Em Psicanálise, a expressão «aqui e agora» adquiriu uma importância singular, que combina uma dimensão conceptual com aspectos de maior relevo na história evolutiva da teoria da técnica psicanalítica.
O destaque dado ao «aqui e agora» ganhou um particular interesse quando Betty Joseph (1985) revelou a sua forma de lidar com o passado inconsciente recordado pelos seus pacientes. Ainda em 2011, a revista International Journal of Psychoanalyis (IJP) publicou um conjunto de artigos de autores da actualidade (Joseph Aguayo, Rachel Blass, Fred Busch), em que oportunamente discutem as particularidades do contributo de Betty Joseph para o «aqui e agora». E em 2013, a própria Betty Joseph publicou uma das suas últimas comunicações realizadas, anos antes, na British Society.
Parece-me importante recordar que Betty Joseph iniciou a sua análise pessoal com Michael Balint, em 1940, em Manchester. Ao que parece, desconhecia na altura por completo as «controvérsias» que ocupavam então a British Society, e que se mantinham quando iniciou a sua formação, em 1945. Mais tarde, teve supervisão com a Melanie Klein, a Hanna Segal e a Paula Heimann, com quem realizou um segundo processo analítico.
É legítimo afirmar que a sua formação se fundamentou na técnica kleiniana tradicional, que favorecia o elucidar da história primitiva do paciente, aproveitando as interpretações da transferência de objectos parciais, para assim ligar aspectos do inconsciente do paciente e sua natureza conflitual com o material da sessão corrente.
Tecnicamente, os jargões psicanalíticos hoje associados a Klein ou à denominada «escola kleiniana» (seio frustrante, mau objecto, o corpo da mãe, etc.) eram abundantemente utilizados numa elaboração interpretativa muito presente, em que a atenção do analista atendida particularmente à presença das ansiedades primitivas e aos receios da desintegração psicótica. Joseph Aguayo (2011) recorda-nos de como Klein pensava em que a história precoce do paciente se apresentava indirectamente na sessão num duplo sentido, via processo transferencial: o passado recordado que o paciente trazia essencialmente de forma consciente, isto é, os seus pais, irmãos ou trauma mediados por fantasias inconscientes; e o passado inconsciente, o padrão típico das fantasias infantis, emoções, relações de objecto — como, por exemplo, a relação primária entre a mãe e a criança.
Melanie Klein mantinha sempre algumas circunstâncias infantis em mente quando observava e interpretava o amor e o ódio ao seio, o instinto epistemofílico dirigido ao corpo da mãe e ao pai como objecto interno do corpo da mãe, os movimentos reparadores pelos ataques à mãe, a cena primitiva, o complexo de Édipo, os fragmentos clivados da posição esquizo-paranóide, entre muitos outros significativos e brilhantes contributos que determinaram alterações incontornáveis na teoria da técnica.
Na relação analítica, quando ocorriam movimentos transferenciais de situações passadas, Melanie Klein interpretava essencialmente dirigindo-se às vivências precoces, realizando claras ligações entre o que ocorria no presente do contexto analítico e o passado precoce do paciente.
No final da década de 1950, e de forma mais evidente no decorrer da década de 1960, Bion foi-se diferenciando da técnica kleiniana no uso do aqui e agora, ocupando-se preferencialmente da experiência presente do paciente. O seu trabalho
Psicanalista. Membro titular, com funções didácticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
«Notes on memory and desire» (1967)(tornou-se num clássico onde propõe que, em cada sessão, o analista em atenção flutuante não deve trazer nem história nem futuro, ou seja, deve poder abstrair-se da memória, do desejo e da compreensão para que possa observar e apreciar o significado das suas observações, e possibilite a intuição. Na realidade, deverá ser capaz de suportar um estado apto a conter sentimentos de desorganização, de confusão mental e até persecutórios.
Penso que Betty Joseph soube integrar alguns dos contributos de Bion, reflectindo-os particularmente na teorização da técnica psicanalítica. Foi sempre ouvindo atentamente as recordações das experiências e conflitos inconscientes precoces do paciente, mas deixou de as formular ativamente nas interpretações transferenciais. A sua experiência com pacientes narcísicos e do espectro da perversão obrigaram-na a estes novos desafios da técnica. Alcançar o paciente e estruturar a comunicação com este durante a sessão assumiu um relevo particular. E perceber como o paciente escuta as palavras do analista ou como reage à sua interpretação ganha um novo significado.
Penso que é o movimento de identificação introjectiva que fica desta forma enfatizado na escuta analítica, independentemente do lugar para a compreensão projectiva. Nesta perspectiva, confrontamo-nos com uma nova maneira de compreender a clivagem do ego do paciente, em que uma parte interage com o analista, enquanto uma outra parte observa silenciosamente — o paciente aparenta ser cooperante, mas na realidade mantém de forma clivada a parte dependente, ausente do tratamento. E, assim, a aliança analítica pode também camuflar silenciosamente ataques destrutivos à compreensão psicanalítica.
O trabalho interpretativo no «aqui e agora» tornou-se então em mais exigente e complexo, como bem assinalou Antonio Pérez-Sánchez (2017). Através da análise da contratransferência, o analista compreende internamente o funcionamento mental do paciente, mas, num segundo tempo, pode igualmente servir para o analista ajudar o paciente a sentir-se escutado e compreendido.
