O tempo constitui-se como um dos organizadores da mente. Como se desenvolve o sentido do tempo desde as primeiras formações protomentais até à consciência do tempo? A perspetiva fenomenológica-existencialista do tempo, a dimensão cíclica e a temporalidade dos processos fisiológicos ligam-se à natureza rítmica da intercorporalidade precoce, dando origem a experiências só possíveis no decurso do tempo e que se vão organizando em unidades cada vez mais complexas. Exploram-se diversas dimensões da relação com o tempo — tempo cronológico, tempo subjetivo, temporalidade, temporalização, historicização e progressão. Os precursores do sentido de tempo organizam-se desde os níveis arcaicos de funcionamento psíquico, o corpo — palco dos fenómenos fisiológicos —, para as modalidades pré-verbais de comunicação e ordem simbólica que dão origem à consciência do tempo, destacando as primeiras contribuições de Freud e a obra de André Green. A psicopatologia é uma fonte privilegiada de observação indireta que pode auxiliar na recuperação do traçado de desenvolvimento do sentido do tempo. Da fenomenologia psicopatológica às similitudes entre a linguagem filosófica de Heidegger e o discurso psicanalítico de André Green, finalizamos com vinhetas clínicas provenientes de trabalho clínico com pacientes adultos, recorrendo aos conceitos de reverberação associativa, antecipação anunciadora, irradiação associativa e movimento.
Artigo submetido em fevereiro de 2024 e aceite para publicação em setembro de 2024.
Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de Lisboa. Psicoterapeuta e Psicanalista; Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: ana.monica.dias@gmail.com
O leitor provavelmente sentou-se para se dedicar a uma leitura que será breve, no caso de não se interessar pelo tema ou não ter tempo disponível, ou mais prolongada, no caso de querer fazer uma leitura integral do texto. A noção de tempo precede o gesto do leitor e precedeu este trabalho de escrita, acompanhando-o.
O tempo constitui-se como um dos organizadores do psiquismo, presente nos nossos gestos, na nossa relação com a realidade, nas nossas modalidades de comunicação e de relacionamento interpessoal e intrapessoal. Como surge o sentido de tempo? Esta é a questão orientadora do trabalho. Como se desenvolve o sentido do tempo desde as primeiras formações protomentais até à consciência do tempo? Como evolui, num entrelaçado fisiológico e relacional ao longo das primeiras semanas de vida?
A perspetiva fenomenológica-existencialista do tempo, a dimensão cíclica e a temporalidade dos processos fisiológicos ligam-se à natureza rítmica da intercorporalidade precoce, dando origem a experiências só possíveis no decurso do tempo e que se vão organizando em unidades cada vez mais complexas. Exploram-se diversas dimensões da relação com o tempo — tempo cronológico, tempo subjetivo, temporalidade, temporalização, historicização e progressão.
Os precursores do sentido de tempo organizam-se desde os níveis arcaicos de funcionamento psíquico, o corpo — palco dos fenómenos fisiológicos —, para as modalidades pré-verbais de comunicação e ordem simbólica que dão origem à consciência do tempo, destacando as primeiras contribuições de Freud e a obra de André Green. As teorias psicanalíticas sobre a formação do primeiro núcleo de consciência temporal — que tem origem nas diversas fases do desenvolvimento psicofísico da criança e na sua relação com o ambiente — abarcam um largo espectro. Tentamos responder à questão orientadora inicialmente com base nos conceitos desenvolvidos por Freud — Inconsciente e Princípio da Realidade. Apresentamos desenvolvimentos de Ferenczi — Princípio da Realidade e Trauma — e movemo-nos até à atualidade, com ênfase particular no pensamento de André Green, autor que se debruçou de forma aprofundada na temporalidade em psicanálise, especificamente na sua proposta de coexistência de tempos psíquicos.
A psicopatologia é, também, uma fonte privilegiada de observação indireta que pode auxiliar na recuperação do traçado de desenvolvimento do sentido do tempo, ilustrando as consequências das sequelas precoces na relação com o tempo na estruturação da mente. Da fenomenologia psicopatológica às similitudes entre a linguagem filosófica de Heidegger e o discurso psicanalítico de Green, finalizamos com vinhetas clínicas provenientes de trabalho clínico com pacientes adultos, recorrendo aos conceitos de André Green de reverberação associativa, antecipação anunciadora, irradiação associativa e movimento.
Auxiliar precioso na abordagem dos fenómenos da génese do sentido do tempo, esta perspetiva constitui, para nós, uma antecâmara, uma substância cultural, onde se inscrevem as teorias psicanalíticas sobre as quais nos vamos debruçar com mais detalhe.
Para Fuchs (2021), é impossível ultrapassar a dimensão cíclica do tempo. A temporalidade do corpo vivo, os processos fisiológicos como o batimento do coração, respiração, ritmos circadianos, ciclos hormonais, ações automáticas, a vida vivida de modo pré-reflexivo, é moldada por uma estrutura cíclica. Esta estrutura é a fundação de todos os projetos que são linearmente movidos para o futuro. A conexão entre o tempo cíclico e o tempo linear nem sempre é harmoniosa e é, frequentemente, antagonística.
O conceito de tempo como um processo linear, uniforme e que progride continuamente é um produto da modernidade europeia. Os conceitos de tempo, noutras culturas, baseiam-se primariamente na recorrência cíclica de processos cósmicos e terrenos. Os ritmos do dia e da noite, as estações, os ciclos lunares e planetários determinavam os processos sociais e eram representados em diversos cultos (Fuchs, 2021). Os mitos e os ritos não conheciam nenhum progresso no futuro e, ao contrário, reencenavam o passado mítico em que a comunidade participava de forma mimética para que o momento originário pudesse ser revivido uma e outra vez (Eliade, 1957).
