Neste artigo a autora debruça-se sobre a relação entre a falha narcísica e o trauma infantil, apresentando uma reflexão sobre as recíprocas implicações teórico-clínicas, entre estas, a patologia e processo psicanalítico. A presença de um self fragmentário como consequência da clivagem e de uma simbolização que se encontra enfraquecida ou seriamente comprometida, leva à necessidade de um trabalho analítico que não pode ser de rememoração, mas de sobrevivência psíquica e de criação da vida mental. Defende que, desta forma, também estes pacientes podem ser tratados pelo método analítico, desde que a destrutividade não invada grande parte da mente. Parte da noção de inconsciente como aparelho para a simbolização, estendido aos waking dream thoughts (Bion), partilhada da ideia do papel preponderante do analista, através da receptividade, da capacidade negativa e da rêverie, sendo esta última colocada ao serviço de um campo e de uma intersubjectividade, num espaço transicional que visa a expansão da capacidade de mentalização das experiências emocionais até aí não pensadas. No que toca à especificidade da técnica, convoca contributos tais como, float emocional (Hartke), construção da memória através da figurabilidade, em articulação com os conceitos, de campo enquanto par – único, e de interpretação, alargados por Ferro.
Neste artigo propomo-nos abordar as manifestações clínicas inerentes à falha narcísica, marcadas pela presença de um conglomerado de fragmentos que servem ao paciente de personalidade, e por um funcionamento clivado, debruçando-nos sobre o trabalho psicanalítico, como um processo, onde as coordenadas não podem ser: rememoração, repetição e elaboração.
Uma das primeiras patologias que vamos debater, as turbulências emocionais, coloca o analista desde logo perante um campo vazio (ou quase vazio) de vida emocional com recordações – a fragilidade dos processos de simbolização. As ligações entre elementos sensoriais e mentais, que tecem a rede dos afetos e dão uma história aquela pessoa, estão enfraquecidas, apagadas, ou perdidas nos movimentos centrípetos de clivagem, não podendo seguir o destino do recalcamento como acontece nos pacientes neuróticos. Aqui, encontramos à partida uma ansiedade que não está associada a desejos inconscientes reprimidos, mas sim ao medo do abandono, ao pavor do contacto com o vazio e mesmo ao terror da desorganização.
Artigo recebido em 8 de Abril de 2016 e aceite para publicação em 28 de Dezembro de 2016.
Artigo elaborado com base nas comunicações apresentadas nas Jornadas Ibéricas , nas Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise e no I Encontro de Psicanálise de Coimbra .
A apresentação do material clínico é feita de acordo com as regras para a confidencialidade, vigentes na IPA.
Psicanalista. Psicanalista de Crianças e Adolescentes. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). e-mail:
Partimos de uma concepção do inconsciente como um aparelho para a simbolização e, portanto, como um domínio em permanente expansão, num trabalho subsequente à relação sincrónica com um outro, através do sonho, igualmente visto enquanto processo psíquico contínuo, de elaboração e construção, com lugar não só de noite, mas também de dia pelos waking dream thoughts, o que é vital para o crescimento e homeostasia psíquica. Consequentemente partilha – se a visão de um trabalho analítico que assenta, na ideia de um analista a quem é pedido, um estado de receptividade e rêverie, sem memória, desejo ou intenção, e de capacidade negativa, tolerando a frustração e a ambiguidade de não saber, na espera pelo emergir de um significado. A escuta, que é confrontada com objetos bizarros, sem elos a vínculos, sem indícios ou pistas que indiquem simbolicamente os contornos do que foi fragmentado ou não representado, acontece também como uma qualidade do funcionamento mental do analista, oferecendo um espaço transicional, onde as duas mentes vão interagir, e onde aspetos não pensados e não tolerados, irão ser integrados em cadeias de significados (Levine, 2016). Esta perspetiva centra-se na intersubjetividade, ou seja, na convicção do papel e da atividade catalisadora do analista no desenvolvimento psíquico do paciente. Neste desafio, que é o tratamento destes pacientes, isolados da realidade em refúgios psíquicos, o objetivo é a expansão do seu potencial para o processamento psíquico, alargando a sua capacidade para conter as emoções, com diminuição dos mecanismos de defesa primitivos. Acrescentando ainda o conceito de campo, alargado por Ferro, que vem atribuir ao processo psicanalítico uma dimensão única, de par – específico, de compatibilidade singular, na medida em que ele não é apenas um encontro de repetições, mas também de criação e invenção, queremos sublinhar tratar-se da conquista de um outro território de criatividade, que amplia o trabalho psicanalítico para além da neurose de transferência, quebrando fronteiras teóricoclínicas e avançando para além da ideia de que uma psicanálise só pode começar a partir desse ponto. Será também indispensável mencionar o contributo do tratamento analítico de crianças e adolescentes, sobretudo os ditos de difícil acesso, para este aprofundamento do olhar e da técnica analítica.
