Neste artigo, a autora propõe uma reflexão acerca das modificações compulsivas da superfície do corpo, tais como as tatuagens, os piercings, e ainda acerca do sentimento de ser feio, enquanto situações disruptivas de ordem narcísica que acontecem nos processos de identificação, em estreita ligação com a ideia de que o corpo é a entidade primeira na qual esses mesmos processos se inscrevem. Sustenta esta reflexão na conhecida afirmação de Freud, de 1923, «o eu é primeiro e acima de tudo um Eu corporal» e revisita a questão da integração corpo-mente na constituição do Eu, convocando os conceitos desenvolvidos por Esther Bick — «pele psíquica» —, Didier Anzieu — «Eu pele» — e Donald W. Winnicott — «psicossoma» —, para pôr a tónica num inconsciente primitivo fruto do encontro das exigências pulsionais com a matriz relacional. A autora debruça-se ainda na importância, no trabalho clínico, das fantasias inconscientes, das experiências sensoriais não representadas e da dissociação, apontando para a necessidade de ter presente os processos de transferência e contratransferência corporal como ferramentas de base essenciais à rêverie.
Para enquadrar a minha reflexão, partirei de três ideias principais: o corpo enquanto entidade primeira, sustentada pela conhecida afirmação de Freud de 1923 de que o Eu é «primeiro e acima de tudo um Eu corporal»; o corpo como um lugar relacional do inconsciente primitivo, onde tudo em primeiro se apresenta; e a ideia de que as intervenções do ser humano sobre o seu próprio corpo têm uma função de diferenciação e de construção da ilusão de que somos donos de nós mesmos. Pretendo um enfoque aquém do simbólico, salientando as questões da integração corpo-mente na emergência do Eu e na configuração do objeto interno.
Tenterei ligar estas ideias às vicissitudes das situações clínicas, em que, por um lado, a corporalidade nos invade, expondo, através da alteração da sua superfície, a turbulência do mundo interno, impondo-se como ecrã que tolda a nossa atenção flutuante, mas que, por outro lado, nos põe longe dessa mesma corporalidade porque é como se o corpo que ali se nos apresenta fosse um outro que está fora, sóbrio, sem queixa, fértil em pseudossoluções. É, no entanto, um corpo feito de marcas soltas, de impressões sem recordação, desabitado de pensamento, sem palavras para o dizer e conectar, que pela inscrição na pele transporta o repetido retorno daquilo que não pode ser submetido ao luto: a negação da separação e da perda, a qualidade da relação com os seus objetos internos e a disrupção nos seus processos de identificação.
Têm ainda outra particularidade, que é o apelo imperativo e literal ao olhar, adiantando-nos a medida da falha traumática, da consequente problemática narcísica, com predomínio da parte psicótica da personalidade governada pelo princípio do prazer.
Em suma, as situações sobre as quais incidirá a minha reflexão serão todas aquelas que podemos considerar ser marcadas por dois aspetos fundamentais: a compulsividade e o deficit de libidinização. E esta será, em meu entender, «a linha de água» que as diferenciará de todas as intervenções mais saudáveis sobre o corpo.
Artigo recebido em 6 de Fevereiro de 2018 e aceite para publicação em 30 de Março de 2018.
Comunicação apresentada na V Jornada Ibérica Teórico-Clínica de Psicanálise: «Modificações do Corpo, Identidade e Disrupção», realizada no dia 7 de Outubro de 2017, em Lisboa.
Psicanalista de crianças, adolescentes e adultos. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
Nota: a autora segue o recente Acordo Ortográfico.
Partilhando da visão de Alessandra Lemma (2010 e 2015), quero esclarecer que não me debruçarei no recurso repetido da cirurgia cosmética. Embora sendo um excelente exemplo da apropriação que o inconsciente faz das tecnologias, na minha experiência (outros analistas poderão ter uma experiência diferente), há um funcionamento autossuficiente de triunfo maníaco e de encapsulamento narcísico perante os limites da nossa natureza corporificada, que não permite a tolerância à dor mental e, por isso, compromete o trabalho analítico ou até psicoterapêutico.
A questão da integração corpo-mente foi já colocada por Freud, em 1905, através do conceito de pulsão, uma vez que esta tem no corpo a sua fonte, tanto nas quantidades de excitação provenientes do seu interior, como nas sensações desencadeadas por estímulos externos, intra e extra uterinos. Por uma questão de sobrevivência, a pulsão traz em si uma exigência de trabalho sobre a mente e uma busca de interação, ou seja, uma procura de transformação e de representação. Citando Freud,
Se agora dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, uma pulsão parecerá um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida de exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência da sua ligação com o corpo. (Freud, S., 1915)
Para Freud, o Eu é representado como um mapa psíquico ou uma tela onde é projetada a experiência sensorial e a relação libidinal que o indivíduo estabelece com o seu corpo, no encontro de matriz simbólica com o outro. A adequação da reposta e a qualidade contentora deste outro às demandas pulsionais vão permitindo estruturar a distinção entre o dentro e o fora, entre o Eu e o não-Eu. Desta forma, a relação pele a pele com o objeto de desejo está desde o início presente na compreensão das vicissitudes dos processos de identificação e de diferenciação.