A conceção linear do tempo ganha forma nos progressos científicos e tecnológicos da modernidade. Produtos culturais humanos, tais
como o relógio mecânico desde o século XIV ou os meios de transporte continuamente mais rápidos ao longo dos séculos XIX e XX, criaram e estabeleceram a ideia de tempo como um fluxo contínuo, em estreita ligação com a física newtoniana (Dias, 2022).
A natureza rítmica ou musical da intercorporalidade precoce é sublinhada nos trabalhos de Stern (1992), nomeadamente no conceito de «afetos vitalizantes» — os contornos de intensidade de expressões corporais mútuas como o surpreender, acelerar, abrandar, suavizar, que acontecem num espaço-tempo de poucos segundos (Fuchs, 2021). Stern explorou as formações subjetivas pré-verbais da criança e valorizou o carácter trans-subjetivo, desde o início das experiências precoces do bebé, que não dissocia o sentimento de si e o sentimento do outro, até uma dialética entre afetos partilháveis e afetos não partilháveis, que estrutura as fases emergentes da subjetividade (Junior & Arán, 2011). Considerando o facto de que todos os fenómenos se desdobram no tempo, o sorriso de uma mãe — o som da voz — é percebido não como algo fixo, mas como uma sequência de movimentos de curta duração, padronizados no tempo e no espaço, como as imagens de um filme, ou seja, a experiência dos sentimentos interiores só é possível no decurso do tempo (Junior & Arán, 2011).
Ação e perceção são progressivamente integradas em unidades significativas dentro de janelas temporais alargadas que oferecem uma «espessura» ao presente, ou seja, a experiência do presente como um «pertencer ao conjunto» ou «o presente alargado» (Husserl citado por Fuchs, 2021). Em suma, o que nos parece importante sublinhar é que a temporalidade da experiência corporal não é experimentada de forma linear, mas, antes, de forma rítmica ou cíclica.
Sobre a experiência do tempo nos estados primitivos da mente, Lombardi (2003) detém-se numa área conflitual da mente em que se confrontam a negação do tempo e a aceitação do tempo. Antes de morrer, Urano terá profetizado a Chronos que um dos seus filhos o iria destronar. Chronos decidiu então devorar os seus filhos assim que nasciam de Hera. Uma vez que a criança representa algo novo, matar crianças assim que nascem representa uma tentativa omnipotente de negação do tempo.
Para Fischbein (2017), podemos considerar duas dimensões do tempo apoiando-nos na mitologia. Chronos corresponderia ao tempo inexorável do relógio — o tempo cronológico — e Kairós corresponderia ao tempo interno, o tempo dos sonhos e do desejo — o tempo subjetivo. A referência ao tempo subjetivo, para este autor, conduz-nos a um conjunto de conceitos que funcionam como dimensões na análise da relação com o tempo: temporalidade, temporalização, historicização e progressão.
A temporalidade seria adquirida pelos ritmos e alternâncias a que o bebé é exposto desde o início da vida. Trata-se de um registo primitivo, arcaico, baseado nas primeiras gratificações pulsionais, na satisfação e descarga da tensão e da excitação somáticas, e é moldado pela presença alternada com ausência do objeto cuidador e das ações do mesmo (Laplanche citado por Fischbein, 2017).
A temporalização significa a marcação no tempo de algo experimentado como absoluto ou eterno, a conversão daquilo que é incomensurável em algo que pode ser medido pela sua dimensão temporal.
A historicização é a capacidade de conferir um significado subjetivo com os seus derivados emocionais sobre o percurso de vida. Um desejo introduz a ideia de tempo prospetivo, de um futuro, de um «está para vir» — o que é esperado irá acontecer. Períodos de tempo além da vida do indivíduo também são considerados. Expressam desejos de imortalidade no domínio da hipercatexia racional, defensiva e quase alucinatória, que relaciona o tempo humano, para lá do nascimento e da morte, com mitos sobre a sua história pessoal, os seus ingredientes e transmutações, e com a existência de algum tipo de paraíso ou de inferno em que a vida persista (Fischbein, 2017).
Progressão (ou o curso de vida) sublinha a ideia de movimento e mudança, fluxo ou curso dinâmico que nos apresenta a transformação constante. Progressão sublinha o Processo de Ser ou, de outro modo, a Ideia de Ser como um processo. Refere-se igualmente ao contraste contínuo entre opostos. A progressão inerente ao tempo cronológico culmina inexoravelmente na morte. O tempo subjetivo, por outro lado, tem a gratificação do desejo como o seu objetivo e princípio orientador, que permite a ilusão de gratificação que dá origem a uma expectativa futura.
Durante as primeiras semanas de vida, o bebé vive imerso no sentimento omnipotente infantil, um presente monodimensional que transcende as fronteiras de tempo (Sabbadini, 1989). O bebé é apresentado, desde cedo, à espera inevitável da satisfação das suas necessidades. Para sobreviver, o aparelho psíquico tem de desenvolver a capacidade de adiar a gratificação de necessidades e tolerar a frustração que daí deriva. Com o estabelecimento gradual do Princípio da Realidade, podemos observar o início do lento processo de diferenciação self/não self e do mundo interno/mundo externo. O princípio da realidade é, assim, um dos precursores da génese do sentido do tempo.