Recorremos ao cinema, enquanto “dream factory”, para conferir narratividade à patologia narcísica nesta relação com trauma infantil. Partimos da referência a alguns filmes actuais, a saber: “We need to talk about Kevin”, da realizadora escocesa Lynne Ramsay, e adaptado de um romance de ficção de Lionel Shriver; “Buck”, um documentário de Cindy Meehl; “Her”, de Spike Jone; e “Disconnect”, do documentarista Henry Rubin, com o intuito deles retirar a vertente avassaladoramente caleidoscópica das manifestações desta relação. No seu conjunto, estes filmes, contam-nos a história de psiquismos devastados, da impossibilidade de amar, do narcisismo negativo, mas também da possibilidade de preservar a capacidade de sobreviver e de crescer, num território humano mentalmente longínquo de Tebas, onde Édipo se questionou e sobreviveu para gerar filhos. Situa-se antes num enclave psíquico, entre as montanhas absurdas de Sísifo e um planeta de aliens-beta, cheio de vidas que permaneceram tiranizadas ou robotizadas no conflito pelo objeto, à beira do abismo, da desistência, num gradiente que vai do caos à melancolia.
“We need to talk about Kevin” interessou-nos particularmente, in extremis, pela transmissão inconsciente e transgeracional de objectos não transformáveis, destinados a ficarem enquistados na mente do bebé num registo de negatividade, pela idealização da maternidade que exige deveres para além do que aquela pessoa pode suportar, pela negação da ambivalência e do ódio sentidos em relação ao filho, quando este traz experiências dolorosas de auto-penalização. Interessou-nos ainda, por isto poder acontecer por detrás de uma aparência social de perfeita integração, não obstante os acentuados sentimentos de exclusão, de não pertença e solidão, como neste caso se verifica na mãe, Eva, complementado com a passividade do pai. O filme fala-nos do crescimento de Kevin desde o momento em que os pais, (ela imigrante nos Estados Unidos, ele americano) se conheceram, até à sua adolescência. Foi uma criança desejada no plano consciente, contudo revela-se de imediato um bebé muito difícil, particularmente violento em relação à mãe, que verdadeiramente não quis ser mãe. Criança sempre muito isolada e fria, ataca todas as figuras significantes do seu meio, culminando aos 16 anos num massacre no ginásio da escola, onde mata nove crianças e ainda a sua irmã e pai, em casa. Condenado e preso, primeiro numa prisão juvenil, recebe apenas as visitas da mãe e é através das memórias trazidas por ela, integradoras do ódio, que o amor se revela e que ambos constroem, verdadeiramente, a história da sua existência.
“Buck” é um documentário sobre a vida de um cowboy americano, Buck Brannaman, domador de cavalos, internacionalmente conhecido. Homem
admirável, sensível, eficaz, com qualidades de um profundo empenho e envolvimento no seu trabalho, que lhe vêm justamente da resiliência perante uma infância precoce e um passado, cruéis e traumáticos, tal como se pode ver em vários flashbacks no filme. O seu pai, um ex-prisioneiro na Alemanha durante a II Guerra Mundial, batia nos filhos, sem causa nem aviso quando estava embriagado e Buck implorava à mãe para não os deixar sozinhos com ele, quando ia trabalhar ou quando era hospitalizada por problemas de saúde. Apresentada como afetuosa e calma, morre repentinamente quando ele tinha onze anos, tendo sido depois encaminhados por intervenção social, para família adotiva, onde foram bem cuidados. De salientar a dignidade com que o pai adotivo o introduziu no mundo do trabalho, como alguém que pode ser útil, mudando toda a direção da sua vida. Compreendendo que através do animal podemos ter acesso à natureza instintiva do homem, para Buck os cavalos são crianças e os cavaleiros os adultos, acrescentando que os humanos podem ser potenciais abusadores. Como ele refere no início do filme, escolheu trabalhar com perpetradores de abuso tentando ensiná-los como não o ser. Ensinava cavalos muito problemáticos, que se tornam perigosos em situação de socialização e treino inapropriado, fazendo notar aos seus donos, que os problemas com aqueles animais revelam, frequentemente, consideráveis problemas na vida do dono. Trabalhava de forma itinerante, viajando quase sempre solitariamente. No filme pode ver-se também um Buck caloroso ao telefone, com uma das suas filhas adolescente, e com a sua mulher, que aceitou esta forma de vida, dizendo que sente a falta dela e que as viagens lhe trazem solidão. Mas apresenta a sua vida como uma necessidade. Este é o modo como tem que a ter.
