Neste report, percorremos a história do International Journal of Psychoanalysis (IJP) desde o seu momento fundador até ao evento que comemorou um centenário de publicações. O IJP surgiu da necessidade de se alargar a divulgação da psicanálise à comunidade de psicanalistas de língua inglesa, e desde então que se tem assumido como uma referência incontornável nesta área de conhecimento. As linhas orientadoras definidas por Ernest Jones, Sigmund Freud, Sándor Ferenczi e Otto Rank sobreviveram à passagem do tempo, e esse testemunho tem sido transmitido e preservado pelos diversos editores e comissões editoriais. No ano em que se comemora o centenário do IJP, realizou-se uma conferência em Londres («The Psychoanalytic Core: Encountering & Speaking to the Unconscious») com o objetivo de explorar um conjunto de temáticas centrais na psicanálise e suas relações com o inconsciente. A atual editora, Dana Birksted-Breen, conduziu a ordem de trabalhos daquela que seria uma conferência de tributo ao passado, mas com uma preocupação colocada no futuro.
No ano de 1920, foi publicado o primeiro volume do International Journal of Psychoanalysis (IJP), com Ernest Jones como editor. No Editorial desse volume, Jones apresentou como propósito principal da publicação a necessidade de se divulgar as mais recentes investigações psicanalíticas em língua inglesa (Jones, E., 1920). O interesse sobre a temática crescia, e as publicações periódicas em alemão (Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse e Imago) tinham um alcance insuficiente, tanto que o presidente da International Psychoanalytical Association (IPA), Sándor Ferenczi, defendia que esta nova publicação deveria constituir-se como um órgão oficial da associação internacional. Foi desta forma que Ferenczi incumbiu Jones, em colaboração com Otto Rank, de levar adiante essa tarefa (Ferenczi, S., 1920). Jones desejava que a publicação fosse além de uma mera tradução das congéneres em alemão e que servisse também como uma oportunidade para os psicanalistas ingleses e americanos publicarem as suas contribuições. No entanto, não viu o seu trabalho facilitado, e não escapou às críticas de Freud e de Rank sobre os conteúdos do IJP durante os primeiros anos (Jones, E., 1961).
É muito interessante revermos a forma como Jones também defendeu a ideia de que o IJP se deveria constituir de base como um órgão centralizado na IPA, ao invés de se constituir como uma edição independente.
Artigo recebido em 26 de Agosto de 2019 e aceite para publicação em 2 de Outubro de 2019.
Psicólogo clínico, psicoterapeuta e membro-candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
«The history of Psycho-Analysis has once more shewn, as might have been anticipated from a knowledge of human nature, that mankind has two main methods of defence against disagreeable truths: the first, more obvious, and therefore less dangerous one is direct opposition, the new truths being denied as false and decried as obnoxious; the second, more insidious, and much more formidable one is to acquiesce in the new ideas on condition that their value is discounted, the logical consequences not drawn from them, and their meaning diluted until it may be regarded as “harmeless”.» (Jones, E., 1920, p. 4)
Não terá sido certamente um acaso o facto de o editor ter optado por vincar, desde o primeiro momento, que estariam atentos e que não iriam permitir movimentos que pudessem desvirtuar a psicanálise, ou destituir os conceitos fundamentais do seu significado. A centralização da publicação como um órgão da IPA não era apenas para evitar a dispersão dos artigos publicados, mas sobretudo uma forma de assegurar que a identidade da psicanálise era preservada e que o seu desenvolvimento seguia de acordo com os desígnios dos fundadores (Jones, E., 1920). Naturalmente, todas estas questões foram amplamente discutidas e previamente articuladas e acauteladas entre Jones e Freud, como se pode constatar na abundante correspondência entre 1918 e 1920 (Paskauskas, R. A., 1995). Nesse primeiro volume, encontramos artigos de autores como Sigmund Freud, Ernest Jones, Joan Riviere, Hanns Sachs, Karl Abraham, Sándor Ferenczi, dos quais destacamos os seguintes: «Special Pathology and Therapy of the Neuroses and Psychoses» (Abraham, K., 1920); «General Theory of the Neuroses» (Ferenczi, S., 1920a); «A Child is Being Beaten – A Contribution to the Study of the Origin of Sexual Perversions» (Freud, S., 1920); «Recent Advances in Psycho-Analysis» (Jones, E., 1920a).
O 50.° aniversário do IJP, no ano de 1969, assinalou a transição entre o mandato editorial de John Sunderland e o de Joseph Sandler, tendo este aproveitado o momento para fazer um elogio ao trabalho do seu antecessor, sobretudo por encorajar os jovens autores a divulgar os artigos e por aceitar para publicação novas ideias que poderiam ter sido rejeitadas sob políticas editoriais distintas (Sandler, J., 1969). Num período em que o IJP já se encontrava sob gestão da British Psychoanalytical Society, este volume contou com correspondência de Freud nunca antes publicada e com um conjunto de artigos de autores convidados para o efeito (Sandler, J., 1969a), dos quais destacamos: «Towards a Basic Psychoanalytic Model» (Sandler, J. & Joffe, W. G., 1969); «The Nature of the Therapeutic Action of Psychoanalysis» (Strachey, J., 1969); «On the Treatment of Psychotic States by Psychoanalysis: An Historical Approach» (Rosenfeld, J., 1969); «A Case of Borderline Thought Disorder» (Searles, J., 1969); «The Use of an Object» (Winnicott, D. W., 1969).
