Alguns anos após o termo de uma psicoterapia, o autor elabora acerca do papel da identificação projetiva na construção da relação terapêutica com um adolescente cuja história de vida se pautou por eventos traumáticos. Este apresenta uma fobia escolar aquando do pedido de ajuda, o qual é consequente de um internamento hospitalar motivado por um quadro de somatizações agudas sem causa orgânica subjacente; a breve trecho, inicia o consumo de cannabis e os problemas disciplinares assumem uma gravidade crescente. A construção de um espaço intersubjetivo no decurso da psicoterapia possibilitou a emergência da simbolização e da elaboração criativa e a consequente mitigação da confusão self-objetal mortífera, expressa num funcionamento com prevalência do agir, em regressão narcísica — o legado do traumático. A função objetalizante geradora de objetos a partir da atividade pulsional transformada prossegue na rememoração, pelo autor, do processo psicoterapêutico — inscrita num trabalho de significação posterior. A simbolização narrativa desse encontro expandiu-se na invocação de uma constelação de objetos culturais, literários e artísticos e sua articulação com conceitos do pensamento psicanalítico de diversos autores.
«Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve.» Assim começa A hora da Estrela (1977/2002, p. 13), a última novela de Clarice Lispector, um texto sobre a vida, o desamparo e a morte.
Daniel tem doze anos. É enviado para o departamento de pedopsiquiatria de um hospital pediátrico após um internamento de alguns dias para observação. Motivo: síndrome febril, cefaleia permanente e intensas dores abdominais. Nenhuma patologia orgânica é diagnosticada, restando a hipótese psicossomática.
Comparece à primeira consulta acompanhado da tia, sua tutora, com quem coabita, juntamente com a avó paterna, o tio paterno e a sua mulher e a filha destes. A tia, a quem Daniel trata por mãe, é uma mulher macilenta, de ar fatigado e expressão lamuriante. Insiste — como a provar-me a verdade
Psicólogo clínico da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Sándor Ferenczi Network. Email:
das suas palavras — em mostrar-me um recorte de jornal que noticia o violento assassinato da mãe de Daniel, seguido de suicídio do homicida, ocorrido semanas antes no estrangeiro, e envolvendo consumo de drogas e prostituição.
A sintomatologia somática, associada a uma recusa escolar, surgira após Daniel ter sido informado, em termos inquietantemente vagos, da morte da mãe, que nega, acusando a família de o estar a enganar com o propósito de que desista de esperar por ela.
Toxicodependente, abandonara definitivamente a casa por ocasião do segundo aniversário do filho. Desde então, as suas visitas tornaram-se cada vez mais raras, acentuando o desconhecimento mútuo.
Foi uma mãe psicologicamente ausente, incapaz de nutrir os mais básicos sentimentos de segurança e continuidade; incapaz, pois, de transmitir a vida ao filho, o qual representa o seu vazio e, por isso, vê-se constrangido a organizar defensivamente a personalidade: tal é o conceito de mãe morta que André Green (1983) propõe, objeto traumático de desilusão a que o sujeito reage pela via da destrutividade narcísica, no anulamento recíproco do Eu e do objeto — a ausência objetal torna-se equivalente a uma perda, e a realidade é identificada com a negativização do objeto (Green, 1993).
A morte real da mãe de Daniel — longínqua, obscura e trágica, como ela mesma — vem potenciar a sua condição de objeto-trauma irrepresentável, mobilizador de poderosos mecanismos de negação e projeção da angústia, por um lado, e da sua tradução somática, por outro.
O pai de Daniel morrera por overdose de heroína, em casa. Daniel, então com sete anos, estava presente. Quando expressou o desejo de ir ao funeral do pai, a tia, a pretexto de o proteger de uma experiência angustiante, explicou-lhe que não podia, uma vez que, devido às drogas, o corpo estava deformado e irreconhecível, e poderia libertar gases que o contaminariam. Falando-me do irmão, ela relata-me como costumava mortificar-se, velando-o durante o torpor em que ele ficava após se injetar, à espera de presenciar a sua morte.
Dois anos após a morte do pai, vem a falecer o avô. Daniel reage com profunda tristeza, acentuando o carácter quase exclusivo de ligação à tia, e afastando-se cada vez mais dos restantes elementos do agregado familiar.