Aqui o que nos moveu foi a questão da dupla faceta do personagem: a afável, expressa na beleza e qualidade da resiliência, geradora por vezes de zonas cegas, e a outra não patente no documentário, mas trazida pela sua biografia, contendo os enactments de algumas das suas experiências traumáticas do passado. Um Buck ditador, submetido aos ditames de um calendário interior de intermitência nas relações, que tem de ter as coisas do seu próprio jeito e que, portanto, andando sozinho as pode fazer como entende sem oposição nem conflito, buscando a proteção e o conforto para os seus medos inconscientes na distância que põe, da sua própria família e dos papéis que lá desempenha.
“Her” fala-nos do amor idealizado, e fracassado através do personagem Theodore, um homem deprimido e melancólico recentemente separado da sua mulher. Vive imerso na realidade virtual e é através de cartas virtuais de amor que escreve, que consegue ter acesso e experienciar os seus sentimentos, de outra forma perdidos na clivagem. Emerge do seu estado de melancolia quando repentinamente se sente revitalizado pelo encontro com um novo sistema de inteligência artificial, desempenhado pela envolvente voz feminina de Scarlet Johannson. Este sistema no feminino, começa por organizar o seu computador e depois organiza toda a sua vida antecipando todas as suas necessidades e desejos. E Theodore apaixona-se por Ela. Mas Ela não tem corpo o que impossibilita o contacto físico e a intimidade sexual, coisas que por mais inteligência artificial que tenha está impedida de conhecer. Numa procura online, descobre uma mulher real que se encontra sexualmente com Theodore, encorajando-o a fingir estar com ela, tentando assim dar corpo ao seu desejo crescente e desta forma, sentir o que é o sexo real. A impossibilidade surge como um resultado devastador, remetendo-a de novo para a não existência.
Outro ponto muito tocante do filme é quando Theodore é assaltado pelo pânico e pergunta a Her com quantos está a falar ao mesmo tempo, naquele preciso momento. E ela, embaraçada responde - 8316! E por quantos está apaixonada, como está apaixonada por ele? E ela responde - 641! É aqui que, sentindo-se atraiçoado e perdido, o seu paraíso desmorona, sendo forçado a viver com as frustrações da realidade e com a dor antiga da perda.
“Disconnect” conjuga todos estes aspetos, com três histórias baseadas em fatos reais, transportando-nos para a dimensão anti-social do Facebook, Twitter, smartphones, etc., enquanto refúgio psíquico contemporâneo tão atrativo quanto ilusório. Explora a solidão, o vazio, a disrupção na adolescência, num cenário aditivo e refinado de cyberbullying, crimes cibernéticos e consumo de sites pornográficos.
Assistimos aqui, e no nosso trabalho clínico, aos efeitos do “desamparo originário”, muitas vezes transgeracional, marcado por carências, necessidades emocionais básicas não satisfeitas, experiências ocorridas nas etapas primitivas do desenvolvimento emocional, que não permitiram a transformação em conteúdos simbólicos, deixando a falha de identificações primárias com as quais a pessoa se organiza como cuidadora de si e da sua vida, com segurança, coragem e esperança.
Falhou a função alfa, a rêverie, o ambiente seguro holding, o terceiro separador e organizador e assim, neste desamparo originário ficarão albergados, estados de elementos beta à procura
de serem contidos e digeridos, impressões que evoluem para parcelas de raiva, e que ganham sentido na vingança e na culpa, mas que importa também que sejam lidas como tentativas primitivas de comunicação e apelos encapsulados de contenção e transformação. Impedem contudo a saudável estruturação edipiana, através da qual os desejos e as rivalidades em relação aos pais podem dar lugar, a vários tipos de identificações e escolhas de objeto, de uma forma mais livre, e ainda à descoberta do outro em si mesmo, heterogéneo e assimétrico, aquilo que eu não sou - the otherness.
Este estado de agonia primitiva, como lhe chamam Winnicott e Roussillon, constitui o trauma, ou de acordo com Bion, o trauma catastrófico, quando os níveis de frustração são insuportáveis, provocando um estado próximo do terror. Está relacionado com um fracasso da vivência da boa dependência, que inclui a vivência do ódio e da contenção do medo, atacando a construção da confiança básica, deixando o Eu imaturo da criança, num desamparo extremo, impregnado de excitação, em procura incessante, que não pode seguir a via da representação e da integração e também da realização alucinatória do desejo, ou seja, da ilusão reparadora da falta do objeto, que dá sentido à vida libidinosa. Pois só o desejo pode induzir a consciência da separação, a primeira experiência de perda, e a procura criativa de soluções. Aqui, o que está em questão é a sobrevivência psíquica, o que implica, primeiro, encontrar uma representação do evento traumático que tenha para o indivíduo um significado possível de integrar e de suportar.
