As recaídas nos toxicodependentes, particularmente em heroinómanos, sendo um fenómeno constitutivo do ciclo adictivo, vêm despertando, desde há muito, o interesse dos investigadores em identificar os factores que lhes dão origem. A sua frequência e imprevisibilidade conferem-lhes uma enorme complexidade e condicionam radicalmente as opções terapêuticas dos programas de tratamento e de reinserção. É consensualmente aceite que esse fenómeno ocorre quando a dependência psicológica é activada, por emergência de factores internos (stress, craving) associados a factores externos. São, no entanto, muito divergentes as explicações avançadas sobre a génese e natureza dos factores internos. A perspectiva neurobiológica, sendo embora imprescindível para avaliar os efeitos das drogas no cérebro, no caso dos dependentes de heroína, afirma-se insuficiente para descodificar a relação pessoal que o toxicodependente estabelece com a sua droga de eleição. Segundo a prática clínica, os episódios de recaída inscrevem-se na dinâmica dum desejo cruzado de fruição alucinatória e de compulsão.
Neste contexto, privilegia-se a leitura psicanalítica do fenómeno das recaídas em heroinodependentes, por se afigurar a mais adequada para compreender as diversas fases do processo de mudança em que Ana se empenhou, no decurso de um longo seguimento psicoterapêutico.
Os comportamentos associados à dependência de substâncias psicoactivas e reportáveis à esfera da psicopatologia figuram entre os que mais
Comunicação apresentada no II Congresso Luso-Brasileiro de Psicanálise – Salvador (Bahia), 15-17 de Novembro de 2007
Psicólogo Clínico. Membro Aderente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido para publicação em 26 de Outubro de 2008. Revisão recebido em 6 de Março de 2009. Aceite para publicação em 10 de Março de 2009.
interrogações suscitam relativamente às fronteiras entre o normal e o patológico. A sua fenomenologia exprime um poder que desafia os limites do biológico, submetendo a satisfação duma necessidade ao impulso do desejo, acabando por enlear este último no jogo da repetição e da destruição.
O mecanismo do efeito das drogas no cérebro foi a grande descoberta das neurociências no último quartel do século XX. Mais recentemente, as técnicas de imagem do cérebro tornaram possível o acesso directo ao processo de neurotransmissão (isto é, o processo de comunicação entre as células neurais) e permitiram concluir que as drogas susceptíveis de criar dependência, sejam elas lícitas (álcool, tabaco) ou ilícitas (heroína, cocaína, cannabis), activam circuitos cerebrais específicos do prazer, mediante a libertação de dopamina (Pally, 2007, p. 871). Todas as drogas provocam sensações de prazer e modificações comportamentais e, por vezes, alterações dos estados de consciência. A dependência de drogas é, assim, um processo biológico e patológico (Leshner, 1997) que altera não só os circuitos onde funciona o centro do prazer (o sistema neurotransmissor da dopamina), mas também outras áreas do cérebro (Fowler & Volkow, 2007).
A heroína é uma substância com grande potencial adictivo. Mal penetra na corrente sanguínea cerebral, converte-se em morfina e fixa-se rapidamente nos receptores opióides mu3. A “onda” (rush) de prazer que provoca pode ser acompanhada por rubor na pele, secura na boca, sensação de peso nas extremidades dos membros e ainda náuseas, vómitos e comichão. Depois dos efeitos iniciais, os consumidores ficam sonolentos durante várias horas. A função mental fica enublada, a função cardíaca torna-se lenta e a função respiratória diminui. É uma substância que altera o cérebro e o comportamento do consumidor.
Quando se reflecte sobre a fenomenologia dos consumos de drogas, não se pode ficar limitado apenas aos efeitos das substâncias, mas importa também analisar os aspectos relacionados com o modo de viver a privação
As investigações mais recentes (Kosten & George, 2002) concluem que, uma vez introduzidos na corrente sanguínea, os seus elementos químicos ligam-se a proteínas especializadas, ditas receptores opióides mu. O acoplamento destes elementos químicos com os receptores activa os mesmos processos bioquímicos do cérebro que recompensam as pessoas com sensações de prazer, quando desenvolvem actividades relacionadas com funções vitais básicas, como a alimentação ou sexualidade.
dessas substâncias. A síndrome de privação em heroínodependentes é, do ponto de vista clínico, um dos factores mais poderosos que levam à dependência. O organismo reage à privação dum produto, não só em função da tolerância (a necessidade de aumentar as doses para obter os mesmos efeitos) e da dependência física (susceptibilidade para desenvolver sintomas de privação), mas também em função do tipo de relação que o consumidor estabelece com esse produto.
Reinaldo Ferreira, em “Repórter X – Memórias de um ex-morfinómano” (1933), deixou-nos um testemunho eloquente quanto ao modo como se relacionava com a droga, no seu caso a morfina. Citando:
“Há um mês e meio que não me desaparafusava do leito! A intoxicação agravara-se (…) como se a essência da vida fosse apenas a morfina, como se a morfina sintetizasse, numa picada, o ar, a luz, todas as necessidades e alegrias e prazeres e vícios!” (p. 31).
E, noutro passo:
“O morfinismo não é apenas a inoculação do alcalóide, os seus efeitos de excitação ou de acalmia, as exigências da sua intoxicação: é também a necessidade da injecção, da picada – masoquismo autêntico! Uma injecção dada por outro nunca nos sabe como quando somos nós próprios a picar-nos! E com que arte e requinte! Que virtuosismo no sofrimento” (p. 128).
Vai no mesmo sentido o comentário tecido recentemente por alguém que se encontra em fase de recuperação após quase vinte anos de toxicodependência: a heroína será “a coisa mais parecida com o útero da mãe… O paraíso na terra” (Fonseca, 2007, p. 58).
Ora, sucede que muitos heroínodependentes, mesmo antes de começarem a consumir, antecipam, fantasmaticamente, o efeito de prazer, como se o organismo e o aparelho psíquico estivessem já a usufruir dele.
Segundo Damásio (2003, p. 137), essa antecipação pode estar relacionada com a provável capacidade do cérebro para simular certos estados emocionais do corpo internamente, tal como acontece no processo em que a emoção de “simpatia” se transforma no sentimento de “empatia”.
Damásio afirma ainda:
“Descrevi o mecanismo necessário para produzir esse tipo de sentimento, há mais de uma década, com o título de ”como se fosse o corpo (as-if-body-loop). O mecanismo […] requer uma simulação interna que ocorre no cérebro e que consiste numa modificação rápida do mapeamento do corpo […] O cérebro cria momentaneamente uma colecção de mapas do corpo que não corresponde exactamente à realidade“ (p. 138).
Assim, Damásio conclui que “as áreas somatosensitivas constituem uma espécie de teatro onde podem ter lugar representações do estado do corpo, reais ou fictícias” (p. 140).
