«A subjetividade é sempre um lugar misterioso», diz-nos Martin Gauthier no seu texto, convidando-nos ao mergulho no espaço íntimo do trabalho psicanalítico, lugar do fantasma e da potencialidade, para entendermos: o laço vital da relação primária; a construção de uma bidimensionalidade, escudo poroso, mas protetor, que garanta, na ligação, a separação; a expansão tridimensional, fazendo apelo a alguns riscos da vida contemporânea. Tal como na Caverna de Platão, partimos de um espaço uterino e projetamo-nos para o exterior, construindo um lugar onde o céu é o limite, ainda que estejamos condenados a aceder apenas às sombras.
Eixos da realidade, espaço e tempo reinventam-se, estabelecendo entre si relações de significância intermutáveis. Nessa medida, o espaço é uma espécie de invenção do tempo em que o Outro é a prova da diferença, e, dessa forma, pressupõe tanto o encontro como o desencontro.
Neste conceito partilhado com a Física, o autor aponta o quanto metáforas espaciais fazem parte do nosso léxico, tanto comum quanto psicanalítico. Mas que relevância específica ganha o conceito no quadro da psicanálise enquanto disciplina do conhecimento?
O objeto psicanalítico é um objeto científico, mítico, estético: condensa susto e encanto pela diferença, pelo interior, pelo mistério, em que o sujeito é movido pela curiosidade! Entre medo e desejo, acontece o pulsar de vida, líbido inata, em que cada um de nós reinicia a história de todos. A mente é, à sua escala, uma espécie de Big Bang microcósmico (i)limitado.
Na minha esfera pessoal, este tema foi-se constituindo como especial, dado o fascínio com que observava a minha mãe a olhar as estrelas e a ler tanto ficção como informação científica acerca das descobertas espaciais. Do útero ao cosmos, e deste, à psicanálise.
O sonho é o espaço privilegiado, o salão nobre da mente: pelas janelas do pré-consciente, trespassa luz resultante dos restos diurnos que incide sobre o magma pulsional do inconsciente a partir do qual se constrói uma narrativa — história à procura de narrador e de ouvinte. Como se da projeção de um filme se tratasse, a Psicanálise seria como que o «Director's cut».
Observemos a clínica: após ter feito psicoterapia na sua adolescência, Saul procura-me na idade adulta e inicia uma psicanálise. Na primeira sessão no divã, a propósito de uma ocorrência da sua vida relacional em que se sente coartado, fala de «como lhe é difícil estar nessa posição». Na forma como escuto esta expressão dou atenção à polissemia que condensa, nas suas dimensões tanto física como mental. O contacto com esta matéria–prima traduz-se numa sensibilidade ao campo transfero-contratransferencial, dando assim espaço e lugar transicional a níveis de significância que, por sua vez, se abrem a possibilidades de expressão e de elaboração da experiência subjetiva. Nas minhas palavras enuncio essa ideia, moldando desta forma a peça em construção. Na sessão seguinte, relata um sonho de angústia, em que está deitado numa posição desconfortável que lhe limita os movimentos e o deixa vulnerável. As associações que seguidamente desenvolve evocam a imagem de estar «à mercê» e «de pés e mãos atados», o que ilustra um sentimento que tem sido recorrente na sua vida afetiva, e que atualiza no espaço analítico.
Neste quadro metafórico a que o tema convida, a prática da psicanálise remete-me para o universo do trabalho artesanal. Voltarei a esta ideia a propósito do manejo da técnica, nomeadamente do campo transfero-contratransferencial. Nesta conferência, fui sensível à referência que Martin Gauthier fez ao instrumento «foice», a propósito da evolução do mesmo e do seu uso no trabalho agrícola. Através dele, estabelece-se um quadro à luz do qual o papel das mulheres e do feminino é colocado na sua relação com a natureza, ideia que ganha expressão na tensão metapsicológica entre pulsão e civilização na conquista de uma ordem fálica e paterna.
Membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). E-mail:
Nota: este artigo está escrito conforme o recente Acordo Ortográfico.
Mas a foice evoca em mim outras associações: o corte que separa, a força de quem trabalha e, sobretudo, a morte, linha inscrita no eixo espaciotemporal perante a qual se estabelece uma escala relativa que nos distingue enquanto género e geração, ao mesmo tempo que nos torna iguais.
Geografia e História, disse-nos Smadja na sua mais recente visita à Sociedade Portuguesa de Psicanálise, reportam às dimensões materna e paterna. Como pode o espaço analítico recriar as condições para que o chão se torne fértil e a história de cada um se reescreva? Quais as ferramentas utilizadas e as técnicas desenvolvidas para moldar o barro tornando o seu resultado único e singular, e, ainda assim, reconhecível e replicável?
