Este trabalho tem como objetivo uma aproximação à compreensão e aprofundamento do conceito de vitalidade em Psicanálise. Partindo da experiência clínica com uma adolescente e com uma criança, a autora propõe um desdobramento do conceito de forma a contemplar a expressão da vitalidade quer no registo da simbiose como no registo da separação. É dedicada especial atenção à vitalidade na dimensão narcísica. Isto é, como marca da preservação do narcisismo primário.
A noção de vitalidade carece ainda de um justo assento na metapsicologia psicanalítica. E ser sujeito de reflexão e debate pode mesmo vir a ter uma função vitalizadora na afirmação do seu estatuto enquanto conceito. Como o fundo permite realçar a figura…
Vitalidade é um termo que pertence ao léxico da teoria de campo e é subsidiário da mudança de paradigma que se operou na Psicanálise no final do século XX, mudança que considera que o significado é algo que precisa de ser criado intersubjetivamente, mais do que descoberto ou desenterrado no intrassubjetivo.
Levine (2020) disse que uma das principais mudanças na teoria psicanalítica foi “o reconhecimento da importância de compreender,
Artigo submetido em julho de 2025 e aceite para publicação em outubro de 2025.
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta, Psicanalista de Crianças, Adolescentes e Adultos. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). E-mail: analuisaferreira.mail@gmail.com
formular e aprender a catalisar, na clínica, os processos pelos quais o self é vitalizado, as representações são formadas e os processos regulatórios psíquicos são reforçados e criados” (p. 5).
Cabe assim ao analista ajudar a preencher vazios psíquicos, o lugar onde as representações da experiência estão ausentes ou são frágeis.
Como sinónimos privilegiados para vitalidade, escolho os termos “boa companhia e alento”. E numa primeira aproximação à teoria, retenho a frase de Civitarese e Ferro : “Se existe um impedimento no caminho de acesso às emoções violentas, estão criadas as pré-condições para a eliminação total da vitalidade” (p. 26).
Intuitivamente, para este propósito de escrita, parto do princípio de que o conceito de vitalidade tem a qualidade do que melhor se apreende por inferência e no domínio da experiência afetiva vivida. O que me permite, desde logo, uma ponte com a clínica e em particular com dois casos. Ou melhor, com dois momentos particulares vividos com dois pacientes. A escrita tem permitido assim uma oportunidade para transformar em pensamentos essas experiências emocionais.
Júlia tem 14 anos. Muito retirada e fechada sobre si mesma, pouco fala — mas desenha. Os seus olhos deslizam pelo espaço do consultório, perscrutam o ambiente (a analista nele confundida), e parece apoiar-se nele — como sobre uma superfície, uma segunda dimensão. A transferência inicia-se sobre este todo-ambiente: sobre os ruídos diversos do chão de madeira, em função do que diz serem os seus “buracos”; sobre os desenhos do tapete sob os nossos pés, onde começa por ver bichos; sobre a luz que, vinda de outro prédio, entra pelo consultório e a incomoda — terceiro que ameaça romper a nossa unidade. Júlia lança sobre o setting uma mancha de sombras e o mundo para si parece reduzido ao seu mundo de fenómenos subjetivos.
Vivo momentos de verdadeira imersão, afetiva e somática. Apesar do seu retraimento, sinto-me muito ligada e viva. O meu corpo, pesado, parece segurar a emergência da palavra que, inoportunamente, possa derrubar a delicadeza do clima emocional do encontro. Receio que a interpretação precipitada possa ser sentida com intolerância e crie (mais) distância.
Júlia retira-se para a realidade interna, fantasmática, deixando-me só e a minha capacidade negativa à prova. Ao mesmo tempo, sinto que é preciso evitar que possa sentir-se abandonada, fazer com que se
interesse por mim. Certo dia, digo-lhe: “Talvez um dia possas levar-me contigo para esse lugar dentro da tua cabeça!” Olha-me com curiosidade.
Após um período de separação para férias, Júlia chega à sessão numa grande aflição e em tom catastrófico diz: “Onde está o azul, o que é que aconteceu?” Explica que tem medo de que o azul que pintou numa folha de papel no último dia de aulas tenha ganhado bolor e desaparecido! Nunca a tinha visto assim! “Leio” na transferência e digo-lhe que ali, comigo, está tudo igual. E Júlia acalma.