Os trabalhos de Esther Bick (1968) vêm também sublinhar a importância de um objeto contentor na organização dos estados sensoriais primitivos desintegrados, permitindo a interiorização progressiva de uma pele psíquica como um primeiro continente corporal, ajudando-nos a compreender a importância da dependência suficientemente boa do objeto que se exprime com toda a vitalidade, como a autora refere, na busca frenética que o bebé faz dele — a procura do cheiro, do calor, da voz, dos limites.
Resgatando a noção freudiana do Eu-corporal, Didier Anzieu (1989) traz, igualmente, um contributo fundamental para a compreensão do primeiro sentimento de existência através do seu conceito de Eu-pele. Simplificando, podemos dizer que se trata de uma primeira consciência corporal, ou seja, de uma primeira e arcaica consciência de existir num corpo, através da qual a criança se representa a si mesma nas fases iniciais do desenvolvimento. Isto poderá ser também complementado com a noção de psicossoma apresentada por Winnicott, pois, para ele, a aquisição de uma unidade psicossomática, de um psicossoma, ou seja, a personalização, encontra-se na origem do sentimento de ser real e de realização (in Abram, J., 2007).
Nos seus trabalhos mais recentes, Alessandra Lemma (2010) levanta a hipótese de as formas mais compulsivas e extremas de modificação da superfície do corpo refletirem, pelo contrário, a dificuldade de integrar o mais básico facto da vida — a possibilidade de dar nascimento a si próprio. Para delimitar os casos acerca dos quais desenvolve a sua reflexão, a autora é psicanaliticamente clara dizendo que o seu foco incide nos que se encontram num estado da mente de desprezo e violência em relação ao self e ao objeto e onde a qualidade da relação de objeto é desta ordem, acentuando a compulsão para agir no corpo.
Na compreensão de algumas fantasias inconscientes dominantes, subjacentes à busca de modificações corporais, Lemma (2010) identifica três tipos de fantasias, muito familiares, diria eu, de quem trabalha com patologia narcísica: a fantasia de reivindicação, a fantasia de autossuficiência e a fantasia da combinação perfeita.
Na primeira, a autora sugere que as modificações corporais têm a função de resgatar o self de uma presença alien, que é sentida como residindo no próprio corpo. Esta fantasia diz respeito à expulsão do corpo, deste objeto abusador e poluidor.
A fantasia de autossuficiência expressa o ataque invejoso ao objeto, cuja autonomia é ao mesmo tempo intolerável. O self regride na crença de que se pode criar a si próprio, negando e rejeitando qualquer experiência de dependência.
Depois de expulso e dispensado o objeto, o indivíduo ficará sob a égide da fantasia da combinação perfeita, isto é, na crença inconsciente de que está a criar um corpo ideal que garantirá, paradoxalmente, o amor e o desejo do outro.
A kleiniana Catalina Bronstein (2009) acrescenta que todas essas fantasias revelam, por um lado, como o corpo fornece o conteúdo à fantasia e, por outro, como se torna ele próprio
na tela em que essas fantasias são agidas. Mas falar dos conteúdos que o corpo veicula implica pensar também nos registos sensoriais das experiências precoces não processadas, portanto, não organizados em fantasias, e ainda no potencial destrutivo deixado pelas projeções parentais sobre o corpo do bebé.
Como metáfora, in extremis, para ilustrar pungentemente a ligação da privação do olhar de amor da mãe e do afeto reconhecedor do pai com o sintoma de se sentir feio, Lemma (2010) resgata Frankenstein, a novela clássica da escritora Mary Shelley — ela própria órfã de mãe, na sequência do seu parto —, como um Prometeu contemporâneo, agrilhoado a um estado interno de escuridão e nevoeiro, onde captura desajeitadamente e estrangula objetos desprovidos de suporte interior, arrancando-lhes assim a possibilidade de o olharem. Rejeitado, rejeita igualmente, por identificação projetiva massiva, o monstro que cria, na insuportabilidade de experienciar o contacto. As mãos que tocam são as mesmas que matam, e o olhar é tão desejado quanto abominado. É de salientar que a escolha desta metáfora sublinha o belo e o feio como uma experiência emocional interna, resultante da intersubjetividade, em que sentir-se bonito significa poder ter uma experiência de totalidade e de unidade, por identificação aos objetos internos sentidos como tal e por oposição ao feio que denota dissociação e rutura com o que há de mais assustador dentro de nós e tem de ser posto fora.