O modelo que melhor permite entender a natureza da toxicodependência pressupõe a coexistência de dois pólos interactivos e complementares, o pólo biológico e o pólo psicológico, dicotomia que assinala a existência, em paralelo, da dependência física e da dependência psíquica (WHO, 1957; Jaffe, 1965; DSM II, 1968; Hopper, 1995; Ribeiro, 1998; ).
Apesar de nunca ter dedicado à dependência (addiction) nenhum artigo específico, há certas expressões nos escritos de Freud que se podem considerar precursoras do conceito de toxicodependência. Em 1890, no artigo “Tratamento Psíquico”, utiliza a expressão krankhafte Gewohnheiten – que foi traduzida por hábitos mórbidos – para se referir ao alcoolismo, à morfinomania e às aberrações sexuais. O termo Gewohnheiten volta a ser usado no mesmo artigo para designar a “dependência do médico hipnotizador”.
Mas será o termo Sucht, que se pode traduzir por necessidade ou desejo exacerbado, e Süchtigkeit – a qualidade essencial do fenómeno – que, em termos semânticos, se aproximam mais da expressão inglesa drug addiction. Freud usou esse termo Sucht para designar a “paixão” patológica de Dostoievski pelo jogo.
A última achega conceptual de Freud data de 1929/30 e fixou-se nas expressões “método químico”, “intoxicação”, e nos termos genéricos “tóxicos”, “estupefacientes” e “narcóticos”. Estas designações aparecem no texto mais ousado de Freud para decifrar o fenómeno da dependência, constituindo uma das suas mais notáveis intuições científicas: “O Mal-Estar na Civilização” antecipa em quatro décadas a descoberta do sistema opióide nos mamíferos e nos humanos (1973), sistema que identifica a capacidade do ser humano de produzir internamente moléculas aptas a causar sensações agradáveis, os chamados péptidos opióides (Simon, 1979). Nas palavras de Freud:
“O mais brutal mas também o mais eficaz método destinado a exercer influência no corpo é o método químico: a intoxicação. Creio que ninguém consegue penetrar nesse mecanismo, mas é um facto que a presença, no sangue e nos tecidos, de certas substâncias estranhas ao corpo nos proporciona sensações agradáveis e imediatas: que elas modificam
as condições da nossa sensibilidade ao ponto de nos tornar estanques a toda a sensação desagradável. Estes dois efeitos não são apenas simultâneos, mas parecem intimamente ligados. Devem, aliás, formar-se na nossa química interna substâncias capazes de efeitos semelhantes, porque conhecemos, pelo menos, um estado mórbido, a mania, em que um comportamento semelhante à bebedeira se realiza sem intervenção de alguma droga euforizante. […] A acção dos estupefacientes é de tal modo apreciada e conhecida como benéfica na luta para garantir a felicidade ou afastar a miséria que os indivíduos e até povos inteiros lhe reservaram um lugar permanente na economia da sua libido. Deve-se-lhe, não somente um prazer imediato, mas também um grau de independência ardentemente desejado em relação ao mundo exterior“ .
Neste texto, define-se a dependência como algo indissociável da intoxicação química e o recurso ao tóxico como o mais interessante método de protecção contra o sofrimento. Os seus efeitos inscrevem-se no registo libidinal: “sensações agradáveis e imediatas”.
A reflexão dos psicanalistas contemporâneos de Freud incidiu sobre os hábitos mórbidos em geral e em especial sobre o alcoolismo e a toxicodependência. Citando apenas aqueles que insistiram na dimensão da necessidade compulsiva da droga, Ferenczi e Glover (1932), os desenvolvimentos que eles nos deixaram reforçaram o conceito de drug addiction, sintetizado, 60 anos depois, por Goodman (1990), nos termos seguintes: drug addiction é igual a dependência mais compulsão.
Ora, o cenário da privação convida a reflectir sobre as implicações dessa dicotomia. Será a dependência psíquica a manifestação subjectiva da dependência física? Ou será que a dependência psíquica goza de autonomia própria em relação aos fenómenos biológicos? Será possível silenciar a dependência física e iludir o ciciar da dependência psíquica?
Efectivamente, o mais importante, na óptica da psicanálise, é compreender, não só de que é que o indivíduo está psicologicamente dependente, mas também a natureza dos processos psicológicos que explicam o comportamento de dependência.
Em todo o cenário de abuso de drogas, a substância é procurada não só em função das suas características psicofarmacológicas, mas sobretudo em função das expectativas que o consumidor alimenta, quando é compelido pela urgência do desejo. Segundo a concepção freudiana, o desejo configura por excelência um movimento inconsciente em conexão com sinais infantis indestrutíveis.
Em “Interpretação dos Sonhos” (1899, p. 509), Freud utilizou o conceito de alucinação para designar o modo primário de satisfação do desejo: no seu entender, “desejar deve ter sido primeiramente uma actividade alucinatória da recordação da satisfação”. Na sua óptica, o elemento alucinatório caracteriza a vivência da satisfação, quando a imagem mnésica do desejo é reactivada. Trata-se dum modo de satisfação imediato, que envolve directamente o sistema perceptivo (Freud, 1895).
Os dados da clínica sugerem que o toxicodependente em situação de privação deseja as drogas de forma alucinatória: são recordações muito vivas, demasiado nítidas, duma vivência automática de prazer. Na ânsia incontida de arranjar a “sua” dose, o consumidor desencadeia um processo ilusório, em que a satisfação imediata terá de ocorrer, segundo a lógica dos processos primários do pensamento que regulam a actividade onírica: tal como no sonho, o elemento alucinatório caracteriza a tentativa de satisfação do desejo (Freud, 1932). Esta ficção de uma satisfação imediata primária faz do conceito alucinatório o paradigma de um certo tipo de actos psíquicos, que prescindem da representação para significar a perda ou ausência do objecto (Freud, 1937).
O sofrimento, que se configura como o sintoma mais expressivo da privação, causa um mal-estar insuportável que se situa na fronteira do psíquico e do somático. O tóxico ausente equivale a algo de exterior que o corpo reclama, para preencher um vazio. É sempre penoso o movimento de procurar droga, mas, paradoxalmente, a sua “falta” é muitas vezes sentida como fonte de prazer: essa “falta”, não deixando espaço para a emergência do desejo, gera uma verdadeira dinâmica compulsiva. Consumir, sob o efeito do craving, é invariavelmente um movimento da esfera compulsiva (Gossop & Strang, 1990).
Freud (1915) considerou a pulsão como um conceito-fronteira entre o psíquico e o somático: as raízes do psíquico situam-se no biológico. Noutros termos, podemos afirmar, com Green (2006, p. 55), que a pulsão é “le représentant psychique des stimuli nés à l'intérieur du corps et parvenant à la psyché”.
Assim se entende melhor que o consumo de drogas, em particular de opiáceos, obedeça a uma lógica de urgência corporal. O toxicodependente justifica o consumo para se sentir normal, como se se tratasse de repor o estado de homeostase. O discurso do toxicodependente sugere, muitas vezes, ora a presença de um processo de auto-conservação, ora uma espécie de repli narcísico, que, no caso de heroinómanos muito degradados fisicamente, ou que tenham consumido dose exagerada, pode
induzir uma semi-sonolência visível, implicando um desinvestimento da realidade externa.
