Utilizaremos a metáfora da Rosa de Jericó4 para entrelaçar duas questões que a menina a quem chamaremos Rosa nos apresentou, com invulgar capacidade expressiva e transformativa. De um lado, a capacidade de sobrevivência psíquica (resiliência? competências inatas?) perante um ambiente traumático de violência, abandono, negligência, ruturas e descontinuidades. De outro, a hipótese de que as inúmeras instituições que acolheram este fio de descontinuidade funcionaram como uma pele psíquica (Bick, 1968/1991), um envelope institucional (Houzel, 2010), e como «anjos no quarto do bebé» (Lieberman et al., 2005), que permitiram que Rosa se nutrisse o suficiente para chegar, sem se fraturar psiquicamente, ao acompanhamento psicoterapêutico, também em instituição. Finalmente, foi este que lhe permitiu reintegrar-se progressivamente: voltar ao deserto, atravessá-lo acompanhada, preparar-se para a busca de um terreno-família, onde pudesse finalmente desenvolver-se. Tentaremos ilustrar essa concatenação entre a construção da subjetividade, o papel das instituições de suporte e o trabalho psicoterapêutico em instituição.
Rosa é referenciada pelos serviços sociais a uma unidade pública de saúde mental infantil. No primeiro contacto com a mãe, Rosa, com oito anos, é descrita como «uma criança triste, sempre a fazer birras, que não quer ir à escola […] rouba, outras vezes pede dinheiro e quando lhe digo que não tenho, diz-me que tenho de ir trabalhar mais […]». Conta ainda, num aparente estado depressivo, que nunca teve noção do que é ter uma casa própria, que «o pai não conhece a filha, pois foi preso antes de Rosa nascer e só saiu quando ela tinha cinco anos […] esteve com ela recentemente […] acha que resolve tudo com violência». Acrescenta que a filha apresenta baixa autoestima e acha que estão sempre a desvalorizá-la.
Rosa, como a de Jericó, deambulou de forma errática, ao sabor de vários ventos, com um percurso de vida descontínuo, fruto de uma gravidez adolescente, não tendo sido desejada pelos pais. Ao procurar encontrar o fio cronológico dos fragmentos do relato da mãe, damo-nos conta das contínuas descontinuidades vividas por Rosa em múltiplas instituições: a gravidez adolescente, não planeada, foi vivida em contexto de instituição (1a); após o nascimento, mãe e filha são acolhidas em nova instituição (2a); a imaturidade emocional que toma expressão na vida passional, caótica e disruptiva desta jovem mãe torna inviável o trabalho na instituição, e aos 12 meses de Rosa são reencaminhadas para novo acolhimento, agora para mães vítimas de violência doméstica (3a); aos 18 meses, Rosa vai viver com a mãe para uma casa arrendada e passa a ter uma ama, que a negligencia e maltrata (4a); aos três anos de Rosa, a mãe sofre depressão profunda e entrega a filha
Seguindo a exigência da preservação do anonimato dos pacientes e da confidencialidade, o material clínico é apresentado com alteração da identidade do paciente e dos dados clínicos.
Psicólogo Clínico, Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Psicoterapeuta em Unidade de Saúde Mental, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e em Clínica Privada. E-mail:
Psicanalista Associada da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Psicanalista da Criança e do Adolescente (COCAP-IPA). Formadora do Instituto de Psicanálise da SPP e Membro da Association Internationale Pour le Développment de l'Observation du Bébé Selon Bick. E-mail:
Anastatica hierochuntica L. é um género botânico pertencente à família Brassicaceae, que inclui uma única espécie, a rosa-de-jericó, e não deve ser confundida com a Selaginella lepidophylla (por vezes referida como «rosa de Jericó» ou «falsa rosa de Jericó»). É uma planta que vive em anidrobiose, ou seja, vive (quase) sem água e aguarda condições favoráveis de humidade (abre os ramos, volta a ser verde, e rapidamente brota). Com a sua grande resistência à dessecação, tem a propriedade de se contrair e ser arrastada pelo vento, permanecendo seca por muitos anos, protegendo as sementes, evitando assim que se dispersem prematuramente, pois podem permanecer latentes por anos. Numa estação chuvosa, a planta desenrola-se e acorda do seu estado de dormência, o que faz com que os frutos capsulares se abram para dispersar as sementes, que, se a água for suficiente, germinam em poucas horas.
a uma nova instituição (5a); contudo, Rosa fazia birras porque queria estar com a mãe, e, com avaliação técnica posterior, acabou por voltar a viver com a progenitora (6a); aos quatro anos, Rosa é novamente institucionalizada (7a), por negligência física e emocional, encontrando-se a mãe exausta e com acentuados traços depressivos. Inicia-se novo trabalho de reintegração familiar e aos seis anos Rosa regressa à mãe (8a), mas dificuldades emocionais levam-na a negligenciar de novo a filha e a entregá-la, aos sete anos, ao pai, com o qual Rosa não tem qualquer relação (9a); o pai acaba por entregar a filha na Polícia. Informa que nem ele nem a mãe têm quaisquer condições para cuidar de Rosa. A mãe, em desespero, pede que adotem a filha; e Rosa aguarda, aos cuidados desta, nova institucionalização (10a); quando inicia o acompanhamento psicoterapêutico é então integrada numa nova instituição (11a).
Donald Meltzer, em 1976, escreveu com Martha Harris, e a pedido da OCDE5, um trabalho considerado por ele como o mais útil de sempre: um modelo psicanalítico multidimensional da criança-na-família-e-na-comunidade (Meltzer & Harris, 1976), onde o fenómeno central é o da dor mental: persecutória, confusional ou depressiva. Discute os vários tipos de família — a conjugal, a «casa de bonecas»; a matriarcal; a patriarcal; a da pandilha adolescente; a revertida e a de suposto básico — num modelo dinâmico e complexo de interações, que surgem seja como um estado momentâneo, seja como uma tendência geral. Aborda os modos de aprendizagem de cada uma e estabelece o papel e as quatro funções primordiais da família, contrapondo o desejável e positivo ao disfuncional e negativo, nestes termos: gerar amor ou promulgar o ódio; promover a esperança ou semear o desespero; conter a dor depressiva ou emanar ansiedade persecutória; criar confusão ou estimular o pensamento. Sabemos que nas famílias disfuncionais e abandónicas os próprios pais foram vítimas de negligência e maus-tratos, e, consequentemente, enredados na inevitável inter e transgeracionalidade (Fraiberg et al., 1991). Ambos amputados para cumprir as desejáveis funções da família propiciadoras de um desenvolvimento biopsicossocial integrado e suficientemente bom.
