A destruição e a violência que aumentam no mundo trazem novas questões sobre a teoria e a técnica no campo da psicanálise. O objetivo deste artigo é discutir a importância da função de metacontenção dos grupos de supervisão com psicoterapeutas que trabalham com vítimas de trauma. De modo que se ilustre este processo, são dados exemplos de um grupo de supervisão voluntário que se estabeleceu na sequência de uma série de ataques terroristas na Turquia. Eventos traumáticos, ocorridos no mundo externo e testemunhados nas sessões, podem criar obstáculos à capacidade de contenção do terapeuta, o que torna impossível pensar «debaixo de fogo» quando a morte bate à porta. Elaborando os sentimentos contraditórios da vítima de trauma e os mecanismos de identificação projetiva do grupo, um conhecimento mais aprofundado do paciente é alcançado e os pontos cegos do terapeuta são revelados. Se a díade terapeuta-vítima de trauma conseguir mover-se da ação para a simbolização, o processo terapêutico enriquece-se, o trabalho de luto é ativado, e em alguns casos os sintomas desaparecem e uma melhor adaptação ao mundo externo pode emergir.
All creation is really a re-creation of a once loved and once whole, but now lost and ruined object, a ruined internal world and self. It is when the world within us is destroyed, when it is dead and loveless, when our loved ones are in fragments, and we ourselves in helpless despair — it is then that we must recreate our world anew, reassemble the pieces, infuse life into dead fragments, recreate life.
A violência e a destruição que grassam no mundo trazem novas questões para a teoria e técnica no campo da psicoterapia e da psicanálise. Na sequência de uma série de ataques terroristas ocorridos na Turquia entre 2015 e 2017, conferências e simpósios foram sendo organizados para dar conta de temas como a violência, o trauma coletivo, a guerra, os fenómenos migratórios e a perda, juntamente com publicações sobre os mesmos temas e formação de grupos de estudo e de supervisão. A única forma de combater os «ataques à ligação» (Bion, 1959) causados pelas
Trabalho apresentado na mesa «The mind of the analyst facing fear of death» no 53.° Congresso da Associação Psicanalítica Internacional, intitulado «A mente na linha de fogo», decorrido em Cartagena das Índias, Colômbia, entre 26 e 29 de julho de 2023.
Psicanalista didata da Psike Istanbul e Membro europeu da Cowap. É também Editora-Chefe dos livros anuais do The International Journal of Psychoanalysis.
“Toda a criação é de facto a recreação de um antigo e completo objeto de amor, agora desfeito e perdido, conjuntamente com um mundo interno e um self desfeitos e perdidos. É quando o mundo dentro de nós está destruído, quando está morto e sem amor, quando aqueles que amamos estão aos bocados, e nós próprios num desespero desamparado – é nessa altura que temos que recrear um novo mundo, juntar as peças, infundir vida no que está morto, recrear a vida.” (N.T.)
inimagináveis atrocidades que o ser humano pode cometer parecia ser continuar a pensar, a escrever e tentar ficar do lado da vida.
«Individual and Collective Dimensions of Trauma: When the (Unconscious) Nightmare Becomes Reality» («Dimensões individuais e coletivas do trauma: Quando o pesadelo (inconsciente) se torna real»), uma conferência ministrada pelo psicanalista israelita Joseph Triest em 2016 em Istambul, foi uma das atividades científicas que deu oportunidade para refletir no trauma coletivo e suas implicações na clínica. Juntando teoria e técnica, Triest falou do papel e dos limites do psicoterapeuta que trabalha «debaixo de fogo», referindo-se à expressão bioniana. O mesmo autor sublinhou a importância de revelar as fantasias inconscientes que a mente fabrica enquanto lida com o trauma na realidade externa. Foi com base nas minhas reflexões acerca da conferência de Triest que escrevi este artigo, com o propósito de enfatizar a função de metacontenção dos grupos de supervisão compostos por psicoterapeutas que trabalham com vítimas de trauma coletivo. De modo que possa ilustrar a minha tese, discutirei a minha experiência como supervisora de um grupo de profissionais que trabalham com vítimas de trauma e afiliados na Psychosocial Solidarity Network, estabelecida em 2015 como resposta aos ataques terroristas que o país havia sofrido.