Na sua atitude de recetividade ao paciente de funcionamento fragmentado, o analista não pode contar com a capacidade deste para percecionar e conhecer continuamente, a sua realidade quer interna quer externa por não haver, nem ligação dos acontecimentos da sua vida aos afetos, nem consequentemente a possibilidade de aprender com a experiência. A tridimensionalidade, passado-presente-futuro, não é um dado à partida. O paciente vem por episódios disruptivos, que lhe inviabilizam o seu dia a dia, sem um sentido emocional da sua história individual e familiar, mas que também lhe trazem um sofrimento comprometedor da sua sobrevivência psíquica. A comunicação é, muitas vezes, caótica e arcaica, e quase sempre superficial e desvitalizada.
Contudo, se a impulsividade e a destrutividade não invadem e ocupam grande parte da mente, e se existe um lado saudável com que se possa fazer uma aliança é possível, na nossa perspetiva, trabalhar analiticamente, num processo intersubjetivo onde a capacidade negativa e a contratransferência têm preponderância, no sentido da reparação do tecido mental dilacerado e interrompido, pela construção ou reconstrução, ajudando a completar, reter, lembrar, clarificar, ligar, passo a passo, o que acaba de ser dito. Perante um tecido rasgado é necessária a disponibilidade e o treino para ir um pouco mais além da atenção flutuante, com o que Hartke (2016) considera ser o float emocionally, isto é, seguir as correntes emocionais prevalecentes, redimensionando a escuta, absorvendo, contendo, nomeando e, desta forma, diminuir os níveis elevados de angústia abandónica que atacaram e atacam as possibilidades de um aparelho de pensar.
O analista deve também estar preparado para receber as projeções e identificações projetivas massivas, não apenas como defesas, evacuações ou controlo omnipotente, mas como já foi referido, como tentativas e apelos primitivos de contacto, de encontro com um continente, que possa guardar e ligar o que esmaga e que existe internamente sob a forma de sensações e de perceções não representadas, tal como partículas que não podem ser diretamente observadas. A recetividade e gradual ligação, pela função alfa, deste caos de elementos beta a cadeias de símbolos, vai gerando o “aparelho para pensar os pensamentos”, ou para “sonhar os sonhos” ou ainda, de acordo com Ferro, a função narrativa, que protege e previne da disrupção traumática e prepara para a construção de memória e para o “amanhecer do esquecimento”.
A função alfa abre também espaço a estados de imaginação criativa semelhantes ao squiggle de Winnicott, brincando, explorando a possibilidade de sonhos em conjunto com o paciente, que nos aproximam de qualquer coisa que é desconhecido para ambos. Nestes momentos é comum o aparecimento de material onírico com aliens, e nas crianças jogos com seres do tipo megatronics, de existência metálica, que se querem aproximar da terra mas que não têm ainda possibilidade para o fazer. Pela avaliação das sessões que se seguem e pela evolução, podemos perceber tratar-se de uma espécie de esboço de um desejo de integração de aspetos não conhecidos, tanto para o analisando como para o analista. É também neste ponto que se podem gerar impasses, às vezes com reações aparatosas nos mais pequenos, recusando-se a vir ou entrar na sala, rejeitando-nos e nos adultos pedindo para reduzir a frequência, irritando-se, desqualificando e, assim, tentando desvitalizar o analista. Com impasse ou sem ele, as intervenções são fundamentalmente baseadas em significados
gerados pela díade, sob a forma de interpretações não saturadas (Ferro, 2006) que se aferem não propriamente pela resposta verbal do paciente, mas pela diminuição de sintomas, seguida de expansão mental e de “mais pensamento”. E é a presença destes dois aspetos em conjunto, que nos deverá supervisionar o nosso próprio trabalho.
A intervenção do analista é muito centrado no registo emocional de cada sessão, mas as ocorrências espontâneas a partir deste registo não devem ser confundidas com “memória e desejo”. Elas são reflexões sobre o instante, que levam a perceber porque emerge um determinado tipo de material nesse momento e não noutro, sendo importante manter presente a existência de várias possibilidades, dada a característica fragmentária do self, e ir reavaliando na contra-transferência a densidade que cada uma delas vai ganhando. Serão elas que conduzem o analista a indagar, se as ansiedades básicas pertencem à castração, ao luto, ou ao vazio, se os mecanismos de defesa se centram na clivagem ou na repressão, se a relação de objeto é parcial, total, narcísica, qual o nível de mentalização – unidimensional, bidimensional, tridimensional -, que aspetos do analisando ou do analista interagem em cada passo. As características pertencentes a cada um destes patamares têm, evidentemente especificidades transferenciais e contra – transferenciais na relação analítica e requerem níveis distintos de trabalho (Hartke, 2016).