O uso do ato interpretativo tem-se constituído como uma das ferramentas mestras, que tem de facto evoluído nos tempos recentes, em que o objectivo último não é mais o de produzir um insight direto, mas, sim, o de facilitar o funcionamento psíquico no paciente, que o auxilie no seu alcance do insight, criando associações que tornem possível ultrapassar a resistência e flexibilizar o contacto estimulante e criativo com o seu mundo inconsciente.
Hoje, o psicanalista tem um lugar mais exigente. Sem nunca desvalorizar as «ferramentas externas» do setting e as regras básicas da psicanálise, assinalamos a emergência da «ferramenta interna» (Ungar, V., 2016; Aragão Oliveira, R., 2016) para o exercício da função psicanalítica, que se estrutura na relação do analista com o seu próprio mundo inconsciente.
Inicialmente, Freud percebeu como o «aqui e agora» possibilitava o revelar de aspectos inconscientes revividos através da recriação transferencial. Klein, mediante o conhecimento psicanalítico adquirido ao longo de décadas muito produtivas, reclamou a importância de analisar o passado com outra profundidade acerca de aspectos pré-edipianos. Posteriormente, deu lugar a contributos notáveis de muitos outros psicanalistas, onde o reconhecimento do analista como «objecto novo» e não apenas expressivo do movimento projectivo surge numa duplicidade própria do mundo mental: o tempo analítico possibilita a revivência transferencial e simultaneamente a presença da alteridade do analista.
Tecnicamente, introduz algo diferenciado: o ritmo, o tempo, o espaço e intensidade que estas diferentes componentes podem ter no evoluir do processo analítico e na presença do analista, que pode fazer-se surgir como revivência actualizada ou como novo evolutivo e diferente. Coloca o analista numa tarefa técnica ainda mais exigente: o envolvimento e a capacidade de escuta — mas igualmente a escuta do par analítico que organiza o lugar, tempo e ritmo onde a transferência como «presente actual» e a «transferência total» se devem conjugar de forma harmoniosa, embora obrigatoriamente disruptiva.
Penso que a ênfase num e noutro aspecto da vivência transferencial depende do estado evolutivo do processo analítico, introduzindo só por si uma dimensão temporal inevitável.
O exercício da função analítica tem implicações em diferentes níveis do envolvimento emocional de ambos os intervenientes do diálogo analítico, paciente e analista, o que significa intimidade, proximidade, espontaneidade, intensidade emocional e autenticidade.
A forma como o terapeuta consegue escutar e observar o paciente, como se apercebe que o paciente recebe a interpretação e como vivencia o instante relacional são elementos essenciais que regulam o grau de interactividade e imersão das intervenções, num jogo permanente entre o estar imerso na atenção flutuante e o regresso à superfície em contacto com outros níveis da realidade.
António Pérez-Sánchez (2017) assinalou de forma clara como considera que a relação entre o «aqui e agora» e a transferência nem sempre se produz numa única direcção. Pode ocorrer no aqui e agora → transferência → passado, mas, igualmente, passado →transferência → aqui e agora.
É a vivência que o paciente espontânea e inconscientemente traz para o aqui-e-agora que marca o ritmo e oportunidade do acto interpretativo na sessão analítica, e que lhe confere este envolvimento da dimensão temporal.
Com isso, somos obrigados a salientar também o Futuro no processo analítico e de como este passou a ser considerado na vivência transferencial no «aqui e agora». Betty Joseph, no seu texto publicado em 2013 — ano do seu falecimento —, «Here and now: my perspective», diz-nos como acha da maior importância manter esta ligação temporal com o futuro algures colocado «in the back of my mind» (2013, p. 3), porque tal está inevitavelmente presente no futuro próximo (do pós-sessão), mas, também, num futuro mais longínquo (quando a análise terminar) — ou está igualmente presente, como nos esclarece António Pérez-Sánchez (2017), quando procuramos considerar as repercussões para o paciente de uma experiência de separação analítica.
O psicanalista trabalha num espaço de caesura entre permanentes alterações de vértices que, partindo do aqui e agora, mobilizam aspetos do passado sem excluir o futuro, o «aqui e depois», como António Pérez-Sanchés o denomina (2017), abrindo o campo à transformação não somente do sintoma mas também da expansão da mente — transformar o modo de ver e de se ver.
Freud percebeu a importância da transferência como a repetição de aspectos da história precoce do paciente, vividos na relação com o analista. Melanie Klein aprofundou ainda mais a natureza deste processo e as suas potencialidades na clínica, realçando como aspectos do relacionamento muito precoce da criança com os seus pais são inconscientemente internalizados, constituindo o seu mundo interno, e ainda como os aspectos desses objetos internos são projectados via transferência para a relação com o analista.
Talvez o grande contributo de Betty Joseph acerca do «aqui e agora» tenha sido o ter assinalado que, através da observação das mudanças entre diferentes momentos da sessão, podemos começar a elaborar uma ideia de como o passado foi sendo construído pelo paciente.
Mas é a observação da realidade psíquica através do modelo da visão binocular (Bion), conjugando o ponto de vista consciente e o inconsciente e aplicada à dimensão temporal, que confere uma dinâmica enriquecedora à experiência analítica, obrigando-nos a pensar na elevada exigência do desempenho das funções analíticas e, necessariamente, na formação futura do analista (ou em melhorar as nossas ferramentas!).