Na história da psicanálise, a «viragem dos anos vinte» representa o momento em que a teoria (e consequentemente a prática) sofreu uma transformação radical com a introdução da dualidade da segunda pulsão em «Para além do princípio do prazer» (Freud, 1920) e da segunda tópica em «O Ego e o Id» (Freud, 1923). Mas o autor deste artigo considera que o ponto central dessa viragem foi em 1926 com a publicação de «Inibição, sintoma e angústia». A partir daí, as perturbações psíquicas não teriam mais a sua fonte na «angústia de castração», mas na «angústia de perda de objeto», e, em última instância, na «angústia automática» (Freud, 1926). Esta descoberta inaugura a psicanálise pós-freudiana e a nova clínica psicanalítica, cujo problema reside no tratamento das estruturas não neuróticas e das falhas ambientais primitivas. Mas Freud só pôde dar este salto graças à influência dos seus colaboradores mais próximos: Sándor Ferenczi e Otto Rank, que já tinham prestado especial atenção à problemática da ligação entre o bebé e a mãe. Foi sobretudo Ferenczi quem se empenhou nesta exploração, e por isso ousamos chamar-lhe o «Fundador da psicanálise contemporânea».
Este trabalho foi apresentado no XVI Encontro Sándor Ferenczi: «Freud, Ferenczi y el giro del '20», representando o Grupo de Madrid. Este encontro foi celebrado em Barcelona no dia 3 de junho de 2023 e organizado pelo Grupo Internacional de Estudos Sándor Ferenczi (GIESF).
Uriel Garcia Varela é Psicanalista, membro da Associação Psicanalítica Mexicana, da Associação Psicanalítica Internacional e do Grupo de Estudos Sándor Ferenczi de Madrid. E-mail: urielgarciavarela@live.com.mx
No Congresso Internacional realizado em 1922, em Berlim, Freud anunciou aos seus colaboradores que atribuiria um prémio ao trabalho que melhor articulasse teoria e técnica (Makari, 2012; Newton, 1924). Essa tarefa enfatizava a ideia de que, antes de tudo, a psicanálise era um método terapêutico; um tratamento para as aflições do espírito (para os «distúrbios neuróticos», 1922, p. 231), como ele escreveu nesse mesmo ano nos seus «Dois artigos enciclopédicos». O professor tinha renunciado temporariamente a essa articulação, deixando o trabalho a homens mais entusiastas e menos cansados, enquanto ele se abandonava às elaborações metapsicológicas. Mal sabia ele que o contacto apaixonado que alguns dos seus alunos tiveram com o trabalho clínico o obrigaria a reconfigurar a sua teoria da angústia alguns anos mais tarde e que isso, por sua vez, exigiria novas modificações terapêuticas. Este movimento consolidou a revolução psicanalítica que ele tinha iniciado em 1920.
Este é um aspeto que raramente mencionamos quando falamos da «viragem dos anos 20»: foi nesta década que a psicanálise se consolidou plenamente como uma construção colaborativa e não apenas como o produto das observações de um homem. Com a proposta do professor no Congresso de Berlim, ficou claro que o diálogo estava aberto — até certo ponto.
Durante os anos anteriores, Freud havia escrito e publicado a sua «trilogia da autodestrutividade humana»: «A inquietante estranheza», em 1919, em que expõe a dinâmica inconsciente da experiência estética do retorno daquilo que deveria ter permanecido velado; «Psicologia das massas e análise do ego», em 1921, que introduz a instância representativa da autoridade parental e, com ela, o seu carácter punitivo: o superego (descrito pela primeira vez como o ideal do ego). E, no meio destes, no centro da discussão inaugurada durante a Primeira Guerra Mundial, «Para além do princípio do prazer», de 1920, que transforma a própria noção de sujeito e obriga a reconfigurar a teoria do conflito psíquico com a inclusão da pulsão de morte na dinâmica inconsciente.
Quando Freud se encarregou de integrar estes novos conceitos com a prática psicanalítica, o segundo modelo do aparelho psíquico
era ainda um trabalho em curso. A tarefa de articular a teoria com a técnica era um tanto enganosa, pois quem quisesse comprometer-se com a causa não teria oportunidade de incluir a dinâmica das instâncias, nem de considerar o vasto terreno do eu inconsciente. Assim, o primeiro esboço de «Perspetivas da psicanálise», apresentado por Sándor Ferenczi e Otto Rank nesse mesmo ano, perdeu a sua atualidade teórica demasiado depressa com a publicação de «O ego e o id» em 1923. Quando «Perspetivas» viu a luz do dia em 1924, a ausência do ponto de vista estrutural nas propostas técnicas era notável. A riqueza do texto era outra.
Antes de voltarmos ao ano paradigmático de 1924, devemos recordar outra figura-chave na formação da nova psicanálise: Georg Groddeck, o psicanalista selvagem. Quando publicou o seu Livro do id, em 1923, já usava o termo emprestado por Friedrich Nietzsche há alguns anos. De facto, foi Sándor Ferenczi quem pela primeira vez mencionou o Id na literatura psicanalítica, quando analisou «The psychological condition and the psychoanalytic treatment of organic diseases», em 1917. Ali, ele escreve:
«Groddeck não quer de modo algum aparecer como um mágico e contenta-se em afirmar modestamente que apenas cria com a psicanálise as condições mais favoráveis para o id que vive dentro de nós. Ele identifica este id com o inconsciente de Freud» (Ferenczi, 1917, p. 388).
