Como elaborar os traumatismos que não podem ser nem pensados nem verbalizados?
Através de citações de Ferenczi, Bion, Tustin, Winnicott, André Green, Thomas Ogden entre outros, a autora sublinha como os aspectos não representáveis do traumatismo foram trabalhados no decurso da literatura psicanalítica. A descrição de um caso clínico possibilita ilustrar como a existência de traumatismos precoces, juntamente com a ausência das capacidades associadas à rêverie materna, conduzem à fragmentação do psiquismo e à aniquilação da função simbólica.
Comunicação apresentada nas IV Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise de Lisboa, em Novembro de 2013
Psicóloga Clínica, Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: cmicruz@hotmail.com
“Sonhar é a obra mais elevada de todas. Sonhar é encontrarmo-nos. Repare bem: a arte de sonhar não é a arte de orientar os sonhos. Orientar é agir. O sonhador verdadeiro entrega-se a si próprio, deixa-se possuir por si próprio.” Fernando Pessoa (2012)
A teoria psicanalítica interessada no desenvolvimento do psiquismo humano esteve sempre atenta às vivências do homem e, por conseguinte, às experiências traumáticas que têm uma expressão sintomática muito abrangente de acordo com os diferentes níveis do psiquismo do individuo. O desenvolvimento da teoria e da técnica, nomeadamente a utilização da contratransferência e da intersubjectividade no par analítico, foram instrumentos chave para a compreensão das novas problemáticas com que a Psicanálise se foi defrontando.
A psicanálise contemporânea, em particular, tem dado maior ênfase à representação e à construção da mente. Isto é, às problemáticas relacionadas com as perturbações precoces do desenvolvimento nomeadamente a incapacidade de representar, levantando-se a questão: como elaborar os traumatismos que não podem ser pensados e verbalizados?
No congresso da International Psychoanalytical Association (IPA), realizado 2013 em Praga, algumas mesas debruçaram-se sobre o início da organização da vida psíquica assim como, sobre as problemáticas relacionadas com a representação mental.
Ferenczi, S. em Setembro de 1930 escreveu um pequeno texto onde refere que: “O efeito imediato de um traumatismo é uma fragmentação…” e “O sintoma de amnésia retroactiva é difícil de explicar. É provavelmente uma medida de protecção contra as recordações do traumatismo.” (Ferenczi, S. 2006). Para Ferenczi, S. um dos problemas mais importantes para o analista seria então a criação de uma técnica para abordar estes aspectos irrepresentáveis do traumatismo, e é neste sentido que preconiza “uma elasticidade da técnica analítica”, uma técnica activa. Ferenczi, S. acreditava que não existindo forma de representação, o trauma infantil não era acessível à interpretação, e portanto, no decurso da cura analítica seria importante criar as condições necessárias à repetição real do trauma.
Oito anos mais tarde, em 1938, Freud, S. na sua última versão do traumatismo, em Moisés e o monoteísmo, (penso que também integrando as concepções de Ferenczi, S.) refere que: “a) Todos esses traumas ocorrem na primeira infância, até aproximadamente o quinto ano de idade. Impressões da época em que uma criança está começando a falar ressaltam como sendo de particular interesse; os períodos entre as idades de dois e quatro anos parecem ser os mais importantes. b) As experiências em apreço são, via de regra, totalmente esquecidas, não são acessíveis à memória e incidem dentro do período de amnésia infantil, geralmente interrompida por alguns resíduos mnésicos isolados, conhecidos como recordações encobridoras.” (Freud, S. 1969) Freud, S. refere-se aos traumatismos em que os traços traumáticos esquecidos não podem ser, nem rememorados, nem elaborados. Como se estes traços traumáticos ficassem numa área irrepresentável da mente.
Bion, W. (1997), deu-lhe o nome de “estado de espírito inacessível”, considerando a existência de um inconsciente que nunca será consciente, apoiando-se na teoria da identificação projectiva de Klein, M. (1966).
Bion, W. refere que (1997) “o feto desenvolve a capacidade daquilo que mais tarde se chamará identificação projectiva. Dito de outra forma: o feto experimenta sentimentos primordiais que tenta tratar por evacuação. Sou da opinião que existe
um outro estado de espírito para além do consciente e do inconsciente. Chamo-lhe estado de espírito inacessível. A inacessibilidade talvez provenha das tentativas que o feto desde logo faz, para se livrar de certos estados de espírito.“
Winnicott, D. (1949) fez referência a uma memorização inconsciente do trauma. Se uma experiência traumática é muito intensa, ela será conservada inconscientemente sem poder ser elaborada.