Em «Stages in the development of the sense of reality», Ferenczi (1913/1994) reconstrói teoricamente, a partir de Freud, as principais fases do desenvolvimento do princípio do prazer para o princípio da realidade. Antes de experimentar as suas frustrações primárias, a criança está mergulhada num estado de omnipotência, desde que se assegurem determinadas condições. É o crescente número e complexidade destas condições que compelem a criança a «render-se», reconhecendo a realidade. Como se processa esta «rendição», que dá origem à instalação do princípio da realidade, génese primeira do sentido de tempo?
A adaptação do padrão de sono e vigília ao ritmo do dia e da noite é um indicador de desenvolvimento do ego primário. Este ritmo evolui como uma interação entre os padrões inatos de maturação neurofisiológica e a relação precoce, mediada pelas variações da resposta da mãe/cuidador às suas necessidades. Esta adaptação ao tempo, experimentada através de uma periodicidade na resposta materna, reflete uma consciência primitiva da realidade, anterior à diferenciação entre si próprio e a realidade envolvente estar completa (Gifford, 1960).
O sentido de tempo, inseparável da perceção da realidade, existe, de acordo com Gifford (1960), em três formas rudimentares neste período precoce de desenvolvimento: 1) no sentido automático de ciclo de atividade curto; 2) na resposta da criança ao tempo como um aspeto da realidade externa experimentado como uma periodicidade no contacto com a mãe; 3) na capacidade de adiar a necessidade
imediata de alimento com a expectativa de uma satisfação futura. Uma consciência do tempo surge mais tarde. Entre os 18 meses e os 3 anos, surgem conceitos como «agora», «em breve», «quando», e as funções intelectuais mais abstratas da perceção do tempo surgem ainda mais tarde.
A adaptação ao ritmo de sono da periodicidade de vinte e quatro horas representa a primeira experiência primitiva do tempo como uma restrição imposta pelo mundo externo sobre a gratificação imediata. Estas experiências podem ser precursoras de desenvolvimentos posteriores e atitudes em relação ao tempo como um agente de realidade que castra o prazer e exige adesão às responsabilidades da vida adulta.
O tempo não parece formar uma parte integral da nossa natureza fundamental, mas parece pertencer somente à nossa dolorosa perceção da realidade do mundo externo, ou seja, a «nossa natureza fundamental» pode ser interpretada como um ego indiferenciado antes de a realidade ser claramente percecionada (Maria Bonaparte citado por Guifford, 1960).
Este estado de narcisismo primário ocorre no sono e nos sonhos, nos mitos de imortalidade e eterna juventude e nos contos de fadas, que retratam uma existência intemporal em que o prazer é eterno e o envelhecimento e a morte não existem.
A transição delicada de um estado original de fusão indiferenciada com o objeto primário para o estágio subsequente de relativa separação e individuação, quando uma primeira consciência de self ou sentido de identidade começa a ganhar forma, testemunha a emergência gradual da autoconsciência temporal (Sabbadini, 1989). O primeiro núcleo de um sentido de identidade requer, por sua vez, a capacidade de constância objetal, de relação com um objeto internalizado e de manutenção do mesmo quando o objeto real está ausente. Esta capacidade para tolerar a frustração envolve, por sua vez, a capacidade de viver a ambivalência na relação de objeto. Em complementaridade com o desenvolvimento da capacidade de constância objetal, o sentido de identidade deriva do estabelecimento de constância do self, isto é, da capacidade de o ego experimentar ambivalência (Sabbadini, 1989). Ambos são adquiridos através do grande campo dos fenómenos transicionais explorados por Winnicott. No artigo publicado em 1959,
«O destino do objeto transicional», Winnicott é claro nas funções que atribui ao objeto transicional:
«Quando falamos em omnipotência na primeira infância, não queremos dizer apenas omnipotência do pensamento; pretendemos indicar que o bebé acredita numa omnipotência que se estende a certos objetos e, talvez, se estenda para abranger a mãe e outras pessoas do meio ambiente imediato. Uma das transições é a do controlo omnipotente dos objetos externos para o abandono do controlo e, finalmente para o reconhecimento de que existem fenómenos que se encontram fora do nosso próprio controlo. O objeto transicional que faz parte tanto do bebé como da mãe adquire uma nova condição a que damos o nome de posse» (1959/1994, p. 45).
Enquanto o objeto transicional representa uma ponte no processo de separação self/não self, a emergência de um sentido de tempo representa uma ponte no processo de transformação entre o mundo original — marcado pela temporalidade indiferenciada — e o mundo real, de se tornar, de ser. Este implica movimento e mudança e exige adiar a gratificação de necessidades. Adiar conduz, por sua vez, a tolerar a espera, aceitando a condição humana de limitação, finitude e vulnerabilidade. Citando ainda Winnicott:
«Se for verdade que o objeto transicional e os fenómenos transicionais se encontram na própria base do simbolismo, acho então que podemos com justiça reivindicar que esses fenómenos assinalam a origem, na vida do bebé e da criança, de uma espécie de terceira área da existência, uma terceira área que tem sido difícil de encaixar na teoria psicanalítica» (1959/1994, p. 47).
À medida que as atividades mentais de processo secundário são estabelecidas em coexistência com o funcionamento do processo primário; à medida que o princípio da realidade gradualmente se harmoniza com o princípio do prazer; à medida que o narcisismo primitivo é forçado a abdicar de alguma da sua omnipotência para desenvolver e estabelecer relações de objeto (através de objetos transicionais, num processo gradual de separação e individuação dos objetos primários):
então, o tempo mágico, eterno, omnipresente, sofre a transformação para uma perspetiva temporal multidimensional (Sabbadini, 1989).