Assim, para Groddeck, a cura não é «dominá-lo», mas estar em harmonia com ele.
Embora saibamos que o id de Groddeck não é equivalente ao inconsciente freudiano da primeira tópica (inconsciente secundário, produto da repressão), podemos supor que Ferenczi tinha em mente o que Freud havia descrito dois anos antes em «O inconsciente»:
«Seria errado imaginar que o Icc permanece em repouso enquanto todo o trabalho psíquico é efetuado pelo Prcc, que o Icc é algo [acabado], um órgão rudimentar, um resíduo do desenvolvimento. Ou supor que a troca entre os dois sistemas se limita ao ato de repressão, no qual o Prcc lançaria no abismo do Icc tudo
Page 13o que lhe parece perturbador. O Icc é antes um ser vivo, suscetível de desenvolvimento, e mantém com o Prcc toda uma série de relações; entre outras, a de cooperação» (1915b, p. 187).
Este parágrafo anuncia a ideia de um «inconsciente expandido» (em maior sintonia com o Id de Groddeck), aquele que trabalha em colaboração com o pré-consciente e que não é apenas o recetáculo do «lixo psíquico». É o início da noção pós-moderna de inconsciente, que será amplamente explorada por autores da segunda metade do século XX, de entre os quais Wilfred Bion , Thomas Ogden (1994) e Christopher Bollas (2007). Este último utiliza a ideia de «inconsciente vivo» para descrever o processo de colaboração entre o inconsciente do paciente e o inconsciente do analista no desenrolar da associação livre durante a sessão, denominando a díade de «Par Freudiano».
Freud incorporou o conceito nietzscheano de Groddeck e a segunda tópica viu a luz do dia em abril de 1923. «O ego e o id» contém uma síntese magistral da nova teoria psicanalítica, incluindo o refinamento da segunda hipótese da dualidade pulsional, a exposição mais completa do conflito edipiano e, claro, a tarefa assustadora da mediação entre o ego e os seus «três mestres»: o eu, o supereu e a realidade. Ora, o inconsciente — que é «vivo» — sofreu uma transformação considerável. Deixou de ser um sistema psíquico e passou a ser uma qualidade. Uma qualidade que agora também descreve uma parte significativa do eu: «Encontrámos no eu algo que também é inconsciente, que se comporta exatamente como o reprimido» (1923, p. 19). E mais adiante: «tudo o que é recalcado é inconsciente, mas nem tudo o que é inconsciente é necessariamente recalcado» (1923, p. 19). Aqui, surge um ponto interessante. Freud continua:
«uma parte do Eu […] é certamente icc. E esta parte icc do Eu não está latente no sentido da parte Prcc, pois se estivesse, não poderia ser ativada sem se tornar consciente, e torná-la consciente não encontraria tão grandes dificuldades» (1923, p. 19).
Assim, este eu inconsciente não é inconsciente no sentido descritivo-latente. Não é o pré-consciente suscetível de consciência. Trata-se de uma nova dimensão do estudo do eu, que está ligada a processos
sofisticados e complexos que não passam pela consciência. As defesas e as resistências (que, em certa medida, são a mesma coisa) fazem parte desses processos, mas também a elaboração onírica do sonho. Trata-se, portanto, de um eu inconsciente que é, de entre outras coisas, a fonte da criatividade.
Que é o eu para Freud em 1923? Durante anos, o eu esteve ligado ao processo secundário e foi definido pelas suas funções inibitórias e reguladoras entre a pulsão e a realidade. «Para o eu», diz-nos Freud, «a perceção desempenha o papel que no id corresponde à pulsão» (1923, p. 27). E continua: «O eu é o representante do que se pode chamar razão e prudência, em oposição ao id, que contém as paixões» (1923, p. 27). Assim, o eu é o representante da psique perante a realidade. A ideia é ampliada nos parágrafos seguintes, onde Freud afirma: «O eu é acima de tudo um corpo-essência, […] [é] ele próprio a projeção de uma superfície» (1923, p. 27). Assim, o eu não é apenas um representante, mas também uma representação: a representação do próprio corpo dentro da psique. Com isto, Freud abre caminho para a posterior ideia hartmanniana do self (Hartmann, 1950).
É preciso lembrar que o eu, através do seu acesso ao movimento, do seu contacto com a realidade exterior e da sua qualidade identificadora, é também o sujeito da experiência. «Ich bin» — «eu sou» — enuncia o sujeito para se referir a si próprio. Esta ideia foi violentamente emasculada quando Joan Riviere (em cumplicidade com Ernest Jones) decidiu transformar o Eu freudiano no Ego da nosologia cientificista na sua tradução de «The ego and the id» para inglês (Makari, 2012). Esta tradição foi continuada por James Strachey e gerou uma cisão irreversível na compreensão das ideias psicanalíticas. Porque ao referir-se ao ego, a pessoa que o enuncia aponta para uma abstração, para um conceito que está lá fora, no «mundo das ideias». Não fala de si próprio. Falar de Ich, por outro lado, apela à sua própria experiência. Ich é, por si só, uma palavra muito investida. Não esqueçamos o cuidado com que Freud escolheu as palavras para concetualizar as suas ideias. A sua descrição final do eu seguir-se-á:
«A substituição [de uma investidura de objeto por uma identificação] participa em grande medida na formação do eu e contribui essencialmente para a produção daquilo que se chama o seu carácter.
