Partindo de vinhetas clínicas, propomo-nos pensar, corporal(mente), a dinâmica do funcionamento do analista, do analisando e da dupla. Consideramos que o trabalho analítico ocorre neste interjogo dinâmico e neste fluxo contínuo entre corpo e mente: o corpo do analisando sente aquilo que ele próprio ainda não pode pensar, seja porque lhe é interdito, seja porque lhe falta o aparelho para pensar os pensamentos, seja porque a dupla e o campo analítico não conseguem representar e se interrompe esse fluir contínuo. A mente-rêverie do analista pensa naquilo que o analisando não pode pensar (representando sob a forma de imagens, sonhos, fantasias, palavras), ou o corpo do analista sente (contratransferência somática) o que ele-analista não está ainda capaz de representar. O corpo sente antes da mente (Damásio, A. R., 2010) e é o veículo que inaugura a figurabilidade/representação, constituindo-se como ego-corporal, como eu-pele, como envelope psíquico para a pensabilidade. Contudo, por vezes, esse mesmo corpo dá sinais que ficam impossibilitados de representação simbólica, quando o fluxo contínuo «corporal-mente» é interrompido. A quebra dos vínculos na relação analítica (corpo-mente, analista-analisando, sentir-pensar) traduz-se então numa «representação» corporal (transferência e contratransferência somática: enjoos, frio, fome, tonturas, somatizações mais graves, etc.).
Apesar de a Psicanálise parecer, por vezes, ficar focada na mente e desligada do corpo, a verdade é que o corpo surge como o veículo primeiro através do qual a nossa mente consegue pensar: são as sensações do corpo que nos dão informação sobre os afectos e sobre o outro. Isto foi intuído e pensado por Freud (1923) e seus inúmeros seguidores, e mais tarde reforçado por Damásio (2010) através de estudos neurológicos (Sletvold, J., 2013).
Quando Freud nos disse que «O Ego começa por ser um Ego corporal» (Freud, S., 1923, p. 26), mostrou-nos não só como não podemos dissociar uma coisa da outra, como também que o Ego se constitui a partir da percepção e sentir do corpo.
Um século depois, Damásio (2010) volta a colocar o corpo no centro da vivência emocional através daquilo que chamou de «sentimentos primordiais», referindo o cerne do self como emocional, o qual é percepcionado através do sentir no corpo.
Segundo Damásio (2010), o cérebro tem acesso, em cada momento, a uma representação dinâmica do corpo, sendo que o mapeamento neurológico do corpo é modificado pela percepção de um objecto. Assim, o autor sugere que a experiência do self começa por surgir como uma experiência não-verbal sobre as mudanças que ocorrem no nosso corpo à medida que interagimos uns com os outros e com o ambiente.
Portanto, tanto para Freud (1923), como para Damásio (2010), corpo, emoção, self e consciência são inseparáveis (Sletvold, J., 2013). Podemos então dizer que, numa sessão analítica, o corpo do analista (e do analisando) está presente em cada pensamento/sentimento que surge na sua mente. Um corpo presente, mas silencioso quando o
Artigo recebido em 4 de Maio de 2017 e aceite para publicação em 28 de Fevereiro de 2018.
Psicóloga clínica. Psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
Psicóloga clínica. Membro candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). E-mail:
Psicóloga clínica. Psicanalista. Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
processo de representação/elaboração simbólica se processa de forma fluida. Um corpo que se torna ruidoso quando algo na relação analista-analisando interrompe/impede este fluir do corpo para a mente.
Desde o início da história da Psicanálise que o corpo foi pensado como um lugar de expressão de sofrimento psíquico.
Foi Freud quem primeiro percebeu que o conflito mental podia ser expresso em sintomas corporais, no seu trabalho sobre a histeria (Freud, S., 1912). Os sintomas histéricos eram tratados através da linguagem, usando interpretações que pretendiam levantar a repressão de memórias traumáticas por detrás dos sintomas, e transformá-las, e aos afectos relacionados, em objectos psicológicos. O objectivo do tratamento era ajudar o paciente a desenvolver insight sobre o sintoma e o significado inconsciente por detrás dele.