A condição primeira e última da psicanálise é a liberdade. Ideologias e convicções à parte, permiti-me evocar neste curso de ideias a origem da maçonaria que estará justamente associada à figura dos mestres artesãos. Na génese, estão factos históricos, que decorrem das transformações no tecido social a partir da sua relação com o mundo laboral. Aparentemente, a sua inspiração parte da relativa liberdade que o exercício da atividade de prestação de serviços no sector da transformação lhes permitiu. Estes ofícios mudaram a relação com o espaço e com o tempo, uma vez que os tornaram mais sedentários e em simultâneo desenvolveram técnicas de aperfeiçoamento, conferindo-lhes tanto o estatuto de mestres na sua arte, como o tempo para estudar, investigar, teorizar, ensinar. Na conquista desse lugar social, inscreve-se tanto a ideia de legado, como de processo, em que os resultados denunciam as marcas imperfeitas, singulares e irrepetíveis desse mesmo caminho.
Proponho olhar para a psicanálise como uma dimensão do conhecimento que se situa entre a arte e a ciência, e a sua prática e ensino num quadro que se assemelha ao dos mestres artesãos. Procurarei consubstanciar esta ideia desenvolvendo alguns aspetos que se relacionam com a fundamentação conceptual dos modelos e das práticas psicanalíticas, acrescentando algumas ideias acerca de enactment e humor na sua dimensão relacional, pelo seu valor de comunicação e de transformação psíquica.
Curiosamente, a Epistemologia e a Psicanálise são praticamente contemporâneas. Freud considera a teoria psicanalítica que parte da descoberta do inconsciente e da sexualidade como a terceira humilhação narcísica do Homem (Freud, S., 2006 [1912]) e vê-se num conflito ao procurar submeter e validar, segundo os constrangimentos claramente positivistas do paradigma vigente, a sua singular e subjetiva originalidade de acordo com um determinismo linear.
É assim que os conceitos fundamentais da Psicanálise são estabelecidos segundo os princípios das ciências ditas exatas, daí a influência de disciplinas da Física como a mecânica clássica e a termodinâmica. Porém, o interesse pelas disciplinas ditas humanas como fonte de inspiração ou objeto de estudo influenciou a Psicanálise na sua especificidade, enquanto disciplina de conhecimento do fenómeno humano, mantendo a hermenêutica como pedra de toque no seu método.
Através do inconsciente, objeto epistémico peculiar que se caracteriza por uma lógica própria, o psiquismo desenvolve-se mantendo uma comunicação permanente com a lógica de uma realidade que lhe é externa. Segundo Rosado, «a lógica do consciente racional — submetida ao princípio da realidade em que tempo, espaço, princípio da não contradição e do terceiro excluído são organizadores fundamentais — e a lógica do inconsciente — organizada em torno do princípio do prazer, uma lógica em que algo pode ser e não ser simultaneamente, da qual está ausente a linearidade espácio-temporal.» (Rosado, Neves & Marques, 2015, p. 36)
Os efeitos decorrentes deste diálogo, desta tensão entre estas duas dimensões, formam o núcleo essencial da própria psicanálise, tanto na construção dos seus modelos explicativos ou compreensivos, como no virtuosismo da sua técnica. A relação dinâmica permanentemente conflitual entre fantasia e realidade é a marca de água de uma leitura do fenómeno humano, condição de resgate do incompreensível versus a construção de uma realidade coletiva orientada para o futuro e fundada nas suas raízes intemporais.
Paralelamente todo o objeto de estudo científico alterou-se no sentido de que a dimensão do tempo introduza a imponderabilidade como uma variável a considerar, sendo que o resultado traz a marca dessa relação. A ideia de que uma teoria é mais robusta, porque mais estanque, tornou-se obsoleta. Hoje em dia, o método é visto muito mais como um caminho e o conhecimento é tido muito mais como o encontro entre o sujeito epistémico e o seu objeto em construção.
A dimensão simultaneamente sistémica e caótica dos acontecimentos tem uma tradução quanto à noção de causalidade. Ao determinismo linear que opunha acaso a intencionalidade, sucedem-se, no paradigma emergente, tensões e admitem-se equilíbrios que oscilam entre caos e ordem, instabilidade e adaptação.
Neste novo paradigma, a natureza do conhecimento que a psicanálise proporciona acerca da experiência emocional inconsciente ganha especial relevância se tomarmos como modelo e metáfora os fenómenos que decorrem do erro, do invariante e do acaso, uma vez que se constituem como oportunidades para estabelecer hipóteses sobre a emergência de sentido(s) atualizada pelo momento do encontro intersubjetivo, potenciador de transformações.