Recentemente, a contribuição das memórias de guerra de Bion para o desenvolvimento da sua teoria do pensar tem sido analisada por vários psicanalistas (Brown, 2012; Roper, 2012; Souter, 2009; Szykierski, 2010). De acordo com estes autores, a contribuição de Bion para a psicanálise é produto de um processo criativo através do qual conseguiu elaborar e transformar as suas traumáticas experiências na guerra. Enquanto jovem de 20 anos, comandando um tanque na I Grande Guerra, Bion experimentou pessoal e dolorosamente como o pensamento ficou estilhaçado quando estava «debaixo de fogo». Mais tarde, baseado nesta experiência, fez uma analogia entre o campo de batalha e a sala de análise, onde turbulências emocionais têm lugar .
Os conceitos originais que Bion desenvolveu, como a função alfa, a evacuação, a relação continente-conteúdo e a sua conceção de identificação projetiva, estão radicados na devastação causada no seu mundo interno pelos eventos ocorridos no dia 8 de agosto de 1918 e pela sua luta, que durou toda uma vida, para lidar com esta devastação. Esta devastação psíquica foi tão extensa que Bion se refere àquele dia como «o dia em que morri» (Souter, 2009). Voltando vezes sem conta a esta experiência traumática, Bion construiu narrativas dirigidas a diferentes pessoas em diferentes momentos da vida. Estas incluem os seus diários de guerra, escritos em forma de cartas para os seus pais, a sua autobiografia e as suas memórias, escritas 40 anos depois deste acontecimento (Souter, 2009). Analisadas cronologicamente, estas narrativas evoluem de um retrato de acontecimentos físicos ocorridos no mundo externo até chegarem a uma elaboração da experiência emocional de Bion (Roper, 2012). Foi a sua segunda análise com Melanie Klein e a presença contentora da sua mulher, Francesa Bion, que conheceu depois da análise (Brown, 2012), que fez com que fosse possível para Bion historizar a sua traumática experiência de guerra (Szykierski, 2010).
O dia 8 de agosto de 1918 representa a sequência de eventos que leva ao ferimento grave e à morte do Cabo Sweeting (Bion, 1997). Bion e Sweeting, lutando pela França na Batalha de Amiens, refugiam-se numa cratera deixada por uma bomba, tentando proteger-se do ataque alemão. Quando Sweeting pergunta porque é que não consegue tossir, Bion dá conta de que há fumo a sair de um buraco no corpo do rapaz. Entende então que o lado esquerdo do peito de Sweeting está aberto ao meio e já não resta nada do seu pulmão. Esta é a descrição que Bion faz do que acontece a seguir (neste excerto, Bion faz a distinção entre o Bion que escreve, transforma a experiência em palavras, criando uma narrativa, e o Bion que vive a experiência):
«Bion começou a vomitar sem parar, impotente…
Mãe, mãe, escreva à minha mãe, por favor, Sir? Mãe, mãe, mãe…
Ó pelo amor de Deus, cala-te! — grita Bion, revoltado e aterrorizado.
Escreva à minha mãe, Sir, vai escrever à minha mãe, não vai?
Sim, pelo amor de Deus, cala-te.
Eventualmente, horas mais tarde, tendo sido forçado a andar pelo seu pé até à enfermaria, visto que todas as macas estavam ocupadas, o jovem Sweeting perde a vida.
“Bom, ainda bem que ele se foi”, pensou Bion, invadido por um ódio visceral por si próprio devido ao seu ódio pelo jovem» (Bion, 1997, p. 290).
Lawrence Brown (2012) estabelece a relação entre esta experiência traumática e a função alfa, o percursor da conceptualização bioniana da relação continente-conteúdo. Preso no mesmo buraco que o moribundo Sweeting, Bion viu-se confrontado com uma experiência muito mais terrível do que aquilo que ele conseguia suportar. Por um lado, os gritos de dor e desespero de Sweeting e, por outro, as rajadas alemãs, que duraram horas, sujeitaram Bion a um bombardeamento sensorial que perturbou a sua função alfa. Esta perturbação
é descrita por Freud como uma rutura do escudo protetor (Freud, 1920). Anos mais tarde, Bion viria a descrever a mente psicótica fragmentada, contendo objetos bizarros, representando os elementos que são sentidos como inimigos como um conjunto de balas e estilhaços. «O paciente sente que está rodeado de minúsculos elos que, estando agora impregnados de crueldade, ligam os objetos entre si de forma cruel» (Bion, 1957, p. 50).