Regresso a Clarice Lispector, e à protagonista da sua novela, Macabéa, a quem o narrador — desdobramento identitário da escritora — alude nestes termos: «Pois que a vida é assim: apertase o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender […]. Mas uma coisa descobriu inquieta: já não sabia mais ter tido pai e mãe, tinha esquecido o sabor. E, se pensava melhor, dir-se-ia que havia brotado da terra […] em cogumelo logo mofado. Ela falava, sim, mas era extremamente muda» (1977/2002, p. 32).
Emudecido, também, Daniel, sem palavras para o medo e o ódio que o invadem: cabisbaixo, expressão fechada, os lábios contraídos e os olhos detrás dos cabelos, recusa-se a falar a não ser por monossílabos. Contudo, a oferecer-se ao meu olhar, a imaginar-se nos meus pensamentos, nos meus juízos, a testar a minha força e a minha permanência. A recusar-me, como forma extrema de me pedir que o não recuse: que não vale a pena, que não tem nada para dizer, que não quer voltar ali. Que gosta de desenhar. Desenha então um rapaz, curvado, com o rosto escondido. Acima deste, duas figuras voláteis, dois rostos possíveis para aquela personagem: uma, de olhos muito abertos, injetados de sangue, com uma expressão de ódio perplexo a empunhar uma faca; a outra, um rosto espectral, de órbitas esvaziadas, a fumar «uma ganza».
A condensação das duas representações evoca O Grito , a série de quatro pinturas de Edvard Munch, cuja figura central transmite a pungente expressão de uma indizível ansiedade e desespero (A Ansiedade e O Desespero são os títulos que o pintor deu a dois dos quadros): como Munch, Daniel projeta, no desenho, a intensa vividez da angústia de morte que o perpassa. Dir-se-ia a inventariar as únicas vias possíveis para o inevitável «nunca» da sua história, que não passaria de «pré-história», não fosse um detalhe: o rapaz tem na mão um spray, para, diz-me, fazer scripts e graffiti. Existe, pois, o desejo de se inscrever no mundo, de ser traço permanente, de se afirmar — de dizer «sim».
Digo: «parece-me muito zangado e triste, este rapaz do desenho; a querer que alguém o ajude a descobrir rostos diferentes daqueles. E a cara dele, ali tapada, de certeza que é muito diferente, mais bonita do que aquelas que o assustam».
Sorri e permanece em silêncio. Anuncio-lhe o final da consulta, dizendo-lhe que na semana seguinte estarei à sua espera. Levanta-se de um salto, dizendo: «pode esperar que eu não venho!», e dá um pontapé num armário antes de sair. Acompanho-o e despeço-me: «Até para a semana.»
Encoberto pelos «nãos» de Daniel — ecos desesperados das reiteradas e profundas ausências que assinalaram a sua vida —, ouvi esse «sim» mudo, a que me propus dar voz, persistindo em o convocar novamente após cada repetida falta.
Sete vezes não compareceu. Na mitologia grega, sete vezes o rio Estige rodeia os Infernos (Grimal, 1951) — e o confronto com um sofrimento indizível equivale a uma descida aos infernos; mas a água do rio infernal tornava invulnerável quem nela se banhasse: como Aquiles, a quem, ainda criança, a mãe, a deusa Tétis, mergulhou no Estige. A parte tocada por esta ao segurá-lo pelo calcanhar é o lugar da sua mortal fragilidade, como em Daniel, a quem a mãe tocou com ausência. Evitando o confronto com uma dor intolerável, Daniel age
a angústia, num registo maníaco antidepressivo: os problemas disciplinares e de absentismo escolar, de gravidade crescente, somam-se ao início do consumo regular de cannabis. Abrem-se perigosamente as portas para um outro inferno, o da incorporação da substância que confere a invulnerabilidade como ilusão regressiva a um self omnipotente.
É a própria sobrevivência que está em causa: a partilha de fantasias primitivas mortíferas constitui uma parte muito significativa do património emocional da família de Daniel, que perpetua padrões relacionais de teor masoquista e sacrificial.
Daniel é objeto de mecanismos de identificação projetiva que atacam a sua identidade, elegendo-o recetáculo e intérprete de projeções destrutivas: é recorrente o lapso pelo qual a tia o designa com o nome do pai; são frequentes as alusões a Daniel como se o futuro lhe estivesse vedado; numa ocasião, a avó, que o acompanhava à consulta, recebeu o meu cumprimento como se de condolências por um defunto se tratasse.