No 75.° aniversário do IJP, David Tuckett assinalava o papel muito importante das anteriores comissões editoriais enquanto guardiões da tradição psicanalítica e de um fórum de discussão livre no seio da psicanálise (Tuckett, D., 1994). Num agradecimento a Jones, Tuckett atribui-lhe os louros da longevidade da publicação, da sua independência perante as controvérsias e da importância da investigação baseada na evidência e em dados concretos (Tuckett, D., 1994). Concomitantemente com um conjunto de conferências acerca de «Conceptualização e Comunicação de Factos Clínicos em Psicanálise», foram publicados os seguintes artigos: «The Analytic Third: Working with Intersubjective Clinical Facts» (Ogden, T., 1994); «Transference: Erotised, Erotic, Loving, Affectionate» (Bolognini, S., 1994); «The Analyst›s Participation in the Analytic Process» (Levine, H., 1994); «Interpretation: Selected Fact or Overvalued Idea?» (Britton, R. & Steiner, J., 1994).
As comemorações em torno do centenário do IJP decorreram ao longo de um ano entre Nova Iorque e Londres, através de um conjunto de conferências, exposições e discussões entre arte e ciência. No presente ano de 2019, coube à atual editora, Dana Birksted-Breen, a primeira mulher a assumir o cargo, a organização do evento que decorreu em Londres — «The Psychoanalytic Core: Encountering & Speaking to the Unconscious». Esta conferência tinha como objetivo principal o de explorar um conjunto de temáticas centrais na psicanálise e suas relações com o inconsciente. O local escolhido para a realização deste evento revelou-se perfeito para o início de uma semana psicanalítica em Londres, num hotel à beira do Tamisa, com a presença imponente da Tower Bridge e rodeado pela St. Katherine Marina, reunindo as condições para um ambiente suficientemente tranquilo e esteticamente deslumbrante em torno da conferência.
Pudemos contar com os trabalhos teóricos e clínicos de Patrick Miller, Dana Birksted-Breen, Ignês Sodré, Gerhard Schneider, Rosine Perelberg, Dominique Scarfone, Catherine Chabert, Michael Sebek, Catalina Bronstein e Riccardo Lombardi, tendo os painéis sido organizados da seguinte forma: «O Inconsciente na Vida Mental»; «Realidade Psíquica e Trauma»; «O Significado Psíquico da Sexualidade»; «Repetição e a Pulsão de Morte»; «O Corpo e os seus Mistérios». Talvez seja importante salientar a abundância de material clínico contemplado no trabalho dos vários autores, bem como o tempo dedicado a apresentar e a explorar a vida emocional dos pacientes, questões de ordem técnica e de natureza processual. Através das apresentações, conhecemos o modo de trabalhar de cada um destes clínicos e a forma como se guiam através dos seus referenciais teóricos.
Durante os trabalhos, aprofundou-se o estudo do inconsciente através dos seus derivativos e das
manifestações corporais, passando por uma reflexão acerca da origem e formulação da interpretação. A este propósito, partilhamos uma ideia de Patrick Miller, quando nos referiu que «an interpretation only comes as an end result of a sustained contact and intercourse of the analyst's hopefully lively unconscious mental life and that of the analysand» (Miller, P., 2019). Jorge Canestri, numa discussão sobre os impactos devastadores do trauma na mente humana, sublinhou a importância de se compreender e diferenciar com precisão os conceitos psicanalíticos, relembrando o seu trabalho a este respeito (Canestri, J., 2010). Peter Fonagy assinalou que a sexualidade se encontra fora de moda na investigação psicanalítica (Fonagy, P., 2008), lançando uma discussão que revisitou os trabalhos de Breuer e as pulsões sexuais, e na qual pensou a sexualidade como algo que está presente em tudo o que é humano. Relativamente à pulsão de morte, explorou-se não só o seu papel na destruição do pensamento, na fragmentação, dissolução, desligamento e desobjetalização, mas também a sua importância para as construções da vida e para o progresso do processo analítico. E ainda o corpo, o corpo da mãe, o corpo do paciente, o corpo do analista, as ruturas com a mente e a curiosidade necessária para se procurar e encontrar representações verbais para estados internos insuportáveis. No final do ano, será possível um estudo cuidado de cada um destes trabalhos, uma vez que serão partilhados sob a forma de artigo numa edição especial do IJP dedicada a estas comemorações.