Este momento de contacto com uma emoção tão profundamente avassaladora e autêntica, resgatada de um cenário de marcada desvitalização, tocou-me profundamente. A angústia causada pela separação do objeto vivido como parte do self, ou self objeto, comunicada com tão grande intensidade e apelo, revelou-se um afeto de vitalidade.
Segue-se a esta fase da análise a transição para o investimento do objeto externo, objetivamente percebido. Esta mudança na relação de objeto é acompanhada por uma narrativa repleta de clivagens, na qual descreve os esforços para manter bons e maus separados. Através dos relatos que faz de uma série que vê, Júlia reclama a necessidade que a princesa tem da companhia do amigo Link. Link, que curiosamente se traduz por vínculo. A princesa precisa do Link para matar o “monstro”, que em grande esforço segura e mantém adormecido no seu domínio há muito tempo! Tal como a Júlia precisa de criar um vínculo com a analista, que lhe permita aceder às suas emoções violentas.
Francisco, 8 anos. De humor muito instável e fragilidade narcísica, são as crises sérias de agressividade o que o traz à consulta. Quando o tentam conter, foge, sem olhar para trás. Incapaz de se autorregular, num estado de sobre-excitação, leva literalmente “tudo e todos à frente”, como um buldózer. No final destes episódios, cai num abatimento e diz que quer morrer.
Quando chega à sessão, o Francisco começa logo a “trabalhar” — pede-me o que precisa, parece sabê-lo muito bem. À sua frente, tem um prato largo e fundo com água e sobre ele vai deitando cola líquida. Com a ajuda de um clip, vai retirando fios de cola de dentro do prato, amassa-os e molda uma forma, sólida. Absolutamente concentrado na tarefa, pouco fala. Eu sinto-me “colada” à cena, quase hipnotizada. Sinto-nos juntos, numa perfeita comunhão. Penso que lhe proporciono a vivência da experiência do objeto criado/encontrado, ajudando
a fazer aparecer o que ele cria. No final de cada sessão, pede-me para deixar no congelador a forma que construiu. Na sessão seguinte, retiramo-la de lá, ele guarda-a numa caixinha e retoma a atividade. Repete em muitas sessões esta brincadeira, até ao dia em que constrói uma pequena embarcação que desliza pela água do prato. Não esqueço o prazer que ambos sentimos ao constatar que a sua embarcação, com mastro e velas, flutua graciosamente!
O que se passa ali é delicado. O Francisco cria a matéria-prima para o seu trabalho de representação do que me parece ser uma forte angústia de desamparo. A partir de fios de experiência de realização sucessiva no encontro comigo, o Francisco vai tecendo uma base ou fundo para a sua experiência emocional. Num registo muito sensorial e com grande tenacidade, joga um jogo de configuração figura-fundo, e através dele, pela construção das formas sólidas que resgata do meio líquido, ligações que constrói, parece encontrar uma definição de si mesmo. O setting e a analista estão ao serviço da procura da construção do self.
Após esta fase no trabalho, seguem-se sessões de lutas violentas entre grupos de personagens masculinas, objetos internos que conspiram entre si, num clima que carece de um superego benigno e consistente. Aos poucos, a analista vai sendo colocada na posição do terceiro que dá nome e procura organizar a confusão e caos que reina.
O trabalho clínico com estes pacientes faz-me pensar, como hipótese, que a vitalidade e o acesso aos aspetos clivados da mente decorrem do restabelecimento do vínculo na dimensão narcísica. E que nesta fase inicial a adaptação à regressão do paciente assume maior relevância do que a interpretação.
A partir destas experiências (sobretudo) emocionais, o caminho de escrita conduz-me, num primeiro momento, à noção de objeto de fundo da identificação primária, de Grotstein (1999). Trata-se, para o autor, de uma entidade de extrema importância no desenvolvimento infantil. Diz: “Considero que este conceito é, em parte, como que uma personificação dos conceitos de ambiente sustentador (ou holding) de Winnicott e de matriz da mente de Ogden , mas é também como que a essência da qualidade de fundo dos self-objetos (Kohut, , ), enquanto opostos aos objetos” (p. 127). E ainda: “Anzieu associa-o ao ‘eu-pele’” (p. 129). Esta presença de fundo
torna-se no “fundo” da figura que somos, é a entidade de vinculação que “lança” o tema da identidade e que contém o narcisismo primário.