Transpondo para os nossos settings estas situações de profundo sentimento de ser feio, que, no entanto, não chegam a recorrer a cirurgia cosmética, o que os pacientes nos transmitem, por palavras ou não, é um corpo não desejável, que odeiam, que lhes é insuportável ver refletido, que anseiam e aspiram poder alterar — o nariz, o queixo, os olhos, as maçãs do rosto, os seios, o sexo —, sem conseguir estabelecer ligação com a questão dos territórios ocupados pelo objeto e com a luta pela expulsão do seu invasor.
Embora nos pacientes em análise ou em psicoterapia o papel das modificações do corpo se deva explorar de forma singular, verifica-se um consenso teórico, entre vários autores, no sentido de os piercings, as tatuagens, o sentimento de ser feio e o desejo de uma outra identidade terem uma conexão com níveis mais primitivos da mente, consequentemente com a particularidade de nos confrontarem com a difícil passagem do corpo concreto para o simbólico e para o pensamento, o que, digamos assim, contribuiria para a resolução do sintoma — um pouco como nas tentativas falhadas nos casos da psicossomática. De acordo com Rosenfeld (1971), podemos pensar neste conjunto como imagens do narcisismo destrutivo e da uma parte psicótica da personalidade, mas acentuando uma relação de ordem perversa com o self corporal, onde as inevitáveis consequências da presença de um objeto dececionante, tais como a privação, o abandono, a rejeição, se inscrevem no corpo através da raiva exercida sobre ele mesmo, porque ele foi o lugar da devastação e da perda. Ricardo Lombardi (2002) defende a ideia da dissociação, chamando a atenção para uma outra dinâmica corpo-mente, na qual a nudez das sensações é invisível aos olhos dos fatos que a mente lhe possa querer vestir, e falando dos casos clínicos de dissociação e de desarmonia como um novo desafio para os psicanalistas, que nos ajuda a aproximar de situações mais difíceis. Investigando novas hipóteses conceptuais, Lombardi (2016) interessa-se pelos trabalhos de Matte Blanco que desenvolvem as ideias de Freud acerca do inconsciente não-reprimido, não como um lugar, mas como um sistema mental continuamente ativo e impenetrável pelas coordenadas de espaço e de tempo que organizam o pensamento, o que para ele implica que o corpo em si seja originariamente desconhecido para a consciência e irrepresentável. Talvez Fernando Orduz (2016) diga isto de uma outra forma — «o que se passa no corpo nem a mãe nem o bebé sabem; aquilo a que temos acesso são marca». E o que Orduz diz chama-nos para a rêverie.
Utilizando uma metáfora corporificada, é como se só a rêverie pudesse fornecer enzimas que transportem toda esta informação sensorial primitiva e intensa para uma outra organização com limites, mediada pelo princípio da realidade. E quando temos em análise um paciente que nos remete para a existência num corpo sem limites, esta «vitalidade metabólica», do meu ponto de vista, é um dos aspetos fulcrais em deficit.
Uma das vicissitudes destes processos em análise é que o tipo de material que nos é apresentado pode vir, privilegiadamente, através da transferência corporal, ou seja, ainda de acordo com Lombardi (2002), o que o paciente não sabe não pode transferir para um outro, transfere para o seu próprio corpo. E muitas vezes este material só é captado pela contratransferência corporal, por sensações/reações que o analista ainda estará longe de pôr em palavras e para as quais não tem um sentido, mas que se impõem como «um elefante na sala». Acrescente-se que a contratransferência diz muito, também, do state of mind do próprio analista e da sua recetividade aos conteúdos específicos do paciente.
Dada a predominância das características sensório-visuais nestes processos e concordando com Fernanda Alexandre quando diz que uma sessão pode ser escutada como um sonho, entendemos que este material também pode ser recebido como se de um sonho se
tratasse, com função contínua diurna/noturna, com deslocamento, condensação, figuração, representando os processos primários do eu e permitindo-nos um acesso às experiências brutas que não puderam ser mentalizadas, dando-nos a conhecer traços da relação do eu com os objetos internos. Todavia, devido à sua concretude, por vezes aproxima-se do sonho evacuativo. As imagens soltas, gravadas, cravadas, rasgadas ou cicatrizadas na pele, uma aqui outra ali, são disto uma ilustração paradigmática. Elas transmitem um conflito indizível, sem propriamente uma narrativa de sonho. É com a rêverie que, ao serem mapeadas, ligadas, nos permitem construir em conjunto com o paciente: uma cesura, «uma cortina de ilusão» e, consequentemente, uma «barreira de contacto», que lhe vai dando imunidade emocional face à massividade das impressões sensoriais, permitindo que corpo passe a ser mais habitado pela mente. No fundo, estamos a construir, com as modificações que o paciente traz no corpo, um anagrama, isto é, uma transposição de elementos de umas imagens para outras (na nossa rêverie, determinada cicatriz pode surgir no meio duma tatuagem, etc.), por forma que se criem novas imagens e novas visões, sonhando assim o sonho tridimensional, propulsor, que o paciente ainda desconhece. Se sonhar de noite preserva o sono, para Bion (1962), sonhar de dia é «dormir» durante a vigília e preserva a mentalização; apazigua as sensações-beta, dolorosas, que a distraem, e ajuda a pessoa a concentrar-se.