Tustin, F. (1989), descreve o buraco negro como: “No lugar de um núcleo psíquico com coerência, existe um sentimento de perda do qual não se fez o luto” e recorda os trabalhos de Segal, H. que salientaram a importância para a formação dos símbolos, da capacidade de se fazer face a sentimentos de perda.
Green, A. (1993), descreve o trabalho do negativo, como aquilo que não pode ser simbolizado e/ou que foi simbolizado e de seguida destruído. Trata-se do vazio, do que não pode existir no psiquismo.
Botelha, C. et S. (2007) referem: “Hoje, nós estamos convencidos que o carácter traumático do trauma infantil não responde ao modelo da neurose traumática nem do aprés-coup; não decorre da intensidade de uma percepção, nem do conteúdo duma representação mas da incapacidade de transformar, de tornar psíquico um estado que, pelo facto desta incapacidade se torna excedente de energia, uma percepção não ligada, sem poder desencadear uma neurose traumática.”
Scarfone, D. (2013) chama “mente primordial”, ao que não está inserido na complexa rede de representações e que não pode ser evocado pela memória – algo que está fora do campo psíquico. Contudo, a informação não é completamente destruída, ela mantém-se sobre a forma de resíduos de traços.
Neste trabalho pretendo ilustrar através de um caso clínico como na experiência de rupturas traumáticas precoces o self primitivo fica fragmentado. Se esta fragmentação não é conduzida a uma nova integração, as capacidades de transformação emocional, assim como das fantasias inconscientes ficam mutiladas.
Se as capacidades para transformar e conter associadas à reverie materna não existirem, as experiências traumáticas da criança não podem ser transformadas em imagens e palavras. A sua capacidade para imaginar e para pensar assim como, o acesso ao pensamento simbólico fica bloqueado.
Tiago foi um recém-nascido abandonado junto a um caixote do lixo numa rua de Setúbal. Viveu numa Instituição até aos quatro anos de idade. Nesta altura, ainda não falava, tendo sido operado aos ouvidos por otites de repetição. Associei este atraso no desenvolvimento aos múltiplos traumatismos precoces, a que esta criança foi certamente submetida.
Tiago foi um bebé “deixado cair” de maneira significativa e concreta, e submetido a diversas carências por parte do meio. Para Winnicott, W. estes bebés têm a experiência de uma angústia arcaica impensável. Eles sabem o que é estar num estado de confusão agudo, ou o que é a angústia de desintegração. Para Winnicott, W. (1963) “A doença psicótica é uma defesa contra a angústia primitiva.”
Conheço-o aos cinco anos de idade, encontrando-se Tiago num estado deficitário, numa organização defensiva psicótica, onde a angústia subjacente era impensável.
Na primeira sessão de observação, o Tiago deambulava pela sala referindo: “Nada… nada… nada… quero ir embora… nada…”
Stewart, S. refere (2005) “Antes dos nove anos de idade a imagem e a recordação do objecto perdido não é recalcada, mas repudiada e evacuada da memória. O Eu imaturo não é capaz de efectuar uma perlaboração do luto. Resulta a depressão, e esta circunstância dolorosa obriga o Eu imaturo a encontrar uma solução através da negação e renuncia à existência do objecto. A base do sofrimento no luto não é ”deixar cair“ o objecto, mas é de integrar em si mesmo o objecto perdido. Este ideal não está acessível à criança pequena”.
Por outras palavras refere Tustin, F. (1989) “A criança autista não foi capaz de fazer o seu luto, porque o seio que ela tinha a impressão de ter perdido não tinha atingido um estatuto de objecto; era quase inteiramente sentido como uma conjugação de sensações.”
No caso de Tiago o “nada” referido na primeira sessão é de facto o NADA que invade o seu aparelho psíquico. Não há nada para elaborar, parece que tudo teve que ser evacuado da memória.
Nos primeiros cinco anos de análise, as sessões foram palco de grandes agitações psicomotoras, como se as palavras pronunciadas tivessem uma função de descarga de tensão (acção muscular). Como
descreve Scarfone, D. (2013) “na mente primordial não existe representação mental, mas somente acção e descarga.”
Do ponto de vista contra-transferencial, estes anos, foram difíceis porque era extremamente complicado conter angústias tão primitivas e destrutivas.