Para Grotstein (1980), os estados mentais primitivos têm uma estrutura dinâmica, presente num registo em duas vias: a via da simbiose e a via da separação, e o seu equilíbrio varia ao longo do desenvolvimento. Assim, se no princípio predomina a relação com a mãe-ambiente, a mãe vivida como objeto interno, num segundo momento predomina a relação com a mãe vivida como objeto externo.
É neste período da vida, período de oscilação entre o estado fusional e as protoperceções de separação, que a preconceção do vínculo se enraíza, segundo Maiello (2000). Diz-nos esta autora que sem as necessárias realizações positivas, ou experiências subjetivas de reforço, capazes de transformar a preconceção do vínculo em conceção, se dá a introjeção de um vínculo frágil com o objeto primário. Ou ainda, sob certas experiências traumáticas, pode mesmo dar-se a rutura passiva da predisposição para a vinculação.
Os estados primitivos da mente funcionam numa dimensão que corresponde à posição autista-contígua de Ogden (1988), modalidade da experiência pré-simbólica, sensorial e difícil de pôr em palavras. Este estado mental precede a posição esquizoparanoide, lugar por excelência da clivagem e da identificação projetiva, e onde, aliás, Bion (1959) radica o seu conceito de ataque ao vínculo. Esta é a dimensão por excelência do conflito, à qual creio que associamos mais comumente a noção de vitalidade.
O objeto de fundo da identificação primária, à semelhança do que Ogden (2012) preconiza para a matriz da mente, deverá converter-se, ao longo do desenvolvimento, na base silenciosa da vivência da relação de objeto. Assim, penso que será a “boa companhia e alento” deste narcisismo primário, enquanto preservação do vínculo ao objeto subjetivo, isto é, ao objeto que participa da omnipotência do sujeito e lhe confere uma ilusão de proteção, o que permite a criação de um sentimento de confiança, a experiência de continuidade da existência e, ainda, o prazer de existir.
A qualidade de coesão deste fundo determinará, sugiro, o capital de vitalidade potencial do sujeito. Designo como potencial numa aproximação à Física e aos seus conceitos de energia cinética e energia potencial, tipos fundamentais de energia. A vitalidade potencial
corresponderia assim à vitalidade “armazenada” (na mente) e pronta para ser utilizada e transformada. E se no princípio era o vínculo, então no princípio era esta entidade de vinculação que constrói o narcisismo primário e tutela a emergência do self. Seria na transição para a verdadeira relação de objeto, ou na relação com o objeto como um outro, separado e externo, no interior do qual recai a identificação projetiva, e que se deixa ser usado, que a vitalidade potencial se transformaria em cinética. Isto é, em vitalidade “associada ao movimento”.
A mãe suficientemente boa, capaz de atender o bebé nas suas diferentes necessidades, permite-lhe desenvolver quer as capacidades que se baseiam na modalidade de separação como aquelas que se baseiam na continuação da fantasia de identificação primária, e que incluem o desenvolvimento do processo primário. Para Grotstein (1980), o processo primário, o equivalente para o autor à função alfa de Bion (1962), decorre da continuação da conexão com o objeto de fundo da identificação primária.
Para Bion (1963), a função alfa dota a mente com um sentido de subjetividade. Isto é, a simbolização é a apropriação subjetiva por parte do sujeito. A mente pode, então, pensar sobre si mesma e dar uma resposta pessoal aos acontecimentos emocionais — ou seja, é capaz de transformar a experiência emocional básica em pensamento. E também de ter uma aperceção emocional subjetiva do mundo externo.
A falha ao nível da ilusão protetora do objeto subjetivo e no sentimento de segurança que protege contra as vicissitudes da experiência interna e externa, herança da identificação primária ou do objeto de fundo da identificação primária, tem repercussões no trabalho de simbolização primária e de subjetivação. De acordo com Roussillon (2008), a simbolização primária apoia-se na qualidade da presença do objeto, presença que se deseja continente e sensível. O bebé só consegue transformar a perceção em representação a partir de uma experiência de prazer partilhado com o objeto que não só se deixa utilizar como espelho, como não perde a sua singularidade como sujeito.