Na Crónica de uma Morte Anunciada (1981), de Gabriel García Márquez, os irmãos Vicario, que lavam no fio das facas a honra perdida da irmã, «estavam menos ansiosos por cumprir a sentença do que por encontrar alguém que lhes fizesse o favor de impedi-lo» (p. 62), pois «nunca houve uma morte mais anunciada» (p. 55).
De igual modo, apesar da cultura mortuária da família de Daniel, e da função a ele reservada na repetição de um padrão relacional patológico, é expresso um pedido de ajuda, ainda que enunciado como sentença de morte.
Verifica-se a atualização permanente e transgeracional de um mandato destrutivo que impende sobre os elementos masculinos da família, baseado numa assimetria complementar patológica, ao invés de um fértil encontro de diferenças entre géneros: a oposição entre mulheres de conduta moral irrepreensível, fiéis evangélicas que cuidam abnegada e diligentemente de homens imaturos e dependentes, sempre em falta.
A endogamia simbólica introjetada pela tia, desinvestida em termos de imagem sexuada, contribui para uma proximidade implicitamente incestuosa com o sobrinho — similar àquela que existiu com o pai deste —, interdito que é parcialmente deslocado num outro mais tolerável, o consumo de drogas, que simultaneamente o mantém e dissimula (Jacques, 2001) sob a capa de um prazer considerado inexcedível, aquele que advém da droga, prazer regressivo e autodestrutivo.
A regressão mortífera implicitamente outorgada por um objeto maligno poder-se-ia metaforizar pelo conto «Abyssus Abyssum», incluído n'Os Meus Amores (1891), de Trindade Coelho.
Neste, uma mãe castradora e retaliatória proíbe os seus dois filhos de irem ao rio, no intento de os proteger, mas impondo-lhes — num registo de comunicação paradoxal — o cumprimento de um desejo mortífero:
«— Ouvistes?», ralhara-lhes a mãe.
«— Olhai se ouvistes! Se voltais ao rio, mato-vos com pancada! Andai lá…
«Ih! Como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras… Lembravam-se de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob aquela ameaça terminante. […] o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois rapazes era o de irem por ali abaixo, […] meterem-se dentro do barco, desprendê-lo da praia e deixá-lo ir então para onde ele quisesse, contanto que fosse sempre para diante…» (pp. 118–119)
Abyssus abyssum invocat — «abismo chama abismo»: uma relação de continente-conteúdo (Bion, 1963) destruidora, ao invés de matricial e protetora, induz o abandono à vertigem, ao encontro fusional com o mau objeto, ao retorno ao abismo primário.
O rio — Estige infernal — funciona como substituto materno, tal como a irresistível e ilusória estrela-guia, que conduz à solidão absoluta e à morte, quando o barco à deriva em que seguem os dois irmãos se precipita no abismo.
Na sua Autobiografia , Trindade Coelho relata o modo como, na infância, no caminho de regresso a casa com o irmão, lhe é anunciada a morte da mãe. Referindo-se a esta, escreve: «não sou capaz de me representar mentalmente a sua figura, ainda que a veja a toda a hora» (p. 267). A morte da mãe terá sido inconscientemente vivida como um abandono, concordante com o «desprezo» que o pai lhe votou à nascença, ao responder à irmã que lhe anunciou o nascimento de mais um filho: «Olha a grande coisa!» (p. 267)
Na sobrevivência à palavra maligna, o autor usou a palavra criadora, a narrativa partilhada, elaborando a falta através do impulso criativo ligado à posição depressiva e à reparação dos objetos internos (Mancia, 1992).
A omnipotência destrutiva do Eu constitui o negativo do poder criador da palavra, expressão omnipotente da vida psíquica, debeladora de áreas destrutivas, paralisadas e regressadas do psiquismo, as quais conduzem à repetição, com prejuízo da inovação adaptativa, do prazer e da felicidade do sujeito. Ou seja, função criadora ou ressurrecional, ligada à transformação de pulsões em objetos, não apenas à transformação objetal, mas à criação de novos objetos e novos investimentos objetais — função objetalizante (Green, 1995) que permite a dramatização e a construção narrativa ao invés da passagem ao ato, o investimento objetal em vez da regressão narcísica que exclui a alteridade.