Sabemos que a família, a tríade mãe-pai-filho, é um sistema bastante complexo em termos sociais, mas ainda mais intrincado se a pensarmos em termos psicológicos. Neste último campo, mais do que pais e filhos, terminologia que parece servir ao biológico e ao social, deveríamos falar de parentalidade como um processo permanente e dinâmico de inter e intrarrelações, cuja rede é uma filigrana inconsciente altamente entrelaçada. Aqui, o nascimento biológico do bebé numa tríade pode não coincidir (bebés há que, por terem sido fantasiados e desejados, nascem psiquicamente a par com o biológico) com o seu nascimento psíquico, que ocorrerá, se tudo correr bem, através de um processo de triangulação. A vida psíquica pré-existe ao recém-nascido, na dinâmica interna de cada um dos pais (com os seus próprios pais), na dinâmica do casal, na dinâmica da família que se constituiu e na dinâmica do grupo social e cultural. Todos estes vértices formam o cenário de fundo, a matriz onde o bebé se vai nutrir, mas de onde ele tem de se separar, construindo gradualmente o seu aparelho psíquico diferenciado e a sua subjetividade.
Acontece que esse processo de separação, de individuação, de integração, de desenvolvimento e construção de um self próprio, não é natural, mas, como disse , passa simultaneamente por construir o aparelho para pensar os pensamentos e aprender a pensar. As vicissitudes desse processo são o cenário da clínica, e, portanto, esta ocupa-se sempre, direta ou indiretamente, da família, ou seja, da forma como cada um de nós organizou internamente esse cenário familiar.
Que determinará afinal se o passado conflitual e traumático dos pais de Rosa se repetirá? Que impedirá que os fantasmas se apoderem do seu quarto (Fraiberg, 1991)? Que leva algumas crianças a fazer uma perigosa e patológica identificação ao agressor (Freud, A., 1936), ou seja, uma identificação com os inimigos do ego em formação? Que permite que uma criança abusada, tiranizada e negligenciada consiga sobreviver e não repetir? O mistério por resolver, segundo Fraiberg (1991, p. 419), é porque «sob condições extremas na infância, algumas crianças […] não fazem uma aliança fatídica com o agressor, que defende o ego da criança contra o perigo intolerável e oblitera a experiência consciente da ansiedade, mantendo-se em contacto com a dor e a experiência da angústia». O afeto mantém-se associado à experiência, mas não total e sintonicamente integrado.
E é essa experiência de integração da emocionalidade, da transformação de beta em alfa (Bion, 1962/ 1991) e da pensabilidade que será revivida com o terapeuta, através de uma nova relação. Os terríveis afetos de ter sido negligenciada, acima de tudo pela depressão materna e sua incapacidade de cuidar, não deixam de ser sentidos internamente como abuso e mau trato, desamparo, vergonha, terror, angústia e ódio. A psicoterapia permitirá a digestão destes afetos desintegrados, a transformação da identificação ao agressor e dos fantasmas transgeracionais não elaborados pelos pais, que se viriam a perpetuar por ela no futuro, numa transmissão intergeracional (Faimberg, 2005).
Rosa, com oito anos e dois meses, chega à consulta acompanhada por uma cuidadora da instituição onde se encontra há menos de um mês. O terapeuta
Organização Cultural e Económica para o Desenvolvimento, que congrega 24 países da ONU, com sede em Paris.
recebe-a: franzina, num vestido cor de rosa e casaco de malha branco, óculos de massa violeta, olhar perscrutador, traz uma bandolete da Minnie, com a qual procura domar dois totós simétricos. Traz consigo um desenho feito propositadamente de véspera para entregar neste primeiro encontro.
Estes sinais exteriores espelham com detalhe o mundo interno de Rosa. A sua expressividade foi uma constante ao longo da psicoterapia. Apresenta-se com um olhar investigador, indagador (instinto epistemofílico — Klein, 1923), como menina-Minnie, identidade de género clarificada (confirmada posteriormente pelas escolhas de identificação — Ariel, Lilybud, menina colégio) e cheia de cores-afetos (a cor chocolate da pele, contrastando com o violeta, o rosa e o branco). O mais importante é que, apesar das seis instituições, 11 descontinuidades e da manifesta incapacidade parental, Rosa revela, desde logo, a sua imensa avidez e o desejo de investir e de ser investida por alguém que a «acolha»: a tal «adoção» ainda por se cumprir. Diferentemente do conceito de hospitalismo de Spitz (1945), Rosa mantém a sua sede de encontro com o objecto (preconceção) e já deu início ao processo transferencial, trazendo um desenho para o terapeuta (realização).
No gabinete, olha à volta, senta-se na cadeira à mesa e entrega o desenho. Convidada a falar, diz:
«É um cemitério. Esta é a campa de alguém que morreu no dia 13 [de um mês que não sabe precisar].»
Neste ambiente «suficientemente mau» e fantasmagórico (transgeracionalidade), numa sombria sexta-feira 13, nasceu uma pequena flor verde numa campa cinzenta e mortífera. Conceção da origem? Do não-amor dos pais? Como diz Melícias (2019a): «a lua ligada ancestralmente ao feminino espelha o vazio da maternidade, tangenciando a cruz como símbolo de uma paternidade sentida como “morta”». Não há penetração (continente-conteúdo), há apenas o toca-e-foge de uma relação sem profundidade. Em torno da campa, é visível uma erva rala; e, lateralmente, como balizas-continentes-parentais, duas árvores invernais, desoladas, despidas, desvitalizadas. As árvores que lhe calharam em sorte não se bastaram, nem sequer a si próprias.
Falará Rosa da sua parte desvitalizada? Ou também do seu potencial inato, mantendo-se viva num pequeno e inóspito torrão de terra? De um lado, reenvia para o túmulo-ambiente-depressão-materna, incapaz de a ela se ligar e de a «adotar» plenamente, tornando-a sua filha. De outro, realça a esperança, verde de cor, a germinar do pedacinho de terra que sobrou nesta campa. E parece resistir, como se dissesse: «Quero conhecer e escrever uma outra história, pode ser?» Como se, em vez do sombrio dia 13, manifestamente narrado, uma parte dela/nossa, no contrajogo inconsciente, visse, do outro lado do «número 3 espelhado», Eu 1 ESTOU… viva.