Isto é possível como resultado de — e em paralelo com — o desenvolvimento da capacidade da criança dominar os processos de formação de símbolos e da linguagem. Uma capacidade maior de simbolização torna possível o início da diferenciação entre passado, presente e futuro.
As memórias, baseadas na capacidade de reter representações da experiência, passam a significar o passado. A capacidade de antecipar a interação com os objetos significa o futuro (Colarusso, 1987).
Encontramos num dos documentos estruturantes do pensamento de Bion, «O estudo psicanalítico do pensamento», publicado em 1962, reeditado em 1967 com o título «Uma teoria do pensamento» na obra Second Thoughts, uma noção original do tempo e da sua génese (O'Shaughnessy, 1981). Para Civitarese (2019), este aspeto nunca foi discutido a não ser tangencialmente na literatura psicanalítica, e propõe explorar-se como se forma a estrutura primal do tempo (Zeitlichkeit) a partir da qual deriva o tempo vivido (Zeit) e a representação abstrata do tempo linear, mensurável. Bion (1967) centra-se na distinção entre uma conceção e um pensamento, a que deriva da experiência de satisfação e o que deriva da experiência de frustração na criança. Estes dois elementos, conceção e pensamento, têm de ser compreendidos não como segmentos isolados de uma sucessão, mas, antes, ligados numa relação dialética em que cada termo simultaneamente nega e reafirma o outro. Esta matriz dá origem a uma ordem de tempo inicial pré-reflexiva que assume o estatuto completo de tempo subjetivo, no sentido de tempo como duração e na sua representação abstrata, somente quando é incorporado na ordem simbólica através da função da linguagem (Civitarese, 2019).
A noção de tempo subjetivo surge a partir do contacto como estímulo de ou resposta de um objeto que permite o registo de perceção e a sua conversão para sistemas de representação que podem ser recordados, transferidos, transformados, em virtude da aquisição da linguagem (Fischbein, 2017). A linguagem, por sua vez, permite que a representação seja distinguida do objeto representado, isto é, a linguagem facilita a transição dos traços percetivos para a representação como metáfora da experiência concreta. A linguagem é o representante por excelência da apreensão e utilização de símbolos.
As referências de Freud ao tempo surgem pela primeira vez na carta 52, de 1896, com o conceito de inconsciente intemporal, parte do funcionamento do aparelho mental (Freud, 1896/1990). No inconsciente, nada pode ser levado ao fim, nada é passado ou esquecido, os processos do sistema são eternos, ou seja, não são ordenados temporalmente, não são alterados pela passagem do tempo, não têm nenhuma referência ao tempo. Não admitindo a presença do tempo ou algo negativo, não acredita na sua própria morte e comporta-se como se fosse imortal (Freud, 1915/1990).
Freud descobriu o ato psicológico de negação da realidade. Em «Negação», publicado em 1925, enuncia e descreve esta fase particular de transição entre ignorar e aceitar a realidade. O mundo externo, alienígena e hostil, torna-se capaz de entrar na consciência, apesar da «dor», quando é apoiado pelo prefixo «de», ou seja, denegação (Freud citado por Cabré, 2008). Permanecem, na vida adulta, os resíduos desta fase de desenvolvimento que envolve a negação da passagem do tempo e que se manifesta pela ilusão da religião e pelas formas sublimadas de linguagem e arte.
Assistimos, na obra de Freud, à evolução para a noção de «todos os tempos num só tempo», abrindo progressivamente lugar para o tempo subjetivo, expresso e construído no mundo fantasmático do sujeito (Fischbein, 2017). O conceito de Nachträglich foi utilizado por Freud pela primeira vez em 1895, em «Projeto para uma Psicologia Científica» (Freud, 1895/1990). A originalidade desta noção freudiana reflete-se nas nossas conceções atuais sobre a técnica analítica — para o paciente e para o analista — da e na própria sessão de análise (Green, 2002, 2008): as representações recalcadas, à maneira do cavalo no jogo de xadrez, saltam por cima das filas do tabuleiro, ladeando para trás e para a frente o empecilho, sem respeitar uma ordenação segundo a ideia corrente do tempo como uma sequência direitinha de passado-presente-futuro (Green citado por Borges-Duarte, 2021).
Para que o tempo exista como um continuum subjetivo, parece ter de existir uma condição necessária prévia, ou seja, que o sujeito tenha desenvolvido um sentido de identidade suficientemente estável. Inversamente, para que a identidade se forme e se mantenha, já terá de existir um tempo com as suas qualidades distintivas — sucessão, duração e reversibilidade.
Que manifestações psicopatológicas podemos observar na estruturação de um psiquismo marcado por sequelas precoces na relação com o tempo?
A temporalidade é, como já referimos, uma dimensão estruturante do psiquismo e um dos tópicos mais complexos da fenomenologia psicopatológica, sendo essencial para investigar a consciência e o self, mas também no estudo da subjetividade em indivíduos com perturbação mental.
A perceção do tempo torna-se significativa em todas as condições clínicas dominadas caoticamente pelo fenómeno sensorial e onde a capacidade de discriminar, de testar a realidade e reconhecer os outros está comprometida (Lombardi, 2003). O nível mais arcaico de funcionamento psíquico seria a matriz básica em que desaparece qualquer distinção entre pessoas e objetos, sujeitos, mundo externo e espaço-tempo. Aqui, o infinito vigora e o movimento e o tempo desaparecem. A introdução do parâmetro temporal cria uma espécie de continente que permite à mente encontrar caminho no espaço-tempo e circunscrever o infinito em limites finitos.