Mais tarde, no trabalho com pacientes que somatizavam, Marty (1968) observou, no lugar da repressão, uma ausência de representação e de processamento psíquico, que designou por dificuldades de «mentalização». Surge assim a necessidade de distinguir o sintoma somático conversivo, no qual o sintoma corporal exprime um conflito inconsciente recalcado (modelo da histeria), do sintoma somático, que resulta de uma impossível representação/pensamento: o corpo sente o que a mente não pode pensar (Alexander, F., 1950; Sami-Ali, M., 1987).
Actualmente, é aceite que o problema do psicossoma está relacionado com uma falha do aparelho mental em trabalhar um conjunto de excitações somáticas, resultando em fenómenos não mentalizados que permanecem inconscientes e são expressos pela linguagem corporal dissociada da linguagem da mente (Gottlieb, R. M., 2013).
O conceito de contratransferência teve duas mudanças fundamentais desde a sua origem com Freud , que a compreendia como a transferência do analista sobre a transferência do paciente, e como uma dificuldade que os analistas teriam de ultrapassar.
Mais tarde, este conceito (; Little, M. I., 1951; Racker, H., 1957, 1968; Heimann, P., 1950) passou a incluir todos os sentimentos e reacções que o analista experiencia quando na relação com um analisando, sendo que todas as reacções contratransferenciais podem ser usadas de forma a ganhar uma compreensão mais profunda do paciente. Actualmente, com as teorias de campo, a contratransferência é considerada como a reacção do analista à dinâmica inconsciente do analisando e à forma como esta se manifesta no campo (em vez do reflexo do material inconsciente do analista). Assim, a contratransferência deixa de ser vista como algo problemático e desejável de ser evitado, mas, antes, como um instrumento útil para o terapeuta.
Outra importante mudança na concepção deste conceito é aquela que não vê a sua origem no paciente nem no terapeuta, mas como um material único que se desenvolve numa díade particular. Gabbard (1995, 2001) descreve esta compreensão da contratransferência como o paciente levando o terapeuta a desempenhar um papel que reflecte o mundo interno do paciente, mas em que as manifestações específicas desse papel são coloridas pela história de vida do terapeuta.
Da mesma forma, Ogden (1977a, 2004) fala do uso das respostas contratransferenciais estendendo o conceito de rêverie de Bion, no qual esta não seria um produto do trabalho psicossoma do analista sozinho, mas o resultado do inconsciente combinado de analisando e analista: através da rêverie, o analista transforma o material não processado que o analisando projectou na sua mente em pensamento.
Em particular, relativamente à contratransferência somática, o material teórico parece estar dividido em duas categorias: ora relacionada com o tipo de pacientes que tendem a despertar contratransferências somáticas; ou com o tipo de traços, defesas e história pessoal do analista que o tornam com maior tendência para uma contratransferência vivida no corpo.
Relativamente aos pacientes, a literatura descreve os que procuram controlar o outro e os pacientes-limite e psicóticos (McLaughlin, J. T., 1975). Outros autores descrevem pacientes com problemas pulsionais, tais como dificuldades relacionadas com sexo, agressão, ou comportamento alimentar, como tendo maior tendência a evocar uma contratransferência somática (Samuels, A., 1985).
Quanto ao terapeuta, Jacobs (1973) sugeriu três características que levam a contratransferência a tomar forma somática: (1) quando o material do paciente reaviva experiências passadas semelhantes no terapeuta; (2) quando o terapeuta está constantemente perante material relacionado com experiências corporais altamente conflituais; (3) em função da qualidade das experiências corporais na infância do terapeuta.
Ogden (1977b) sugere que, no processo de fazer uso da rêverie, os conteúdos na mente do analista são tão importantes como aqueles no seu corpo. Material não mentalizado está frequentemente presente num tratamento e, quando um paciente não é capaz de expressar os seus conflitos internos em palavras, a sua transferência será manifesta na
contratransferência somática do analista. Assim, tendo a forma somática, as reacções corporais no analista requerem maior trabalho de elaboração do que outras formas de contratransferência. É necessário que o terapeuta as compreenda no contexto de uma díade específica (Gubb, K., 2014).