O elemento mais impressionante da descrição desta experiência horrível é sem dúvida o apelo que Sweeting faz à sua mãe. Percebemos a necessidade de o jovem usar Bion como um objeto materno perante o seu medo da morte nas seguintes palavras:
«Ele dizia incessantemente “Estou feito, Sir! Estou feito!”, esperando que eu o contradizesse. O que eu fiz, dizendo-lhe que não era nada — mas os seus olhos já estavam a ficar vidrados» (Bion, 1997, p. 127).
Mais tarde, Bion viria a explicar que o apelo dos soldados às suas mães no momento em que se confrontam com o medo da morte está ligado ao contexto da relação primária entre a mãe e o bebé. Segundo Bion, quando um bebé vem ao mundo, projeta a sua ansiedade de aniquilação na mãe. Uma mãe saudável aceita as projeções do bebé, transforma-as em elementos que o bebé possa tolerar e devolve-os ao bebé. Esta função alfa da mãe vai permitindo a construção de uma barreira de contacto na mente do bebé, que funciona como um escudo protetor contra a estimulação excessiva. A capacidade da mãe para desintoxicar estas projeções é facilitada pela sua capacidade de rêverie, que pode ser descrita como a capacidade da mente da mãe para estar aberta e recetiva a tudo o que vem do bebé (Bergstein, 2013). Só desta maneira um bebé pode sentir-se contido. A mãe terá então que tolerar todas as frustrações até conseguir dar sentido à comunicação do bebé.
Ao longo do tempo, o bebé vai interiorizando a função alfa e a capacidade de rêverie maternas, dando origem a um aparelho mental através do qual começa ele próprio a dar sentido às suas experiências, digerindo e transformando as suas emoções em bruto. Nesse sentido, segundo Bion, a presença de um outro — a mãe — é crucial para o desenvolvimento da mente da criança e para o estabelecimento do seu sentimento de continuidade (Brown, 2012).
Nos casos em que a mãe não aceita as projeções do bebé, estas ficam registadas na mente da criança como «terrores sem nome», em vez de ansiedades que o bebé possa tolerar (Bion, 1962a). Na raiz da experiência psicótica, encontramos as ansiedades do bebé que a mãe não pôde conter, e, portanto, a criança continua desesperadamente a tentar evacuar estes elementos não digeridos. Se voltarmos a Bion e a Sweeting, este tenta projetar o seu medo da morte em Bion de forma que o torne mais tolerável, mas Bion não parece ser capaz de aceitar estas projeções. Na verdade, tenta livrar-se delas vomitando, o que seria na linguagem de Bion uma evacuação (Souter, 2009). Como consequência, Sweeting continua intensamente a tentar projetar os seus medos, com os seus apelos incessantes, as suas perguntas e pedidos, enquanto Bion procura proteger-se a si mesmo de modo que possa preservar a sua sanidade. No final, Bion sobrevive, mas como nos é dado a perceber pela sua narrativa, perde a sua identidade e morre psiquicamente devido ao ódio a si mesmo e à culpa de sobrevivente (Souter, 2009). Talvez Bion não tivesse sido capaz de oferecer a Sweeting um continente sólido, mas iria devotar a sua vida a compreender e tratar grupos de soldados e pacientes psicóticos.
Entre 2015 e 2016, conduzi um grupo de supervisão mensal a título voluntário, com colegas afiliados no Psychosocial Solidarity Network, que ofereciam sessões de terapia gratuitas a vítimas de trauma coletivo. Este grupo de pessoas tinha ou assistido a bombardeamentos, ou sido ferido num bombardeamento, e algumas ainda tinham perdido pessoas próximas como consequência de ataques terroristas. No meu entender, a função mais importante do grupo de supervisão nestes casos é a metacontenção. A que me refiro quando falo de metacontenção? Nos casos em que a mãe não está capaz de aceitar as projeções do bebé, o pai ou outro cuidador entra em cena e contém a díade mãe-bebé como um guarda-chuva (Guignard, 2002). Um dos desafios no trabalho com trauma coletivo é a existência de uma realidade partilhada (Joannidis, 2000) entre terapeuta e paciente vítima de trauma. Consequentemente, o terapeuta pode identificar-se de forma excessiva com o paciente ou, pelo contrário, retirar-se emocionalmente de forma defensiva. Nestes casos, o processo de supervisão de grupo entra em cena ajudando o terapeuta a metabolizar os elementos beta projetados e a transformá-los em elementos alfa, funcionando assim como metacontinente para a díade.