No filme A Palavra (1955), de Carl Dreyer, o louco Johannes, que crê ser ele próprio Cristo vivo,
ressuscita a cunhada que morrera em trabalho de parto — tal como a mãe de Dreyer, que morreu logo após ele ter nascido. Neste exercício extremo de fé, só a sobrinha, criança, o acompanha, crendo também ela que o tio pode acordar a sua mãe, ao invocar o poder de Cristo: «Dá-me a tua palavra», pede Johannes. A seu lado, a sobrinha sorri, vendo a mãe viver de novo.
No plano terapêutico, a ressurreição equivale à reconstrução do self-objeto.
Esta analogia entre o louco, o objeto materno, e esse louco cuidador que é o terapeuta — na intersecção de ambos — surge condensada na personagem do enfermeiro Benigno, no filme Fala com Ela (2002), de Pedro Almodóvar.
Benigno cuida de Alicia, jovem em coma profundo a quem presta todos os cuidados e a quem não cessa de falar, acreditando que ela o ouve, relatando o que vê e experimenta, à semelhança de uma mãe face ao seu bebé, a quem revela e interpreta o mundo (Benigno cuidara da própria mãe, até à morte desta).
Descobre-se que Alicia está grávida: Benigno agira perversamente a regressão ao continente materno, ao copular com aquela morta-viva, estimulado pela visão, e pelo relato posterior a Alicia, de um filme mudo — sem palavras; com gestos e atos. Trata-se d'O Amante Minguante, cujo protagonista ingere uma poção mágica que o faz encolher progressivamente. Do tamanho de um inseto, explora o corpo de sua mulher, que dorme. Fica fascinado perante a vulva, que surge simplificada — mais consentânea à fantasia infantil do que a uma representação genital adulta. Irresistivelmente atraído, introduz-se na vagina entreaberta e desaparece no seu interior.
Paradoxalmente, a parafílica passagem ao ato de Benigno, resultando numa gravidez que não vinga, funciona como o beijo do príncipe a pôr fim a cem anos de sono da princesa: Alicia desperta. Neste príncipe, coexiste a necrofilia com o amor oblativo, nutriente do sonho e da vida.
A compulsão à fusão com um continente feminino devorador, figurado em O Amante Minguante, assemelha-se, nos mecanismos subjacentes, à posição de Daniel nos movimentos autodestrutivos frequentes nos primeiros meses de psicoterapia — consumos, delinquência, absentismo e insucesso escolar, expressões agidas de um objeto interno persecutório e destrutivo.
Este período caracterizou-se pelo predomínio da evacuação de angústias paranoides, reiteradamente agidas, a ameaçar a continuidade terapêutica, e cuja contenção permitiu a mobilização de defesas esquizoides protetoras do bom objeto, paulatinamente diferenciado ao serviço da segurança egóica (Klein, 1957). André Green (1993) responde a Clarice Lispector: «para dizer sim a si mesmo, é necessário dizer não ao objeto» (p. 23). Uma clivagem binária diferida na relação terapêutica possibilitou a emergência de um campo representacional transformável, subjetivo e intersubjetivo. As modalidades defensivas mais primárias tornaram-se menos ativas, permitindo o reforço do Eu e o predomínio, no trabalho terapêutico, de aspetos mais construtivos e prazerosos, de um modo mais inclusivo e integrado.
O trabalho do negativo patológico (Green, 1993), a função desobjetalizante da pulsão de morte que conduz ao silêncio no psiquismo, pela via do desinvestimento da simbolização, é interrompido: a construção de uma estrutura ternária nova (Green, 2002) por ambos os elementos do par, que inclui o sujeito, o objeto e o outro do objeto (que não representa, forçosamente, a função paterna), constituirá, creio, a entidade portadora da transgeracionalidade e transportadora dos elementos de identificação projetiva; e prosaicamente acrescentaria: para o bem e para o mal.