Por outro lado, enquanto o setting analítico (divã) permite que o material inconsciente seja revelado com pouca influência no corpo do analista, a terapia face-a-face põe o corpo do terapeuta num papel mais central antes de este lhe poder dar atenção (chorar, corar). Aqui, a contratransferência corporal é muito mais visível para o paciente. Além disso, o analista perante o paciente encontra-se mais susceptível de ficar «prisioneiro» da excessiva identificação projectiva deste.
Olga (50 anos) senta-se pela primeira vez à minha frente e enche a sala de perdas e mortes: o filho, com uma doença cardíaca desde nascença, morreu há um ano, com 24 anos; o pai suicidou-se há dois anos; a mãe sempre preferiu o irmão; o filho mais velho de Olga foi viver para o estrangeiro e gradualmente deixou de lhe falar. Mas, para meu espanto, tenho dificuldade em empatizar com esta mulher que parece nadar num mar de perdas. Mais do que o outro com quem ela procura partilhar a sua dor, sinto-me (imagem que me surgirá já depois de finalizado o nosso encontro) um caixote do lixo onde ela despeja algo de insuportável que ainda não sei definir/nomear. Durante a consulta, tenho vontade de mandar Olga embora, sinto-me enjoada, o meu corpo quer ver-se livre dela. Mas a minha culpa (como posso não estar disponível para alguém que sofreu o inimaginável?) retém-me e paralisa-me numa postura de receptividade, e o enjoo aumenta…
Numa segunda consulta, procuro uma imagem para partilhar com ela e falo-lhe da sua paisagem interior povoada de perda/rejeição. Não só das perdas/mortes reais que lhe aconteceram, mas desse Outro interno rejeitante e abandónico (mãe e filho mais velho). Fica a olhar para mim perplexa, como se eu falasse uma linguagem estranha que não consegue entender.
Perante a minha dificuldade em estar individualmente com esta mulher (dada a intensa identificação projectiva que se manifesta numa contratransferência somática) e a sua dificuldade em pensar, sugiro-lhe ir ao meu grupo psicoterapêutico, pensando que a presença dos outros poderia romper a prisão paralisante transferência-contratransferência e corpo-mente em que me sinto, e fazer surgir coisas novas dentro dela e de mim.
Na primeira sessão de grupo, a Olga mantém-se calada o tempo todo. Vem ter comigo uns dias depois, apanha-me no corredor e, com a cara quase colada à minha, pede-me que escreva uma declaração sobre a sua necessidade de apoio psicológico para entregar na Polícia, por causa de uns vizinhos que fazem muito barulho. Fico perplexa e, sem encontrar uma imagem simbólica (representação) que abarque esta comunicação sem sentido, explico-lhe como uma coisa não tem que ver com a outra, enquanto ela vai aproximando o seu corpo cada vez mais do meu, de forma que me obriga a recuar perigosamente para junto de umas grades que dividem o piso onde estou do andar de baixo. Paira em mim a fantasia (que rapidamente procuro contestar) de que ela quer empurrar-me e fazer-me mal.
Na sessão de grupo seguinte, ela fala. Surge então um imenso ódio em relação à mãe e a convicção inabalável, quase delirante, de que foi a mãe que matou o marido, pai da Olga, levando-o ao suicídio, bem como o neto, o filho mais novo de Olga, destruindo o seu frágil funcionamento cardíaco por não ter ajudado economicamente a filha e obrigando-o a trabalhar. Fala, mas não ouve nada do que lhe é observado por mim e pelos outros. No final da sessão, uma outra paciente que está há vários anos no grupo diz-me que quer ir embora; para mim, fica então claro o ódio maligno que Olga transporta, o ódio que a minha culpa não permitiu ver na primeira sessão, dada a temática do seu discurso: as várias perdas, a morte de um filho e do pai. Também a minha mãe perdeu uma filha e o meu pai morreu recentemente.