A heroína poderá ser, então, o agente facilitador da percepção alucinatória4, como no sonho, ditando a satisfação imediata e abolindo a dimensão temporal. Sob o seu efeito, é como se a realidade fosse toda ela contínua (Le Poulichet, 2002), desaparecendo a capacidade de distinguir o mundo interior do exterior.
O sofrimento psicológico, a outra face da síndrome de privação, resulta da “reacção própria à situação de perda do objecto” (Freud, 1926), e manifesta-se como um estado “de dor mental, uma dor constante, indefinida e incontrolável” (Fleming, 2005, p. 7).
Como escrevi em 1991, “vencida a etapa da desabituação, tantas vezes no termo de um longo rosário de recaídas, subsiste em muitos esse sentimento de vazio, de falha, de confusão, que os leva, a pouco e pouco, a tomar consciência de que esse sofrimento tem contornos psíquicos e origens longínquas, que remontam quase sempre à fase precoce da relação primária com o primeiro objecto, a mãe” (Ribeiro, 1991).
Quando surge o vazio ou ausência de relação do sujeito com o seu objecto, a dor figura como o analogon da intolerância à frustração (Bion, 1970). Para o heroinómano, a síndrome de privação implica a reaparição de todas as dores que o seu corpo anestesiado não conhecia. A privação agudiza a consciência da dor.
A dependência psicológica seria assim o reflexo psíquico de uma dependência biológica produzida pelas propriedades duma substância. Dir-se-ia – em consonância com a formulação de Coimbra de Matos (1995, p. 85) – que o pulsar biológico resultante de estimulação de memórias ou efeitos residuais armazenados na memória poderá activar desejos incontroláveis. Seria uma transdução no sentido oposto: o subsistema biológico a influenciar o sistema psíquico.
A recaída em heroínodependentes reveste-se de uma complexidade particular. Para a compreender, não basta apenas considerar os padrões de
Os mecanismos de alucinação permitem ao ser humano alucinar certos estados do corpo. Tal como o bebé adormecido “recupera”, alucinatoriamente, o seio materno (ou equivalente) e o prazer que daí resulta por efeito do movimento de sucção dos lábios – e dessa forma alimenta a relação de dependência (attachment) – assim também o heroinodependente vive a sua dependência como se a droga estivesse já a ter efeito no organismo, mesmo antes de ser consumida.
consumo (dosagem e frequência), a interacção dos determinantes biopsicossociais, o papel da idade, a motivação, a comorbilidade ou a pressão dos pares5.
Uma abordagem fenomenológica tenderia a privilegiar os sinais externos predictores da retomada de consumos. São os chamados factores de risco que o meio externo proporciona: a pressão dos pares, os estímulos relacionados com a droga, o fascínio que o próprio meio da droga exerce no imaginário do consumidor. Porém, os sinais mais temíveis pertencem ao mundo interno do próprio toxicodependente: a desvalorização da auto-imagem, a perda da auto-estima, o sentimento de vazio, a crença de que o conforto e prazer que a droga promete não têm equivalente na vida do dia-a-dia, o sentimento de não ser compreendido, a ambivalência.
Os neurobiólogos conseguem identificar os mecanismos biológicos envolvidos nas toxicodependências e nos factores de risco facilitadores da recaída, mas ainda não conseguiram explicar o porquê de alguém se tornar toxicodependente, nem o fenómeno do reinício dos consumos. Admite-se como explicação provável que o comportamento compulsivo da procura da droga, típico da recaída, possa implicar processos associativos entre estímulos do ambiente (pessoas, lugares, objectos), traços mnésicos6 e reactivação de circuitos do cérebro (Drumond, 2001). Algumas
Algumas investigações (Marlatt et al., 1984) sobre os factores associados à recaída em dependentes de opiáceos revelam que a maioria das recaídas está relacionada com estados emocionais negativos, pressões sociais e (ou) conflitos interpessoais. Num outro estudo , conclui-se que a maioria das recaídas em heroinómanos ocorre em companhia de consumidores de drogas, ou num contexto social relacionado com o consumo de drogas. De entre os passos que podem conduzir à recaída, Jaffe (2001) assinala quatro: a) decisão consciente de voltar a consumir; b) interacção de problemas múltiplos; c) atitudes de omnipotência; d) risco de recair, na sequência de decisões aparentemente irrelevantes. Este autor dá especial relevo ao modo de pensar omnipotente e grandioso que caracteriza a adolescência. Muitas recaídas em heroinodependentes acontecem logo a seguir ao internamento para desabituação. Crêem-se imunizados e suficientemente fortalecidos para resistir ao fascínio do mundo da droga.
O médico português António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783) refere-se, em 1753, em termos verdadeiramente precursores, ao papel da memória, na gestão das suas reminiscências: “Todos os objectos que entram pelos sentidos produziram uma certa mudança tal naquela origem dos nervos, que ali ficam sempre os seus vestígios; estas relíquias são o que chamamos memória; e logo que por objectos novos se agitarem, a alma perceberá não somente o objecto novo; mais ainda aquele que deixou relíquias semelhantes” (in De animi Perturbationibus, manuscrito n° 2016, folio 131, Biblioteca da Faculdade de Medicina de Paris, transcrito em “Dissertação sobre as Paixões da Alma”, do mesmo autor, edição da Câmara Municipal de Penamacor, 1999 p. 11 – organização do texto e notas de Faustino Cordeiro).
investigações sugerem que muitas das deixas (cues – desencadeadores) para consumir drogas são oriundas do foro interno, de natureza física ou emocional, mais do que do exterior (Lowman, Allen & Stout, 1996; ; ).
Mas quando nos deparamos com casos de recaídas após longos períodos de abstinência (meses, anos), temos de perguntar: qual a origem e natureza do clic que reactivou os circuitos do cérebro específicos dessa substância tóxica?
Freud, em toda a sua teoria, sempre opôs o sistema percepção ao sistema memória, estando aquela ligada à consciência, e esta ao inconsciente.
Os fenómenos da memória estão intimamente associados aos elementos afectivos das recordações, mas estas não existem fora do contexto, isto é, articulam-se com o presente, que lhes dá sentido (Green, 1995).
A observação clínica reforça a hipótese de o início ou o reinício dos consumos ocorrerem em momentos concretos de insatisfação psíquica. O recurso à droga promete um estado de satisfação, obviamente transitória, porque em nenhuma etapa do ciclo adictivo desaparecem os mecanismos mentais responsáveis pela insatisfação psíquica. Paradoxalmente, a satisfação obtida em cada consumo esgota-se a curto prazo, dando origem a novo estado de insatisfação. A dependência psíquica está relacionada com esses mecanismos de insatisfação (Hervé, 1997).
