Neste artigo, é abordado o agir compulsivo no corpo como uma forma de evacuação de uma angústia primitiva avassaladora. O recurso a mecanismos de defesa como clivagem e denegação contribui para a coexistência de uma parte da personalidade bem adaptada à realidade e de uma parte circunscrita delirante. São referidos vários quadros psicopatológicos, assim como frequentes fantasias inconscientes subjacentes ao agir compulsivo no corpo. É ainda feita referência a uma outra situação caracterizada por uma actividade física intensa, com carácter compulsivo, cujo objectivo é alcançar um domínio e controlo total do corpo físico, das fantasias e emoções, resultando numa espécie de armadura defensiva que pode ser considerada como equivalente a um «falso self somático». Como característica comum a estas situações, verifica-se uma insuficiente diferenciação self-objecto e uma insuficiente capacidade de simbolização e desenvolvimento da identidade. Para concluir, refere-se a importância da continuidade do processo psicanalítico e da necessidade de tempo, alertando-se para o facto de estes pacientes procurarem o psicanalista quando já existem danos físicos irreversíveis.
As modificações compulsivas da superfície do corpo podem ser encaradas como um paradigma da sociedade em que vivemos, em que o agir cada vez mais ocupa o lugar da fantasia e do sonho. Torna-se difícil para nós, psicanalistas, discutir este tema do ponto de vista teórico-clínico, uma vez que estes sintomas são geralmente ego-sintónicos, encontrando-se estes pacientes dominados pela concretude da sua passagem ao acto no corpo. Quando estes pacientes nos procuram, tencionam obter uma cumplicidade que lhes permita atingir os seus objectivos, isto é, «agir» a transformação nos/dos seus corpos, ou a posteriori, quando no pós-cirurgia se confrontam com a desilusão de não ter havido a transformação esperada ou de não se reconhecerem nessa transformação. Existem ainda outras situações, cada vez mais frequentes na clínica, em que se verifica uma actividade compulsiva, tendo em vista um controlo total do corpo e das emoções, numa dissociação psicossoma, de forma que se garanta um total domínio de qualquer expressão sensorial e emocional que possa ameaçar o eu, ou a relação entre o eu e o outro. O controlo da afectividade, da pulsionalidade e da fantasia tem como objectivo construir uma imagem omnipotente, de grande vitalidade e sucesso, obtida através de um exercício rigoroso, físico e racional. Essa imagem grandiosa, activa e eficiente, não é fruto de uma energia interna criativa, funcionando como uma auto-estimulação que daria uma sensação de limite e coesão do self, como uma armadura protectora a qualquer estímulo, interno ou externo, que pudesse pôr em perigo o pseudo-equilíbrio alcançado. A intensa actividade e sucesso profissional, a sua atitude e porte físico, fruto do investimento no corpo, tornam estes indivíduos num modelo de sucesso. Esta situação tem pontos de semelhança com o que P. Goldberg (2004) descreveu sobre a organização de um «falso self somático», com recurso a uma auto-estimulação enquanto forma de revitalização do self.
Citando A. Ferro,
O problema da espécie Homo sapiens é o de ter uma mente que tem necessidade de cuidados para se desenvolver de forma harmoniosa, e cujas falências
Artigo recebido em 24 de Fevereiro de 2018 e aceite para publicação em 30 de Março de 2018.
Comunicação apresentada na V Jornada Ibérica Teórico-Clínica de Psicanálise: «Modificações do Corpo, Identidade e Disrupção», realizada no dia 7 de Outubro de 2017, em Lisboa.