E como decorreu esta experiência no nosso grupo de supervisão?
Durante as sessões de supervisão de grupo, nem tudo é transmitido através do material que é verbalizado, mas também de forma vívida através de uma série de ações que fazem parte do processo grupal. Aliás, o início do grupo foi exatamente marcado por algo não simbolizado, que se expressou através de uma ação. Antes da primeira sessão, instalou-se uma certa confusão acerca de quem é que faria parte de que grupo. Assim que isso se resolveu, estabeleceu-se uma data de início do grupo, embora metade dos elementos
do grupo não pudesse afinal estar presente e de terem sido precisas duas ou três sessões para o grupo se estabelecer enquanto tal. Entretanto, uma das pessoas decidiu desistir, alegando que não conseguiria manter a continuidade porque as suas condições de vida haviam mudado. É relevante observar que os terapeutas, que tinham pedido supervisão com carácter de urgência, não pareciam conseguir organizar-se para o efeito.
Como supervisora, fui capaz de compreender o significado deste enactment do grupo apenas em aprés-coup. Na verdade, um dos temas mais frequentemente levantados pelos terapeutas era a dificuldade em manter a continuidade da terapia com os pacientes vítimas de trauma, que faziam pedidos de terapia urgentes, num apelo e necessidade intensos. O grupo de supervisão formou-se então segundo um processo análogo: 1) perda (a saída de um dos participantes); 2) o conflito entre a necessidade urgente da presença de outra(s) mente(s) para ajudar a processar a experiência traumática e o desejo de evitar sentimentos dolorosos (perda, luto, tristeza, tédio, vergonha, culpa, ansiedade, medo, falta de sentido), em antecipação da catástrofe produzida pelo trauma e interiorizada por identificação projetiva. Tal conflito pode ser pensado, usando os termos bionianos (1962b), como sendo um conflito entre K (o desejo epistemofílico, o desejo de conhecer, aprendendo com a experiência apesar da frustração) e -K (o impulso que age contra o desejo de conhecer, o ataque à ligação e a destruição de sentido). Gostaria de acrescentar que, à medida que os casos foram sendo partilhados e as dificuldades foram podendo ser expressas, os elos que uniam o grupo permitiram a coesão grupal e a continuidade dos seus membros.
A incapacidade para manter o processo terapêutico em pacientes que foram vítimas de trauma coletivo parecia estar ligada não apenas ao conflito acima mencionado, mas também a uma profunda culpa de sobrevivente e uma culpa advinda do facto de ter um lugar (simbolizado pela existência da sessão). O próprio terapeuta parecia identificar-se com esta culpa, identificação manifestada no desejo de dar a estes pacientes algo «mais» e nas frequentes dificuldades em manter o setting. As discussões destes problemas nas sessões de supervisão tiveram lugar num certo enquadramento, aquele de uma supervisão psicanalítica, o que permitiu que os terapeutas se identificassem com a função paterna presente no setting e, portanto, fossem capazes de estabelecer de forma mais firme os limites. Graças a uma função contentora, enquadrada por um setting seguro e consistente, as emoções difíceis de exprimir puderam ser trabalhadas nas sessões.
O grupo seguia sempre a mesma estrutura. Encontrávamo-nos uma vez por mês durante uma hora e meia, começando e acabando na hora marcada. No final de cada sessão e no dia anterior à seguinte, eu enviava por e-mail um lembrete aos participantes, uma mensagem estandartizada dizendo a data e a hora da próxima sessão (apesar de ser fixa) e o nome das pessoas que apresentavam nessa mesma sessão.