Na evocação posterior, e ressignificante, da minha relação com Daniel, convoco objetos outros e outros de objetos, ecos de melodias, ruídos, explosões e silêncios contratransferenciais. Intensos movimentos de identificação projetiva se geraram nesse encontro de manifestações omnipotentes: são os diversos níveis, dinâmicas e rostos da omnipotência que dão forma aos estádios de desenvolvimento do sentido da realidade. Sándor Ferenczi, em O Desenvolvimento do Sentido da Realidade e os seus Estádios (1913/1970), parte da passagem, no «desenvolvimento das formas de atividade psíquica», do «princípio do prazer» — o «estádio primário» — para a «adaptação à realidade», o «estádio secundário», numa conceptualização desenvolvimental da psicogénese, em diálogo com Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental , de S. Freud, e a dualidade «princípio do prazer»/«processo primário» e «princípio da realidade»/«processo secundário» (Assoun, 2009). Um sentimento de omnipotência como fenómeno autossimbólico, a megalomania da criança proveniente da inclusão no corpo materno, caracteriza uma primeira etapa da omnipotência, a fase mágica. Trata-se de uma fase de introjeção, enquanto o «estádio da realidade» está associado a uma «fase de projeção» do «desenvolvimento do Eu». Quando há mobilização maciça de defesas projetivas, surge a paranoia, enquanto patologia da projeção. Sucede-se, depois, uma nova era na história da construção do sujeito, com a entrada em cena da sexualidade: o sentimento de omnipotência liga-se, então, ao desenvolvimento sexual — num jogo dialético do Eu — autoerotismo e narcisismo — e do objeto — objetalidade (Assoun, 2009).
Concebido originalmente por Melanie Klein (1946/1975) como o processo pelo qual o instinto de morte é clivado e deslocado por projeção no
mundo externo, constituindo um protótipo do relacionamento agressivo ao objeto, o mecanismo de identificação projetiva foi posteriormente entendido na sua dimensão interpessoal como uma via para o reencontro e reconhecimento de partes de si-mesmo no Outro. Um processo intersubjetivo que — regressando a Ferenczi — mobiliza uma dialética de introjeção e projeção que expande a comunicação entre dois mundos intrapsíquicos. Os movimentos e fenómenos transferenciais e contratransferenciais em terapia são tributários deste processo: partes do self do analista enredam-se com partes projetadas do próprio Eu do paciente — ou são por estas despertadas, numa espécie de fertilização e germinação self-objetal relacionalmente induzida.
Há um espectro de configurações (e correlativos usos) que a identificação projetiva assume na relação terapêutica: a expulsão de conteúdos, a comunicação não simbólica e a empatia (Hinshelwood, 1994). Quando o sujeito é capaz de perceber o objeto em si-mesmo, de desfrutar da sua integridade e por ela ser nutrido, e de celebrar a sua diferença, uma tal evolução relacional indica a diferenciação de parte do movimento de identificação projetiva em identificação percetiva (Bollas, 2013). Experiências de intimidade mais profunda com o objeto — com o Outro — exigem que se transcendam «os axiomas intrinsecamente narcísicos da projeção e introjeção». (Bollas, 2013, p. 66)
A experiência do encontro com a arte e a literatura enriquece e expande o nosso universo representacional e contribui para dar forma às profundas e intensas identificações com aqueles que não são capazes de pensar ou dizer as suas sensações — e nessa crença estou com Julia Kristeva (1998), referindo-se à sua leitura de Proust.
Num período intermédio da psicoterapia, Daniel reproduzia, atuando-a dramaticamente, a angústia de morte perante um continente ameaçador ao viajar sempre de metro para o consultório, para aí, em segurança, relatar o medo causado pelo olhar desconfiado e persecutório dos outros passageiros — o mau objeto interno pré-figurado num registo dinâmico reversível oniroide-deliriforme-objetivo (objetivo no sentido da realidade comummente percecionada).
Deste modo, é criado um continuum — no plano concreto e no simbólico — entre um continente fobógeno e ameaçador (o metro) e um outro, protetor e transformador (o consultório); este continuum — reatuado a cada sessão — constitui um procedimento ao serviço da elaboração e superação dos aspetos mais esquizoparanoides da personalidade, partindo da clivagem e da idealização de um espaço/tempo terapêuticos, no sentido da integração objetal. A descida, quase ritual, «aos infernos», é tolerável, pois é a palavra que lhe sucede, num espaço relacional em que a angústia é representável, integrando uma rede narrativa: os relatos, expressivos, de Daniel parecem crónicas ficcionais.