Médica psiquiatra. Psicanalista de crianças, adolescentes e adultos. Membro titular com funções didácticas do Núcleo Português de Psicanálise (NPP) – Grupo de Estudos da IPA, e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Presidente do NPP. Membro da Société Européenne pour la Psychanalyse de l'Enfant et de l'Adolescent (SEPEA), ex-co-chair para a Europa do COWAP. E-mail:
Page 19de desenvolvimento levam às várias modalidades de evacuação dos elementos β não transformados em α; do meu ponto de vista poderíamos dizer que a nossa espécie tem um aparelho para pensar absolutamente arcaico, um esboço daquilo que poderá vir a ser. Este aparelho, assim rudimentar e delicado ao mesmo tempo é, de qualquer forma, inadequado para o nível geral da nossa espécie, portanto, o que é habitualmente considerado como pulsão ou instinto de morte poderia ser somente o resultado da actual inadequação da capacidade da espécie em transformar os estímulos sensoriais: o que não consegue ser alfabetizado será evacuado em alucinações, doenças psicossomáticas, actuações em espessura de pensamento. (Ferro, A., 2007, p. 60)
Mente e Corpo constituem uma entidade una, em que o corpo não poderá ser considerado apenas como o não-mental ou o não-psíquico do self. O corpo, ou o «somapsíquico», é, por um lado, usado como o «seio toilette» (Meltzer, D., 1967) da mente, mas, por outro, como uma fonte de sensações e estímulos que se impõem à mente, «psicossoma», em busca de transformação, ou como pensamentos em busca de um pensador que os possa conter e pensar (Grotstein, J., 1997).
A mente vai-se desenvolvendo e diferenciando progressivamente a partir do corpo, provavelmente ainda durante o período de vida intra-uterina. O espaço intra-uterino é um espaço protegido, um meio líquido em que os limites do feto são dados pela contenção através do saco amniótico, reforçado pela parede uterina. Com o acto do nascimento, rompe-se esse equilíbrio e o feto confronta-se com uma multiplicidade de estímulos internos e externos que o invadem, e que provocam uma vivência de ausência de limites, de queda num abismo e de aniquilação.
É numa vivência pele a pele, num contacto veiculado por sensações olfactivas, tácteis, auditivas e visuais, numa relação e num ritmo estável e regular, que a mãe, pela sua capacidade continente e de rêverie, pela sua função α, poderá acolher os elementos β projectados — proto-emoções e elementos proto-sensoriais (Bion, W., 1962) — e transformá-los, dando um sentido às projecções sensoriais e violentas que invadem o bebé e que este não pode conter nem transformar, caindo num «terror sem nome» (Bion, W., 1962). É o contacto íntimo, pele a pele, que permitirá a criação de um fantasma de uma «pele psíquica» (Bick, E., 1968), de uma «pele comum à mãe e ao bebé» (Anzieu, D., 1974), envolvendo-os a ambos, e que permitirá que o Eu do bebé se vá progressivamente estruturando. Referindo-se a esta profunda vivência visceral, T. Ogden (1989) designa-a por «posição autista contígua». A elaboração desta posição passaria pela capacidade de a mãe e o bebé criarem formas de experiência sensorial que tornem suportável a consciência de separação, dando à criança uma noção primitiva de Ser.
A propósito do estado pré-natal e da sua influência no período natal, M. Klein (1975) refere que mesmo uma relação satisfatória com o seio não poderá substituir e igualar a relação de unidade pré-natal do feto com a mãe. Por vezes, é a própria mãe a recear o «buraco negro» da separação (Tustin, F., 1986), o que levará a dificuldades em ajudar o bebé a viver as suas próprias angústias primitivas do nascimento, podendo conduzir a uma fragilidade na coesão e consolidação do Eu e interferindo com a experiência de ilusão/desilusão (Winnicott, D. W., 1971) e com o processo de separação e diferenciação.
As vivências pré-natais são expressas de uma forma muito primitiva, que a linguagem terá dificuldade em abarcar. Na situação transferencial, quando essas emoções e fantasias são revividas, elas aparecem como «memories in feelings» e só poderão ser reconstruídas e postas em palavras com a ajuda do analista.
Citando M. Klein (1930), «O desenvolvimento do Ego e a sua relação com a realidade depende da capacidade do ego, num período muito precoce, em tolerar a pressão provocada pelas ansiedades primitivas».