Bion defende que, tal como a mente individual, também o funcionamento do grupo oscila entre integração e desintegração. Durante o período em que a supervisão durou, ocorreram uma série de ataques terroristas na Turquia. Os ataques, geograficamente distantes de início, estavam a chegar cada vez mais perto de Istambul. O espaço para pensar e as defesas possíveis enquanto havia distância física colapsaram. Consequentemente, as barreiras entre terapeutas e seus pacientes também se esboroaram. Todos éramos vítimas de terrorismo e todos estávamos aterrorizados. O que estava a acontecer na realidade externa estava a criar o sentimento de que a vida/existência do grupo estava por um fio, o que desencadeava angústias primitivas no mundo interno de todos os intervenientes. Tal como os terapeutas sentiam que tinham de dar algo «mais» aos seus pacientes para que eles se mantivessem em terapia, eu sentia a preocupação de que o grupo se dissolvesse se eu não enviasse o lembrete no final de cada sessão — talvez como um objeto transicional (Winnicott, 1951) ao qual os membros do grupo se poderiam agarrar durante os longos intervalos entre sessões.
Para mim, o momento mais marcante da vida do grupo aconteceu numa sessão imediatamente antes do 1.° de Maio. No fim da sessão, enquanto eu estava à porta à espera que as pessoas saíssem, uma das participantes quis dar-me um beijo e abraçar-me em jeito de despedida (uma forma normal na Turquia de dizer adeus a um familiar ou amigo, mas não habitual com pacientes e supervisandos). Meio envergonhada, afirmou ter ficado surpreendida com o seu próprio comportamento. Eu também fiquei surpreendida, mas reagi normalmente. Os outros seguiram em fila, um após outro, abraçando-me e beijando-me. Eu fui-me despedindo dos participantes estupefacta. Quando saíram, fiquei a pensar em se este comportamento tinha alguma coisa que ver com o que tinha acontecido na sessão desse dia, quer ao nível do funcionamento do grupo, quer ao nível das temáticas discutidas, mas não parecia conseguir dar-lhe sentido. À medida que a minha estupefação foi diminuindo, os sentimentos de inquietação e ansiedade que estava a sentir antes e durante a sessão reapareceram. O dia seguinte era o Primeiro de Maio. Lembrei-me, antes de os participantes saírem, de uma pergunta que não me saía da cabeça — se eles iriam ou não participar nas manifestações que iriam ocorrer no feriado. Que catástrofes iríamos experienciar este mês? E o que
iria acontecer no dia seguinte? Pensar nisto deu-me o insight necessário para compreender a despedida calorosa do final da sessão, que antes parecia não ter sentido: nenhum de nós podia ter a certeza de que nos íamos voltar a ver, e o facto do dia seguinte ser o Primeiro de Maio, que durante anos havia sido um dia cheio de ocorrências, com multidões reunidas, vulneráveis a todo tipo de riscos, reforçava a angústia de aniquilação e/ou o medo de perda do objeto, criando no grupo o sentimento de antecipação de uma catástrofe. A morte estava a bater à porta. E, de facto, a fila formada à porta no momento da saída fazia-me lembrar a fila para as condolências quando alguém morre.
A antecipação da catástrofe (ou o medo da morte) foi exprimida através de uma ação no começo do grupo, cristalizada pelo acontecimento acima descrito e depois verbalizada em relação a um caso que iria ser apresentado na sessão seguinte. Tive de ganhar distância do grupo para poder pensar no significado deste enactment. Bion (1961a) afirma que o que é transmitido no grupo por via da identificação projetiva leva a uma perda temporária de insight e da capacidade de pensar no analista, que vivencia emoções intensas, simultaneamente sentindo que a situação exterior justifica essas emoções, sem pensar no seu significado profundo. Em tais casos, de acordo com Bion, o analista tem de se libertar do poder anestesiante da realidade.
No final do processo de supervisão do grupo, mais exatamente antes da penúltima sessão, dei-me conta já tarde, na véspera, de que não tinha enviado o lembrete habitual aos participantes. Desta vez, não fiquei preocupada porque pensei que o setting já estava interiorizado, toda a gente estava consciente de que havia sessão no dia seguinte e que não seria necessário o meu lembrete. Claro que isto foi um acting-out da minha parte. Durante este período, algumas das díades terapeuta-paciente tinham decidido continuar o processo de terapia, enquanto outras estavam no fim dos processos terapêuticos. Neste contexto, sublinhei o facto de o grupo de supervisão também estar a chegar ao fim (visto que a data de fim estava estabelecida desde o início). No dia seguinte, uma das pessoas faltou sem avisar e explicou mais tarde que se tinha lembrado da data, mas como não tinha recebido o meu lembrete ficou insegura e confusa e decidiu não comparecer. Se pensarmos no grupo como um todo (Joannidis, 2000), no qual as ansiedades e medos estão, através da identificação projetiva, diluídos e espalhados pelos membros do grupo, sabemos que por vezes os conflitos do grupo estão depositados numa só pessoa, sendo, portanto, possível que este conflito expresso por uma das pessoas fosse na realidade um problema do grupo todo.