O Princípio da Incerteza de Heisenberg é um enunciado da mecânica quântica que serve de ponto de partida para Britton (2006) anunciar o Posição de Incerteza que ilustra a influência da física quântica no pensamento de Bion. É a revolução introduzida pela física quântica que transformará este novo modo de pensar a ciência, segundo uma espécie de determinismo caótico, e que se constituirá, de acordo com Pragier, como «uma quarta humilhação narcísica para o Homem» (Pragier, G., 2007, p. 88).
De entre os psicanalistas que mais recentemente se têm dedicado à investigação destes domínios, referimos Hinshelwood (2010), que se baseia no estudo da contratransferência para questionar a dicotomia entre ciência e hermenêutica. Para este autor, os significados da experiência subjetiva possibilitam generalizações teóricas, através de um modelo de investigação psicanalítica que possibilita observar os efeitos da interpretação na sessão analítica e nas mudanças internas do paciente.
Então, que dizer acerca do diálogo entre as ciências e a psicanálise à luz deste novo paradigma? A lógica do inconsciente encerra dimensões que são simultaneamente únicas e universais. Tal como se compararmos o estudo do átomo ou da célula com a astronomia, identificamos equações micro e macro cósmicas de natureza semelhante.
Bion referiu-se ao buraco negro ao estabelecer analogias entre os fenómenos do espaço galáctico e do espaço mental interno (Bion, W., 1977). Desenvolvendo esta metáfora, Grotstein refere que «nos sistemas humanos o caos […] resulta da incapacidade da mente para ordenar a sua aleatoriedade e/ou para manter e regenerar as suas estruturas» (Grotstein, J., 1999, p. 83).
Bion (1977) descreve o trabalho analítico como catastrófico e atemporal na sua flutuação entre integração e dispersão. A postura psicanalítica sem memória, sem desejo, sem compreensão (Bion, W., 1991 [1970]), cria o estado mental de abertura para que a intuição funcione como atrator, para lá do campo saturado das experiências, das expectativas e dos conhecimentos prévios.
«Le transfer comporte une dimension historique.» (Denis, P., 1996, p. 1179) O processo analítico é uma reconstrução do tempo do inconsciente, em que o caminhar na direção do passado transforma o futuro. Nesse movimento, a repetição torna explícita a procura do sentido de si na presença do outro. Aqui, entra a dimensão do espaço como lugar que se ganha ao tempo e onde o jogo intra e inter psíquico se pode desenrolar. Porém, esta relação é estabelecida numa tolerância ao desconhecido, ao novo, que se constitui como possibilidade de abertura.
Bolognini (2006) enquadra o problema da repetição no quadro da temporalidade própria do funcionamento do inconsciente na sua dimensão relacional. Do caos aparente em que, pela ausência de tempo, se desorganizam as relações de contiguidade e onde os fenómenos de clivagem, projeção, deslocamento e condensação, por exemplo, utilizam um critério de inclusão de classes de forma desordenada, a virtude do método psicanalítico é dar sentido. Este sentido decorre da construção de representações a partir da integração do afeto na história de vida do sujeito. Ainda segundo Pragier, o imperativo para o estatuto de cientificidade em psicanálise, mais do que um motivo social, corresponde a uma exigência interna do próprio psicanalista, para dar sentido.
O texto que Gauthier nos apresenta testemunha o quanto estas dimensões se intersetam. Através da sua exposição de ideias e da ilustração pelo caso clínico, percebemos como transferência e contratransferência, mais do que entendidas à luz da repetição incessante do passado, criam um terceiro sujeito (terceiro sujeito intersubjetivo de T. Ogden, 2004), numa expansão deste modelo, fazendo emergir, numa área transicional, a possibilidade plástica de ser moldada uma outra relação. A referência ao mito de Medusa e ao uso do escudo como protetor — porque defletor — da dimensão pulsional primitiva coloca-nos perante o problema da comunicação no espaço virtual da contemporaneidade.
A necessidade de compreender, dimensão fundamental do psiquismo, parece estabelecer uma dinâmica particular com a tolerância ao desconhecido e ao caos. De um ponto de vista epistemológico, reconhecemos a impossibilidade de uma atitude de neutralidade no setting analítico de um analista em estado mental de tela branca, uma vez que suas teorias influenciam as perceções e a compreensão (consciente e inconsciente) do que está a ocorrer no setting.