Uma das principais fantasias inconscientes que acompanham frequentemente as situações de inscrições compulsivas na pele é a fantasia de autoconcepção, que poderá corresponder a um salvamento ou resgate do self em relação a uma presença fantasmática, estranha, que habita o corpo. Por outro lado, poderá também corresponder a uma necessidade de confirmar a separação, havendo simultaneamente uma necessidade de resistir violentamente ao desejo de fusão com o objecto, pelo receio de ser engolido e desaparecer fundido com ele (Glasser, M., 1979).
A. Lemma (2010) sugere que as «inscrições na pele» poderiam ser expressão da rejeição de «uma pele comum» (Anzieu, D., 1974) quando esta, em vez de ter sido um envelope narcísico, amoroso, foi um envelope aprisionador do self. Outras vezes, é a fantasia de «corpo perfeito», em que as alterações no corpo serviriam para criar um corpo perfeito, um corpo ideal que seria um garante do desejo e do amor do outro. Segundo A. Lemma (2010), este tipo de fantasia pressupõe a criação de um corpo ideal com o objectivo de agradar a um objecto ideal; enquanto a primeira, a de «autoconcepção», seria expressão de um ataque invejoso contra o objecto, por ser intolerável a consciência da separação.
Em relação à cirurgia estética, é referido o aspecto sedutor da fantasia de autocriação, de «reinvenção do self», ou seja, a possibilidade de se apropriar de algo que pertence ao outro, ou a recusa e incapacidade de aceitar o que o objecto lhe deu. Como se o corpo próprio não fosse suficientemente bom, e o Outro/Objecto/Mãe possuísse o que é bom (Lemma, A., 2010).
No entanto, estas situações só poderão ser verdadeiramente compreendidas numa relação que possibilite o conhecimento do tipo de fantasia inconsciente subjacente e do tipo de relação de objecto que estes pacientes estabelecem no aqui e agora da relação analítica.
A primeira fantasia transexual descrita em psicanálise foi referida pelo juiz Daniel Paul Schreber nas suas Memórias, acerca das quais Freud publicou, em 1911, o texto «Psycho-Analytic Notes on an Autobiographic Account of a Case of Paranóia (Dementia Paranoides)», referindo a paranóia como uma defesa contra desejos homossexuais que ameaçavam a identidade do indivíduo (Freud, S., 1911). No entanto, vários autores (Limentani, A., 1979; Steiner, J., 2004) referem a importância — não suficientemente valorizada por Freud — da sintomatologia melancólica e hipocondríaca que esteve sempre presente ao longo da descompensação psicótica, delirante, de Schreber: a recusa de se alimentar, os períodos de insónia e imobilidade, as tentativas de suicídio, a convicção de que estava a morrer de ataque cardíaco, de que estava podre, de que os seus pulmões estavam invadidos por vermes que o impediam de respirar, de assassinato da alma («soul murder»), de que o seu pénis tinha sido desaparafusado e que se tinha tornado uma mulher, de que seria queimado vivo… Todos estes sintomas podem ser encarados como fazendo parte de uma sintomatologia niilista, à semelhança da síndrome de Cottard . A desorganização e a fragmentação psicótica de Schreber vieram a ser contidas e organizadas através de um delírio grandioso, omnipotente. A sua transformação em mulher e o assumir de uma posição submissa, que de início era desvalorizadora, fazendo parte de um quadro melancólico, torna-se depois grandiosa, quando passa a ser encarada como necessária para ser fecundado por Deus.
Domenico Di Ceglie (2009), S. Argentieri (2009) e C. Chiland (2009) consideram que existe nos transexuais uma clivagem entre uma parte saudável e uma parte perversa da personalidade, em que a dimensão psicológica é denegada, levando a que — a par da existência de uma parte do eu funcionando de forma adaptada em contacto com a realidade — exista, nestes pacientes, uma parte circunscrita delirante, no que se refere à sua identidade de género, que passa a ser projectada na concretude do corpo, onde a desejam corrigir através de uma intervenção concreta.