Houve também espaço para algumas discussões teóricas em torno de conceitos como a realidade psíquica, a pulsão e os instintos, os fundamentos da pulsão de morte, mas terá sido a discussão relativa à natureza das fantasias inconscientes e à representação psíquica que suscitou mais adesão e emoção. No entanto, e apesar do interesse que estas discussões suscitaram, sobretudo ao deixarem transparecer algo controverso (mas sem o peso das controvérsias da década de ), a verdade é que predominou um relativo consenso em relação ao discurso do analista. Este deveria apropriar-se e recorrer-se da linguagem do paciente, afastando a utilização de interpretações-clichê, pré-feitas e mecanizadas. Evidentemente, tal posição não tem o propósito de ignorar ou minorar a importância da teoria ou da perspetiva teórica de cada analista, que de forma mais ou menos inconsciente se encontra sempre presente. No entanto, as formulações interpretativas deveriam ter como ponto de partida as palavras do paciente, a sua forma de se expressar, a sua musicalidade, ao invés de interpretações teoricamente corretas, mas previsíveis, assépticas e aborrecidas — também com a teoria, empregar a velha máxima de Bion: «the analyst should avoid mental activity, memory and desire» (Bion, W. R., 1970, p. 256).
De entre os vários autores mencionados ao longo das apresentações, Freud foi de forma evidente o mais citado, com múltiplas referências aos seus trabalhos: Heredity and the Aetiology of the Neuroses ; The Interpretation of Dreams (1900); Fragment of an Analysis of a Case of Hysteria (1905); Three Essays on the Theory of Sexuality (1905a); Five Lectures on Psycho-Analysis (1910); Psycho-Analytic Notes on an Autobiographical Account of a Case of Paranoia (Dementia Paranoides) (1911); On Narcissism: An Introduction (1914); Instincts and Their Vicissitudes (1915); The Unconscious (1915a); Mourning and Melancholia (1915b); The ‘Uncanny‘ (1919); Beyond the Pleasure Principle (1920a); Psychoanalysis of Telepathy (1921); Inhibitions, Symptoms and Anxiety (1926); An Outline of Psycho-Analysis (1938). No mesmo ano em que se assinalam 80 anos sobre o falecimento de Freud, é interessante e significativo verificar que o seu contributo se mantém indispensável para o pensamento clínico e para a conceptualização teórica da atualidade.
O último momento da conferência foi dedicado a uma reflexão sobre o futuro da psicanálise. David Tuckett acentuou a importância de se acompanhar os desenvolvimentos das neurociências e de se alicerçar cientificamente diversos conceitos psicanalíticos, como a associação livre, a atenção flutuante, a resistência, a neutralidade e a contratransferência (Britton, R., 2015; Solms, M. L., 2018). Jorge Canestri, na mesma linha de pensamento, assinalou que deve existir uma preocupação em sintonizar a psicanálise com as restantes disciplinas, e que essa preocupação deve surgir desde o início da formação de um psicanalista com o estudo de outros temas como a história da filosofia e da religião. Conviver com o grande número de clínicos que estiveram presentes e interessados na conferência afasta, momentaneamente, ideias pessimistas em torno do futuro da psicanálise; no entanto, existem questões que são incontornáveis e que não podem ser ignoradas se quisermos ver a psicanálise como uma resposta de primeira linha ao sofrimento humano e como um instrumento especializado para a mudança psíquica.
No Editorial do Volume 100, Dana Birksted-Breen vincou o carácter internacional do IJP, procurando fomentar debates interculturais e interdisciplinares com o intuito de promover mudanças na psicanálise que respeitem sempre a sua tradição (Birksted-Breen, D., 2019). Podemos apenas supor que ao longo dos próximos 100 anos a história do IJP continuará intimamente ligada à história da psicanálise. Apesar de não ser a única publicação nesta área de conhecimento, o contexto na qual foi fundada e a dinâmica que tem revelado na divulgação do pensamento psicanalítico e no envolvimento dos autores mais relevantes atribuem-lhe um papel ativo e uma responsabilidade acrescida nos desenvolvimentos que a psicanálise terá no decorrer dos próximos anos.
ABSTRACT
In this report we go through the history of the International Journal of Psychoanalysis (IJP) from its founding moment to the event that celebrates a hundred years of publications. The IJP arose from the need to extend the dissemination of psychoanalysis to the community of english-speaking psychoanalysts, and since then it has become a reference in this area of knowledge. The guidelines set by Ernest Jones, Sigmund Freud, Sándor Ferenczi, and Otto Rank survived the passage of time, and have been transmitted and preserved by the various editors and editorial groups. In the year of celebration of the IJP centenary, a conference was held in London (“The Psychoanalytic Core: Encountering & Speaking to the Unconscious”) to explore a set of themes in psychoanalysis and its relations with the unconscious. The current editor, Dana Birksted-Breen, led the presentations of what would be a tribute conference to the past but with concern for the future.
KEYWORDS: International Journal of Psychoanalysis, centenary, psychoanalysis.