Depois de informar ao que vem, passa a explorar a sala. Os olhos procuram incessantemente, detêm-se, parecem querer absorver, memorizar o espaço e as coisas, não param por detrás dos seus óculos violeta, que, a propósito, informa ser a sua cor preferida. Pousam sobre uma casa de madeira. Encontra na caixa de bonecos personagens para início de trama: o Lobo Mau, a Capuchinho Vermelho e a Avozinha. Rapidamente, começa por narrar a história da Capuchinho Vermelho. Faz de narradora e de intérprete de algumas personagens, instiga o terapeuta a interpretar com ela. Vestindo a pele de encenadora e diretora de atores, solicita falas, diferentes entoações, com indicações precisas. A seu cargo, fica o papel da Capuchinho Vermelho, cabendo ao terapeuta o desdobramento de personagens entre a Avozinha e o Lobo Mau, cuja voz forte, encenada, é por si aceite e aclamada.
Início de diferenciações e discriminações… Rosa coloca em cena a avidez do objeto e rapidamente se instala numa relação a dois, há tanto desejada, através de uma narrativa a três personagens. Dá-se finalmente o tão aguardado encontro com o objeto-terapeuta e a esperança de com ele vir a partilhar, encenar, sonhar e narrar, através de uma história infantil, a sua própria história.
Fica agradada com o resultado final da encenação. Confidencia então que «a Capuchinho, à noite, enquanto dorme, é visitada por fantasmas que lhe querem fazer mal». Acrescenta que tudo não passa de «sonhos maus» e que a Capuchinho fica melhor depois de contar o sonho mau à mãe.
Esperança do encontro com o seio-bom-terapeuta, um continente-mente-recetiva que processe esses elementos beta, alfabetizando-os (Bion, 1991).
De volta à casa de madeira, Rosa começa já a inventar a sua própria história: «Espera, afinal o fantasma é a mãe da Capuchinho Vermelho!!!» Rosa escolhe uma boneca de madeira para fazer de mãe, coloca-a na cozinha a preparar o pequeno almoço numa panela, onde cozinha milho azul. Essa mistela não é do agrado da Capuchinho. A comida não é então partilhada nem com a Capuchinho, nem sequer
Page 76com as marionetas, que afinal também não são nada amigas. «A mãe quer levar a Capuchinho para uma casa de marionetas assustadoras.»
Da história da Capuchinho para a história da Rosa: afinal, a mãe é o fantasma que lhe quer fazer mal e a assusta. Terrível descoberta… a emergência do mundo fantasmático de Rosa indicia a inexistência de um bom objeto materno internalizado. Inicialmente, a mãe aparenta ser um bom recetáculo, acolhedor de ansiedades e angústias inscritas nos sonhos da Capuchinho Vermelho, porém, rapidamente se torna ameaçadora e indigna de confiança (insuficiente interiorização do bom objeto). Qual será então a qualidade do alimento do terapeuta? Poderá confiar e sentir-se nutrida? Será alguém que a levará para a sua casa mental, cheia de personagens-marionetas-assustadoras? Ou será mais uma personagem-marioneta, dos muitos técnicos que lhe foram apresentados ao longo das muitas instituições onde viveu?
No final da sessão, aparece novamente a esperança, equivalente à flor verde do desenho inaugural.
Rosa desenha, agora na presença do terapeuta, a sereia Ariel: «Quando crescer, quero ser uma sereia, como a Ariel… a Úrsula (bruxa) vai ter de se ver comigo.»
Aberastury (1982) mostra-nos que, na primeira sessão, a criança expressa tanto a sua dor, a dor do que a adoeceu, como a fantasia da cura. Nesta primeira sessão, parece-nos que Rosa expressa inequivocamente que o seu sofrimento advém da relação originária e precoce, que a desprotegeu no cemitério antirrelacional, assustador e frio, impossibilitando a constituição de um continente-ninho para o seu desenvolvimento. Entrou em modo de sobrevivência — Rosa de Jericó —, na esperança de solo mais fértil, onde pudesse enraizar-se numa relação terapêutica-hidratante que pudesse conter e alfa-betizar (Bion, 1991) todas estas difíceis emoções. Poderia então dar azo à rememoração, à encenação das angústias mais primitivas (orais), mas também reconhecer e apossar-se das suas boas qualidades (voz-Ariel). E imagina ser essa uma luta com a bruxa-Úrsula-seio-mau-internalizado. Só então poderá brotar em terra firme, na construção da ambivalência do objecto total — bom e mau, fada e bruxa, real e fantasiado.
Nos primeiros três meses, com uma espécie de preocupação psicoterapêutica-materna/paterna primária, procurou-se recriar uma área de ilusão (Winnicott, 1965/1990), acolhendo os principais movimentos e estabelecendo os ritmos da dupla. Na elaboração conjunta deste texto, ecoou, em rêverie, uma melodia: o «Samba da Rosa»6.
Rosa estabelece boa relação com o terapeuta e ambos sentem prazer no encontro da sessão. Apresenta um potencial criativo de acesso ao seu mundo interno através da produção massiva de desenhos livres e criação de histórias. Faz questão que fiquem escritas pelo terapeuta. Estas narrativas-figuradas (Melícias, 2019b) parecem deixá-la num misto de surpresa e regozijo perante o processo alquímico de transformação das palavras orais-ditadas ao texto-frases-símbolo. Rosa ainda não domina as artes da escrita e leitura, mas está em vias de se apropriar deste poderoso instrumento de narratividade. O ritmo vai emergindo, as histórias contadas passam a cantadas, com diferentes interjeições, modulações; a música de diferentes origens chega às sessões (músicas infantis, lengalengas, rimas, essencialmente o ritmo impresso pelas palavras cantadas).
Na continuidade do desenho-diagnóstico-inaugural, os primeiros tempos de psicoterapia dão conta de uma avidez ilimitada em investir e incorporar um qualquer bom objeto, que, esperançosa, imagina obter nesta nova relação, qual Rosa de Jericó em busca de um resquício de humidade. A dessincronia entre o tempo real da sessão e o tempo necessário à re-hidratação emocional e consequente fixação são de difícil manejo e de uma décalage abissal. A necessidade de Rosa de se fixar leva-a a alapar-se à ombreira da porta de saída do gabinete. Procura negociar uma saída limpa, num claro propósito de incorporar um bom objeto: «eu vou-me embora se me deixares levar aquela bola […] aquela varinha mágica […] aquelas asas de borboleta». Enfim, saio da sessão se levar um pouco de terra boa e da qual preciso nutrir-me, não estando ainda certa deste habitat, duvidando ainda da constância do objeto (Mahler, 1979/1982).