Por tudo isto se depreende o valor da clínica centrada no continente, no holding ou fundo e com ênfase na relação e no vivido. Como sugere Tejedor (2017), “o narcisismo primário não é algo dado” (p. 220), razão pela qual por vezes é necessário “construí-lo”. A construção desta entidade vincular, como presença internalizada, garante
um capital de vitalidade potencial, base que alicerça o metabolismo da experiência emocional e facilita o acesso à alteridade.
A vitalidade estaria assim ligada ao vínculo, “nicho ecológico” das emoções e afetos, quer na dimensão narcísica, como registo de preservação do narcisismo primário — na senda do que afirma Tejedor (2018) —, capital armazenado de coesão, amparo e abrigo da “pegada” do trabalho representativo desenvolvido pelo objeto primário — a vitalidade potencial —, como na dimensão objetal, no sentido do movimento em direção ao objeto vivido como separado e externo e que designamos por vitalidade cinética.
Em ambos os casos, a vitalidade está ligada à recetividade da mente da mãe (e do analista) e à sua capacidade para transformar os aspetos sensoriais em elementos alfa. Mantendo como enquadramento o modelo em duas vias de Grotstein (1980), distinguimos os processos de simbolização primária e os processos de simbolização secundária, estes últimos assentes não sobre a presença, mas sobre a ausência do objeto. Esta conjuntura determinará a tolerância à frustração gerada pela separação e a capacidade para o pensamento simbólico.
Do mesmo modo que no trabalho clínico quando o quadro (ou setting) se rompe, na sua mudez e constância, emergem os aspetos mais primitivos do psiquismo, também segundo Grotstein (1980) a consciência por parte da criança da existência deste objeto de fundo da identificação primária acontece apenas quando a frustração e a deceção alertam para a probabilidade de a mãe não estar — situação que aliás se verifica num dos casos clínicos apresentados.
O uso do setting externo (isto é, o espaço do consultório com os seus objetos e o corpo do analista) como objeto transferencial, uso que é feito de modo silencioso e invisível, pode permitir restabelecer a simbiose original, reparar os “buracos” nessa tessitura de fundo. Isto é, reparar as falhas na experiência inicial de ilusão e omnipotência. “Buracos” que equivalem a descontinuidades no ser, a vazios psíquicos ou estados não representados da mente.
O quadro, “como encarnação dos limites do corpo, corpo da mãe, corpo do sujeito, corpo único da mãe e da criança” (Donnet, 1995, p. 95), proporciona uma segunda pele, auxilia na criação de limites seguros dentro dos quais o paciente se pode sentir contido. Mas ao mesmo tempo, o quadro também estimula a transferência: a parte
pode ser tomada pelo todo, numa projeção metonímica; e tal como na metáfora, a partir de imagens podem criar-se sentidos figurados.
O setting é um holding com função vitalizadora. Nele, decorre um processo que também opera em duas vias em simultâneo: a via de acesso à parte mais primitiva da mente e o restabelecimento da simbiose e a via da relação com a alteridade e o desenvolvimento da função alfa. E num equilíbrio que muda ao longo do tempo. Assim, se num primeiro momento assume maior importância a questão da reparação do “fundo para a experiência emocional” e a construção do self, num segundo momento predomina o acesso aos conteúdos emocionais clivados e o desenvolvimento da função psicanalítica da mente.
Encontro neste verso da saudosa Adília Lopes (2024) uma graciosa descrição do que procuro descrever: o tecido de fundo, matriz da vitalidade. Diz: “Faço crochet/o crochet faz-me/e nisto me desato” (p. 160). Nele, leio: essa peça de fundo, que é a relação com o objeto primário vivido como interno, peça que fazemos (na ilusão e omnipotência) e nos faz (pela sua presença continente e sensível), é o lugar onde nasce o nosso self verdadeiro e a capacidade para investir os objetos.
ABSTRACT: This paper aims to provide a closer understanding and deeper insight into the concept of vitality in psychoanalysis. Based on clinical experience with a child and an adolescent, the author proposes an expansion of the concept to include the definition of vitality in both the register of symbiosis and the register of separation. She pays special attention to vitality in the narcissistic dimension, that is, as a trace of the preservation of primary narcisism.
KEYWORDS: Vitality, background object of primary identification, bond, self-construction, container centered clinic.