Julgamos ser aqui útil convocar o conceito alargado de interpretação (Ferro, 2005), como qualquer intervenção linguística ou não, capaz de gerar transformação. Pois é verdadeiramente ela que vai introduzindo a discriminação temporal-espacial, escultora da tridimensionalidade da mente do paciente enquanto indivíduo com uma história própria, com uma continuidade, e também reveladora da existência do analista enquanto objeto assimétrico. Mais uma vez, pensando no tratamento analítico de crianças ditas difíceis, isto é percetível quando se permitem emergir da cápsula narcísica e adquirir capacidade autobiográfica, ou mais adiante dar sinais de acesso à noção piagetiana de irreversibilidade, suportando as dores da realidade. Mas saliente-se também a paixão, nomeada por Bion como um dos componentes principais da interpretação. Ligada ao conhecimento intuitivo, representa um estado propulsor de turbulência derivado do conflito entre novos e velhos afetos, ou seja, entre L, H, K e -L, -H e -K, digamos assim, no coração do objeto transformacional. Fortalecendo as capacidades intuitiva e recetiva, produz a sintonia na intersubjetividade e, consequentemente, a base para poder sonhar. É a forma de amar, no processo psicanalítico, e exprime-se pela identificação projetiva, oferecendo uma possibilidade de absorção e digestão das ansiedades do paciente, transformando-as em pensamentos até aí não experienciados (Miggliozzi, 2016).
Passarei agora a apresentar alguns excertos clínicos de quatro casos em análise, sendo dois de crianças, que têm em comum o encontro intenso, entre o lado mais saudável e a parte psicótica das suas personalidades ou do seu desenvolvimento, mostrando a luta entre a procura de conhecer (K) e não conhecer (-K).
A paciente a quem chamaremos Clara, está no quinto ano de análise. Mantém uma relação estável há anos com o seu companheiro, sente-se relativamente satisfeita com a sua profissão, mas vem por um acontecimento incestuoso com o seu irmão, que apagou da sua mente durante anos, permanecendo apenas um fantasma de angústia que não conseguia explicar e um quadro de alexitimia, com consumo de álcool, que lhe anestesiavam a luta incessante com os seus objetos internos. Um confronto aparentemente casual com a realidade traz-lhe, parcialmente, a “cena do crime” à mente como algo que não lhe pertence, mas que em simultâneo lhe desenvolve uma implacável culpabilidade inconsciente, um julgamento sem perdão, paralisador de alguns projetos pessoais, que lhe desencadeia episódios paranoides, auto-referenciais, acreditando ouvir comentários da sua história nas entrelinhas das conversas dos amigos e colegas de trabalho. Isto levou-a algum isolamento e ideias de suicídio, como fuga, quando a dor era tão forte que não podia ser tolerada. A meio do processo, depois de digeridas e transformadas pela rêverie as angústias catastróficas mais intensas, várias vezes repara e nos fala, melancolicamente, dos lenços de papel que vê sobre a mesa na sala de consulta, como algo que está ali para os outros pacientes e não para si, perguntando-se “porquê que não consigo chorar? Porquê que eu não consigo sentir?”. Através desta projeção, foi-se percebendo o reconhecimento progressivo da sanidade e os sentimentos, de estranheza, inferiorização, e de exclusão deste território, que outros podem ter a bênção de habitar e que na sua fantasia, também eu analista hei-de preferir. Começaram a ser os primeiros sinais de uma dolorosa integração do seu lado doente, como pertença sua, contrastando até com anteriores imagens omnipotentes, acerca de si, que tal como a paranóia, eram produtos de uma mente não desenvolvida e uma fuga aos intensos
sentimentos de desamparo. Durante o quinto ano de análise repete um acting já acontecido outras vezes. Traz-me doces, sem ser nenhuma época em especial. Aceito mais uma vez, dizendo ser simpático, mas que realmente não precisa de fazer isso. Quando questiono o porquê naquele momento, diz-me que não é por nada em especial, apenas queria fazer-me um mimo. Nas sessões anteriores não existia agressividade que necessitasse de ser clivada e o material seguinte, de grande concretude, também não me permitia a formulação de hipóteses. Só o acompanhamento contra-transferencial do clima emocional dominante me permitiu continuar em contacto com o seu refúgio psíquico. E é essa a interpretação que ganha densidade em mim e que decido comunicar-lhe. Naquele momento a paciente começa a chorar, em silêncio, com o olhar dirigido ao chão, profundamente sofrido. Questiono-me se as suas lágrimas serão um presente, um gesto de gratidão, tal como os doces, ou serão a lucidez da sua condição, a lucidez acerca do lado psicótico que terá que integrar e com o qual terá que viver? Ou as duas coisas? Algumas sessões adiante devolvo-lhe esta questão e ela diz: “Esta minha condição sim, que me faz ser diferente dos outros! Não poder sentir, não ter respeitado as leis da vida!”. Expande acrescentando que se sente mais livre, mas que isso também lhe traz a vergonha mais do que a culpa, dois sentimentos dos quais se sente refém porque a fazem realmente sentir inferior, e que não pode corresponder como uma mulher – casar, ter filhos – perante o companheiro, as famílias de ambos e perante si própria, ainda que este desejo de normalidade e de princípio da realidade tenha conquistado, na sua mente, o espaço que, no início, era ocupado por “ruminações” paranoides, enquanto voz retaliadora da sua vergonha e da sua culpa. Neste ponto, pergunto à paciente se ela consegue reconhecer aqui sinais de crescimento e de um grande progresso. Ela emociona-se de novo e as lágrimas caiem em surdina.
