ela é e deveria ser. Tem uma relação estreita com o narcisismo, com o sentimento de se ser aceite ou rejeitado pelo outro. Pode promover a construção de um falso-self para corresponder à expectativa depositada e tentar colocar o Eu ideal no lugar do Eu. Este pode ser moldado pela própria patologia. O perverso terá um ideal de eu que satisfará as próprias necessidades perversas; um obsessivo terá um ideal de eu que seja conforme as necessidades patológicas de limpeza, arrumação, ordem, obediência, etc.
Terminada esta pequena revisão deste conceito, posso inferir que estes jovens construíram-se psiquicamente com um vazio identificatório preenchido por um Eu ideal mortífero e perverso.
Assim, estou em crer que uma parte do self destes adolescentes foi desinvestida e, como refere Maria Torok, criou uma cripta na sua topografia, um vazio, um negativo, com a consequente falha na construção da identidade.
Neste caso, e segundo a elaboração de Haydée Faimberg: “para evitar a dor psíquica, podem ser usados meios de carácter omnipotente, identificando-se o sujeito com um self pouco coeso, com as suas partes malignas omnipotentes, permitindo a rejeição da dor real psíquica e corporal”.
Esta enorme fragilidade, que leva ao desespero de “nada ser” virá a ser aproveitada e explorada por outros com igual fragilidade, mas mais organizados no sentido perverso. É do confronto entre este
“nada ser” numa situação, num país, o eu ideal criado e desenvolvido na criança pelos próprios pais que se pode verificar, na conceptualização de Haydée Faimberg, numa identificação alienante. Citando a autora: “pais que não podem amar o filho sem se apropriar da sua identidade e não conseguem reconhecer a sua independência sem odiá-la, ou conectá-la à sua própria história de ódio criam nele uma identificação, que se poderia considerar de alienante”.
Estou em crer que estes jovens se identificam primariamente ao ódio que os pais desenvolveram ao país de acolhimento e reagem por identificação aos mesmos, à sua forma de vida de submissão, passando ao acto de forma destrutiva de si mesmos e do outro. Esta alteridade será sempre a representação/reprodução da sua relação parental em clivagem de amor e ódio, resultante da sua falha narcísica precoce transgeracional. Esta passagem ao acto é outro exemplo de perda da liberdade ao nível da realidade interna.
Assim, a realidade interna confunde-se com o amor, o desejo, o desespero, o ódio, a raiva a alienação, associados sempre à compreensão de si mesmo e do outro, resumindo-se ao conhecimento da nossa identidade e ao consequente sentimento de liberdade, que permite que o afecto seja plástico e doce.
Lembrando a beleza poética, plástica e doce de José Régio:
Vai o menino só na estrada grande,grande e medonha entre pinhais sombrios,entre uivos ruivos, roucos e bravios,arranhando o silêncio que se expande…A mãe dissera-lhe: “o menino andelonge das selvas, dos fundões, dos rios…“E avós, irmãos, amigos, primos, tios:“Menino, vá por onde a gente o mande!”Mas o menino foi desobedientee andou por vias ínvias ou sem gente,pela mão de enigmáticos destinos.Saltar-lhe-ão lobos vis e cães de el-rei…Foi pondo o ouvido em terra que escuteilobos uivar e soluçar meninos.
ABSTRACT
With a short theoretical introduction and starting from three examples, a clinical one, another from the French literature and still another from social reality, the author tries to articulate the external reality with the psychoanalytic paradigm of internal reality.
KEYWORDS