A doença mental interrompe a continuidade da vida normal e também pode ser acompanhada de uma mudança radical na temporalidade subjetiva, até ao ponto de fragmentação da experiência do self no tempo (Fuchs & Pallagrosi, 2018).
A análise fenomenológica do tempo vivido, conduzida por psicopatologistas como Jaspers, Minkowski, Binswanger e Tatossian, ajuda-nos a compreender este fenómeno. O conceito de tempo é entendido como uma estrutura base do self humano; e de acordo com esta perspetiva, os seres humanos são organismos produtores de tempo. Schiffer (1978) também desenvolveu uma investigação extensa sobre a paixão do humano em «matar o tempo». A pulsão de vida permite-nos manter vivo o desejo de recriação e de aventura, resgatando-nos da consciência dolorosa da passagem do tempo. As tentativas de controlo omnipotente do tempo assumem diversas formas e níveis — manipulando-o, aniquilando-o na sua progressão, revivendo-o, matando-o.
A experiência do tempo reflete, assim, a nossa organização pulsional, bem como a integridade do nosso mundo interno. Goldschmid (1971) publicou uma revisão do livro The Child's Conception of Time,
de Piaget, publicado em 1946, em que Piaget desenvolve a sua teoria do tempo, concluindo que o tempo não é uma intuição à priori, mas, sim, uma construção. Refere-se igualmente a um comentário de Piaget que sugeria que o sentido de duração fosse regulado por emoções que refletem a persistência das ilusões da infância. A compulsão de repetição implica um processo no tempo, o desejo regressivo de voltar a um tempo passado, de manipular o tempo, de o fazer desaparecer, ou seja, o desejo de intemporalidade.
A psicopatologia, nas suas transmutações ao longo da história, pode ser interpretada como tentativa desesperada do psiquismo de lutar contra o tempo e recusar a mudança. De acordo com Loewald (1972), existiriam duas experiências nos polos opostos da relação com o tempo — a experiência de eternidade e a experiência de fragmentação. Na experiência de eternidade, o fluxo de tempo é suspenso — Nunc Stans. É o momento presente, em que não existe divisão entre passado, presente e futuro, não há recordação, não há desejo, não há antecipação, ou seja, trata-se da simples absorção em Ser, em Estar. Estes estados alterados de consciência são ativados sob influência de alteradores de humor ou durante estados emocionais de intensidade excecional. Freud descreve brevemente o sentimento oceânico e a sua relação com o conceito de eternidade, ligando estes «sentimentos-ego» com o sentimento-ego primal do bebé, prévio à diferenciação entre sujeito e objeto (Loewald, 1972). No outro polo, a experiência de fragmentação, o mundo mental encontra-se dividido em pequenas peças sem atribuição de significado. No continuum através do qual mantemos o nosso mundo interno coeso, a interdependência e as ligações entre passado, presente e futuro desintegram-se, são fragmentadas, de modo que cada instante perde a sua relação com outro instante e permanece por si só, não integrado no continuum temporal.
Na experiência de eternidade, as relações temporais desvanecem-se numa unidade de abolição do tempo, ou seja, todo o significado é condensado na unidade global, indiferenciada do momento, instante presente, o Nunc Stans. Na experiência de fragmentação, pelo contrário, o tempo foi abolido pela aniquilação das ligações, restando o instante, vazio, o nada. Loewald (1972) refere-se ainda às afinidades destas experiências com estádios precoces do funcionamento psíquico em que as ligações da experiência de natureza temporal não
estão ainda firmemente estabelecidas. Assim, experiências de estranheza, despersonalização, desrealização aproximam-se da experiência de fragmentação. O tempo na vida psíquica é primariamente uma atividade de ligação em que o que denominamos de passado, presente e futuro se aglomera numa espécie de nexus. Este nexus não é uma sucessão, mas uma interação, ou seja, passado, presente e futuro não são modos que se precedem ou se sucedem, mas, sim, modos de tempo que se determinam, se moldam, articulam e modificam mutuamente. O tempo é assim um agente ativo na vida psíquica. É a atividade de memória da mente que permite um antes, um agora e um depois com as ligações de significado que confluem num nexus de sentido, que, por sua vez, fornece sentido e significado a cada elemento por via das relações de reciprocidade criadas entre os elementos interdependentes (Loewald, 1972).
Na experiência de fragmentação, esta atividade é interrompida. As manifestações de compartimentalização frequentes na patologia obsessivo-compulsiva são um bom exemplo.
Ferenczi introduziu reflexões sobre a temporalidade na análise, que se tornaram essenciais hoje na nossa prática, enfatizou o papel determinante dos objetos externos na estruturação do aparelho psíquico e sublinhou a importância dos conceitos de processos de identificação e clivagem do ego (citado por Cabré, 2008). No seu artigo «The problem of acceptance of unpleasant ideas», Ferenczi (1926/1994) refere-se a estados extremos de dor e sofrimento, desenvolvendo as suas ideias sobre a relação entre o trauma e a temporalidade. A dor mental extrema, sendo irrepresentável, faz o sujeito mergulhar para fora do tempo histórico e cronológico:
«Eles estão longe no universo. Eles estão a voar por entre as estrelas a uma velocidade colossal. Parecem tão finos que passam sem obstáculos pelas substâncias mais densas. Onde eles estão, não há tempo. O passado, o presente e o futuro são simultâneos para eles. Em suma, eles sentem que superaram o tempo e o espaço» (Ferenczi citado por Cabré, 2008, p. 45).3
Tradução da autora.