Conforme escreveu Damásio:
“Os mecanismos moleculares que resultam da introdução de uma certa droga no sistema explicam apenas a cadeia de processos que eventualmente leva à alteração do sentimento, mas não explicam os processos que conduzem ao estabelecimento desse sentimento. Ou seja, na explicação corrente nada se diz sobre as funções neurais que são alteradas por uma certa droga e cujo resultado é a alteração dos sentimentos. E pouco ou nada se diz sobre os sistemas que apoiam estas funções neurais” (2003, p. 143).
A clínica das toxicodependências permite afirmar que, na génese de um processo de recaída, há sempre algo que se identifica com um desejo incontrolável e uma expectativa de fruição dum prazer, fenómenos psíquicos insusceptíveis de localização cerebral (Freud, 1891). As investigações mais avançadas em Neurociências ainda não conseguiram decifrar o código neural, isto é, conhecer as regras que expliquem a transformação dos impulsos electroquímicos dos neurónios em percepções, memórias, pensamentos.
Mais do que seguir receitas, importa sensibilizar o toxicodependente no sentido de aprender com a experiência da recaída.
Questionar-se sobre o como, o porquê e as circunstâncias da recaída equivale a contextualizar o “percurso” que levou a que ela ocorresse, dissecando os diferentes passos, hesitações e cedências preliminares. Estudar o como evitar novas recaídas será uma tarefa importante que nem sempre o toxicodependente consegue fazer a sós, enredado muitas vezes na teia de múltiplas cumplicidades e de mensagens contraditórias que povoam o seu imaginário. Por isso, o recurso ao apoio de terceiros (psicoterapia individual, ou de grupo) poderá ser a solução mais realista e mais promissora para converter a recaída numa etapa de prevenção. As recaídas não são forçosamente uma fatalidade. Podem ser um pretexto para cada toxicodependente se conhecer melhor, reexaminando os diferentes passos que o levaram a recair, numa tentativa de relacionar associativamente o que se lhe afiguraram como as suas razões e, a pouco e pouco, interiorizar o seu modo de funcionamento mental e emocional.
Uma tal abordagem não pode limitar-se à materialidade dos sintomas que emergem numa situação de recaída. O sintoma não é mais do que um indicador, que remete para uma intencionalidade, no contexto duma relação com o meio, em especial com o meio familiar, e apresenta-se como afirmação de desejos e de conflitos inconscientes do próprio.
Reportando-me ao que escrevi em tempos (Ribeiro, 1991): “Articulando entre si as memórias do passado infantil, tantas vezes em clima emocional intenso, a pretexto de conflitos actuais, de atitudes de rejeição ou de super-protecção, de culpabilidade, ou ainda no jogo das associações livres, chega-se lentamente à reconstituição da grelha de interacções, que na infância marcaram o processo evolutivo e criaram condições favoráveis ao aparecimento de comportamentos desviantes. Vivências traumatizantes, abandonos, estados de angústia, insuficiência de cuidados maternos são, muitas vezes, o quadro que determina, em muitos toxicodependentes, a persistência de um estado de sofrimento interno muito próximo daquele que a clínica psicanalítica identifica como de angústia de separação/diferenciação”, angústia que na formulação de Quinodoz (1989) caracteriza o processo precoce de discriminação do Eu-Objecto. Esse trabalho pressupõe obviamente uma relação qualificada no âmbito da psicoterapia.
A representação mental dos efeitos de prazer que o consumo duma droga, como a heroína, proporciona – experiência unipessoal e indestrutível –, precede habitualmente cada episódio de recaída, emergindo no contexto dum desejo cruzado de fruição alucinatória e de compulsão. As neurociências, numa sequência de descobertas espectaculares, deram-nos informações importantes para perceber o mecanismo da dependência física das substâncias psicoactivas. Propõem-se dissecar o cérebro e observá-lo por técnicas avançadas de imagem, o mais rigorosas possível, e identificar circuitos neuroquímicos. François Jacob, em finais do século XX, escreveu: “O século que está terminando preocupou-se com as proteínas e os ácidos nucleicos, o próximo irá concentrar-se na memória e no desejo” (apud Kandel, 1999). Os trabalhos mais recentes sobre a memória estão a registar progressos notáveis (Pally, 1997; Mancia, 2006). Quanto ao desejo, parece que a investigação estará menos avançada. E, por fim, subsiste ainda a ambição de desvendar o Código Neural, o equivalente ao software do cérebro, que irá permitir decifrar a linguagem interna das células cerebrais.
Mas a psicoterapia continuará a ser a técnica mais adequada para apoiar consistentemente quem se sinta fragilizado pela dependência psicológica dos efeitos das substâncias psicoactivas.
A relação clínica teve início quando Ana estava em plena adolescência. Desde então, a relação terapêutica foi-se organizando, segundo a metodologia psicoterapêutica de inspiração psicanalítica, ao longo de mais de 15 anos, ao ritmo irregular de sessões, de correspondência epistolar e de mensagens sms.
Oito anos marcaram o percurso acidentado desta jovem, a reboque da heroína. Outros tantos contabiliza, neste momento, de vida limpa, sem consumir heroína.
1 – Natural de Lisboa , Ana é filha única duma relação a breve trecho interrompida por iniciativa do pai, sendo este descrito como alguém de vida leviana, dado a hábitos alcoólicos, oriundo duma família abastada, a viver num bairro residencial de luxo, em Lisboa.
A mãe, por não possuir nem habilitação escolar qualificada nem meios financeiros, fez face à situação de mãe solteira, trabalhando como ama e cuidando de bebés em casa; foi de bom grado que aceitou o apoio que
os avós paternos começaram a dispensar à Ana, quando esta já tinha doze anos de idade.
Os avós habitavam uma moradia e, a pouca distância, residia a Mãe, num pequeno apartamento de 3 assoalhadas, situado em bairro social, partilhando o espaço com a sua mãe, a irmã e o cunhado. Ana descreve o ambiente que se vivia nesse apartamento evocando o filme italiano “Feios, Porcos e Maus”, já que as discussões eram constantes, embora o qualificativo porcos não se lhes aplicasse.
O pai cedo começou a interessar-se por actividades comerciais na área do turismo, que desenvolvia com regularidade no Brasil, deslocando-se, com alguma frequência, a Lisboa. Ana refere que, nessas vindas, o pai lhe dava pouca ou nenhuma atenção, alegadamente por se ter sentido decepcionado quando soube que era a uma menina, e não a um rapaz, que teria de dar o seu nome. Mas quando ela passou a viver com os avós, muitas vezes foi surpreendida com cenas de exibicionismo/assédio sexual explícito por parte do pai ou comportamentos de pedofilia do avô sobre uma criança adoptada.
2 – O percurso escolar compreendeu a frequência duma escola profissional de artes e ofícios, onde Ana se revelou muito dotada. A sua beleza física e a viva curiosidade intelectual foram determinantes para as primeiras experiências amorosas, a que vieram associar-se os primeiros consumos de cannabis, pouco depois – pelos 17 anos –, o consumo de psicotrópicos e de heroína, com a conivência dum médico, entretanto assassinado por desconhecidos.