S. Argentieri (2009) argumenta que se o transexual deseja a cirurgia plástica para construir um simulacro do sexo desejado, isso não permite o orgasmo, ficando o eros confinado a uma sexualidade pré-genital e «imitativa», no sentido de Gaddini (1992).
Parece-me importante, à semelhança do que J. Steiner refere em relação ao juiz Schreber, a escuta do sofrimento depressivo e melancólico destes pacientes. Devido às vicissitudes do desenvolvimento, estes pacientes acabaram por não internalizar um sentimento de continuidade e de emergência do seu próprio self, com dificuldades no processo de separação e diferenciação em relação à mãe, existindo com frequência uma perturbação narcísica da personalidade. Segundo D. Quinodoz (1998), a sexualização é também uma maneira de ocultar uma profunda falha narcísica.
Há ainda um outro tipo de pacientes, os que buscam um controlo através de uma «colonização da mente sobre o corpo», procurando transformar o corpo do desejo num corpo defensivo, rígido, suporte de um falso self omnipotente. Este processo de «colonização» tem como objectivo alcançar um controlo total do corpo e das emoções através de uma dissociação entre corpo e mente, de forma que seja possível garantir um total domínio e diferenciação perante os outros, evitando a intimidade. O controlo das emoções, da pulsionalidade e da fantasia, obtido através de um rigoroso exercício de domínio físico e racional, tem como objectivo a criação de uma imagem omnipotente de vitalidade e sucesso que esconde e tenta compensar um Eu imaturo e frágil, sem espaço para fantasia e para as emoções, que têm de permanecer clivadas, sob pena de colapso ou desagregação do self. Se esta imagem omnipotente for desafiada, provoca uma ameaça de desorganização do Eu e/ou um colapso psicossomático. Estes pacientes vivem numa retirada psíquica — «psychic retreat» (Steiner, J., 1993) — como defesa perante a sua fragilidade e os seus sentimentos de inveja e raiva narcísica. Quando são confrontados com maior responsabilidade, após uma reacção de euforia por se verem valorizados e reconhecidos, advém uma reacção de terror, como se a sua fragilidade narcísica arriscasse ficar exposta. Tentam defender-se da humilhação de serem desmascarados em público, de serem um bluff, através de um isolamento regressivo, por vezes, com ideias de suicídio e ruína. O que os alarma de forma que procurem ajuda são as crises de pânico, a sensação de morte iminente, a insónia
e as queixas somáticas, referidas principalmente quanto ao aparelho digestivo e ao sistema músculo-esquelético: dores, tendinites e rigidez articular, ausência de libido e dificuldades sexuais.
As relações com os outros são caracterizadas por uma pseudo-intimidade. Apresentam-se com uma atitude contida e uma afabilidade formal social. Com um estilo sedutor, deixam transparecer no seu discurso uma certa superioridade tolerante, mas, também, uma falta de flexibilidade e de fantasia. Praticam com frequência desportos ou ginásio de uma forma quase compulsiva. Referem grande sucesso e eficácia em tudo o que se envolvem, assim como um controlo omnipotente de todas as suas necessidades, inclusive alimentares, afectivas e emocionais. As relações amorosas e sexuais parecem desempenhar um papel muito secundário nas suas vidas. Sendo descrita sem grande entusiasmo e envolvimento, ou mesmo enquanto ausente, a sexualidade aparece com frequência reduzida a uma prática masturbatória com recurso à pornografia. Os contactos sexuais são escassos, ou aparecem com um carácter compulsivo de domínio vitorioso sobre o outro, numa fantasia de controlo omnipotente por um phallus grandioso. A fantasia é pobre, com frequência importada dos filmes pornográficos a que recorrem, sem intimidade nem sensualidade. Esta sexualidade acaba por ter um efeito de descompressão e alívio através da descarga de uma tensão não mentalizável.