Lisa é uma pequena paciente de sete anos, que chegou aos três com um diagnóstico médico do espectro autista, em relação ao qual fomos alimentando algumas dúvidas, dada a qualidade do afeto e da compatibilidade que a menina foi revelando no par analítico. Não falava, apenas emitia sons, não me olhava nos olhos e ignorava a minha presença. Paradoxalmente, manifestou, logo desde o início uma curiosidade, ainda que intermitente, pelos meus objetos, pelo interior da minha escrivaninha, pela flor de papel que lá encontrou dentro, embora a tenha abandonado nos minutos seguintes. Estabelecemos uma frequência de três sessões por semana. Nos primeiros tempos foi necessária a presença da mãe na sala, pois permanecia num choro muito regredido e dilacerante perante a sua ausência. Contudo, progressivamente, foi-se ligando a alguns brinquedos duros, todos da mesma cor. E eu, oferecia-me como continente sonoro, que lhe ia dando pele psíquica, contando histórias: a história do nosso encontro, a história dos seus ruídos, da flor de papel; dava vida aos brinquedos duros, atribuindo-lhes sentimentos, punha-os a dialogar com outros mais fofos, que ela podia agarrar e sentir. No terceiro ano de análise, quando eu estava de joelhos no chão a brincar junto dela, descobre-me o olhar e numa exclamação diz: “Tem cor!”. Foi o primeiro de progressivos movimentos, com muitos retrocessos também, para fora da cápsula ou do refúgio psíquico que a isolava do mundo, descobrindo naquele momento que existe vida para além dele e que essa vida vale a pena. Durante o quarto ano, aos seus sete anos, antes das férias do verão, já a ser capaz de se narrar, pinta-me: numa folha a cabeça, noutra o corpo, noutra os braços e mãos, noutra as pernas e pés. Construí o puzzle no chão, contando-lhe a história da nossa partida para férias e acrescentando que assim seria mais fácil levar-me no seu pensamento sem, contudo, estar certa se é aí que me guarda. A seguir, no regresso, traz de volta um jogo antigo em que ela é o monstro e me vai comer, explicando-me que fico dentro da sua barriga. Comento que deve ter sentido a minha falta porque na sua barriga eu devo ter desaparecido, e que eu não a vou comer mas vou guardá-la no meu pensamento, como guardei durante as férias. Assim levo-a sempre comigo. Alguns meses depois, Lisa chega a uma sessão pensativa. Encaixa-se descontraída no sofá, com a cabeça num dos braços e as pernas traçadas no outro, como se estivesse deitada no divã e pergunta: “Conceição, o que é sonhar?”; “É pensar quando estamos a dormir, ou até quando estamos acordados”, respondo. Continua:“Eu vi-te no meu sonho”. “E o que estava eu lá a fazer?”; “Tu estavas a partir um muro”. Da cápsula autista, penso. “E que duro que deve ser esse muro”, comento.
Não aceita mais palavras sobre o assunto e vai brincar minutos como se eu não estivesse presente. Alguns meses depois é notória a sua capacidade auto-biográfica e, na metade de cada sessão, passa a ser ocupada com a necessidade de compreensão do seu lugar face à cena primitiva, à sua pertença na família e, com a curiosidade sobre a minha família, começando a aceitar que não moro ali e que tenho uma vida própria com outros de quem gosto. No seu imaginário tenho um filho e, com sorriso brincalhão, diz-me que não tenho marido. Pergunta-me também se quando ela “for pessoa
adulta, se eu vou ser velha; e se vai continuar a vir ao consultório para sempre.“ Lisa começa a ser capaz de ler a realidade, a existência do outro, a separação, a irreversibilidade e a situar-se nela, tolerando a frustração. Por essa altura diz-me, tímida, que já sabe ler, o que me é confirmado pelos pais, como se, desta forma, ela também conquistasse, junto deles, uma nova inscrição simbólica, mais próxima de um registo edipiano, onde têm de existir fronteiras, construídas pelo recalcamento, de características bem diferentes do muro que me via partir no sonho dela.