3 – Não foi muito duradouro o namoro que manteve com um indivíduo, mais velho 15 anos, que apenas fumava cannabis.
A ruptura dessa relação foi acelerada pela sua entrega progressiva ao consumo de heroína, dependência facilitada por dois factores: (a) a cumplicidade dum médico, na casa dos quarenta, ele próprio consumidor de psicotrópicos, que lhe disponibilizava receitas de Mandrax® e outros sedativos; b) a distracção do avô, cuja conta bancária ficou gravemente emagrecida, pela utilização indiscriminada do cartão de crédito, chegando a totalizar vários milhares de escudos (cerca de 100 mil euros, em moeda actual)!!!
Esgotada essa possibilidade, passou à fase do risco calculado, prestando-se à função de dealer.
Não tardou muito até ficar dependente da heroína, experiência que colocou a família em pânico, e o consequente internamento “forçado” em clínica privada, donde se evadiu dois dias depois. Num desenho que
então fez exprime o imbróglio em que a sua vida se tornou, figurando no ângulo superior direito uma escapatória, a janela que lhe facilitou a fuga, e a sensação de omnipotência veiculada por essa proeza. Nas consultas que tiveram lugar depois dessa fuga, Ana revela uma grande ambivalência: admite que tem de parar, mas, ao mesmo tempo, sente que conseguiu iludir a família, como se estivessem em campos opostos e tivessem objectivos inconciliáveis. Ela é a outra, essa parte indomável que cede ao fascínio da heroína, sob pressão duma força pulsional, como se o Eu não tivesse mão no desenrolar dos acontecimentos. Num texto entregue em mão, Ana confessa: “Estou reduzida aos meus instintos e presa aos meus sentidos”. “A minha vida é um vendaval que se soltou”, dirá mais tarde (02.07.1997 – 23 anos). Ana diz, sem subterfúgios, que carece de meios mentais para controlar a impulsividade.
4 – É neste contexto que Ana começa a frequentar a consulta para toxicodependentes num Centro de Tratamento em Lisboa, depois de ter tentado fazer desabituação dos consumos em clínica privada, aliás, sem sucesso.
As primeiras consultas, ao ritmo quase semanal, foram permitindo, a pouco e pouco, interiorizar o desejo de parar os consumos de heroína – condição preliminar para definir um programa terapêutico mínimo –, inicialmente reduzindo as tomas, de forma a preparar o início do programa de desabituação por antagonista (Naltrexona), em regime ambulatório.
A resposta a esse programa, foi, como muitas vezes sucede com dependentes de heroína, sujeita a múltiplas vicissitudes, com avanços e recuos, que se traduziram por várias recaídas, tornando-se inevitável organizar a desabituação em regime protegido, mediante internamento numa Unidade clinicamente preparada para o efeito.
5 – Após o internamento, e sempre medicada com antagonista, Ana foi pressionada pela família a ir viver longe dos locais de “tentação”, o que veio a concretizar-se, pouco depois, graças ao acolhimento que a madrasta e o pai lhe ofereceram, no Brasil; Ana, posteriormente, viria a rejeitar esta solução quando se apercebeu que o bilhete de avião que guardara na mala afinal não incluía a viagem de regresso. Refere que viajou para o Brasil sob o efeito do consumo de heroína, completamente alheada das reais intenções da família, que eram retê-la no estrangeiro, por tempo indeterminado.
O seguimento psicoterapêutico passou então, por assim dizer, a fazer-se à distância, por via epistolar. Ao longo de dois anos , Ana foi dando conta da sua luta para viver sem drogas. No primeiro contacto
epistolar que estabelece comigo, mal pisou solo brasileiro (um postal datado de 02.10.95), além de referir a “sensação de liberdade, afastamento; rompimento com toda aquela promiscuidade em que [eu] estava envolvida”, menciona que o tratamento de desabituação não eliminou ainda “a vontade de usar”.
Impaciente com o meu silêncio, telefona-me para me dar conta dos progressos que está a conseguir e fazer-me sentir que conta com o meu apoio.
Na minha resposta, de 02.11.95 (carta que Ana me mostrou há poucos meses e que guardava quase como relíquia), deixei dito:
“Continuo a acreditar que a Ana é capaz de ”dar a volta“ por dentro de si própria, i. e., deixar-se encantar por outros centros de interesse, que venham a tornar-se projectos catalizadores das muitas aptidões e ”artes“ de que já deu provas. Ainda não desisti de ver”.
Em Dezembro de 1995, depois de fazer alusão aos namoros, evoca a muita dor do passado e a raiva por tudo o que passou e fez passar a família, concluindo que se mantém abstinente, apesar de muitas vezes ao acordar sentir um pouco de ansiedade, que se dissipa falando com a madrasta.
Entretanto, as dificuldades surgidas na procura de emprego, algumas aventuras pseudo-amorosas e as “merdas e assédio sexual do pai” forneceram os ingredientes suficientes para se sentir insatisfeita e desejar outro ambiente. Passou a fumar maconha e a viver só, em quarto particular.
Ana escreve, em carta de 9.11.96: “Às vezes a saudade é tão forte que me dá vontade de largar tudo e ir embora! Mas por agora sei que não posso largar tudo em meio”. Efectivamente, as saudades da mãe e dos avós funcionaram como pretexto credível para disfarçar o verdadeiro motivo desta sua vontade: largar tudo (i.e., o tratamento) e voltar à heroína. Verificam-se, portanto, os efeitos da dependência psicológica, em que a compulsão à repetição marca terreno.
Ana interroga-se sobre o modo de passar à prática, já que na cidade onde vive não há heroína disponível.
Em carta de 04.01.97, questionando-se sobre o sentido dos expedientes que utiliza para ter mais dinheiro, escreve: “Afinal, estou limpa de quê??? Heroína??? Casal Ventoso? E o resto?”.
E logo a seguir desvenda a sua estratégia: “O dinheiro que o hotel me paga é pouco para o que quero fazer!!! E, por fim, temos o tétrico final. Tenho que arranjar esse dinheiro ($ 1.000,00) para voltar para a Europa”. Passados quatro meses, em carta de Abril, dá conta dos efeitos que as memórias do passado produzem no seu imaginário:
“Por vezes, quando estou sozinha e sem querer penso… e imagino as ruas do Casal [Ventoso], de noite! Os ciganos do Bairro 2 de Maio… as coisas me parecem muito distantes (…) uma espécie de amnésia ou uma resistência enorme a lembrar-me com detalhes de tudo o que aconteceu.
Porém, também tenho momentos em que consigo visualizar muita coisa e, aí, tudo me parece perto… demais!!! Não tenho vontades de usar!!! Acho que me convenci a 100% de que nem adianta ter vontade de usar, pois, se as [as vontades] alimentar, vou ficar louca!