Nestes pacientes, verifica-se frequentemente, no seu passado pessoal e familiar, a existência de uma depressão materna que terá contribuído para um colapso no seu desenvolvimento inicial, ou para um processo prematuro de adaptação ao mundo exterior. A depressão materna manifesta-se ou através de uma mãe numa relação fusional com o seu bebé, como se este fizesse parte do seu corpo, não o reconhecendo na sua individualidade e necessidades, ou como uma mãe de olhar vazio e perdido e de rosto não responsivo aos apelos da criança, a «mãe morta» (Green, A., 1983). D. Meltzer (1988) refere-se ao impacto estético do encontro do olhar do bebé com o olhar da mãe como constituindo a primeira apreensão da beleza. No entanto, essa vivência expõe também o bebé ao interior enigmático da mãe, à incerteza e à separação, ao que existe para lá do seu controlo omnipotente. O bebé reconhece-se na imagem que a mãe reflecte dele. É na relação com a mãe que a criança experiencia a primeira triangulação, uma relação transicional edipiana, «o pai-na-mãe» (Ogden, T., 1989), que permitirá a introdução do terceiro e a passagem não-traumática à mãe e ao pai edipianos.
A figura do pai, frequentemente descrito como ausente ou inacessível, apresenta-se, por vezes, muito idealizada, como um super-homem. Esta imagem paterna não é facilitadora do desenvolvimento de uma relação afectiva que possa compensar a falha materna, ou estimular, pela sua presença afectiva e próxima, a autonomia e separação da criança em relação à mãe. Uma relação em que a admiração, rivalidade e humilhação são vividas com grande intensidade cria uma distância que não permite a internalização de uma imagem masculina paterna, afectiva, sólida e protectora. Não há uma verdadeira internalização e identificação masculina, sendo esta mimética, por colagem à figura do pai. Nestas situações, há com frequência uma ausência da consciência da relação entre os pais como um casal criativo, o que Birksted-Breen (1996) designou «penis-as-link».
Em relação ao analista e à análise, estes pacientes mostram-se reconhecidos e de alguma forma dependentes, deixando-nos, no entanto, a sensação de que há algo que fica inacessível, um núcleo de turbulência emocional, uma «parte psicótica da personalidade» (Bion, W., 1957). Esta só poderá ser abordada e analisada numa relação continente, onde esse turbilhão emocional possa ser contido e transformado sem ser ameaçador, quer da integridade do paciente, quer do analista e da própria relação analítica. A análise é sentida como vital, mas, simultaneamente, como algo que controlam e que de alguma forma desvalorizam. Cria-se uma pseudo-relação analítica em que podemos questionar se há verdadeiramente uma internalização do processo analítico, ou se este permanece exterior, como uma armadura racional que os defende da desagregação interna.
As separações são vividas de forma traumática, sendo geradoras de uma angústia de morte, de desintegração e de queda no vazio. As primeiras sessões, após uma longa separação, são passadas com frequência em silêncio.
Mas, como referiu John Cage («4'33” de silêncio»), «o silêncio não é verdadeiramente silencioso» (Cage, J., 1968). Há toda a espécie de sons — o respirar, o mexer, a tensão/relaxamento, a intimidade/retirada, a proximidade/ausência — que nos comunicam o clima emocional da sessão, o que se está a passar na intersubjectividade entre analista e analisando, no aqui e agora da relação analítica.
Por vezes, há uma partilha de intimidade vivida no silêncio, como se as duas peles se tocassem e analista e analisando fossem um só. São momentos de grande intimidade regressiva, que poderá permitir o contacto e a reparação das rupturas da «pele psíquica», da falha primária, retomando o desenvolvimento de partes do self, que tinha ficado suspenso. A palavra, mesmo que melódica, poderá ser vivida como intrusiva e disruptiva. Há momentos, no silêncio, em que parecem ausentes, num outro espaço-tempo, ignorando a presença do analista, permanecendo no silêncio, de olhos fechados, com um ritmo respiratório
como se estivessem num exercício de relaxamento. Inspirando profundamente, por vezes parecem refugiar-se nesse estado de sonolência, cortando com a realidade externa, procurando alcançar um estado de fusão com o ambiente da sessão, como se o pretendessem internalizar, ou melhor, incorporar.