Diz Bick (1968/1991) que até que as funções-continentes (do self e do objeto) tenham sido introjetadas, não pode surgir o conceito de um espaço dentro e outro fora do self. Na ausência de introjeção, mantém-se a identificação projetiva e todas as confusões de identidade consequentes. E continua dando conta do seminal conceito da função da pele como unificadora psíquica: «a necessidade no estado não integrado infantil de um objeto continente parece gerar uma busca
Samba da Rosa», de Maria Bethania, Vinicius e Toquinho. https://www.youtube.com/watch?v=w2-z5G39mY8 Rosa pra se ver/Pra se admirar/Rosa pra crescer/Rosa pra brotar/Rosa pra viver/Rosa pra se amar/Rosa pra colher/E despetalar/Rosa pra dormir/Rosa pra acordar/Rosa pra sorrir/Rosa pra chorar/Rosa pra partir/Rosa pra ficar/E se ter mais uma rosa mulher/É primavera/É a rosa em botão/Ai, quem me dera/Uma rosa no coração.
frenética por um objeto, uma luz, uma voz, um cheiro ou outro objecto sensorial […] que mantém unidas as partes da personalidade. O objeto continente é sentido concretamente como uma pele unificadora» (Bick, 1968/1991, p. 195).
A ocupação do gabinete habitual na hora da sessão de Rosa revelou a sua ainda extrema dependência da estabilidade do espaço exterior, com função de pele, de forma que se mantivesse minimamente estável e coeso o seu periclitante mundo interno. O setting e a firmeza da técnica, mesmo em contexto institucional, são garante e fornecem a contenção ainda não suficientemente introjetada. Especial atenção a esta continuidade deverá ser preservada com Rosa, que vagueou por tantos espaços diferentes…
À medida que aterra nas sessões, começa a internalizar o setting, apercebendo-se da sua previsibilidade rítmica: cadência regular das sessões, o mesmo espaço físico de consulta, os brinquedos reconhecidos e eleitos para traduzir as suas emoções. Vai confiando e revelando os sentimentos de autoexclusão em relação aos meninos da escola, com os quais não sabe brincar, aos meninos da instituição onde vive, com os quais tem de conviver, e aos meninos atendidos ali, com quem «partilha» o gabinete e o terapeuta.
A partir do terceiro mês, as sessões passam a bissemanais. Vai surgindo, em desenho, um «muro em construção», dando conta da criação/introjeção de alguma contenção, diferenciação. Mas, paralelamente ao decurso da terapia, a casa onde está institucionalizada informa que foram iniciadas visitas da mãe. A inconstância e imprevisibilidade das visitas maternas reativa angústias precoces e persecutórias. A emergência dos fantasmas internos de abandono, geradores de desconfiança no objeto, tomam conta do campo na sessão.
Rosa ressente-se, e o muro em construção, delimitando os espaços interno e externo, eu e outro, grandes e pequenos, tantas vezes indiscriminados, é atacado com rabiscos frenéticos de raiva e deceção, não sendo sequer contidos pelos limites da folha, para poder então confidenciar: «a mãe faltou».
Sim, a mãe faltou sempre e continua a faltar; e Rosa volta novamente a sentir-se exposta a este traumático incessante, que não lhe permite construir a confiança nos adultos.
Testando a capacidade contentora do terapeuta, o comportamento de Rosa em sessão altera-se (assim como na escola) com episódios de violência extrema: atira objetos à cabeça do terapeuta, cospe, procura agredir ao murro e pontapé. Contudo, as saídas de sessão ocorrem com gritos estridentes: quer manter-se dentro a todo o custo. Nestes momentos, vivenciados de forma extrema e primária nos movimentos contratransferenciais, procuramos nomear emoções e eventualmente destinatários: «deve ser muito difícil o que está a acontecer, pareces estar muito zangada, muito irritada; quando não percebemos bem o que se passa, atiras as coisas ao ar, porque estás muito magoada […]». Após sessão particularmente agitada, violenta, com pontapés e murros em barda, reafirmo a intenção de a aguardar na semana seguinte, à nossa hora. Sugiro-lhe a possibilidade de nos vermos mais, ao que acede prontamente.
Compreender a dor psíquica, e contê-la, permite progressivamente desintoxicar o psiquismo da violência taliónica do olho por olho, dente por dente, sendo possível criar um espaço de esperança na transformação e na reparação. Na casa e na escola, os diferentes técnicos manifestam-se atentos e preocupados com a instabilidade de Rosa, mas sem saberem bem como apaziguar, conter, transformar. Por vezes, também o terapeuta duvida da sua capacidade de tomar tal disrupção, em identificação projetiva, como comunicação, e de conseguir devolver-lha digerida, pela rêverie, tão aguardada por Rosa, que permaneceu tanto tempo no deserto relacional, aos trambolhões, ao sabor do vento.
Nesta fase da terapia, a forma preferencial de relação é pelo confronto, emocional e físico. Rosa procura mostrar como se encontra o seu mundo interno, deixando o gabinete em estado de sítio: tudo voa, tudo é atirado ao ar, para o chão; quer bater, morder, partir, destruir objetos, e a toada discursiva enche-se de imprecações e vitupérios. Eclodem igualmente elementos de comunicação mais regressivos: choro convulso, gritos estridentes, urros grotescos, simulação de vómito, episódios de flatulência.
Em working through, o terapeuta vai «escutando»: «Vamos ver de que matéria és feito. Eu estou aflita, não estou a conseguir gerir tanta emoção disfórica. E tu? Aguentas o meu mau cheiro? Ou vais-te embora também? Aguentas a sensorialidade pré-verbal para que eu a reorganize contigo, junto de ti?»
Ao tomar contacto com o lado mais primário, cru e corpóreo de Rosa ou justamente para tomar contacto com a intensidade emocional e a concretude do mundo pré-verbal, essa possibilidade de elaboração vai sendo salpicada por alterações fisiológicas (coração bate descompassadamente)
através da contratransferência somática. É ainda aqui que Rosa nos procura situar: «o ego é antes de tudo um ego corporal» (Freud, , p. 270).
Vislumbramos oscilações de movimentos persecutórios para uma economia depressiva, a bem da preservação e reparação do objeto materno danificado em fantasia, como nos trouxe Klein. Idealizado, ainda assim, interroga-se sobre o seu próprio estado emocional: «a minha cabeça está estragada». Sabemos que em jeito de balancete, em termos de economia depressiva, dói menos: custa menos a Rosa imaginar-se estragada ao invés de saber-se abandonada pelos objetos que falham, não suprimindo medos/angústias, pobres em afeto e que não fazem crescer (Ferreira, 2002). Por outro lado, Rosa procura atestar a qualidade do vínculo estabelecido com o terapeuta. Na relação transferencial, o aparecimento massivo de fantasias e angústias massificadas dão-nos a oportunidade de as vivenciar no campo e dar significado.