Luísa, uma mulher que acompanho face-a-face há vários anos, com uma fibromialgia, uma obesidade e uma depressão ao nível da coesão da identidade, diz-me: «Doutora, às vezes o corpo dói-me tanto, que até me dói a sola dos pés!». Logo uma voz interna me segreda a sua dor insuportável no contacto com o mundo: os pés no chão. Como se o contacto com o real (o chão/o Outro) trouxesse a dor no lugar do prazer, o desconforto no lugar do confortável. O Outro interno vivido subjectivamente como desconfortável e insuportável. De imediato me lembrei da relação de Luísa com os outros e de como, quando chega ao meu gabinete, afasta sempre a sua cadeira da minha, afirmando com o seu ar aparentemente divertido e humorístico como não suporta estar muito perto das pessoas. E também me surgiu a sua obesidade que, com a sua massa corporal, alarga as fronteiras entre ela e o Outro. E as crises de binge-eating que ocorreram durante bastante tempo e que logo a obrigavam a vomitar, dada a insuportabilidade de conter esse Outro no seu interior.
Penso nestas duas mulheres, Olga e Luísa. Com Olga, uma mulher que não fala pelo corpo (queixa-se de depressão), não pude representar (pensar) o seu ódio interno, e o meu corpo enjoado
sentiu os maus objectos irrepresentados que ela vomitava para cima de mim e ecoavam nas minhas perdas e lutos dolorosos. A Luísa, uma mulher cujo corpo sente o que a mente não pode pensar, trouxe-me um pensamento acerca desta mesma dor. No contacto com a paciente, pude figurar através da sua dor no corpo um pensamento sobre o seu contacto doloroso com o outro.
Então, que pensa o corpo? Que pensa o corpo do analista na relação terapêutica? Que é isso de contratransferência somática? O corpo do analista sente o que a mente do paciente não pode pensar ou que ambos não podem pensar (na díade, como nos diz Karen Gubb, 2014).
A Luísa não pode pensar a sua depressão/falha na relação dual e o seu corpo (fibromialgia) grita, representa somaticamente — como nos diz Damásio (2010), o corpo sente antes da mente — essa mesma dor. Mas, nesse grito, Luísa pede-me o colo que lhe faltou e que lhe alivie a «sola dos pés», transferindo para mim esse materno-rêverie de que anda à procura. Eu posso sonhar/pensar essa dor insuportável. Na minha mente, oiço Fernando Pessoa: «Dói-me a alma e o universo».
Olga não só não tem esse aparelho para pensar os pensamentos (no sentido bioniano) como também lhe falta o vínculo, o apelo ao outro/analista-pára-quedas, que a ajuda a sonhar. Não me pede nada, não se liga a mim, nada transfere sobre mim. Antes, usa-me como uma coisa concreta, um caixote do lixo, numa imensa identificação projectiva patológica, bloqueando a minha capacidade de sonhar/representar com ela. A minha culpa pela vontade de a afastar de mim, e os meus próprios lutos e perdas, «obrigam-me» a permanecer esse «caixote do lixo».
Interrogo-me, então, se a representação implica o vínculo. O vínculo transferencial/contratransferencial que permite o sonho em conjunto — paciente/analista — e a ligação corpo-mente.
A Fátima procurou-me pouco antes de decidir engravidar do homem com quem mantinha uma relação extraconjugal. Sofria uma grande humilhação narcísica pelo facto de não ter sido a escolhida. Falava do seu eu infantil através do filho. Trazia sonhos, fantasias, recordações, mas, no geral, a sua fala parecia despida de afecto, afirmando-se a sua angústia na tensão que eu vivia.
Apresentava uma actividade de pensamento compulsiva, com uma clivagem entre a representação e o afecto, remetendo-me para uma posição de observadora distante e em que as interpretações eram racionalmente escrutinadas porque ouvidas numa espécie de sentido puro, isto é, sem serem verdadeiramente experienciadas. Na verdade, não parece usar a análise como um lugar de pensamento, mas, antes, utilizar a analista para afirmar e confirmar para si mesma que está a pensar bem e que o seu pensamento tem valor.