Page 15No início de tudo, na fase oral primitiva do indivíduo, é completamente impossível distinguir entre investidura de objeto e identificação […].
Se um tal objeto sexual é renunciado […] não é raro que em troca ocorra a alteração do eu que deve ser descrita como a ereção do objeto no eu […]. Talvez o eu, por meio desta introjeção […] facilite ou torne possível a renúncia do objeto» (Freud, 1923, pp. 30–31).
O carácter do eu (aquilo que o distingue dos outros eus, aquilo que permite enunciar «eu sou») é determinado pelo desenvolvimento precoce do sujeito em relação aos seus objetos primitivos: «O carácter do eu», diz-nos Freud, «é uma sedimentação dos investimentos de objeto resignados, contém a história dessas escolhas de objeto» (1923, p. 31). Assim, o eu de 1923 é constituído por dois mecanismos fundamentais: a identificação (ser como o objeto) e a introjeção (ter o objeto dentro de si). Esta concetualização da configuração do eu foi possível, em grande medida, graças a uma das primeiras contribuições de Sándor Ferenczi para a psicanálise.
Embora a concetualização ferencziana da introjeção visasse a expansão do eu e não a constituição do seu carácter, é notável notar que a própria definição sublinha fortemente a ligação entre o eu e as suas relações de objeto primitivas. Em 1912, ele escreveu:
«Descrevi a introjeção como a extensão ao mundo externo do interesse de origem autoerótica através da introdução de objetos externos na esfera do eu […]. Considero todo o amor de objeto como uma extensão do eu» (Ferenczi, 1912, p. 217).
Freud (que, no início, hesitara em adotar o termo) incluiu a introjeção ferencziana em «Pulsão e destinos da pulsão» e aperfeiçoou a sua elaboração em «Luto e melancolia» (1917). De facto, o professor foi explícito ao afirmar que a teorização do eu em 1923 é uma continuação da iniciada em 1917. Mas desta vez, de um ponto de vista mais radical: a introjeção do objeto perdido (e a sua subsequente identificação com o introjetado) não é exclusiva da melancolia, mas um elemento constitutivo e universal do psiquismo.
Assim, o eu de 1923 é um eu melancólico, configurado a partir da — e em torno da — perda.
Devemos acrescentar que estamos ainda no domínio da metapsicologia. Tanto Freud, em 1923, como Ferenczi, em 1912, falavam de «objetos primitivos», de «investimentos objetais abandonados» e de «amor de objeto» a partir do conforto da abstração. Mas, a partir da observação na realidade fenomenal, era evidente — como o era desde o início da teoria psicanalítica — que o objeto primitivo que estruturava o eu não era outro senão a mãe.
Utilizando a expressão «ordem materna» proposta por Christopher Bollas em The freudian moment (2007), propomos que o ponto de convergência dos eixos centrais da «viragem dos anos vinte» é a viragem para a ordem materna. A partir deste momento, a psicanálise orientou os seus esforços para a compreensão do complicado vínculo entre o bebé e a sua mãe, uma vez que está no centro da constituição do psiquismo e na origem da infinita variedade de manifestações psicopatológicas. A exploração do vínculo com a mãe trouxe consigo, naturalmente, a sua contrapartida na prática clínica. Assim, a tarefa que Freud pediu aos seus discípulos envolveu a inclusão da mãe no desdobramento transferencial dentro da estrutura do tratamento psicanalítico.
Voltemos a 1924. Como já foi referido, Ferenczi e Rank não tiveram oportunidade de incluir nas suas «Perspetivas» o ponto de vista estrutural da segunda tópica. Assim, a inter-relação entre teoria e prática ficou na altura incompleta. No entanto, o texto contém ideias fundamentais que, em pouco tempo, se tornaram parte integrante da terapêutica psicanalítica. Uma delas é a inevitabilidade da repetição.
Em «Repetir, recordar e reelaborar», de 1914, Freud alertava para a impossibilidade de alguns pacientes recordarem a sua própria história e evocarem-na através da narração. O fragmento esquecido aparecia, no entanto, como uma ação dirigida à pessoa do analista. Assim, o trabalho terapêutico tinha como objetivo parar a repetição para facilitar a memória. Ou o contrário, facilitar a memória para parar a repetição. A tónica era colocada no primado da comunicação através da palavra. Mas isto foi antes de 1920. Em «Para além do princípio do prazer», a compulsão à repetição, derivada da pulsão de morte,
tornou-se numa tendência inerente, inevitável e universal. Nas suas «Perspetivas», Ferenczi e Rank escreveram:
«Do ponto de vista da compulsão à repetição, é absolutamente inevitável que, na cura, o paciente repita […] fragmentos completos do seu [processo de desenvolvimento] e, como a experiência tem mostrado, precisamente aqueles fragmentos que são inacessíveis sob a forma de lembrança; de modo que o paciente não pode fazer nada além de os reproduzir e o analista pode considerá-los como verdadeiro material inconsciente» (1924, p. 269).