Gostaria de saber se, pisando o chão lisboeta, vou sentir o mesmo!!! Preciso muito da sua ajuda!!! Pois, por vezes, sozinha, não é muito fácil interpretar correctamente aquilo que sinto.“
Ana fala da sua perplexidade: uma parte dela não consegue escapar à pressão das memórias, verdadeiros factores internos de desestabilização, que preanunciam uma recaída, alimentada pela dependência psicológica em acção – “tudo me parece perto… demais!!!” – e a outra parte joga à defesa: se usar, “vou ficar louca”.
6 – Os “namoros” que foi mencionando e que nunca mobilizaram os seus afectos não impediram que passasse a trabalhar numa casa de alterne, com o objectivo de juntar dinheiro para regressar a Portugal.
Quando, finalmente, lhe cai nas mãos o bilhete de avião, escolhe um voo com escala em Amesterdão (Ribeiro, 1998) para regressar a Portugal.
7 – Regresso a Lisboa
Os efeitos dessa loucura (mergulhar em Amesterdão, lugar mítico) perduraram em Lisboa por algum tempo, chegando a extremos de alto risco: funcionar como correio de droga em voos internacionais, prostituir-se durante 3 meses, instalar-se no Casal Ventoso e partilhar uma tenda imunda com um vendedor/consumidor de heroína7. Por tudo isto, os avós, de novo, a devolveram ao pai e à madrasta, depois de terem acertado um programa de tratamento no Brasil.
Ainda apareceu na consulta, pouco tempo antes de tomar o rumo do Brasil. Numa das sessões, entregou-me um texto de reflexões, escrito ao sabor de associações fortuitas, onde se questiona e se define de forma assaz contundente, quando escreve: “Encontro muitas vezes num cão vadio, o que na realidade gostaria de ser, e que sempre me apavorou”.
Descreve nestes termos uma situação no limiar da overdose: “Depois de engolir 12 comprimidos de Sossegon®, injectei ½ grama de heroína na veia e encostei-me para trás. Comecei a sentir que deixava aos poucos de ver as coisas e logo a seguir uma luz branca intensa e depois raios de luz vermelha, assustei-me, levantei-me de repente e de imediato caí de costas”.
8 – 2.a Estada no Brasil
Em carta de 08.12.97, a primeira depois do regresso, Ana admite que a fase de desabituação está a ser mais suave… porque levou de Portugal uma lamela de Paxilfar® e ainda porque passou a frequentar as reuniões dos Narcóticos Anónimos (NA); comenta: “se há pessoas que conseguem ficar limpas, porquê não eu?”.
A recaída que se iniciou em Amesterdão desperta-lhe uma grande raiva contra si própria: “não devia ter recaído”.
O regresso a Lisboa estava programado. Concluído o tratamento, resta-lhe aproveitar o bilhete de volta, depois de 3 meses de estadia.
9 – Regresso definitivo a Lisboa
Em Novembro de 1998, de novo na consulta, exprime em síntese o seu dilema: “parece-me que sempre espero um milagre! Estou aqui, estou ali e nada me satisfaz”.
E, pouco depois, anuncia-me uma nova relação amorosa e descreve o companheiro, 20 anos mais velho, como alguém muito atencioso, mas com tendências de voyeur, o que manifestamente lhe provoca desencanto e frustração. Nessa mesma sessão, resume um sonho-pesadelo que tivera recentemente, relacionado com os rituais de consumo de drogas: fala de uma prata com restos de cocaína e das suas reacções; sentiu-se como se estivesse a consumir, e acordou sob os efeitos dos sintomas típicos do consumo.
O companheiro desenvolve actividades comerciais na área da restauração. Ana partilha muitas das tarefas relacionadas com essas actividades, mas fá-lo, muitas vezes, a contra-gosto, porquanto alguns cheiros (limão, vinagre…) ou as sonoridades derivadas do manuseamento de certos materiais de papelaria (para embrulhar os bolos) lhe evocam memórias do passado e criam alguma instabilidade.
A relação conjugal foi-se consolidando à medida que surgiram os filhos, dois rapazes, neste momento, respectivamente com 6 e 4 anos. As gravidezes foram desejadas e decorreram sem problemas.
As consultas prosseguiram, com alguma irregularidade. Numa delas, evocou um episódio do quotidiano onde a dependência psicológica da heroína irrompeu de forma súbita (Ribeiro, 2003).
10 – Relação extraconjugal
Há cerca de 2 anos, Ana começou a desenvolver verdadeiros jogos de sedução dirigidos a um homem casado, vinte anos mais velho, de profissão mecânico de automóveis. Dos olhares e sorrisos passou a estratégias explícitas, abertamente provocatórias. Descrito como indivíduo fisicamente
pouco atraente, calvo e obeso, de nível cultural medíocre, mas com bom desempenho sexual e grande capacidade de ternura. Ana vive esta relação como se de uma droga se tratasse, pois reage face à expectativa do encontro eminente com os mesmos sintomas que tinha quando ia consumir heroína.
Nas consultas que ultimamente voltaram a ter lugar, Ana confronta-se com as contradições da situação. Por um lado, verifica que esta relação clandestina lhe proporciona um grau de satisfação que não encontra no companheiro. Mas por outro, recusa-se a participar em jogos perversos que o marido lhe propõe, depois de ele saber que ela tem um affaire. A culpabilidade que transparece nas suas palavras e em expressões emocionais confunde-se com o sentimento de medo que domina os seus pensamentos, ciente como está do carácter autodestrutivo que marca esta relação, condenada de antemão a ser uma relação a prazo – porque nenhum deles quer pôr em causa a continuidade da vida conjugal.
O relacionamento com o marido vai sendo dia a dia menos estimulante. Para além dos assuntos atinentes ao tipo de actividade comercial, resta o tema das Fórmula 1 e o fascínio por máquinas, onde o marido põe todo o seu entusiasmo. Os interesses culturais e artísticos que Ana alimenta (continua a desenhar e a pintar, como sempre fez nos períodos de maior estabilidade) ou os cuidados que dispensa a 12 cães abandonados, não encontram eco algum no espírito do marido.
No entanto, Ana não se dá por vencida. Expressões como “eu domino sempre os homens” parecem veicular a ilusão de estar imune a todo e qualquer indício de ansiedade de castração. Questiona-se se não será pura fantasia querer encontrar um pai nos homens mais velhos com quem se tem envolvido.
11 – Por vezes telefona para me assegurar que vai bem, outras vezes envia sms, como os que se transcrevem a seguir:
03.05.07 – “Mantenho-me limpa…É assim que quero viver…Acordada! Custa um bocadinho, mas é melhor! Um abraço. Até breve”.
17.05.07 – “Não vou mentir, Dr. Estou a atravessar uma fase um pouco estranha… e não tenho vontade de nada. Vou p'ra casa. Um abraço”.
16.06.07 – “Boa tarde, antes de mais quero pedir-lhe desculpa por ter faltado ao combinado, meti-me numa situação que me atrasou até agora, sei que não se vai aborrecer…ligo-lhe depois. Um abraço”.