No final de uma das primeiras sessões, após aumentarmos a cadência semanal, Rosa, num momento de descontrolo emocional, acerca-se da varanda do andar alto do gabinete. Ao debater-se com a necessidade de se manter dentro do gabinete, após término da sessão, vocifera que vai sair, mas não pela porta. Todas as trancas das portadas para as varandas do piso não funcionam. O tema contenção parece aflorar e é atuado concretamente. Urros grotescos, de dor e desespero extremo, tomam conta de Rosa, que já não os consegue conter/controlar — e nos dez minutos seguintes, de grande tensão emocional, o terapeuta é obrigado a impor a sua dimensão física por forma a contê-la literalmente. Rosa queria sair pela janela, evacuando a sua dor insuportável? Talvez só agida, pudéssemos «ver» o tamanho da sua dor e o desejo de terminar com o sofrimento que a corroía por dentro. Apaziguada e contida, finalmente, invoca o fim de semana passado como muito difícil, no qual se debateu com a elaboração de um presente para o dia da mãe: «Não sei o que ela quer. Que gosta ela?», como se dissesse: não conheço a minha mãe, não nos pertencemos. Nem ela soube do que precisei, nem eu consigo imaginar como ela é por dentro.
Após a interrupção para férias de verão, a instituição informa que Rosa «caiu» do primeiro andar: foi hospitalizada, com fraturas múltiplas no seu braço e mão direitos. Sabemos também que o pai saiu da prisão e a par com a avó paterna pretendem visitá-la. As visitas da mãe permanecem intermitentes.
De volta das férias, Rosa aparece com o braço engessado e totalmente imobilizado, mas com a possibilidade de usar a mão e, consequentemente, o lápis.
Traduzindo as múltiplas fraturas do seu abandono traumático reativado nas férias, o próprio gesso dá conta da dureza da «pele» necessária para dar coesão ao que foi quebrado. Apesar da sua tentativa de «autocontenção», a sua destrutividade permanece. Impedida de agir fisicamente sobre o terapeuta, pelas limitações atuais, insurge-se pelo verbo contra o abandono nas férias, num registo que podemos designar taliónico: «és feio, és mau, és um macaco, não gosto de ti, és um porco, toma um pum». Magoada, magoa. Ri a propósito de questões escatológicas e o terapeuta sustenta que Rosa «tem um psicólogo à prova de puns». Sem deixar o seu pensamento ficar rigidamente engessado, o terapeuta volta a reverberar no corpo, a contratransferência somática acima descrita. A analidade transborda de Rosa para dentro do terapeuta, e nos três meses seguintes, permanece a toada agressiva-destrutiva, em busca de transformação.
Na primeira sessão de retorno de férias, Rosa desenha dois prédios em ruína, de onde surgem dois «zombies». Rosa, ao centro, grita por socorro.
Mais uma vez de um modo notável, com coordenadas GPS precisas, Rosa explica-nos o registo parental fundador: dois prédios em ruína, com elementos mortos-vivos, mas ela a gritar por socorro. Passou de plantinha verde no cemitério entre árvores-mortas para menina vitalizada que pede ajuda entre dois zombies-ruínas. O trauma das figuras parentais, mãe abandónica e pai ausente, é reativado na interrupção para férias de verão, num claro movimento transferencial.
Um dia, vem especialmente zangada com a cuidadora que a traz à sessão e diz que lhe mentiram. A gritar e chorar, sustenta: «disseram que no inverno neva e não vai nevar em Lisboa. São umas mentirosas». Esclarecemos, à posteriori, que lhe disseram que ia ser adotada: «Como posso ser adotada?! A minha cabeça é burra, não funciona bem, não funciona bem.»
Rosa está aflita, dizem-lhe que poderá chegar a primavera (possibilidade de ser adotada), mas a sua cabeça, cheia de fantasmas, diz-lhe que não funciona, estará congelada, sem capacidade de germinar, ainda que em solo mais húmido e com temperaturas mais amenas. Em termos de economia
depressiva, Rosa só poderá alvitrar, num último reduto de esperança, estar estragada, e apenas por esse motivo ter sido abandonada (Ferreira, 2002). Ao invés, frente aos pais abandónicos internalizados, imaginar-se vitalizada e competente — nem omnipotente, nem impotente — poder-se-ia tornar num equivalente de morte psíquica.
Contidos os momentos disruptivos de grande intensidade emocional, sem retaliações, começam a verificar-se, e a contrastar, momentos de reconexão/ressignificação. Pensamos que passou a ser possível a Rosa mentalizar, pensar nas partes destrutivas, após momentos mais agidos e catárticos, num acesso a uma maior ambivalência (introjeção de partes más e boas, suas e do objeto), promovendo a reparação dos ataques fantasiados.
[…] após a retirada do gesso e com maior liberdade de movimentos, Rosa começa a revelar em sessão interesse por um bebé de alcofa. O modo como negligencia o bebé e o pega pelos pés, com a cabeça a arrastar no chão, remetem-nos para momentos com potencial autobiográfico. Atira-o ao terapeuta, como a uma bola, num jeito displicente. O bebé é acolhido cuidadosamente no regaço. «Como é que fazes agora? Vá, faz lá. Ele tem fome?» O terapeuta dá o biberão, depois coloca pano sobre o ombro para o ajudar a digerir o alimento. Rosa observa de soslaio. Depois da muda de fraldas:
Terapeuta (T): o bebé está muito mais confortado.
Rosa (R): Ele é estúpido, está sempre a chorar — diz, agastada.
T: Ainda assim temos de cuidar muito bem dele, não achas?
R: Mas tu não vês que ele é atrasado?
T: Não, não vejo, é um menino como os outros, só precisa de ser bem cuidado. Ajudas-me?
Em sessões seguintes, Rosa começa a cuidar, por imitação, do bebé, em que pega com cuidado: «tem uma ferida e precisa de Betadine, põe-lhe». Alterna com momentos em que ri, quando vê espelhado no rosto do terapeuta a aflição, motivada pela forma negligente como por vezes trata o bebé — vira-o de pernas para o ar e arrasta a sua cabeça no chão.
R: É só um boneco, estás parvo?
T: Pois é, já imaginaste se fosse a sério?
R: Alguém havia de vir e tirava-o dela, ó totó!!! — conclui.
T: Dela [mãe]… pois é, alguém viria cuidar dele …
A pedido de Rosa, a equipa de cuidadores da casa onde reside providencia um boneco-bebé, onde desenha a caneta uma ferida que necessita de ser por ela tratada.