Posteriormente, com dez anos de idade, o Tiago entra numa sessão dizendo:
Tiago: Vamos brincar às escolas, eu sou o aluno e tu a professora. Vamos ter uma aula de história. De onde nascem os bebés? Quando não se consegue ter filhos como se faz? Adopta-se…
Nesta sessão, Tiago questiona-me e questiona-se sobre o nascimento. Como que resume a sua curta, mas tão pesada história – o drama do seu nascimento.
A este propósito refere Bion, W. (2013) que: “quando os pacientes sofrem duma função alfa deficiente, eles podem representar-se a si próprios mas não podem ter consciência de certas experiências emocionais porque não as conseguem digerir. Estas experiências persistem sob a forma de factos não digeríveis e que só podem ser evacuados.” Acrescenta ainda Bion, W. (2013) “Ao contrário do neurótico que reconhece a verdade subjacente à interpretação do analista, o psicótico não, é como se essa verdade pertencesse a qualquer outro – se ele o fizesse, ele tomaria consciência de uma imagem de si próprio que o aterroriza. Isto indica-nos que a negação radical do psiquismo primordial é devido a um terror evocador do risco de morte psíquica.”
Tiago faz referência à adopção mas não relaciona com o facto de ele próprio ser adoptado.
Na sequência desta sessão, Tiago, descrito como uma criança que nunca chorou, começou a usar nas sessões a cor preta para desenhar, havendo em simultâneo a referência dos pais que em casa é por vezes encontrado a chorar.
O que me fez pensar na sua capacidade de se deprimir. Tiago tem acesso aos afectos relacionados com as situações de perda mas ainda não consegue ligar o afecto ao acontecimento traumático inicial.
Nesta altura, numa sessão desenha um palhaço, onde representa o lado do coração com o vazio do branco. Este desenho evocoume Winnicott, D.
Winnicott, D. (1993) sugere que: “as experiências traumáticas que puseram à prova a capacidade de espera da criança relativamente à resposta ardentemente desejada da mãe, conduzem (quando há uma falta de resposta), a um estado onde só o que é negativo é real. Além disso, a marca desta experiência seria de tal ordem, que ela se estenderia a toda a estrutura psíquica e tornar-se-ia independente, por assim dizer, da presença ou ausência do objecto. O que significa que, a presença do objecto não consegue modificar o modelo negativo, que se tornou a característica das experiencias vividas pelo sujeito. O negativo impôs-se como uma relação objectal organizada independente da presença ou ausência do objecto.”
Se esta citação de Winnicott correspondia à situação inicial de Tiago, verificamos que, no decurso da análise, Tiago modificou o modelo negativo, o que lhe permitiu ter acesso aos afectos e libertar parte do aparelho psíquico.
No mês seguinte, diz-me:
Tiago: Eu era deficiente e tu tens que operar! (Deita-se no divã)
Carla: Deficiente!
Tiago: Cala-te, opera.
A operação vai decorrendo, no final questiono: “Como te estás a sentir?”
Tiago: Mal, muito mal, tenho ódio…
Carla: Estivemos a operar, já foi possível falarmos do ódio ir-te-ás sentir muito mais aliviado e calmo…
Tiago escuta-me em silêncio e adormece profundamente.
No final da sessão acordo-o e pergunto-lhe: Estiveste a sonhar?
Tiago responde: Nada…
Dois anos mais tarde, o Tiago refere:
Tiago: Tenho a pila pequena e não posso separar-me dela porque é de sangue, não pode crescer porque está longe do sangue, que mau cheiro! Sabes que eu fui comprado numa loja dos trezentos, cheira mal e tu és frágil!
Carla: Imaginas que eu sou frágil e não aguento com a tua dor, com teus maus cheiros!
Faz um desenho com a seguinte história:
“Era uma vez uma caca mal cheirosa.
Olá Carla, queres vir para ao meus intestinos grossos?
Olha que, isto cheira muito mal, chama o INEM que eu vou adoecer.
Passado duas horas a Carla virou-se para o médico e disse: Cheiras mal ou quê!
O médico disse – sim cheiro da cabeça até aos pés.“
Nesta sessão, o Tiago revive a história inicial da sua vida: a primeira mãe foi o caixote do lixo e ele é lixo que foi salvo pela polícia (“chamem o INEM”).
Nesta altura cantava com frequência nas sessões:
“Quando eu nasci a minha mãe não tinha leite
Mamei nas mamas de uma bezerra desajeitada
Mamei em tudo o que tinha peido
E foi assim que eu nasci.“
O Tiago teve necessidade de mobilizar o analista no sentido de o ajudar a recriar o seu Ser. As experiências passadas vão sendo transformadas em memórias incorporadas numa dimensão virtual mediada entre analista/analisando e a realidade objectiva.