12.09.07 – “Bom dia, Dr., hoje à uma vou sair, vou a Sintra… e será impossível estar aí às três…! Vou dar largas à imaginação… Ligo-lhe em breve. Um abraço”.
1 – As características do caso e a impossibilidade de aplicar o setting habitual em psicoterapias condicionaram inevitavelmente a recolha e a discussão do material clínico que foi sendo possível registar ao longo de 15 anos. Durante estes anos, nunca foi possível fidelizar esta jovem a um seguimento regular de sessões de psicoterapia, circunstância comum à generalidade dos toxicodependentes.
Coerente com o modelo de seguimento não-contínuo, pareceu-me razoável seleccionar aqueles pontos que irão permitir uma visão global do caso, sem perder de vista o impacto dos episódios-chave – os ictus que marcaram o processo evolutivo.
2 – Em primeiro lugar, a fase infantil vivida em condições abertamente deficitárias: mãe solteira e sem meios económicos, filha única, pai ausente, física e afectivamente, mas presente em cenários de perversão; envolvimento familiar conflitual. As recordações de infância são vagas e muito reduzidas, certamente por efeito do recalcamento.
A mãe é descrita como pessoa sem iniciativa, dada a períodos de depressão e, como tal, desvalorizada. A sua ocupação de ama terá eventualmente sido vivida pela Ana como redutora da capacidade de atenção e de envolvimento afectivo, sendo verosímil admitir-se que esse contexto lhe deu pretextos para crescer precocemente, investindo narcisicamente a imagem de criança desenvolta e atraente, para o que muito contribuíram os cuidados e gostos da avó paterna e a assimetria do status socioeconómico dos dois lares em que a Ana se movimentava.
Essa situação fragilizou necessariamente as referências de identificação relativamente aos progenitores, inviabilizando as experiências de exclusão/inclusão e comprometendo irremediavelmente a vivência edipiana da triangulação que já Freud (1926) considerava “a situação conflitual mais importante que a criança tem de resolver”.
O facto de, aos 6 anos, ter ouvido da avó que o pai sofrera uma grande desilusão ao saber que a filha era uma menina e não um rapaz, e as recordações que guarda da frieza afectiva com que o pai a acolhia, nas passagens ocasionais por Lisboa, são vivências que fragilizaram as defesas e possibilitaram inevitáveis desenvolvimentos psicopatológicos.
3 – Mas será em plena pré-puberdade – coincidindo com a falta de espaço em casa da mãe, e pela necessidade de ter condições favoráveis para realizar os trabalhos escolares – que Ana passa a viver em casa dos avós paternos.
É neste contexto que se situam as vivências traumáticas mais significativas, confrontada que foi repetidamente com situações de exibicionismo
e assédio sexual por parte do pai ou a descoberta de cenas de abuso sexual da parte do avô sobre uma criança adoptada (9 anos) de origem africana.
Estas vivências sempre despertaram nela um profundo sentimento de nojo e de revolta e terão, mais tarde (já em fase de consumir droga), funcionado como móbil para “agredir”, à sua maneira, os autores dessas práticas perversas, apoderando-se, duma só vez, duma grande quantidade de dinheiro e delapidando-a, com a intenção de se vingar enfraquecendo-os financeiramente
Já o episódio do cartão de crédito e os 100.000 euros gastos ao ritmo dos consumos parece inscrever-se exclusivamente na lógica da dependência.
4 – A figura de pai como estruturante dum processo de identificação nunca foi reabilitada. Numa carta de Novembro de 1996, quando tinha 22 anos, desabafou: “Não me faz muito sentido continuar a relacionar-me com o meu pai! Tenho pena, pois sempre quis ter um pai, mas ter um que é uma merda, um louco, inconsciente, não quero! Vá pró inferno”.
Globalmente, a atitude do pai representa uma ruptura do processo de desenvolvimento e promove a confusão das gerações. As agressões reiteradas no domínio da sexualidade, além de constituírem o colapso da função paterna, veicularam uma carga traumática que inevitavelmente fragilizou Ana nos seus inconstantes esforços para mudar. A sua história pode, assim, ser interpretada de acordo com a tese de Ramos (2004), que sustenta que a fragilidade do Eu nos toxicodependentes tem uma forte correlação com falhas da função paterna.
5 – A primeira estada no Brasil compreende dois tempos. No primeiro, que durou cerca de um ano, Ana luta por se manter abstinente, com o apoio dos NA e da acupunctura; simultaneamente, questiona-se e esboça alguma culpabilidade, ao pensar nos avós – “a quem fiz tanto mal e que até hoje não me consigo perdoar, aquela imagem da minha avó, quando a chorar me pedia para parar, dá-me uma culpa enorme e até dolorosa”.
Será mesmo um sentimento de culpa que Ana exprime?
Dois meses depois, em situação de autonomia em relação ao pai, mas fragilizada pelas dificuldades económicas, Ana sobrevive com recurso a expedientes de natureza masoquista (casa de alterne) e a pouco e pouco vai sendo invadida pelas saudades da heroína.
No segundo tempo, concretiza-se no seu espírito a ideia de que vai ter que regressar a Portugal para se pôr à prova: consumir ou não consumir heroína. Mais uma vez é a posição omnipotente que preside. O fascínio pela heroína definirá o tipo de relação simbiótica com esse objecto
tóxico e confirmará o modo narcísico de funcionamento em que necessidade e desejo se fundem a mando do self grandioso, como Rado interpretou já em 1933 (Rado, 1998).
No entanto, manifestam-se frequentemente sentimentos de ambivalência. A par das expressões de grandiosidade do self, surgem desabafos como este: “alguma coisa me dói muito! Algo que não consigo identificar! Qualquer coisa que acorda e se deita comigo! Sem me dar a paz de que às vezes preciso!!!” (04.01.97).
De facto, o uso da droga dá uma ilusão de bem-estar e de bom funcionamento que, pela sua intensidade sensorial, bloqueia qualquer capacidade de elaboração. Não é uma relação. É uma fuga da dimensão mental através do ilusório bom funcionamento
6 – A incipiente capacidade de introspecção – insight – fá-la pressentir os riscos de destrutividade que a sua vida pode correr: “Tem-me acontecido muito ter a sensação de desligamento do espaço onde me encontro. Tenho uma sensação de afastamento constante da minha realidade! É uma condenação interior que me perturba muito” (07.04.97). Ana manifesta-se, nesta fase, mentalmente disponível para tomar consciência dos efeitos destrutivos da pulsão de morte.
Freud alertou-nos, ao formular a segunda teoria das pulsões (nos anos 20), para a coexistência no ser humano de forças autodestruidoras, a chamada dualidade pulsional: Eros e Thanatos. Segundo Green (2007), a pulsão de morte seria de interpretar em termos de ruptura, enquanto que as pulsões eróticas seriam forças de ligação. Nas suas palavras:
“Si l'on parle de la Pulsion de Mort, en poussant jusqu'à ses conséquences dernières la visée qu'elle recherche, le but d'une telle force est de parvenir à tuer l'individu” (p. 131).