Parece situar-se na vertente obsessiva da categoria dos estados-limite, de acordo com o pensamento de Pontalis (1999), ou ainda na categoria dos chamados «anti-analisandos» , como citado por Levine referindo-se à conceptualização de Green dos pacientes não neuróticos (apud Levine et al., 2013).
Na contratransferência, sentia-me posta à prova, num esforço (inconsciente) permanente para merecer o meu lugar — numa actividade interpretativa também algo compulsiva. Procurava interpretar o afecto, mas parecia que a paciente não ia «ganhando corpo». Aliás, de uma magreza acentuada, a Fátima queixava-se de que não estava a ganhar peso!
O corpo da analista é convocado (na contratransferência) pela experiência de uma sensação vaga de ameaça, de uma agonia. Algo que se difunde e torna invasivo. Sentia-me limitada na minha capacidade de compreensão. Parecia experimentar «na pele», à semelhança do que a paciente vivia, um excesso pulsional sem objecto capaz de o metabolizar, representar.
Podemos pensar que através desta sensorialidade, vivida no corpo, a analista entra em contacto com uma área da realidade interna da paciente da ordem do não-representado. Verifica-se uma interrupção no eixo «corporal-mente» (da analista) que tem na base o contacto com o vazio psíquico e o negativo.
A este propósito, talvez se possa afirmar que o corpo da analista «não se faz esquecer» porque se torna o palco do drama da oscilação que a paciente vive entre o excesso e a falta do objecto no espaço psíquico, o que Green designa «situação de excesso de presença pelo facto da sua falta» (, p. 382).
Na contratransferência, a analista revive a experiência da paciente na relação com um objecto primário distante, esquivo, entregue às suas ocupações e pensamentos, ao sentir-se imobilizada e aprisionada em termos psíquicos e corporais.
A passagem para a terceira sessão, no terceiro ano de análise, permitiu melhorias consideráveis — toda uma variedade de investimentos. No entanto, apesar das mudanças, faz um sonho que nos mostra uma parte intocável/imutável da mente, operando em silêncio. «Eu sonhei que havia um quarto na minha casa com uma moribunda. Parecia a minha avó! À volta muita gente: as pessoas riam, faziam barulho, conversavam umas com as outras. E aquilo ali! O quarto tinha paredes de vidro e ela estava tapada. Eu só queria saber porque é que aquilo estava ali, não era o lugar.» A avó que aparece no sonho era a avó com quem partilhou o quarto toda a vida, e que era controladora e abusiva (abria gavetas, escutava telefonemas, etc.).
A intimidade na relação analítica pareceu ser vivida como uma ameaça de regressão fusional e dependência do objecto, da qual a paciente se defende pela retirada, recusa da relação, mas também a ameaça de rompimento de um lugar da mente que contém toda a omnipotência infantil e destrutividade. Construção/continente que parece fazer as vezes de um corpo (envelope psíquico de Fairbairn) e que a paciente necessita, em absoluto, de preservar — e não tanto os seus conteúdos.
A «expulsão da analista» como objecto de transferência, «sem dó nem piedade» e ao fim de três anos — por abandono da análise de forma inesperada —, torna a Fátima numa presença ruidosa no meu interior, um excesso emocional que procuro elaborar através destas reflexões.
Piera Aulagnier (1995) defende que o sucesso de uma psicanálise está relacionado com a possibilidade de o analista criar pensamentos novos, pensar o inesperado, o imprevisto, e a possibilidade de sentir prazer com isso. Que fazer então quando repetidamente, sessão após sessão, nos sentimos atacados na nossa capacidade de pensar e somos invadidos por uma angústia permanente que extravasa o tempo das sessões?