Neste jogo de reparação, Rosa vai podendo caminhar da imitação para uma introjeção/identificação crescente com um terapeuta-continente-cuidador. Uma vez contidas as partes más-destrutivas, vão surgindo as identificações progressivas com as partes boas-amorosas. A possibilidade de Rosa se sintonizar afetivamente (Stern, 1998) com as necessidades do bebé boneco permite-lhe aceder a aspetos depressivos, não olhados e não cuidados da bebé Rosa.
O dentro e o fora da sessão (o cuidado dos bebés Rosa) adquire aqui uma tónica de continuidade, fundamental à reconexão intra Rosa. Permite-lhe manter-se conectada, não cindida. A necessidade de transformar os aspetos (beta)dine num ambiente com potencialidade-continuidade terapêutica na casa que habita auxilia Rosa na sua reconstrução, reconectando-se ao seu percurso sinuoso, que, na sua essência, é predominantemente institucional. A ferida(beta) tratada com (alfa)dine pôde começar a ser elaborada, pensada e transformada (Bion, 1991). O bebé Rosa hidratado, melhor nutrido, cuidado e em processo regenerativo, vai podendo aceder a uma simbolização e tridimensionalidade retratada nos desenhos e nas histórias por si recriadas e ressonhadas nas sessões.
É uma Lilybud […] só ela tem cor, logo se vê como fica.
A flor verde cresceu e tornou-se numa menina Lilybud.
Retomamos aqui o desenho inaugural (cemitério), espelho do seu mundo interno (Fialho, 2019) à data, e o desenho Lilybud, refletindo, com bastante evidência, o movimento em torno de uma nova ordem dinâmica cocriada.
Passado um ano de psicoterapia, a transformação ocorrida é evidenciada através da análise contrastada dos dois desenhos (Melícias, 2019a):
«Nos dois, observamos lateralmente, como balizas-continentes, duas árvores. No primeiro, as árvores despidas e invernais, com a primavera relacional enchem-se de folhas na copa e nos arbustos na base. Nesta cena primitiva sombria, a lua-feminina, espelhando o vazio da maternidade, roça a cruz-paternidade ausente e sentida como “morta” […] No segundo desenho, essa representação mortífera de um casal parental, torna-se um radiante e vitalizado sol. A relva de picos torna-se ondulante e fofa, chão possível para uma criança caminhar e brincar. O túmulo cinzento e mortífero, remetendo para os arrepiantes filmes de fantasmas em cemitérios, dá origem a uma colorida “Lilybud”, boneca-menina com quem se identifica e pediu para receber neste Natal. A flor verde, a sua constituição inata, mantém-se viva, mesmo num pequeno torrão de terra no túmulo do ambiente-depressão-materna incapaz de a ela se ligar e de a “adotar” plenamente, tornando-a sua filha.»
«Através da relação psicoterapêutica, passam finalmente a existir dois. Duas flores. Duas borboletas esvoaçando em espirais de vida. Rosa encontrou finalmente um psicoterapeuta — sonhado e aguardado mesmo antes de o conhecer, tal como o bebé tem a expectativa de encontrar a mãe ao nascer — disposto a conter a sua violência e agressividade, advinda do seu profundo desamparo precoce. Rosa passou pela metamorfose relacional, foi sofrendo as transformações através da rêverie analítica para romper o casulo e passar de “eu 1 estou”, inscrito como “epitáfio” de morte no túmulo da sua solidão existencial para um “eu sou uma Lilybud”. Uma menina Lily colorida e desejante, com um “buddy-terapeuta” que lhe permite as boas trocas afetivas impossibilitadas desde a sua pré-história, de uma gravidez não desejada. Sem que a estrutura se modifique na sua essência — como claramente vemos nestes dois desenhos — o rearranjo dos diversos elementos cria um novo funcionamento, que será menos bloqueado e mais criativo, menos masoquista e mais prazeroso, menos mortífero e mais vitalizado.» (Melícias, 2019a)
Do sombrio 13 à colorida Lilybud, da abandonada plantinha verde a uma menina vitalizada… A harmonia interna vai sendo arduamente conquistada.
Passado algum tempo, Rosa chega à sessão a trautear o refrão da música «Avião de papel»7: «Fiz-te um avião de papel/Daqueles das cartas de amor/Pra voarmos nele quando o mundo é cruel/E não há espaço que chegue para a dor.» Pede uma folha para fazer um avião de papel, que batiza de Lilybud. A seu pedido, faz também o baptismo de voo: da varanda do andar alto do gabinete, Rosa dá asas a Lilybud, elevando-o numa viagem «eu-já-posso-imaginar-que-faço» (Dias & Monteiro, 1989). Observa, esfuziante, o avião planar, vindo de dentro da sessão-elaboração para o fora-ação numa clara necessidade de expansão e plasticidade. A viagem do avião, algo turbulenta, permite-nos o acesso simbólico aos momentos angustiantes da sua viagem-vida e da possibilidade de os poder reviver, desta feita, acompanhada. No final da sessão, Rosa sussurra, em jeito de confidência, o desejo de ter uma nova família.
Alguns meses depois, Rosa aproxima-se de um registo mais depressivo, no sentido kleiniano, acedendo a sentimentos de tristeza por não ter amigos na escola. Quer ir «Embora pra Pasárgada»8, mudar para uma escola onde use farda, e onde «seja amiga do rei», idealizando espaço e relações.
Desenha uma menina numa farda na escola. Recorta-a e cola-a noutra folha.
Cria assim um espaço potencial, alarga a sua capacidade para imaginar-sonhar um outro cenário. Rosa pode desejar e inscrever-se numa nova folha-escola, onde se possa sentir mais confortável e contida. Como ela se vai sentindo ali, já capaz de ir sonhando-a-dois (Cassorla, 2016) nos tempos e contratempos, nos encontros e desencontros dos movimentos transferencial-contratransferenciais. E como se vai permitindo imaginar um cenário de filiação exterior — árvores-pais com uma menina-filha — e interior, o conhecimento (K) como saída da luta pulsional L x H, como nos diz Bion: «O conhecimento não tem significado a menos que signifique que alguém sabe algo, e isso é uma afirmação de relacionamento, ou de alguma parte de um relacionamento. Proponho-me empregar provisoriamente o termo “conhecimento” para descrever um estado de espírito indissoluvelmente associado a uma relação entre a consciência comunicável, de um lado, e o objeto do qual a pessoa se sente então consciente, de outro.» (1992, p. 271)
Um par de meses mais tarde, volta atrás e afinal já não quer mudar de escola. Os progressos na leitura e escrita tomam forma. Encanta-se com as rimas-ritmos, lengalengas, trava-línguas e palavras novas. Fascina-se pelas histórias e contos infantis, sobretudo
Música de Carolina Deslandes:
Manuel Bandeira , Libertinagem. Global.
as que remetem para personagens ostracizadas. Identificações evolutivas permitem-lhe lidar com a realidade escola e o duro preconceito racial:
«Sabes, os meninos chamam-me preta. Mas eu não sou preta, disse-lhes, sou castanha, não vêem?!! olhem aqui [mostra o braço] e quero ser vossa amiga.» Rosa-Lilybud está a ser escutada e a aprender a escutar-se. Os amigos podem querer coisas diferentes. Os desenhos e pinturas acompanham as narrativas e Rosa acaba por escrever e ilustrar um livro sobre os seus direitos […].