Lúcio tem nacionalidade estrangeira, é luso descendente, oriundo de uma família conservadora, religiosa e culta. Viveu e trabalhou no estrangeiro, de forma muito auto-suficiente, na área da saúde, sentindo-se sempre muito gratificado com a sua profissão e demonstrando uma enorme capacidade de se identificar, como na referência que Levine (2014: 10) faz a Green , “com as feridas e hemorragias” daqueles que assistia e com “as dores sem imagem do ferimento”. Muito reservado, com tendência a isolar-se e com uma notória adesividade a valores coletivos que o foram protegendo de tomar más decisões, manteve lá a relação significativa da sua vida, mas descomprometida, por entre outras tão intensas quanto efémeras, que iam acompanhando a itinerância do seu trabalho. Regressa a Portugal, alguns meses após o fim dessa ligação, com queixas de crises de pânico avassaladoras, associadas a sintomas idênticos à insuficiência cardiorrespiratória, que o levaram a isolar-se ainda mais do que o habitual, repudiar a presença de outros, deprimir e questionar a sua vida. Vem refugiar-se na casa que herdou da avó materna, num sítio idílico, de onde apenas sai para vir às sessões e fazer compras. Regressou temporariamente, mas agora pondera procurar trabalho cá. Procurou ajuda de médico da especialidade dos seus sintomas, que o avaliou sem resultados positivos e, em consequência, sugeriu psicoterapia. Através das suas pesquisas na net, único lugar onde procura respostas para as suas dúvidas, descobre a psicanálise, que associa a algo mais intenso e profundo, e é esse o seu pedido. Contrastando com a pessoa energética que é profissionalmente, vem deprimido, esmagado por uma angustia à qual não consegue dar nome, e por um profundo sentimento de não conseguir organizar a sua vida, por não se ver capaz de utilizar os seus recursos e a sua experiência profissional, mas também motivado para encontrar um sentido, dando sinais de que há um potencial para se pensar. Permanecemos num período “crepuscular”, que nos permitisse conhecer a possibilidade de lutarmos em conjunto por uma análise, e ao fim de meio ano Lúcio decidiu que iria ficar, tendo pedido para passar de três para quatro sessões semanais.
A partir da experiência de recetividade ali, sob a rêverie transformadora da analista, foi-se construindo o significado emocional do cuidar das feridas, até aí verdadeiramente inexistente e, a sua a infância foi emergindo, mas factual, em fragmentos, despidos de afetos e, por isso, rasgados e clivados, que se vêm agora juntar mas sem articulação entre si, fragmentos que foram criando e adensando na minha mente a imagem de um menino só e silencioso nos “longos corredores” de uma família invasora, com atropelo e rivalidade narcísica permanentes, oscilando com o abandono. E ele sempre figura desvitalizada, dentro de uma espécie de redoma de letargia da qual só se libertou na adolescência pela via da introjeção da hostilidade reinante, cristalizando um super-ego primitivo, que o levou a paralisar a sua autonomia em novas ligações, quer de amizade, quer amorosas. Essa imagem foi progressivamente ganhando em mim contornos de uma repetição traumática. Ou seja, o isolamento, a insuportabilidade da voz do outro que vem manifestando, fazem-nos levantar a hipótese do eco, da cicatriz profunda da violência surda, das suas relações ou das suas não-relações infantis e o modo radical como se coloca perante elas e da maioria das pessoas do seu presente. Este pictograma, que deu vida ao que tinha apenas uma pré-existência, adquire contra-transferencialmente, uma grande intensidade quando lho comunico e nas sessões seguintes o paciente refere que esta imagem de si foi das descobertas que mais sentido lhe fez. Sentindo-se profundamente compreendido, este pictograma assume aqui o valor da construção de uma memória que começa também a dar à bussola transferencial um rumo. Não estou ainda no lugar de objeto. Não sou ainda um objeto. Sou apenas e já muito, um ambiente nunca tido, onde procura espaço, sem dele, no entanto, se distinguir. Como se eu e ele fossemos sintónicos em tudo e qualquer sinal de diferença fosse imediatamente apagado. E é desta forma, que eu analista tenho de me deixar usar.