Comecei a interrogar-me sobre os meus limites enquanto analista. Como podia continuar a lidar e a suportar uma dor sem nome, imensa, enorme, voraz, que me fazia ter vontade de vomitar, ter dores de cabeça intensas, que me fazia olhar para Adriana e ter a percepção tão alterada que o que via era uma mancha negra em que até os contornos do rosto se esbatiam?
Como fazer quando as partes dolorosas e agressivas do outro estão ao nível da intolerabilidade para o próprio e para o analista? A resposta da Adriana era simples: «vou matar-me e mato os meus filhos, porque as crianças não podem viver sem mãe».
Como avançar quando a palavra não está capaz de ser ouvida, de ser guardada, e, como tal, não pode ser usada como transformadora? Porquê manter a Adriana em seguimento, quando esta, há mais de um ano, ataca o vínculo e a relação terapêutica?
Quando colocava seriamente a possibilidade de dizer à Adriana que não havia condições para continuarmos, fiz este sonho: «Estou em pé, no meio de um campo de neve, e para onde quer que eu olhe só vejo neve. Tudo é branco, tenho frio. Começo a caminhar, sempre em frente, mas não sei qual é o caminho. Tenho cada vez mais frio e começo a ter medo. Subitamente, vejo manchas vermelhas na neve. É sangue. Invade-me uma grande angústia, tenho cada vez mais frio e sei que tenho de sair dali. Continuo a andar com esforço, não sei para onde, à procura não sei de quê. À minha volta, só há neve e silêncio. Ando e ando, e de súbito paro e penso: “Se não me for embora, vou morrer também!” Baixo a cabeça e, inesperadamente, vejo umas pequeníssimas flores azuis que irrompem no meio da neve. Sou invadida por um grande alívio. Sinto que afinal é possível!» E acordo!
O sonho permitiu-me figurar a agonia que o meu corpo sentia na relação terapêutica: a imobilização psíquica, o inominável, o frio da morte e, o mais importante, a desesperança da mudança. A visão das flores no sonho permitiu-me começar a acreditar na possibilidade de criarmos vida na relação terapêutica — o que possibilitou sair do impasse e retomar o processo terapêutico que se mantém volvidos oito anos.
Uma reflexão sobre estas vinhetas clínicas trouxe-nos duas dimensões presentes na sessão analítica que poderão estar directamente ligadas à contratransferência somática no analista.
Nas vinhetas 1 e 3, parece estarmos perante um analisando que não procura verdadeiramente a ligação ao analista. A Olga (vinheta 1) procura simplesmente usar o analista como um caixote do lixo depositário do seu ódio interno; a Fátima (vinheta 3) utiliza o pensamento defensivamente para impedir uma verdadeira ligação/investimento emocional na analista e para a expulsar (primeiro, na relação, depois, num acting-out ao terminar a análise), tal como a paciente se sentiu expulsa na relação extraconjugal que a trouxe à analise.
Não obstante, não será este não-vínculo, esta ausência de ligação, uma «tentativa» de comunicação da paciente a um outro (a analista) daquilo que são as suas vivências não-representadas? A não- representação e a interrupção do vínculo corpo-mente, analista-analisando, como um espelho do mundo interno da paciente? Bokanowski (2009) fala da transferência do negativo, uma espécie de transferência mais ligada às moções pulsionais e aos afectos de violência e de raiva. Transferência «negativante», anti o próprio processo da «transferabilidade», que tende a resultar na imobilização da vida psíquica, quer do paciente, quer do analista. Esta transferência faz aparecer uma raiva primária ligada à falha na relação materna e liga-se a defesas de tipo narcísico.
Será talvez esta uma espécie de transferência não simbolizada que se traduz numa contratransferência somática no analista? Um retorno regressivo ao corporal, à procura de representações? Botella & Botella (2005) referem a necessidade, quando em presença de estados mentais não-representados, de utilizar
o alucinatório em detrimento do modo habitual de compreensão analítica (representação pela palavra). Será a contratransferência somática uma espécie de «representação corporal»?