A questão que se segue é: que fazer em relação a isso? A proposta de Ferenczi e Rank torna-se verdadeiramente revolucionária nas linhas seguintes:
«Estas considerações evidenciaram a necessidade prática não só de não impedir a tendência para a repetição na análise, mas até de a encorajar na condição de a dominar, porque de outro modo o material mais importante não pode manifestar-se nem ser resolvido» (1924, p. 269).
Esta ideia está em sintonia com a «criação de condições mais favoráveis para o id», proposta por Groddeck em 1917. Será Ferenczi que, anos mais tarde, a levará às últimas consequências. Voltaremos a este desenvolvimento mais tarde. Importa agora assinalar o modo como «Perspetivas» inaugura uma nova clínica psicanalítica que trabalha diretamente com o transferido — com o enactment, o agieren freudiano — e não necessariamente com a narrativa. Os nossos autores afirmam: «Finalmente, convencemo-nos de que o papel principal da técnica analítica parece, então, corresponder à repetição e não à lembrança» (Frenczi & Rank, 1924, p. 270).
Mas logo esclarecem que esta atitude terapêutica não consiste em «deixar simplesmente que os afetos se percam numa névoa de “vivências”» (Frenczi & Rank, 1924, p. 270), mas em deixar emergir os afetos ligados à repetição para transformar progressivamente o material em memória propriamente dita. Esta elaboração tem em vista o passado, pois recorda o método catártico de Pappenheim e Breuer, em que um dos objetivos
era libertar o afeto estrangulado do sintoma histérico. Mas também olha para o futuro, pois implícita na proposta está a noção de simbolizar o não simbolizado; de converter matéria-prima em elementos psíquicos; de transformar elementos beta em elementos alfa, como diria Bion (1962).
Na base da sua proposta de uma «técnica ativa» (apresentada em 1919), Ferenczi desenvolve a ideia da repetição em análise e sugere que quando os pacientes não conseguem repetir devido a inibições fortes, a primeira coisa a fazer é facilitar as condições para que esse processo ocorra. O exemplo mais claro desta abordagem é o caso da cantora croata com eritrofobia e medo do palco, descrito em 1921. Ferenczi pediu-lhe que cantasse à sua frente durante a sessão, como se o consultório fosse o teatro e o analista, o público. Esta situação começou por suscitar fortes ansiedades, mas com o tempo, e graças à presença do analista que a ligava sempre à realidade, a «encenação» permitiu que a infância traumática emergisse sob a forma de memória.
Devido às muitas limitações que encontrou, sendo uma delas a exacerbação da resistência às sugestões do analista, Ferenczi abandonou a «técnica ativa». No entanto, manteve a ideia da repetição como principal fonte de material de trabalho para a análise. No final da sua obra, propõe o método do relaxamento (1930). Trata-se de diminuir as tensões provocadas pelas exigências do analista, incluindo o pedido de «contar tudo», facilitando assim o ambiente que permitiria a emergência de memórias sob a forma de experiência regressiva, quase alucinatória. «No relaxamento», diz-nos Ferenczi, «os sintomas corporais histéricos conduzem por vezes a fases de desenvolvimento em que, como o órgão do pensamento não está completamente formado, apenas se registam memórias físicas» (1930, pp. 104–105). Este modo de trabalhar harmoniza-se com as propostas terapêuticas da segunda metade do século XX, nomeadamente com as elaboradas por Michael Balint em 1968 (que aprendeu diretamente com o mestre húngaro) e por Donald Winnicott em 1958. Por outro lado, a expressão «orgão do pensamento» antecipa o conceito bioniano de «aparelho para pensar os pensamentos» (Bion, 1967).
Além da riqueza conceptual contida em Perspectives on psychoanalysis (como a inclusão do termo «situação analítica», introduzido por Rank), a sua importância reside nos escritos derivados de cada um
dos seus autores. No ano em que «Perspetivas» foi publicado, também viram a luz do dia «Trauma de nascimento», de Rank (1924), e «Thalassa: Uma teoria da genitalidade», de Ferenczi (1924). Embora sejam textos radicalmente diferentes, sendo o primeiro uma proposta de patogénese única de todas as perturbações emocionais e o segundo uma «ficção bio analítica» filogenética, ambos concordam que o núcleo da vida psíquica é a relação primitiva com a mãe, a separação da mãe e o desejo perpétuo de reencontro.
Ora, a importância da mãe na história da configuração do psiquismo não era claramente estranha a Freud. No seu «Projeto de psicologia», de 1895, ele falou longamente da mãe, chamando-lhe de «indivíduo experimentado»; aquele que, através da identificação com o desamparo do bebé, responde às suas necessidades realizando a «ação específica». Mais tarde, nos seus «Três ensaios sobre a teoria da sexualidade», de 1905, descreveu o modo como as pulsões sexuais estão na base das pulsões de autopreservação. Este movimento promove a mãe (ou ama de leite) como modelo de escolha do objeto sexual. Mais tarde, em «Os dois princípios do funcionamento mental», de 1911, inclui uma nota de rodapé na qual afirma que a ideia de um sistema psíquico «escravizado ao princípio do prazer», que ignora completamente a realidade externa objetiva, só pode ser possível se forem considerados os cuidados maternos. Anos mais tarde, em 1960, Winnicott expressou que a nota de rodapé de Freud estava na origem da sua teoria do desenvolvimento primitivo; do seu famoso «não existe tal coisa como um bebé» (1960/1998, p. 50).