No fim do ano, mercê do seu percurso evolutivo, Rosa é agraciada, a par com outras crianças de diferentes instituições, com um prémio-viagem de verão a um país estrangeiro.
O retorno às sessões, findas as férias de verão, foi tranquilo. Rosa expressa regozijo pelo reencontro com o terapeuta, apontando a internalização progressiva de um bom objeto.
Já com nove anos, foi ouvida em audiência no Tribunal de Menores, e manteve-se firme perante uma juíza cuidadosa. Afirmou o desejo de ter uma família nova, mantendo-se em contacto com a dor e a impossibilidade da sua mãe: «a minha mãe não podia cuidar de mim, não porque não queria, mas porque estava sempre cansada do trabalho». Pede à juíza se pode deixar uma carta para a mãe, onde procura comunicar e justificar a sua posição.
Depois da audiência, adoece e fica uma semana de cama, febril. A sobrecarga emocional perante a expectativa de vir a ter uma nova família, aliada à culpabilidade por, ao assumir o seu desejo, se ver obrigada a rejeitar a mãe biológica, parece deixá-la num conflito interno, entre o êxtase e a devastação. É decretada a adoção de Rosa.
«Como será a minha nova família?» Rosa parece imaginar o novo cenário. As árvores dos desenhos anteriores, despidas ou sem cor, dão lugar a arbustos floridos, robustos, viçosos, numa escala mais humana. A família idealizada, de quatro filhos loiros de pais igualmente loiros, não ocupa todo o espaço. Rosa não consegue ainda imaginar — figurar-narrar — o seu lugar, mas deixa ali o espaço-lugar-potencial, claramente diferenciado: «Não me vês no desenho porque eu estou atrás, a tirar uma foto!»
Os meses passam e Rosa continua na sua caminhada firme no desejo de fixar raízes e estabilizar. Tem agora internalizada a triangulação, numa boa cena primitiva. Além do terapeuta/instituição, com função mais claramente contentora-materna, chama a si um outro interlocutor, versado na lei-paterna: «Quero dizer à juíza que estou farta daquela casa. Quero ter uma família nova.» Na sessão, escreveu uma carta endereçada à juíza onde expressa o seu inconformismo por não ter sido ainda dado provimento ao tão aguardado encontro com uma nova família.
Inicia-se o período de confinamento pela pandemia SARS-2 Covid-19 e as sessões são mantidas bissemanais via Whatsapp. A casa que partilha com onze crianças nem sempre tem disponível o mesmo espaço físico. As sessões online de Rosa vão ocorrendo em diferentes lugares: sala de visitas, o seu quarto ou o sótão. A relação terapêutica consistentemente enraizada permitiu, apesar das dificuldades do enquadramento, a manutenção do processo e espaço terapêutico: os headphones recriam a conexão do espaço físico do gabinete, permitindo o encontro a dois, num enquadramento que agora se tornou interno.
Rosa produz em sessão online um desenho que fotografa e envia: desenha-se junto do terapeuta.
T: Pintaste-te de castanho?!
R: Claro! querias que me pintasse de que cor? Branca?
Foi uma pergunta parva essa que fizeste, não achas?
T: Agora que dizes isso, acho, mesmo muito parva.
Junto ao terapeuta, ela consegue ser «castanha», em verdadeiro self. Pensamos que o impacto estético do desenho fala por si. O terapeuta é contentor/protetor de um caminho que terá de ser Rosa, agora com dez anos, a desbravar, levando-o internalizado para se enraizar na nova família.
O processo terapêutico instaura não somente o conhecer-se a si mesmo, mas, acima de tudo, o tornar-se quem se é.
Ao travarmos contacto com uma criança de oito anos cujo percurso de vida foi marcado por descontinuidades e experiências emocionais precoces com a figura de amor primário, carregadas de (des)sintonização afetiva (Stern, 2006), somos levados a três ordens de conclusões hipotéticas:
Rosa é detentora de boas qualidades inatas e de uma capacidade de resiliência-Rosa-de-Jericó a toda a prova. Apesar da ausência de qualidade de um vínculo — funcionando em anidrobiose, com grau de humidade próximo de zero, amplitudes térmicas elevadas e convites claros à morte psíquica, dissociação, desrealização —, manteve-se minimamente coesa e ligada, à espera de um solo para vingar.
A função de envelope-psíquico-familiar-institucional (Houzel, 2010), das inúmeras instituições, as variadas mãos/colos de cuidadores (centenas de educadores com distintas sensibilidades, que a acompanharam 24 horas diárias em todas as instituições), assim como a terapia psicodinâmica numa Unidade de Saúde foram determinantes para que Rosa não caísse no abismo da psicose sem retorno e mantivesse as suas competências inatas intactas.
A identidade do psicanalista na instituição parece aproximar-se do que Doron (2013) define como fenómenos de interface e Houzel (2010) propõe como a tecelagem do envelope institucional, ou seja, a articulação das dimensões externas e internas, condição para que ocorram os processos terapêuticos: «Para ter função terapêutica, a instituição deve tecer sobre a sua história um envelope, comparável ao envelope familiar e dotado das seguintes propriedades: estanqueidade, permeabilidade, consistência, elasticidade. […]
A capacidade de se deformar sem quebrar sob o efeito de pressões internas ou externas. É dessa elasticidade que depende a capacidade da instituição de acolher e conter o sofrimento psíquico dos pacientes e de seus familiares […]» (Houzel, 2010, p. 149)
A propósito dos elementos que sustentam a primeira conclusão, Rosa (de Jericó) pôde aceder de um modo gradativo às suas notáveis capacidades criativas, sementes protegidas, logo que foi inserida em contexto/solo psicoterapêutico: uma relação de exclusividade (tempo e espaço) e privilegiada (rêverie) para poder ser finalmente hidratada e, assim, brotar emocionalmente. Sonhar-a-dois, figurar- narrar, alfa-betizar os núcleos destrutivos e depressivos desconectados e agidos. Nomeá-los e associá-los às vivências de exclusão e abandono emocional precoce, num espaço potencial-intermediário, cocriando uma nova relação transformativa.