Ainda do ponto de vista da técnica e da minha experiência com esta expressão da parte psicótica da personalidade, penso que há dois outros aspetos específicos no setting que, à partida, se evidenciam e devem ser considerados. O primeiro é que a transferência corporal é um tipo de transferência muito afetada por mecanismos de dissociação, clivagem e identificação projetiva, em que self e objeto são sentidos em fragmentos e o corpo idealizado e omnipotente funciona como refúgio psíquico. O segundo é que o analista não é o primeiro objeto para quem o ódio e o amor são transferidos, como já foi referido.
A cirurgia operada no campo, que permite fazer evoluir uma transferência corporal para uma transferência para o analista, é delicada e fina, pois há que identificar no material o que é evacuação de aspetos aliens da própria personalidade, o que é necessidade de controle e posse do objeto e o que é apelo à comunicação. Muitas vezes, o apelo vem carregado de um imperativo de sobrevivência: é urgente que alguém seja capaz de estar ali, a resistir ao papel de ser o suposto saber, o que pode ser sentido como um julgamento, ou como uma intrusividade. E será pelo contacto com este pedido que o analista terá uma via de aceitação nesta bolha, maleabilizando as suas barreiras. Por outro lado, e paradoxalmente, não sendo o primeiro objeto para o paciente, o analista é sentido por este como um observador excluído, como um super-ego like cujo olhar, embora desejado, pode ferir de humilhação o orgulho de um narcisismo muito debilitado. Se estiver menos sintonizado com estes aspetos, o analista pode contribuir, se for com enactament repetido, para instalar a reação terapêutica negativa, o impasse, ou mesmo o abandono, desempenhando um velho papel do mundo fantasmático do paciente, que nada transforma.
E para finalizar, deixo a nota de que é importante que o analista possa aceitar a perda do papel central e redefinir o lugar transferencial em que é colocado, elaborando o luto necessário para que se possa também iniciar um luto no paciente. Acredito que esta abertura o deixará mais despojado e disponível para a sua capacidade onírica no aqui e agora e para a saber emprestar, com humildade, ao paciente. E isto parece-me nuclear, nestes casos que aqui debatemos, uma vez que para dar nascimento a si mesmo o paciente terá primeiro de atravessar o doloroso luto de algo que Drummond de Andrade transmite tão bem nestas suas palavras do poema «As contradições do corpo»:
Meu corpo não é meu corpo,é ilusão de outro ser.Sabe a arte de esconder-mee é de tal modo sagazque a mim de mim ele oculta.Meu corpo, não meu agente,meu envelope selado,meu revólver de assustar,tornou-se meu carcereiro,me sabe mais que me sei.
Talvez só aceitando isto seja possível a paradoxal experiência que nos introduz no humano princípio da realidade, tão imprescindível quanto ilusório, de sermos donos de nós próprios, o que verdadeiramente nunca chegaremos a ser.
ABSTRACT
In this article, the author proposes to reflect on the compulsive modifications of the surface of the body, such as tattoos, piercings and still on the feeling of being ugly, as disruptive situations of narcissistic order, that happen in the identification processes, in a close connection with the idea that the body is the first entity in which these processes are inscribed. This reflection is supported in Freud's well-known statement : “the self is first and foremost a bodily Self” and revisits the question of body-mind integration in the constitution of the Self, summoning the concepts developed by Esther Bick—“psychic skin”—, Didier Anzieu—“skin ego”—and Donald W. Winnicott—“psychosoma”—, to emphasize a primitive unconscious as a result of the meeting of the pulsional demands with the relational matrix. It also focuses the importance of unconscious fantasies, unrepresented sensory experiences and dissociation in clinical work, pointing to the need to keep in mind the processes of transference and body countertransference, as basic tools essential to rêverie.
KEYWORDS: body-self, unrepresented states of mind, dissociation, body transference and countertransference-rêverie.