Como dissemos, a mãe esteve sempre presente nas formulações freudianas a partir do modelo do amor objetal anaclítico. A mãe em «O ego e o id», por exemplo, é a mãe edipiana amada pelo menino, da qual, por medo da castração, terá de abdicar, dando assim lugar à triangulação e à formação do supereu. A identificação com a mãe que alimenta (a outra dimensão da relação de objeto) seria normal para a rapariga, mas apenas transitória e parcial para o rapaz, e o resultado patológico presente nas neuroses narcísicas, nas perversões e na homossexualidade. O que faltava nesta altura na teoria era a inclusão da necessidade universal, absoluta e constitutiva de identificação com a ordem materna.
Para Freud, a configuração da vida psíquica e as suas consequências psicopatológicas organizavam-se em torno da figura do pai. Trata-se de
um modelo do neurótico derivado do complexo de Édipo e da proibição do incesto com a ameaça de castração. A ambivalência era o estado afetivo perpétuo; a oscilação constante entre o ódio, o desejo de morte em relação ao pai rival e o terror do pai vingativo-punitivo. Em 1930, em «O mal-estar na cultura», o professor ainda defendia parcialmente a psicanálise da ordem paterna. Aí, escreve: «Não se poderia indicar na infância uma necessidade de força equivalente à de receber proteção do pai» (p. 73).
A resistência de Freud à viragem para a ordem materna resultava da sua própria incapacidade para se deixar ver como mãe na situação transferencial. Hilda Doolittle conta que o professor lhe confessou durante a análise: «Não gosto de ser a mãe na transferência. Surpreende-me sempre e choca-me um pouco, porque me sinto muito masculino» (1933/2004, p. 178). Trata-se de um verdadeiro constrangimento, pois, como sabemos, todas as descobertas teóricas da psicanálise provêm da experiência direta com os pacientes no trabalho clínico. Esta era uma realidade desde o tempo de Josef Breuer e Bertha Pappenheim.
Mas, aparentemente, a limitação de Freud ocorreu apenas a partir do explícito, ou seja, do seu eu consciente. O seu eu inconsciente estava, de facto, ligado ao materno. Em «O momento freudiano», Christopher Bollas expõe a maneira pela qual a «ordem materna» estava implícita desde o início na técnica de Freud, apesar de Freud:
«O posicionamento do paciente por Freud — deitado no divã — envolveu uma fase surpreendentemente intermédia entre o pensador adormecido e o pensador acordado. É uma fase entre o mundo da mãe (ou o que eu chamei de ordem materna) e a vida no mundo do pai (ou o que eu chamei de ordem paterna).
[…] quando o freudiano procura decompor o sonho inteiro examinando-o em partes, surge uma objeção. “Deixem-me a mim e à minha mãe em paz!”
No entanto, o analista não interroga o paciente, o que constituiria uma violação demasiado intrusiva da ordem parental.
Inteligentemente, Freud interroga-se sobre as associações, que se situam algures entre as ordens de pensamento paterna e materna, entre o mundo onírico da vida na atmosfera materna e o mundo lúcido das leis e da socialização paternas» (Bollas, 2007, p. 10).
A observação de Bollas é perspicaz e faz-nos compreender que a dificuldade de Freud não era entrar no mundo da ordem materna durante a situação analítica a partir de seu próprio inconsciente, mas elaborar uma teoria da técnica que tornasse esse movimento explícito a partir de sua consciência. «Não há outra resistência à análise senão a do próprio analista» (, p. 341), diz Lacan no seu Seminário 2. Por seu lado, Rank radicaliza as suas posições e afasta-se do movimento psicanalítico, instalando-se nos Estados Unidos a partir de 1926 e promovendo a sua teoria do trauma do nascimento (Makari, 2012). O único homem qualificado para o cargo era Ferenczi: o arquiteto da psicanálise pós-freudiana.
O ano de 1926 foi o ano definitivo da viragem para a ordem materna. Freud incluiu explicitamente a noção da mãe como objeto nuclear da constituição psíquica em «Inibição, sintoma e angústia». A angústia pela perda do objeto ganhou primazia sobre a angústia de castração. Freud afirma:
«a angústia apresenta-se como uma reação à ausência do objeto; neste ponto, são necessárias algumas analogias: de facto, a angústia de castração também tem como conteúdo a separação de um objeto muito valorizado, e a angústia mais original (a “angústia primordial” do nascimento) foi gerada pela separação da mãe» (1926, pp. 129–130).
Ao longo do texto, Freud concorda com Rank na atribuição de uma importância fundadora ao trauma do nascimento, mas não pode aceitar o reducionismo da psicopatogenia única. É importante acrescentar que, numa nota de rodapé acrescentada em 1923 ao caso do pequeno Hans, o professor já havia exposto a analogia acima mencionada sobre os tipos de angústia, dando o crédito dessas observações a Lou Andreas-Salomé, August Stärcke e Franz Alexander. Freud escreve:
«Foi argumentado que a criança não pode deixar de sentir cada retirada do seio da mãe como uma castração, isto é, como a perda de uma parte substancial do corpo que anteriormente possuía; nem apreciará de forma diferente a passagem regular das fezes, e mesmo
Page 22o próprio ato de nascimento, como separação da mãe a quem estava até então unido, seria a imagem primordial dessa castração» (Freud, 1923, p. 9).