No que toca à segunda conclusão, colocamos a hipótese de que os efeitos da manifesta incapacidade materna foram amplamente mitigados pelo facto de mãe e filha se encontrarem sob protetorado institucional: a gravidez e os primeiros tempos de vida de Rosa até aos 18 meses foram acompanhados, permitindo que a díade se mantivesse contida. A instituição/função paterna como protetora da díade/função materna, e a permanente articulação entre ambas, foi vital para tornar possível a necessária função de triangulação.
Cremos assim que as instituições se constituíram como aquilo que Pérez-Sánchez (1996) designou por estruturas terapêuticas assistenciais continentes, com delimitações claras entre o sujeito e entre este e o exterior. Ao proporcionarem um espaço continente (Bion, 1962/1991), contribuíram para que Rosa pudesse vivenciar elementos essencialmente difusos (beta), que com tempo e lugar maternalizante suficientemente bom (Winnicott, 1953) se puderam ir transformando e ressignificando em elementos um pouco mais integrados, em jeito de alfa-progressivos.
Não terá sido de somenos importância o impacto que uma Rosa de Jericó, ávida de terreno fértil, terá tido nessas equipas, ao depositar esperanças de sobrevir à seca. A sua argúcia e sensibilidade terão interagido com a argúcia e sensibilidade das equipas, último reduto de esperança. Foi a junção de diferentes intercâmbios não-verbais, sobre dúvidas e falhas (Hinshelwood, 2003), sobre um determinado momento de completude, aqui e ali (Stern, 2006), que no fundo lhe permitiu ir «rolando» como uma verdadeira Anastatica hierochuntica.
Relativamente à terceira conclusão, o reassegurar do sentimento de si, a interiorização e constância de um bom objeto e a transformação da destrutividade foram, grosso modo, o trabalho terapêutico da dupla: Rosa-terapeuta. Encontraram-se para uma urdidura, reconstrução (Freud, 1937/19b), a partir das claras coordenadas-árvores-molduras que Rosa forneceu desde o desenho inaugural, trazido para a primeira sessão. Sob essa batuta, no solo nutriente que ali encontrou, Rosa pode rememorar o que viveu, e construir a sua verdade, uma narrativa subjetiva que, para o efeito, adquire idêntico valor terapêutico (Freud, 1937/19b).
No seguimento, esta diferenciação funcional, para a qual concorreu a interação dentro e fora, permitiu igualmente a expansão da mente da criança e, simultaneamente, o fortalecimento dos seus limites (dentro/fora, introjeção/projeção), fundamentais para se manter à tona, na margem maioritariamente da saúde mental. Rosa, ao deslocar e expandir o campo terapêutico da sessão de análise para a estrutura assistencial terapêutica da instituição, «procura» uma consubstanciação, reconfirmação exterior, fora e ao mesmo tempo,
simbolicamente, dentro do campo analítico (voo do avião de papel, cuidados prestados na casa ao bebé de Rosa, carta escrita à juíza).
Numa verdadeira tecelagem, vários foram os fios que se entrecruzaram:
O acolhimento precoce da gravidez e dos primeiros 18 meses da díade mãe-bebé funcionaram como envelope psíquico na articulação entre a experiência sensorial do corpo e a construção do aparelho psíquico: uma face virada para dentro e outra para fora — estrutura de fronteira e de dupla face, constituindo um limite não fechado, suporte e passagem entre diferentes dimensões;
Rosa, nos seus primeiros nove anos de vida, esteve acolhida em seis diferentes instituições. Conheceu inúmeras equipas de cuidadores, que pensamos terem-se constituído como verdadeiros «anjos no quarto do bebé» (Lieberman et al., 2005), ou seja, presenças objetais benignas, contrastando com os poderosos e intrusivos «fantasmas no quarto do bebé» de Fraiberg et al. (1991), gerados pela complexa transgeracionalidade implicada nestes casos;
A psicoterapia, propiciando o acasalamento continente-conteúdo e pré-conceção/realização, e através dela a emergência do funcionamento figurativo-narrativo dos desenhos-histórias como representação da criação do próprio envelope psíquico. O gesto gráfico situa um limite propondo, ao mesmo tempo, um vínculo entre os espaços (Doron, 2013);
Os fenómenos de interface (Doron, 2013) manifestam a dupla face de limite e passagem entre diferentes domínios e traduzem-se no papel de tecelagem institucional, da interconexão envelope psíquico-familiar-institucional, gerando amor, promovendo a esperança, contendo a dor depressiva e estimulando o pensamento, como nos apresentam Meltzer & Harris (1976).
Last but not least, o espantoso potencial inato de Rosa metaforizado na Rosa de Jericó remete-nos para o conceito de resiliência. Como nos diz Cyrulnik (2003), não se trata de um catálogo de qualidades que um indivíduo possuiria a priori, mas de um processo que, do nascimento até à morte, nos liga sem cessar com o meio que nos rodeia.
Todos estes fios revelam por fim e de forma inequívoca o sentido de transicionalidade, fronteira, envelope, interface, campo da intra e intersubjetividade, experienciadas em capacidade negativa (Bion, 1977/2019), incerteza e dúvida.
ABSTRACT
We will use the metaphor of the Rose of Jericho to intertwine two questions that the child whom we will call Rosa presented us with an unusual expressive and transformative capability. On the one hand, the capacity for psychic survival (resilience? - innate skills?) in the face of a traumatic environment of violence, abandonment, negligence, ruptures and discontinuities.
On the other hand, the hypothesis that the countless institutions that welcomed this thread of discontinuity, functioned as a psychic skin (Bick, 1991), an institutional envelope (Houzel, 2010) and as “angels in the nursery” (Liberman, 2005), allowing Rosa to nourish herself enough to arrive without fracturing herself psychically until arrive to psychotherapy, also in an institution. It was finally this that allowed her to progressively reintegrate: to return to the desert, to cross it accompanied, to prepare for the search for a family land, where she can finally develop. We will try to illustrate the link between the construction of subjectivity, the role of assistance and care institutions and psychotherapeutic work in an institution.
KEYWORDS: abandonment, child institutionalization, resilience, psychoanalysis, institutional envelope.