Por outro lado, isto levanta também a questão da analisabilidade dos pacientes. Para lá do tipo de transferência mais ou menos representada, mais ou menos patológica, mais ou menos pensada, será necessário um lado saudável no paciente (no sentido bioniano): o lado que permite o vínculo, a vivência da dependência emocional, para que o trabalho de ligação analista-analisando, corpo-mente, se torne viável. De facto, a clínica mostra claramente que, frequentemente, para que seja possível uma viagem analítica a «bom porto», mais determinante do que a estrutura de funcionamento do paciente são estes outros mecanismos de ligação-vínculo, de transformação e de capacidade de tolerar a dor mental.
A morte do filho e do pai de Olga (vinheta 1) em contacto com uma analista em cuja história está presente também a morte de uma filha dos seus pais (sua irmã), assim como a morte recente do seu pai — serão estas vivências responsáveis pela culpa que a analista sente perante a necessidade de afastar a paciente, não lhe permitindo assim ver o ódio maligno que esta transporta?
A expulsão da analista realizada pela paciente (vinheta 3) era repetida na transferência: a analista sentia-se expulsa, e foi realmente expulsa num agir final. De que forma isto se liga com a analista? Medo de ser expulsa na sua tentativa de finalizar a formação? Necessidade de ser confirmada como analista?
Por que razão a analista da Adriana (vinheta 4) não conseguia representar a possibilidade de haver algo para lá da dor insuportável da paciente, que também se tinha tornado intolerável para ela própria? O sonho relatado é feito pela analista, parecendo revelar não só a não-representação e o mundo gelado e solitário da paciente, mas também a impossibilidade de a analista tolerar a fantasia e o medo de que Adriana realmente pudesse matar-se e matar os filhos, e ela nada pudesse fazer. Na terapia, a dor, a desesperança e o caminhar meses consecutivos num campo de neve sem ver, nem perspectivar mais nada além da neve, por muito que se caminhasse, levaram a analista a sentir a necessidade de fugir/de se proteger. O medo e a desesperança da analista dificultaram este vínculo paciente-analista, afecto-pensamento, interrompendo o vínculo corpo-mente. De qualquer forma, a Adriana fez a analista viver o que não era capaz de dizer por palavras.
As vinhetas clínicas apresentadas mostram como a dificuldade de elaborar/pensar a contratransferência pode interferir com o vínculo corpo-mente, produzindo uma contratransferência somática. Aspectos não suficientemente elaborados da história pessoal dos analistas favorecem esta imobilização psíquica. A subjectividade do analista (história pessoal, circunstâncias de vida, nós cegos) contribui assim para o tornar temporariamente prisioneiro da identificação projectiva maciça do paciente que, nos três casos clínicos, parece estar relacionada com uma dificuldade do analista em tolerar a destrutividade do paciente. A introdução do terceiro no campo analítico, o Grupo Terapêutico e o sonho da analista foram importantes para sair deste aprisionamento e para a possibilidade de elaborar/pensar a contratransferência.
ABSTRACT
Starting from clinical vignettes, we propose to think about the dynamics of the functioning of the analyst, the patient and the double, corporeally. We consider that analytical work occurs in this dynamic interplay and continuous flow between body and mind: the patient's body feels what he himself cannot think, either because it is interdict, or because he lacks the apparatus to think thoughts, or because the pair and the analytical field cannot represent and this continuous flow is interrupted. The analyst's mind-reverie thinks what the patient cannot think (representing through images, dreams, fantasies, words) or, alternatively, the analyst's body feels (somatic counter-transference) what the analyst himself is not yet able to represent. The body feels before the mind (Damásio, A. R., 2010), the body is the vehicle that inaugurates the figurativeness/representation constituting itself as an ego-body, as an I-skin, as a psychic envelope for thinking. But sometimes this body gives signs that remain incapable of symbolic representation, whenever this continuous “body-mind” flow is interrupted. The breakdown of links in the analytic relationship (body-mind, analyst-patient, feeling-thinking) appears then through a bodily “representation” (somatic transference and countertransference: nausea, cold, hunger, dizziness, more serious somatizations, etc.).
KEYWORDS: somatic countertransference, symbolic representation, analytic field.