Mas voltemos a 1926. Em «Inibição, sintoma e angústia», Freud só pode concordar parcialmente com o ponto de vista de Rank. A questão é que nas linhas seguintes ao parágrafo citado acima, o núcleo da metapsicologia da ordem materna é desenvolvido. A ansiedade de nascimento não é ansiedade de separação. Esta última requer uma noção de objeto dentro da psique, uma noção que não existe na vida intrauterina. A primeira angústia, a «angústia primordial», é a angústia automática: a experiência de desintegração produzida pela invasão pulsional do id. A mãe torna-se no primeiro objeto e no centro da vida psíquica quando a sua intervenção salva o bebé da angústia automática e o ajuda a transformá-la na angústia sinal da perda de objeto. Freud diz-nos:
«a descarga dirigida à musculatura respiratória grita agora pela mãe […]. Com a experiência de que um objeto externo, apreensível pela perceção, pode pôr fim à situação de perigo que representa o nascimento, o conteúdo do perigo desloca-se da situação económica para a sua condição, a perda do objeto. A ausência da mãe torna-se agora o perigo; o bebé mostra sinais de angústia logo que esta ocorre, mesmo antes de surgir a situação económica temida» (1926, p. 130).
Trata-se da expansão metapsicológica do que foi exposto no «Projeto» de 1895, sobretudo no que diz respeito ao «desamparo originário», que, no que nos concerne, é o resultado da angústia automática. A identificação que faz a mãe é com a experiência da desintegração do bebé. Numa das suas sínteses magistrais, Miguel Kolteniuk (1998) escreve que, para Freud, «a angústia de perda de objeto é a principal conquista do eu para lidar com a angústia automática» (p. 68) e propõe que, antes da procura de prazer ou do encontro com o objeto, a função primordial do eu é a função antitraumatogénica. Assim, a angústia de perda de objeto não pode ser primária, mas secundária: uma conquista do desenvolvimento psíquico moldada pela intervenção materna. Esta teorização inaugura a psicanálise pós-freudiana, cujo
modelo psicopatológico deriva da relação de objeto primitiva e, mais importante, do trauma precoce, que é constituído pela ausência do objeto e do processamento pulsional. Deste modelo de trauma, derivam os conceitos de «terror sem nome», de Bion (1962), «angústia impensável» e «agonia primordial», de Winnicott (1974), e «trauma puro», de Baranger et al. (1987). Perante as patologias pré-edipianas e pré-verbais, os psicanalistas tiveram de mudar o modelo terapêutico do «pai ouvinte» para o da «mãe sustentadora». O analista não deve apenas permitir-se ser a mãe na transferência, mas, por vezes, agir no concreto como um objeto presente para compensar a ausência original do objeto primitivo. Ferenczi compreendeu isto perfeitamente, de forma «sensível e ativa», como diria Winnicott.
No ano de «Inibição, sintoma e angústia» (1926), Ferenczi publicou o que viria a ser o ponto de viragem da técnica psicanalítica: «Contraindicações da técnica ativa». Como dissemos anteriormente, a técnica ativa devia ser repensada tendo em conta os seus limites e perigos. As sugestões e proibições do analista promoviam a infantilização do paciente, que se submetia às ordens de um pai exigente. Por outro lado, imposições como a fixação de uma data para o fim da análise eram fonte de angústia desnecessária, nomeadamente a angústia de separação. Assim, a técnica ativa era uma representação radical da ordem paterna na técnica psicanalítica, quando, como vimos, a necessidade de muitos pacientes era de um objeto materno sentido como contentor.
A técnica ativa, tal como utilizada por Freud com Sergei Pankejeff (1918) e por Ferenczi com a cantora croata (1921), era uma tentativa de promover a associação livre através do aumento da tensão psíquica. Mas em 1926, Ferenczi descobriu que uma maior facilitação da comunicação de associações do paciente era possível diminuindo as tensões desnecessárias, e não as aumentando. Em «Contraindicações» (1926), escreve: «Aprendi mais tarde que às vezes é útil aconselhar exercícios de expansão e que essa forma de relaxamento muitas vezes permite alcançar mais rapidamente o fim das tensões psíquicas e das resistências à associação» (p. 435). Este fragmento é o antecedente do já mencionado «princípio de relaxamento» de 1930, que, como dissemos, não é outra coisa senão a facilitação do movimento regressivo durante a sessão. É interessante notar que, no parágrafo citado, há uma harmonia entre
a ordem paterna («aconselhamento») e a ordem materna («cessação das tensões psíquicas»). Ferenczi é congruente com o objeto materno enunciado por Freud em «Inibição, sintoma e angústia» (1926).
A ordem materna é sustentada pela noção da mãe como objeto que resgata o bebé da experiência desintegradora da angústia automática. É importante reiterar que tal função só é possível enquanto a mãe se identificar com o desamparo primitivo e introjetar o bebé como objeto na sua própria psique. Ferenczi explorou esta ideia nos seus textos «O desenvolvimento do princípio de realidade e as suas fases», de 1913, «O problema da afirmação do desprazer», de 1926, e «A adaptação da família à criança», de 1928. No segundo destes escritos, publicado no mesmo ano de «Inibição, sintoma e angústia», Ferenczi desenvolve a ideia freudiana de pulsão e escreve:
«O reconhecimento do mundo externo […] só é possível […] depois de ter transformado as excitações [provenientes dos objetos] em impulsos internos, incorporando-os no eu. A força que realiza esta mudança é o Eros libertado pela desintrincação pulsional (1926b, p. 469).