No silêncio da sessão, a respiração, a sua intensidade e o seu ritmo são muito importantes na comunicação. Através de expirações profundas, é como se expulsassem os maus objectos, os tóxicos que se acumularam na nossa ausência e que não foi possível transformar. Outras vezes, tal parece corresponder à expulsão de uma hostilidade, fruto do desespero, que não ousam expressar sob pena de destruir o analista e a relação analítica. Há momentos em que uma sensação de frio invade a sessão, correspondendo ao frio da solidão e da separação. Ao ser interpretado, há uma descompressão imediata e um alívio da ansiedade, o que permitirá ao paciente retomar o contacto consigo próprio, assim como o vínculo ameaçado pela separação.
Para concluir, penso que em todos estes pacientes há o facto comum de a ausência de um continente e de uma função α ter tornado impossível a elaboração e integração de angústias primitivas, a diferenciação e separação em relação ao objecto, e o desenvolvimento de uma capacidade de simbolização (Klein, S., 1980). Alguns pacientes desenvolvem um continente rígido, e uma insuficiente função α, defendendo-se de uma ameaça de desorganização através de um isolamento e retirada defensiva, «psychic retreat» (Steiner, J., 1993). Uma parte da sua personalidade mantém-se inacessível, clivada ou encapsulada, constituindo-se núcleos autistas (Tustin, F., 1986; Klein, S., 1980) ou «ilhéus psicóticos» (Rosenfeld, H., 1965, 1987), contendo aspectos arcaicos/psicóticos que poderão irromper ameaçando a integridade e coesão do Eu. Se não forem analisados (Bion, W., 1957; Klein, S., 1980), tenderão a ser evacuados no corpo ou no mundo externo.
As intervenções compulsivas no corpo são também uma via de comunicação, de expressão desse núcleo clivado, violento e arcaico, num apelo e numa busca desesperada de um objecto que o contenha e transforme.
A relação analítica necessita de tempo e continuidade para permitir o acesso a esses núcleos enquistados sem ser de forma disruptiva. Compreender qual a ansiedade e fantasias subjacentes em vez de reforçar a denegação, a clivagem e a descarga de angustias não elaboradas através de uma passagem ao acto no corpo. O grande problema é que, com frequência, estes pacientes procuram o analista tardiamente, no pós-cirurgia, onde foi agida, irreversivelmente, no corpo concreto, uma fantasia maníaca de correcção e reparação.
É necessário tempo e uma relação de disponibilidade e estabilidade para estes pacientes poderem viver as angústias relacionadas com a sua incerteza e ambiguidade quanto à sua existência, à sua individualidade e à sua identidade de género, sendo essa a função do analista.
ABSTRACT
This paper addresses the subject of compulsive acting in the body as a way to evacuate an overwhelming and primitive anxiety. Defence mechanisms, such as denial and splitting of the ego, contribute to the co-existence of a part of the personality that is well adapted to the external reality alongside another part that is circumscribed and delusional. The author refers to several psychopathological situations, as well as unconscious phantasies, underlying the compulsive acting in the body. Reference is also made to situations marked by intense and compulsive physical activity, such as compulsive body building, which aim to control the body as well as drives, phantasies and emotions, resulting in a kind of defensive muscular armour that can be equated to a “somatic false self”. Common features of both of these situations are a lack of differentiation self-object and an insufficient capacity to symbolize and form an identity. The psychoanalytical process requires time and continuity but often the patients only seek analytic treatment when physical changes are irreversible.
KEYWORDS: primitive anxieties, body-mind splitting, lack of symbolization, self-object undifferentiation, gender and sexual identity.