Como é sabido, Melanie Klein (1940) afirma que as perdas presentes que experienciamos reavivam as perdas do passado e que a forma como fazemos o luto de uma perda está relacionado com a capacidade que tivemos no passado para lidar com a perda primária do seio. No final dos processos terapêuticos, a perda da terapia/do terapeuta traz à superfície nos sobreviventes de trauma coletivo os sentimentos de dor relacionados com as perdas traumáticas que os tinham feito procurar terapia inicialmente. Por perda traumática, refiro-me à perda de pessoas amadas, perda da integridade física, perda do sentimento de segurança, de entre outras. Um dos grandes desafios é precisamente a dificuldade em falar da separação, ou seja, o movimento de negação da perda.
Voltando ao grupo de supervisão, eu, enquanto supervisora, também tinha negado a possibilidade da perda, assumindo que todos os membros do grupo compareceriam no dia seguinte: simultaneamente a preparar o terreno para a perda, a criar incerteza no grupo. Este era na verdade outro dos desafios que os terapeutas encontravam com os seus pacientes: os pacientes faltavam às suas sessões. Foi então possível discutir os diferentes significados disto na sessão: por exemplo, o desejo do paciente de deixar com o terapeuta os sentimentos dolorosos desencadeados pela separação iminente, fazendo o terapeuta experienciar essa perda, e/ou o desejo de manter a fantasia ilusória de que a perda está sob controlo, não comparecendo às sessões antes que a terapia chegue efetivamente ao seu fim. Num certo sentido, esta dinâmica foi agida também no funcionamento do grupo.
Perante os acontecimentos traumáticos experienciados na realidade externa e testemunhados nas sessões, a função continente do terapeuta pode ficar comprometida, criando na díade terapeuta-paciente o sentimento de estarem presos num poço, como Bion com Sweeting. Parece impossível pensar «debaixo de fogo», com a morte a bater à porta. O terapeuta pode então experienciar sentimentos de incompetência, fracasso, desamparo, burnout, traumatização secundária. O processo de supervisão tira o terapeuta deste poço e permite uma distância suficiente, reativando assim a capacidade criativa do terapeuta, com as suas funções de contenção, de ligação e de construção de significado. «Serve para contrariar o perigo de ficar assoberbado; para manter os limites e, portanto, […] prevenir o burnout, a depressão e as reações psicossomáticas» (Leuzinger-Bohleber et al., 2016, p. 97).
É difícil pensar quando a morte bate à porta. Quando a morte bate à porta, enfrentamos o facto de que a vida pode acabar em qualquer momento. A ausência de sentido e o nada estão atrás da porta. No entanto, não será a mesma porta que se abre à vida e à esperança, na experiência de conter e ser contido?
ABSTRACT
The increasing violence and destruction in the world bring up new questions about theory and technique in the field of psychoanalysis. The purpose of this article is to discuss the importance of the meta-containing function of supervision groups while working with trauma victims. In order to illustrate this, examples will be given from a voluntary supervision group process which was established after a series of terrorist attacks in Turkey. Traumatic events, expressed in the outside world and witnessed during the sessions, may hinder the containing function of the therapist which may make it impossible to “think under fire” while “death is knocking on the door”. By working through the conflicting feelings of the trauma victim, brought to the supervision group process through the mechanism of projective identification, a deeper understanding of the patient is achieved and the “blindspots” of the therapist are discovered. As the therapist-trauma victim dyad moves from “acting” to acquiring higher levels of symbolization, therapeutic process deepens, work of mourning is activated, and in some cases, symptoms are eliminated and better adaptation to the outside world is observed.
KEY WORDS: container-contained; meta-containing function; reverie; supervision; trauma