Assim, Ferenczi propõe que a vida pulsional do eu é organizada com base na vida pulsional do objeto. A mãe tem, então, uma dupla função: por um lado, é o amortecedor da angústia primitiva de desintegração e, por outro lado, é a geradora de novas excitações desorganizadoras da vida psíquica. Acalmar e mobilizar. Esta ideia faz avançar os conceitos de Jean Laplanche (1987) de «mensagem enigmática» e de «sedução primária».
Ferenczi, «[p]or uma espécie de empatia com a psique infantil» (1926b, p. 457), identificava-se com seus pacientes da mesma forma que uma mãe e desempenhava esta dupla função: proporcionava as condições de calma que permitiam a integração psíquica e promovia o movimento a partir do jogo criativo da associação livre. Assim, era a empatia que permitia a adaptação da técnica para aceder aos núcleos primitivos do paciente.
Em 1928, escreveu «Elasticidade da técnica psicanalítica», onde formula uma teoria da empatia psicanalítica que designa por «toque psicológico». Devemos esclarecer que a palavra utilizada por Ferenczi
é Einfühlung, ou seja, a capacidade de sentir a partir do interior do outro. Isto implica, para o analista, permitir-se apagar as fronteiras do seu eu e entrar no mundo interior do paciente como se fosse uma fusão simbiótica temporária, mantendo sempre uma parte significativa de si em pleno contacto com a realidade exterior. Na entrada de 20 de fevereiro no seu Diário Clínico, ele escreve: «[Eu] não podia realmente sentir [a experiência da paciente] […] a não ser mergulhando com ela no seu inconsciente, e certamente com a ajuda dos meus próprios complexos traumáticos» (1932, p. 82). Trata-se, portanto, de uma empatia radical, derivada do jogo de identificações e introjeções, que pode ser possível desde que o analista tenha ele próprio passado por um processo de análise profunda. Ferenczi enfatiza essa necessidade em «Elasticidade», chamando-a de «segunda regra psicanalítica fundamental».
No ano seguinte, no 11.° Congresso Internacional de Psicanálise em Oxford, lê o já referido «Princípio de relaxamento e neocatarse» (publicado em 1930). Além de expor a necessidade de um ambiente que facilite a regressão para permitir o acesso aos traumas pré-verbais, formula também o «Prinzip der gewährung». Tomamos a liberdade de o traduzir por «Princípio da permissividade» (e não «Princípio do desprendimento» ou «Princípio da indulgência» como noutras traduções). Este princípio implica permitir que o paciente se movimente livremente durante as sessões; explorar a sala, andar de um lado para o outro, sentar-se no chão, folhear livros, comunicar cara a cara com o analista, etc. O que alguns pacientes precisam, diz Ferenczi, é «de serem verdadeiramente adotados e de lhes ser permitido, pela primeira vez, gozar das vantagens de uma infância normal» (1930, p. 107). Acrescenta que Anna Freud lhe disse um dia: «Tratas os teus pacientes adultos como eu trato as crianças nas minhas análises infantis» (1930, p. 105). Este princípio atingirá a sua máxima aplicação nas elaborações formuladas em «Análise de crianças com adultos», de 1931. Esta forma de trabalhar permitiu a Ferenczi construir uma nova teoria sobre o trauma psíquico, refinada e alargada em «Confusão de línguas entre o adulto e a criança. A linguagem da ternura e da paixão», de 1932 (publicado em 1933).
Devemos deixar claro que, embora o modelo da ordem materna esteja a tornar-se cada vez mais evidente, a ordem paterna não está
a desaparecer. A ordem paterna é responsável pelo setting, pela lei e pelo princípio da realidade. É o pai que considera o tempo e que termina a sessão. Em «Elasticidade da técnica», Ferenczi afirma: «Na realidade, poder-se-ia falar de uma oscilação contínua entre a “empatia”, a auto-observação, e a tarefa de formular juízos» (1928b, p. 68). Na mesma linha, ele escreve em «Princípio de relaxamento»: «Deve admitir-se, então, que a psicanálise trabalha com dois meios que se opõem; ela produz um aumento de tensão por meio da frustração e um relaxamento ao autorizar movimentos livres» (1930, p. 98).
Não é intenção deste artigo fazer um relato pormenorizado de todas as contribuições de Ferenczi para a técnica. O que procuramos ilustrar é como Ferenczi é o arquiteto da psicanálise contemporânea do ponto de vista da técnica; o segundo arquiteto da «viragem dos anos vinte». Para os nossos propósitos, mencionaremos dois pontos adicionais antes de concluir.
Provavelmente, o último limite que Ferenczi atingiu nesta aproximação à ordem materna foi a polémica análise mútua. Na entrada de 20 de março no Diário Clínico, ele escreve que a ligação entre o paciente e o analista «só encontra a sua analogia na relação mãe-filho» (1932, p. 113). Para expor e explorar este modo particular de trabalhar, seria necessário um ensaio em si mesmo. Para já, gostaríamos apenas de referir como, de modo geral, a atitude dos psicanalistas em relação à análise mútua ferencziana tem sido francamente injusta.