Como referem Botelha C. et S. (2007) “Nós pensamos que na prática analítica de uma maneira geral, o trauma não é acessível, senão com a condição que a regrediência do pensamento tenha acesso à alucinatória. Só uma dualidade regrediente sujeito/objecto, com base no trabalho do analista possibilitará a capacidade de tornar perceptível o que nunca foi até então inteligível.”
Actualmente o Tiago trabalha numa firma de distribuição de produtos, sendo descrito como um rapaz responsável, adequado e trabalhador. Gosta de desporto e relaciona-se de forma adequada com os seus pares.
Considerações sobre o Material Clínico
O facto do analista pensar o paciente e juntamente com ele construir uma rede de ideias, possibilitou que as palavras que de início funcionavam como fragmentos desordenados do inconsciente, aparentemente sem sentido, dessem lugar à construção de pequenas frases, com vista à criação de uma narrativa.
Refere Scarfone, D. (2013) que “Se o sujeito angustiado tiver o privilégio de encontrar um outro ser humano com quem possa reabrir os canais dirigidos à mente primordial, a recapturação desse traços, pode conduzir a uma restauração de significados e o sujeito pode alcançar maior segurança psíquica.”
Tiago alcançou uma maior segurança psíquica, contudo a sua grande dificuldade é transformar quer consciente quer inconscientemente, uma vez que ainda lhe é muito difícil associar livremente e sonhar acordado ou mesmo a dormir. Acredito que esta incapacidade para sonhar corresponda ao vazio traumático e às áreas irrepresentáveis da mente primitiva.
Refere Ogden, T. (2012) “Existem experiências de sofrimento indizíveis e inimagináveis, sofrimentos tão terríveis que ultrapassam a capacidade do ser humano das assimilar mantendo-se emocionalmente vivo.” Acrescenta Ogden, T. (2012) “O contrário do bom sonho, não é o pesadelo, mas o sonho que não pode ser sonhado: o que poderia tornar-se num sonho fica em suspenso, fora do tempo, numa terra de ninguém onde não há nem imaginação, nem realidade, nem esquecimento, nem recordação, nem dormir, nem despertar.”
Não só o paciente é incapaz de sonhar como dificulta ao analista o “sonhar” a sessão e o paciente. Como refere Green, A. (2010) “Estes pacientes não permitem ao analista trabalhar com a atenção flutuante, isto é, a liberdade de associar não está à disposição do analista. O analista em vez de deixar a escuta analítica flutuar para colher o que o analisando vai trazendo, ele vê-se obrigado a reagir à comunicação do seu analisando com uma concentração extrema. Esta inversão da atenção em suspenso é contrária à aplicação do método analítico. O mínimo que nós podemos dizer, é que esta inversão impede a palavra do paciente de deixar emergir o fantasma inconsciente.”
Podemos referir que: se ao menos sonhasse… os fragmentos tornar-se-iam progressivamente mais pequenos, como refere Bion. Contudo, dar uma continuidade ao discurso fragmentado, possibilitou criar uma nova rede de ideias que permitiu ao paciente desenvolver o sentimento da continuidade de existir como pessoa.
A existência de traumatismos precoces, juntamente com a ausência das capacidades associadas à rêverie materna, conduzem à fragmentação do psiquismo e à aniquilação da função simbólica. Na nossa função de analistas devemos criar no decurso da cura analítica as condições necessárias ao desenvolvimento da reorganização do mundo interno do analisando, partindo das suas capacidades de base.
Através das sessões de Tiago, verificamos que apesar dele ter tido acesso às suas experiências traumáticas iniciais, e de ter feito uma evolução ao nível da adaptação e da continuidade do sentimento de Ser, existe ainda uma área como refere Ogden, T. (2012), em que: “o que poderia tornar-se num sonho ficou em suspenso, fora do tempo, numa terra de ninguém onde não há nem imaginação, nem realidade, nem esquecimento, nem recordação, nem dormir, nem despertar.”
SUMMARY
How can we talk about trauma which cannot be concieved of let alone spoken about? The author illustrates through quotations by Ferenczi, Bion, Tustin, Winnicott, Andre Green, Thomas Ogden among others, how the aspects of trauma which are unrepresentable have been present throughout psychoanalitical literature.
By means of a clinical case the author illustrates how the existence of premature trauma combined with the absence of the capacities associated with maternal reverie, lead to a breakdown of the psyche and the annihilation of the symbolic function.
KEYWORDS: trauma, unrepresentable, symbolic function.