Neste quadro, a compreensão do manejo da contratransferência ganha particular relevância epistémica. Tal como as imperfeições na peça artesanal a tornam única e denunciam o seu processo, interessa-me particularmente a questão do «erro» no campo analítico. Não tanto na ótica da falha técnica, e muito menos ética, os «erros» que podemos encontrar no humor e no enactment, por exemplo, são aspetos inerentes ao processo que nos desafiam a torná-los recursos ao serviço do mesmo.
Tal como nos sugere Cassorla (2013), o enactment agudo faz emergir conflitos inconscientes que trazem ao espaço da sessão uma dimensão por resolver, porque por significar. Nesse sentido, adquire um valor de atualização, de comunicação e de transformação. Já segundo Sapisochin (2013), podemos tadmitir todo o trabalho em sessão segundo a noção de enactment em que analista e analisando se relacionam de forma que reconstruam implicitamente o processo. Entendendo as variáveis decorrentes do encontro
entre analista e analisando como produto criativo do próprio processo, encaramos o humor como uma qualidade mental intimamente relacionada com a criatividade e com o afeto. Num modelo mais clássico, tenderíamos a considerar a sua presença como defesa ao serviço do ego, no sentido de o proteger das ansiedades mais narcísicas ou da fragilidade perante a angústia de morte, estabelecerá, por ventura, uma ponte ou uma solução de compromisso entre pulsão de vida e de morte, entre inconsciente e consciente. Freud refere-se às anedotas no seu trabalho Psicopatologia da Vida Quotidiana (Freud, S., 1990 [1901]) estabelecendo equivalências com os lapsos, os atos falhados e o trabalho do sonho enquanto derivados do processo primário e reveladores de intencionalidade inconsciente.
Badden (1993) é um dos autores que observa a utilização do humor na situação analítica ao serviço da própria mudança. À luz de um novo paradigma, o humor surge como transversal a todas as dimensões metapsicológicas, estabelecendo-se como um vínculo, no sentido de Bion, uma vez que permite a ligação ao mesmo tempo que favorece a procura de sentido (dispersão/integração ou PS->D), sendo que, nessa procura de sentido, o faz na desconstrução do mesmo, podendo conjugar, sem confundir, amor e ódio em favor do conhecimento.
Emergente do espaço potencial e assimilável ao brincar, no sentido de Winnicott, o humor vincula-se ao erro e à falha e condensa, pelo absurdo de premissas lógicas opostas combinadas de forma paradoxal, potenciais de mudança num espaço de cumplicidades partilhadas. A capacidade de «rir de si próprio» é conotada como sinal de saúde mental, permitindo um contacto profundo e reparador do sujeito com os seus objetos internos.
Assim, rir na relação com o outro veicula e contém o ódio, em simultâneo. Nesta medida, situa o sujeito perante a sua ambivalência, condensando ataque e reparação do objeto interno, num mesmo movimento, na consciência da separação com o objeto real, o que favorece o prazer e reforça os laços de intimidade.
Saul vive numa permanente dualidade — em vários domínios da sua vida —, que tem dificuldade de integrar, bem como de se colocar em posição depressiva elaborativa. Divide-se entre uma atividade profissional exigente, onde é crítico consigo próprio e com os demais, e a dedicação às artes plásticas, onde se vai permitindo explorar técnicas e materiais. Sendo perfecionista também nessa área, recusou recentemente prosseguir com um trabalho que lhe havia sido encomendado «à medida» por alguém a quem queria agradar e entregou-se, em vez disso, à criação mais espontânea. A propósito de uma interpretação que lhe faço acerca destes aspetos da sua mente, diz-me, brincando com as palavras: «Pois é, a mente também mente. Apercebo-me de que quanto mais me escondo mais me revelo.» Após um breve silêncio, descreve-me os trabalhos que está a desenvolver no seu ateliê: «É uma espécie de grelha; são várias camadas, com tintas e texturas diferentes que não se confundem, mas deixam-se ver umas atrás e através das outras; não são a mesma coisa, mas existem porque umas revelam as outras e formam um novo sentido no seu conjunto.» E depois acrescenta: «Só agora que me escutei a dizer-lhe isto é que me apercebi o quanto se assemelha a este nosso trabalho.»
Tal como numa peça artesanal, na lavoura, na gastronomia, na música, na escrita, a tarefa deixa a marca do sujeito sobre o material. Numa relação a dois que cria um terceiro, espécie de escudo refletor, o resultado denuncia tanto a história quanto a geografia, trazendo luz a áreas obscuras, ampliando o quadro. A arte do analista está no modo como apreende, acolhe e facilita o processo transformador, deixando-se transformar por ele em posição de tolerância ao desconhecido e de abertura à liberdade.