Se, no início, a análise mútua implicava literalmente o exercício de duas pessoas em associação livre, uma interpretando o inconsciente da outra, ela evoluiu gradualmente para algo diferente. As próprias limitações da experiência (por exemplo, a impossibilidade de Ferenczi ser completamente franco com o seu paciente-analista devido à confidencialidade que mantinha com os seus outros pacientes) levaram a uma necessidade de reformulação. Na entrada de 3 de março no Diário Clínico, escreve: «eu continuaria a minha análise todos os dias apenas por um curto período de tempo e apenas considerando a análise dela» (1932, p. 92). Nas entradas posteriores, podemos ler como Ferenczi desdobra a parte da sua «própria análise», apenas sendo franco sobre as suas reações emocionais relativamente à paciente. Com isso, podemos ter certeza de que, muito cedo, ele passou de uma experiência em que os participantes se analisavam mutuamente para o simples uso da
comunicação verbal das respostas contratransferenciais do analista, na medida em que elas fossem úteis para o paciente. Este modo de trabalhar harmoniza-se perfeitamente com a psicanálise contemporânea. De facto, muitas das intervenções de Ferenczi no Diário Clínico são análogas às feitas por Winnicott com a sua paciente Margaret Little (1985), quando numa sessão, ao ouvir como a mãe tinha submetido a filha a todo o tipo de torturas emocionais, exclamou com raiva: «Odeio a tua mãe!»
Quando Freud encomendou o trabalho de integração da teoria com a técnica no congresso de Berlim, não podia antecipar a revolução que estava prestes a desenrolar-se diante dele. «Perspetivas da psicanálise» e os textos derivados dos seus autores, «Trauma de nascimento», de Rank, e «Thalassa», de Ferenczi (todos de 1924), forçaram o professor a reformular a teoria das relações de objeto em «Inibição, sintoma e angústia», de 1926, atribuindo o papel nuclear constitutivo da psique ao objeto materno. Ferenczi empenhou-se na tarefa de Freud e levou-a até às últimas consequências, e até ao momento da sua morte prematura em 1933.
A técnica ferencziana e a metapsicologia que a sustenta inclui a ideia da inevitabilidade da repetição na transferência e a exigência da sua gestão; o modelo da mãe primitiva e o analista como seu representante (especialmente como alguém que corrige as funções maternas falhadas); a importância da regressão no acesso aos conteúdos pré-verbais; a ênfase no trauma pré-edipiano; a figuração do material não simbolizado antes da interpretação; e tudo isto envolto na conceção alargada de inconsciente (Freud, 1912, 1915b, 1923; Ferenczi, 1915, 1926, 1932), que tem entre as suas funções a comunicação, a criatividade e a cooperação, ou seja, o inconsciente materno não reprimido, tal como proposto por Christopher Bollas (2007). Com essas ideias, podemos afirmar que a psicanálise só pode ser realizada através do que Ferenczi chama de «diálogo do inconsciente» (1915, 1932).
Para concluir este artigo, gostaríamos de argumentar que a viragem para a ordem materna em Ferenczi e na psicanálise como um todo pode ser expressa através daquilo que chamámos de «noção de mutualidade», ou seja, a dimensão da psique que implica um fluxo de comunicação inconsciente e primitivo com outros sistemas psíquicos e o modo como esse movimento é constitutivo do próprio aparelho psíquico. Esta noção, que traz consigo a ideia do jogo de identificações e introjeções entre
duas psiques, está na base de todos os desenvolvimentos teóricos e clínicos posteriores da psicanálise, centrados nas primeiras relações de objeto. A identificação projetiva de Klein (1946), a identificação percetiva de Bollas (2007), o campo de Baranger (1969), o terceiro analítico de Ogden (1994), a rêverie de Bion (1962), o terceiro rítmico de Benjamin (2017) e muitos outros conceitos fundamentais da psicanálise contemporânea assentam implicitamente na noção ferencziana de mutualidade e na revolução que ocorreu com a «viragem dos anos vinte»: a viragem para a ordem materna.
ABSTRACT: In the history of psychoanalysis, the “turn of the 1920s” represents the point at which theory (and consequently practice) underwent a radical transformation with the introduction of the second drive duality in “Beyond the pleasure principle” (Freud, 1920) and of the second model of the psyche in “The ego and the id” (Freud, 1923). But the author of this article thinks that the turning point of that shift was 1926, with the publication of “Inhibition, symptom and anxiety”. From then on, psychic disturbances would no longer have their source in “castration anxiety”, but in the “anxiety as signal of object loss” and, ultimately, in “automatic anxiety” (Freud, 1926). This discovery inaugurates post-Freudian psychoanalysis and the new psychoanalytic clinic which problem lies in the treatment of non-neurotic structures and primitive environmental failures. But Freud was only able to make this leap thanks to the influence of his closest collaborators: Sándor Ferenczi and Otto Rank, who had already paid special attention to the problem of the bond between the baby and its mother. It was Ferenczi who particularly committed himself to this exploration and for this reason we dare to call him “The founder of contemporary psychoanalysis.”
KEYWORDS: 1920s, maternal order, psychoanalytic technique, theory of anxiety, Ferenczi.
Tradução da responsabilidade do corpo editorial da RPP.