Reconhece com angústia, não se conseguir lembrar de coisas boas. Fomos nomeando o factual com sentimentos como solidão, raiva, impotência e associando aos sintomas somáticos, que começaram a ceder. Fomos também ligando tudo isto às marcas traumáticas da presença destrutiva do outro nele e Lúcio foi também percebendo que para si, proximidade é sinónimo de intrusividade disruptiva, sentida quase sempre como agressão, até mesmo uma violação de si como pessoa e por isso repudiada, ainda que inconscientemente reclamada. Só o silêncio, onde quer que esteja, lhe
dá o conforto, a garantia de ser respeitado e ele passa a ser, entre nós, a primeira metáfora para o seu refúgio psíquico, à semelhança do muro, no sonho de Lisa.
Termino agora com um excerto da análise de um rapaz com 8 anos naquela altura, que representa já uma espécie de chegada a Memoir of the future – The Dawn of Oblivion, “carregado de simbolização, como um resultado transformacional, conseguido depois da longa travessia da experiência catastrófica”. Trata-se de um menino, com dois meios irmãos mais novos, de ambos os pais. Tem uma história de separação dos pais, seguida de outra de violência verbal e física contra os objetos da casa, por parte do novo companheiro da mãe, de quem esta também se separou, sendo que as ameaças constantes se mantiveram durante algum tempo. Provocaram nele um terror tão intenso onde não existiam formulações verbais para o dizer. Iniciou com duas sessões semanais, tendo passado a três durante o primeiro ano. Numa sessão durante o quarto e último ano de análise, o pequeno paciente esconde – se atrás de um sofá, dizendo que era uma guerra e que me ia lançar bombas. Sugiro-lhe a construção de bolas de papel, que me vai atirando, com os sons estrondosos de rebentamento. Pergunto-lhe do meu sítio quem é ele. Explica-me que vem do espaço e que me bombardeava; sou Alex o Bombardeiro, o Chifre Infalível. Pergunto de novo porque me bombardeia. Responde: “Sou a Terra e quero roubar os seus frutos”. De seguida, manda uma “bomba” maior, dando-me ordens para que morra. Assim faço, caio morta no chão e Alex, o Bombardeiro, o Chifre Infalível, aflito de medo da castração, às mãos de um super-ego primitivo ainda com laivos arcaicos de implacabilidade aniquiladora, enrola-se sobre si mesmo debaixo da secretária. Aí permanece encolhido e estático, deixando-me por momentos sem saída. De olhos fechados, vejo-me entre um caos de brinquedos espalhados, mortos e abandonados, mas procuro no meu cenário interno um sinal de vida. De dentro de mim, avisto um peão de madeira verde, com um rosto afável de lagarta, como um terceiro analítico que sorri para nós e me reanima o braço. Num ato de fé, procuro-o à minha volta e, com um grande sentimento de alívio, injecto vida no boneco – “Sou a lagarta simpática que sobreviveu a todos estes ataques”. Alex saí da posição enrolada e por detrás da secretária, vejo os seus enormes olhos vivos de espanto a espreitar, perante o aparecimento de um agradável estranho que lhe induz a curiosidade. Num ápice, reaparece, igualmente aliviado, como se entre realidade e fantasia existisse apenas uma “thin red line” e ele diz – “agora já podemos brincar!”.
Acrescentei: “E agora até podemos brincar muito mais descansados!”.
Alex, o Bombardeiro, Lúcio, Lisa e Clara, tal como Kevin, Eva, Buck e até Theodore, fazem relembrar Blanchot, citado por Tarentelli (2016) referindo-se a estas experiências como algo onde se morre sem morrer ou sem desaparecer; ao sentimento paradoxal de se estar morto mas ao mesmo tempo vivo, onde nos confrontamos com a tarefa de perceber como é que alguns daqueles “ossos” poderão dar nascimento ou expansão à mente em alternativa ao refúgio psíquico em que se permanece encolhido com medo da humilhação, com medo do presente e do futuro. Porque o ser humano pode, não obstante a violência e a destrutividade, preservar a capacidade para crescer.
Com este material clínico podemos ver que em face da falha de si mesmo e de vida mental, estes pacientes vêm à procura de um ambiente para nidação psíquica, numa expectativa positiva de existência, que ajude a sarar a ferida do seu desamparo originário. Não conseguem por isso reconhecer o outro como sendo verdadeiramente um outro, com vida própria, nem a experiência de “estar com”. E esta é uma questão chave, em nosso entender, do processo analítico, nos casos chamados de difícil acesso. Pretendemos ainda mostrar, a produção de símbolos num trabalho que gera os pensamentos e confere significado a experiências que nunca foram reprimidas porque nunca tinham sido pensadas, a reconstituição das representações, dilaceradas ou inexistentes, que se faz suturando os rasgos traumáticos do encontro com a ausência ou com a destruição, construindo de forma criativa, as bases da vida mental do sujeito e de um narcisismo positivo.