Esta dor mental é muito mais extrema do que a dor da memória de uma dor passada; mais do que o tempo histórico, este tempo está furiosamente presente, como se o sujeito precisasse de organizar o espaço do não espaço e da não existência (Cabré, 2008).
Green (2008), referindo-se a Winnicott, salienta as suas observações sobre a tolerância ao tempo, sobre a quantidade de tempo durante a qual a criança pode tolerar a ausência do objeto ou a sua indisponibilidade. Após um determinado período de tempo, o objeto enquanto tal desaparece, e já não faz nenhuma diferença, no futuro, se o objeto está ou não presente, uma vez que a única coisa real é a ausência do objeto.
A leitura do tempo em André Green apresenta semelhanças com o conceito de temporalidade ek-stática de Heidegger. Fenómenos que Freud pensava manifestarem um alheamento da temporalidade, que eram «atemporais», como os sonhos, lidos a partir de autores contemporâneos como Green não só não são atemporais como revelam o «puro brotar simultâneo e cooriginário das três dimensões ek-státicas do tempo, marcando a característica mais própria do Dasein, a sua irredutibilidade à mera presença, à maneira das coisas, no horizonte de sentido figurado como realidade» (Borges-Duarte, 2021, p. 76).
Devolvemos as palavras a Green, quando explicita, ao vivo, numa conferência, o seu pensamento sobre como «acontece» o tempo da sessão de análise:
«Tentei descrever como o tempo na sessão funciona. Acho que o analista no seu trabalho presta atenção e, de repente, compreende que tal elemento, pertencente a uma cadeia associativa, tem conexões indiretas com um elemento anterior que ouvira. A isto eu chamo reverberação retrospetiva. Mas, por outro lado, o analista vai ouvindo e ouvindo algo que ele prevê como um anúncio de que o paciente vai falar disto ou daquilo, o que é uma associação prospetiva a que eu chamo antecipação anunciadora. O que cada um tem de compreender é que a linearidade da associação não tem importância nenhuma. O que importa é a conexão que pode ser feita para trás e para a frente. Chamo a isto radiação associativa. Há que
Page 50prestar atenção ao movimento, à irradiação dos significantes e à maneira como conecta os significantes quer com os traumas, quer com memórias e afetos anteriores. O importante é que existem graus de tensões em cada secção do material que estão constantemente a ameaçar a sequência do discurso, ora por via de um afeto avassalador ora por via do agir. Todo este movimento é um movimento de separação, de encontro, de se aproximar do analista e se afastar dele. É a isto que chamo movimento4. Se tentarmos conjuntar o que disse durante esta hora, vemos que há uma oposição entre sistema representativo e sistema motor — de movimento. É que, de facto, há uma extinção de temporalidade» (citado por Borges-Duarte, 2021, pp. 74–75).
Para Borges-Duarte (2021), a reverberação retrospetiva é um salto atrás, mas não para um ponto fixo: o salto é englobante dos terrenos sobre o quais se salta e que ficaram guardados na memória inquieta do analista, porque apareceram em diferentes momentos do que ouviu dizer. A «antecipação anunciadora» é o aguardar expectante de uma ligação com algo prévio, procedente do fluxo de recordações e fantasias, mas também reflexões, que surgem no contexto associativo da análise, como tempo suspenso do tempo real do mundo — «ou seja, passado, presente e futuro são, ao mesmo tempo, o mesmo tempo pulsátil do Dasein» (Green, 2008, p. 1038)
A fenomenologia da transferência é, igualmente, um exemplo da interdependência de tempos psíquicos. A relação com o analista é parcialmente determinada pelo passado do paciente (ativo no presente) e por um desejado ou temido futuro (codeterminado pelo passado). A relação presente e a expectativa que se gera ativam o passado e influenciam como a relação é experimentada e recordada. A reintegração do passado, por sua vez, modifica a relação presente com o analista (e com outros em geral) e modifica o futuro antecipado no presente (Loewald, 1972).
As transformações da relação com o tempo percorrem o processo analítico, de entre uma multitude de mudanças. Recorrendo aos conceitos de reverberação associativa, antecipação anunciadora,
Itálico da autora.
irradiação associativa e movimento, com base no pensamento de Green, exposto anteriormente na sua descrição de como acontece o tempo na sessão de análise, apresentamos duas vinhetas clínicas de dois pacientes adultos em diferentes tempos da análise.
A Sra. C. encontra-se em análise há 9 anos com uma regularidade de três sessões por semana desde o início do processo. A sua avó é internada na sequência de uma doença pulmonar. Nas primeiras duas sessões da semana, comparece presencialmente. Elabora sobre a sua relação com o tempo, a avó internada, a morte do avô há 3 anos, o fim de um ciclo ligado a uma cidade do interior do país. As memórias de infância povoam o seu imaginário. Descreve um sonho-pesadelo. Estavam todos num hotel. Saiu à rua, sozinha. Houve um terramoto e a sua família — mãe, marido e filhos — tinha ficado no hotel. Telefonou ao pai, aflita. Este, «como sempre», respondeu de forma seca: «podes dá-los como mortos». Três horas antes da terceira sessão da semana, pergunta, por SMS, se seria possível realizarmos a sessão online, uma vez que não tem previsão de conseguir chegar a tempo à sessão. Inicia a sessão dizendo que pediu para ser online porque teve de esperar por uma entrega de compras e estava sozinha.