O ordálio que Daniel contrafobicamente se impõe faz lembrar a descida desse outro Daniel — «o líder dos intérpretes de sonhos» (Livro de Daniel, 2017, cap. 4) — à cova dos leões, por imposição de um rei Dario (Livro de Daniel, 2017, cap. 6) contrafeito, mas determinado a fazer cumprir a lei que decretara — qual pai edipiano — como castigo pela adoração que o profeta votava a um deus que lhe era alheio: como a personagem do Antigo Testamento, também Daniel se encontra dividido — e reunido — na nova idealização de uma figura masculina — o terapeuta — e numa constelação de objetos idealizados, predominantemente malignos (os passageiros-leões com que viaja), mas que nessa atualidade surgem também como veículos para o novo Eu auxiliar.
O investimento objetal do homem-terapeuta vem extinguir o mecanismo psicótico de forclusão paterna (Lacan, 1966): Daniel começa a integrar o pai no discurso sobre a família, bem como os demais homens, ultrapassando a posição elocutória passiva perante um teatro interno com um elenco de personagens quase exclusivamente feminino, castrado e castrador.
Desenha com uma crescente liberdade criativa e escreve rimas de hip-hop, com complexidade formal e ricas de conteúdo, que diz durante as sessões.
O desenho que me oferece na última sessão é um objeto compósito, total — representação integrada de elementos persecutórios/paranoides ligados a outros mais evoluídos —, sobretudo pela sua qualidade de dádiva, marca inédita de aceitação da reciprocidade.
Pouco depois do termo da psicoterapia, Daniel ingressou numa escola de artes, desejo que foi alimentando e construindo, e que inicialmente lhe parecia irrealizável. Telefonou-me para partilhar esse seu sucesso, atestando a autonomia alcançada.
Um trecho da «Dedicatória do Autor (Na verdade Clarice Lispector)», de A Hora da Estrela, poderia servir como descritor da função de identificação projetiva no psiquismo do autor (na verdade, terapeuta) no desenvolvimento da dinâmica relacional terapêutica: «a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim […]» (pp. 9–10).
Do valor maior da palavra enquanto transmissão de vida, fala-nos um poema da tradição oral dos índios guaranis, pela voz do poeta Herberto Helder (1997, p. 25), que o adaptou para a nossa língua materna:
«Instruções
“Quando está prestes a nascer uma criatura que alegrará
quem ostenta a insígnia da masculinidade,
o emblema da feminilidade,
envia à terra uma palavra-alma para nela encarnar“,
disse o Pai Primeiro
aos pais verdadeiros das palavras-almas dos filhos.
“Então à boa palavra-alma que enviares à terra, para nela encarnar,
dirás:
enfrenta com muita força a morada terrestre:
mesmo que todas as coisas se ergam contra ti, enfrenta-as com muita força.
Guarda-me no teu coração.
Farei com que a minha palavra circule em ti e te inspire.
Guarda-me no teu coração.
Farei com que os meus inúmeros e secretos filhos excelsos
digam palavras inspiradoras.
No tamanho do coração, no dom de esconjurar os malefícios,
não haverá na terra ninguém como os meus inúmeros e secretos filhos excelsos.
Então, quando estiveres com muita força na morada terrestre,
inspirado pelas palavras-almas,
nada te alcançará com tanta força na morada terrestre,
nada contra a tua palavra-alma inspirada com muita força.“»
ABSTRACT
Some years after the end of a psychotherapy, the author elaborates on the role of projective identification in the construction of a therapeutic relationship with an adolescent boy whose life had been marked by traumatic events. His paternal aunt — his parental guardian — sought psychological help due to his school phobia, but the immediate reason for seeking help was his recent hospitalization with acute somatization without an underlying organic cause. In a short time, already in the beginning of therapy, he starts using cannabis, and his behavior problems increase in severity. The construction of an intersubjective space during psychotherapy allowed the gradual emergence of symbolization and creative elaboration, leading to a mitigation of the deadly self-object confusion, mostly manifested as acting out, in narcissistic regression — the legacy of trauma. The objectifying process that creates objects from these transformed pulsions continues to resonate in the author's remembrance of the psychotherapeutic process — and will be inscribed in a later work. The narrative symbolization of this encounter expanded beyond its immediate context, evoking a constellation of cultural, literary, and artistic objects, articulated with concepts from various psychoanalytic authors.
KEYWORDS: therapeutic relationship, projective identification, objectifying function, symbolization, narrativity.