E conclui: as psicossomatoses (onde se enquadra a toxicodependência) e a psicopatia criminológica devem considerar-se campos de aplicação da pulsão de morte.
Quando finalmente acredita que a vinda a Portugal é possível, Ana antecipa a expectativa do desfecho dessa aventura, antevendo um tétrico final (carta de 04.01.97)
E, na realidade, depois da escala em Amesterdão, onde o craving e a facilidade de obter droga atacaram em força, foi o regresso a Lisboa e a descida aos infernos no Casal Ventoso e em Monsanto, ingredientes necessários para demarcar, em uníssono com o narcisismo primário negativo, um verdadeiro campo onde a pulsão de morte predomina, na vertente inexorável de destruição; aplicam-se aqui plenamente as palavras
de Green: “Destruction de la vie à coup sûr, c'est à dire du corps physique animé qui vit et respire (…) mais destruction aussi de l'âme et du psychisme.” (Green, 2007, p. 202). Ou, reportando-me mais uma vez a uma síntese de Green, estamos perante uma verdadeira pulsionalização das defesas, sem oposição do Eu.
O que se avizinhava teria sido, provavelmente, a destruição irreversível, se entretanto a família não lhe tivesse proporcionado outra oportunidade de voltar ao Brasil… desta vez comprometida com um programa de 3 meses em articulação com um Centro de Tratamento.
7 – O regresso a Lisboa inaugura uma nova etapa na vida de Ana. Abstinente e apartada das cumplicidades de outrora, começa a integrar-se na comunidade. Uma ocupação de Relações Públicas em ambientes culturais e artísticos permite-lhe descobrir-se.
Será pouco depois que conhecerá o marido, de quem virá a ter dois filhos, passando a dedicar-se preferencialmente à vida em família, pintando nas horas vagas ou partilhando as tarefas do marido em épocas de maior actividade comercial. Passou a fazer leituras sobre psicologia infantil e pediatria.
A heroína não voltou ao seu horizonte, embora sinta que não lhe é indiferente Apenas fuma cannabis 3 a 4 vezes por dia.
8 – Em correspondência de 07.04.97, dizia: “acho-me muito imprevisível e inconstante, e isso me aborrece”. Estas duas características voltam a emergir quando Ana se vale dos atributos de sedução que anteriormente lhe permitiram sobreviver, limitando-se agora a uma única relação supletiva. No entanto, o modo de vivenciar as expectativas de prazer tem algo de comum com as expectativas que um toxicodependente vive quando inicia a procura de droga. Ana exprime-se nestes termos: “Quando vou ter com ele… só de pensar nisso… começo a sentir o mesmo como quando estava a ressacar… palpitações, suores… será que isto também é uma droga?”.
Sexualidade adictiva, dirá André Green : o Eu fica submergido pelos efeitos pulsionais da erotização.
A relação preferencial com homens mais velhos (médico toxicodependente, primeiro namorado, actual companheiro, mecânico) que ela interpreta como se andasse à procura dum pai e a fantasia de castração – “gostava de poder fazer a experiência de ter uma p… e perceber porque é que certos homens acham que isso lhes dá um poder especial” (sessão de 27-09-07) – indiciam essa necessidade do Eu que a impele a clivar a realidade, procurando um substituto simbólico duma falha.
Em suma:
A infância de Ana ficou marcada por um deficiente holding materno e por uma relação traumática com a(s) figura(s) paterna(s), factores suficientemente determinantes para perturbar o seu processo de desenvolvimento
As defesas narcísicas, que foram emergindo ao longo da pré-puberdade, em consequência de traumatismos vividos precocemente, no contacto com adultos, conduziram àquilo que Ferenczi apelidou de auto-clivagem narcísica (apud Green, 2006).
Assim, as primeiras experiências de droga poderão entender-se no contexto de “evasão”/“protecção” relativamente ao quadro de perversão a que reiteradamente era sujeita no convívio com familiares.
Os consumos selectivos (heroína) e a sua repetição compulsiva fizeram emergir o que há de mais “demoníaco”, em todas as pulsões, isto é, a tendência para a descarga absoluta , o que permite interpretar esse funcionamento na linha da auto-agressão masoquista e do narcisismo destrutivo (Rosenfeld, 1961), em última análise, da pulsão de morte.
O medo de se conhecer, “de se encontrar consigo própria” – sessão de 17.09.99) – tem sido aproveitado nas sessões para interpretar as resistências que ainda sente quando surge a ocasião de tomar consciência das carências dos seus meios mentais, que não lhe permitem enfrentar nem a ansiedade nem a depressão, sem recorrer ao agir, quer se trate duma substância psicoactiva, quer se trate do erotismo.
Refira-se, no entanto, o efeito antidestrutivo que representa a orientação de Ana para comportamentos típicos das pulsões eróticas, o que, associado ao facto de o referido parceiro extraconjugal não ter experiência de substâncias psicoactivas, poder constituir um antídoto relativamente à hipótese de recaída.
Neste momento, com 34 anos de idade, Ana revela uma percepção melhor de si própria (insight) e uma compreensão mais lúcida da sua história. A vivência duma relação estável tem-lhe permitido ultrapassar a destrutividade inerente à dependência de substâncias psicoactivas, recuperar as partes clivadas do seu psiquismo e atingir um funcionamento mental mais solto e mais rico.
A evolução provável poderá resultar da emergência duma posição depressiva, até ao presente vagamente aludida (sentimento de vazio, culpabilidade) a par da aquisição dos instrumentos mentais que irão possibilitar a capacidade de pensar psiquicamente o seu percurso, enfraquecendo as defesas narcísicas, de molde a abandonar o registo do narcisismo fálico.
Ao longo deste seguimento a transferência, que tem permitido que Ana sinta o psicoterapeuta como confidente e continente de muitas angústias, assume uma coloração nitidamente materna.
SUMMARY: The drug addicts' relapses, heroin addicts' in particular, being part of the addictive cycle, have aroused, for a long time now, the interest of researchers willing to identify their causes. Their frequency and unpredictability account for the huge complexity of the phenomenon and dramatically affect the therapeutic options of treatment and rehabilitation programs.
It is generally accepted that this phenomenon occurs when psychological addiction is activated by emergence of internal factors (stress, craving) associated with external factors. However, the explanations advanced about the origins and natures of those internal factors are quite divergent. Although the neurobiological approach is essential to decode the effects of drugs on the brain, it is not sufficient, in the case of patients who are addicted to heroin, to understand how these relate to their drug of choice.
According to clinical practice, the episodes of relapse fall within the dynamics of both a hallucinatory desire for enjoyment and compulsion.
In this context, we give precedence to the psychoanalytic approach of the phenomenon of heroine addicted relapses, for it appears to be the best way to understand the various stages of the process of change in which Ana has engaged in the course of a long process of psychotherapeutic treatment.
KEYWORDS: Withdrawal syndrome; Relapse; Psychic dependence; Traces of traumatic experience; Clinical illustration.