Na minha contratransferência, ecoa o tema da relação com o tempo das duas últimas sessões, como o motor deste acting online na terceira sessão (antecipação anunciadora).
C. associa livremente com a relação com a mãe, referindo que não pode confiar na mãe. Esta apresenta-lhe um cenário sempre imprevisível e mutável — ora se apresenta trágica e dramática e lhe diz que a avó está a morrer, ora se apresenta animada e otimista: «Já come, já bebe, está muito bem.» Refere que tinha ficado em conflito com o discurso do fim da vida da avó.
Penso em como a cadeia associativa e o discurso do fim se podem ligar à fase em que nos encontramos no processo psicanalítico, a fase final do nosso trabalho (radiação associativa). O tempo da mudança, o tempo do fim, do final, da separação, que inaugura outros tempos, como o organizador da sessão. Interpreto nesse sentido: a sessão de
ontem — «o fim e a morte»; a sessão de hoje — a compra de produtos online — será C. a dizer-me que precisa de «novos produtos» que a resgatem do universo do fim. Ri-se, dizendo: «Sim, é muito difícil e eu ainda resisto muito a ficar ali.»
Vemos como nesta sessão os tempos coexistem e as diversas modalidades de funcionamento psíquico coexistem. C. retoma o fio de continuidade, e, na terceira sessão, associa com outras memórias de morte e com a sua dificuldade em conviver com esses sentimentos (movimento). Refere: «É curioso porque parece que nem sinto nada, fico anestesiada. Aos poucos, comecei a pensar e olhei para a minha avó agora, como se estivesse a descer os degraus. Ela ali, eu ali, a minha mãe ali, a minha filha a brincar por ali, quatro gerações.»
O congelamento do tempo como forma de evitar a mudança, sentida como dolorosa (as tensões que ameaçam a continuidade do pensamento por via do agir, sessão online), dá lugar na sessão a um descongelamento progressivo que culmina na capacidade de se posicionar na linha histórica geracional, abrindo outros lugares de pensamento antes inacessíveis. O tempo ganha um carácter subjetivo e de movimento, com ingredientes de temporalização, historicização e progressão.
O Sr. G., de 45 anos, encontra-se em análise há 3 anos. Sempre pontual até agora, inaugura uma sequência de três sessões (nomeadas A, B, C) em que chega atrasado.
Sessão A. 15 minutos de atraso. Inicia a sessão justificando o atraso com a constante aceleração do tempo. O tempo acelerado foi sempre uma constante na sua vida. Até já pensou numa metáfora. O tempo parece um jogo de Tétris, sempre que cada peça começa a cair, há que pensar rapidamente onde a vamos colocar, num frenesim rápido e eficiente de ocupação de todos os pedacinhos de espaço livre. Não há tempo livre. Albergou durante muito tempo a ideia idílica de um recluso na prisão. Se fosse um recluso, poderia ter todo o tempo do mundo.
Na contratransferência, surge a imagem de um recluso a ocupar todos os pedacinhos de tempo na minúscula cela que habita. Nada
de tempo livre me surge na mente. Questiono-me se a fonte da minha contratransferência não serei eu, a braços com dificuldades em fugir do tempo Tétris. Vou para a frase de Sophia de Mello Breyner: «E livres habitamos a substância do tempo.»5 Digo isso mesmo. «Fez-me pensar num poema: “E livres habitamos a substância do tempo.”»
Fica visivelmente satisfeito com a ideia, pois ele próprio escreve e gosta de poesia. Reconhece, em associação, que a sua relação com o tempo já sofreu alterações significativas nos últimos anos desde que iniciámos o trabalho. De um tempo acelerado, passou para uma desaceleração progressiva, considerando que a iniciação numa arte marcial foi um momento de transição na vivência do tempo.
Sessão B. Chega 20 minutos atrasado, ficou retido numa manifestação na rua. Vinha a conduzir de forma acelerada, como sempre, à procura de um lugar, e parou.
Pergunto: «Que manifestação era?» Formulo a hipótese de dar continuidade ao tema do tempo, pelo atraso e pelo simbolismo da manifestação, trazendo-me um manifesto (antecipação anunciadora).
Diz que não conseguiu perceber o que diziam nos altifalantes e descreve todo o cenário de ocupação da rua.
As suas referências ao tempo, em sequência com a última sessão (reverberação retrospetiva), levam-me a proferir a frase, entoada como se fosse um slogan de manifestação, «o tempo é nosso!». Baixo o tom de voz e digo: «Seria isso que estavam a reclamar na manifestação?», numa provocatória alusão à sua relação com o tempo (usando o elemento sensorial voz nas suas modulações variadas).
Ri-se e associa com uma imagem. Na superfície vasta do mar, existem boias de sinalização. A vida seria uma viagem de barco que ia passando pelas diversas boias de sinalização, numa viagem vivida num tempo fluido. Sempre gostou da ideia de se meter num barco com a ilusão de que isso o instalasse num tempo fluido e o resgatasse do tempo Tétris. A propósito, foi aliciado por um amigo para conhecer
Do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen «25 de Abril», em O Nome das Coisas: «Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.»
uma coleção de barcos antigos. Um colecionador estava a vender alguns barcos da sua coleção. Foi ver e até ficou durante dois dias entusiasmado/enamorado com a ideia de comprar um barco daqueles. Imaginou cenários lindos e idílicos de passeios no mar. «Caiu em si» e pensou: «Mas para que é que eu quero um barco destes? É como se houvesse uma distinção entre o ego e o verdadeiro mim.»
Convido-o a explorar: «Entre o ego e o mim?»
«É tudo Eu, mas há um Eu verdadeiro que diz “Não precisas de um barco de coleção” e um Eu ludibriador que o compele a comprar.»
Penso em como esta sessão se encontra ligada à anterior, num movimento que parece estar a desenvolver-se. Confronta-se com tensões internas que estão constantemente a ameaçar a sequência do discurso, neste caso por via de um afeto avassalador de deslumbramento (comprar algo de coleção, um objeto narcísico reparador de todas as dores, representante do mito de eterno retorno a um tempo inteiramente belo e bom, o sentimento oceânico), que poderia dar origem ao agir, não fosse estar já desenvolvida a sua capacidade de pensar. A sua relação com o tempo ganha uma profundidade até agora não experimentada.
Sessão C. Atrasado 5 minutos. Refere que continuou a pensar na sua relação com o tempo. Sempre foi sensível ao distanciamento afetivo, ao desligamento de alguns amigos ao longo da vida. Ficava zangado. Vê-se hoje, no passado, como uma espécie de pessoa-locomotiva a puxar as outras carruagens-pessoas, sempre a convidar, a sugerir programas, a sugerir encontros. Sempre em esforço. O período negro da sua vida, em que mergulhou numa ausência de sentido, foi muito duro e fê-lo questionar tudo, o sentido da vida, o tempo que lhe restava, se valeria a pena viver se o fim era certo, a morte. Foi sentido como uma espécie de desmaterialização, um abandono até do seu próprio corpo, que se viu desprovido de sentido e de estrutura. Seguiu-se uma caminhada diferente, em que se foi sarando e ganhando estrutura. Hoje, convida e gosta de estar com amigos, mas não fica zangado, aceita que uns podem e outros não podem, ou não querem, sem que isso o perturbe. É uma das carruagens que está em viagem, como os outros, e vai vendo também a beleza da paisagem, não está sempre em modo tarefa, em esforço.
Nesta série A, B, C, gostaria de sublinhar a forma como este paciente e a díade se movem num ABC da génese do sentido de tempo. De um omnipotente infantil, que tudo pode porque ainda não conhece o princípio da realidade, um Eu corpo indiferenciado, desmaterializado, Tetris pré-reflexivo, todo poderoso, que não conhece limites, evolui para uma ordem simbólica, de que as metáforas dão conta. As transformações da relação com o tempo vão do ego corporal para o mim, o verdadeiro self que implica o princípio da realidade, a tolerância à frustração e um sentido de identidade já definido. As sessões A, B e C podem ser vistas como o ABC do tempo e o seu novo manifesto.
A transição delicada de um estado original de fusão indiferenciada com o objeto primário para o estágio subsequente de relativa separação e individuação, quando uma primeira consciência de self ou sentido de identidade começa a ganhar forma, testemunha a emergência gradual da autoconsciência temporal (Sabbadini, 1989). A emergência de um sentido de tempo representa uma ponte no processo de transformação entre o mundo original, marcado pela temporalidade indiferenciada, e o mundo real, de se tornar, de ser, que implica movimento e mudança e que exige adiar a gratificação de necessidades. À medida que as atividades mentais de processo secundário são estabelecidas em coexistência com o funcionamento do processo primário, que o princípio da realidade gradualmente se harmoniza com o princípio do prazer, que o narcisismo primitivo é forçado a abdicar de alguma da sua omnipotência para desenvolver e estabelecer relações de objeto (através de objetos transicionais, num processo gradual de separação e individuação dos objetos primários), o tempo mágico, eterno, omnipresente, sofre uma transformação para uma perspetiva temporal multidimensional (Sabbadini, 1989). Isto é possível com o desenvolvimento da capacidade da criança de dominar os processos de formação de símbolos e da linguagem. Uma capacidade maior de simbolização torna possível o início da diferenciação entre passado, presente e futuro.
Cada indivíduo não só tem uma história que um observador pode descrever, como é também ele história e faz a sua própria história em virtude da sua atividade de memória em que passado, presente e
futuro são criados como modos interativos e tempo. Tempo e memória são inseparáveis — memória entendida como atividade mental, atividade de ligação, que permite a articulação de acontecimentos psíquicos (Loewald, 1972).
A psicanálise é o método através do qual esta atividade de memória, partilhada por paciente e analista, é exercitada, reativada e promovida, recapitulando a ordem pré-reflexiva e desenvolvendo a ordem simbólica, abrindo espaço para o tempo multidimensional.
ABSTRACT: Time constitutes one of the organizers of the mind. How does the sense of time evolve from the first proto-mental formations to the consciousness of time? The phenomenological-existential perspective of time, the cyclical dimension and temporality of physiological processes are linked to the rhythmic nature of early inter-corporeality, giving rise to experiences that are only possible in the course of time and are organized into increasingly complex units. Various dimensions of the relationship to time are explored — chronological time, subjective time, temporality, temporalization, historicization, and progression. The precursors of the sense of time are organized from the archaic levels of psychic functioning, the body — the stage for physiological phenomena — to the pre-verbal modalities of communication and symbolic order that give rise to consciousness of time. The early contributions of Freud and the work of André Green are highlighted. Psychopathology is a privileged source of indirect observations that can help to reconstruct the developmental path of the sense of time. From psychopathological phenomenology to the similarities between Heidegger's philosophical language and André Green's psychoanalytic discourses, we end with clinical vignettes from clinical work with adult patients, making use of concepts of associative reverberation, heralding anticipation, associative irradiation, and movement.
KEYWORDS: time, sense of time, phenomenology, reality principle, psychopathology.