A clínica contemporânea é devedora de uma visão hipercomplexa da dinâmica do par analítico. Esta visão considera não só as exigências do trabalho interno, de integração, dos desenvolvimentos fantasmático, libidinal e objetal, das elaborações intrassubjetivas e intersubjetivas, as decorrentes da coconstrução criativa, presentes na transferência-contratransferência, mas também as exigências decorrentes da ausência, dos fenómenos do negativo, como ainda estende o lugar do inconsciente, recalcado, e do projetado ao inconsciente do agir, da família e do grupo.
Na visão proposta, a matriz interna onde decorre a experiência intrassubjetiva — o ambiente emocional e cultural, no qual o objeto habita no interior do sujeito — bem como a matriz intersubjetiva familiar e comunitária — na qual se inscrevem as relações e os laços afetivos se organizam e se perpetuam — representam o cenário negativo do objeto. Numa etapa avançada do processo analítico, o par acede àquelas matrizes, à estória encriptada, mediante a análise do negativo da relação transfero-contratransferencial.
A elaboração da hipercomplexidade permite o empoderamento da subjetividade: estória pessoal e familiar e contexto histórico do grupo. A instância dessa abordagem é ilustrada mediante um caso clínico, no qual o gesto suicida representa o lado positivo do negativo ausente: o contexto do genocídio ancestral.
Artigo submetido em julho de 2025 e aceite para publicação em outubro de 2025.
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta, Psicanalista e escritora. É formadora na Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Titular, Formadora e Supervisora na Sociedade Portuguesa de Psicanálise Clínica (SPPC), colabora na Formação na SEPEA (Société Européenne pour la Psychanalyse de l'Enfant et de l'Adolescent), membro da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e da Fédération Européenne de Psychanalyse (FEP).
E-mail: mjmazevedo@hotmail.com
A reflexão psicanalítica sobre a experiência clínica contemporânea tem-nos conduzido à necessidade crescente de considerar uma visão tributária da hipercomplexidade (Morin, 2005) para a cura analítica. Referimos uma multidimensionalidade e transdisciplinaridade contributivas da análise da experiência analítica, a qual considera, neste particular, contributos advindos de outros campos e dimensões do saber, tais como o histórico, o político e o antropológico, para a abordagem do sofrimento e da subjetividade do paciente.
De facto, numa fase avançada de uma psicanálise bem-sucedida, a análise dos objetos, bem como dos seus contextos, emocionais, relacionais e históricos, tem-se configurado fundamental para a introjeção da capacidade analítica do paciente, quiçá o maior contributo e o mais perene para a sua vida.
No crescente entrançamento de perspetivas e de complexidades, o par debruça-se sobre a compreensão profunda dos objetos: tanto no que respeita à sua subjetividade e à mensagem enigmática implantada no inconsciente “amentiel” (Laplanche, 1987/2009); à sua relação dinâmica com o self e com a cultura da família e do grupo no interior do sujeito; bem como à sua estória particular e contexto histórico e cultural, vividos no grupo e na comunidade alargada (Varvin & Volkan, 2018).
Numa etapa analítica, na qual a integração psíquica, a dinâmica triangular, a subjetivação, a autoanálise e a vida relacional estão em franco desenvolvimento, o gesto autodestrutivo, uma atuação masoquista dramática, pode chamar a atenção para a necessidade desesperada de inscrição e de empoderamento do sujeito da sua estória pessoal, tal como das suas dimensões históricas e culturais (Kaës, 1993/2004). O indivíduo carece dessa compreensão hipercomplexa para se subjetivar: a atuação refere-se ao negativo transgeracional, não-representado, relativo ao meio ambiente avoengo, traumático.
A forma como a hipercomplexidade se reflete na dinâmica do par é ilustrada mediante um caso, no qual o negativo da relação presencial ocorre, quer para o paciente quer para o analista. Assim, na ausência do analista, ocorre a atuação extratransferencial: o acting-out violento do paciente; longe do paciente, o analista tem um sonho com valor contratransferencial: o negativo da rêverie em presença do paciente.
O pano de fundo, o contexto primitivo, o lugar psíquico contextual, nos quais a experiência traumática do objeto avoengo, submetido a genocídio, ocorreu no passado, são atuados no presente analítico. As elaborações destes aspetos constituem pontos de partida para a entrada na cadeia simbólica do par analítico.
O interesse do psicanalista pelo momento histórico dos povos e pela sua implicação no par analítico acompanhou o movimento de força contrária ao individualismo feroz do século XX, no qual a Psicanálise cresceu e se implementou. Recentemente, aquando da pandemia por Covid-19, tomámos consciência, de forma vivida, do impacto das transformações, ocorridas no nível macrossocial, no par analítico, imerso num mesmo momento histórico comum (Azevedo, 2024).
Este interesse pelo momento histórico mundial surgiu por via do trauma coletivo, representado pela ameaça de perda existencial vivida naqueles anos. Colocado perante a sua finitude, a nível global, o sujeito europeu descentrou-se um pouco do seu individualismo (Azevedo, 2020). Deste modo, nos últimos anos vimos assistindo a movimentos sociais informais de interajuda a povos em sofrimento devido à guerra, a catástrofes humanitárias e a causas ecológicas. Tem emergido uma consciência política à escala planetária, contraditória e autonomizada da mediatizada pelos média convencionais, pesem embora os riscos potencialmente existentes de manipulação informativa nesses meios de comunicação de massa: redes sociais, etc.
Por outro lado, e ainda segundo uma visão da hipercomplexidade na sua dimensão de transdisciplinaridade, as descobertas e as conceções psicanalíticas têm acompanhado as transformações e as mudanças de perspetivas proporcionadas pela ciência, pela história e pela cultura, tanto no plano da metapsicologia quanto da sua práxis. Ilustra a transformação sofrida ao nível da metapsicologia, a modificação da matriz cultural na qual a Psicanálise se pratica. Profundamente diferente da existente na época do fundador, a nova matriz histórica e cultural, na qual a Psicanálise opera, reflete mudanças tanto históricas e de mentalidade, quanto de tipologia de patologias e de subjetividades, presentes no consultório de análise. Assim, se na conceção da metapsicologia
Freud procurava refletir, por exemplo, a repressão sexual e as descobertas científicas vigentes no papel da repressão da sexualidade na vida mental e no desenvolvimento das neuroses, atualmente a preocupação mundial com a guerra, as ditaduras, a pobreza, a droga, as catástrofes humanitárias e ecológicas, bem como os avanços da psicanálise nas patologias não neuróticas, da atuação, do irrepresentável e da perversão, levam a Psicanálise a perspetivar uma terceira tópica (Dejours, 2008; Green, 1993/2011; Laplanche, 1987/2009; Raggio, 1989; Zukerfeld, 1999).
Também no contexto da prática psicanalítica, a nova matriz cultural reflete-se, por exemplo, nos seguintes factos: o aprofundamento das democracias convidou à revisão do modelo da autoridade do analista, enquanto detentor do saber, e facilitou o modelo cooperativo, da coconstrução em Psicanálise (Baranger & Baranger, 1961-62; Ogden, 1994); as descobertas científicas, particularmente as advindas das neurociências, convidaram ao diálogo, à transdisciplinaridade e à investigação conjunta, de que são exemplo os mais recentes trabalhos sobre o autismo (Laznik, 2025); a divulgação da psicanálise nos média tornou o paciente mais informado, convertendo-o num observador crítico e atento da prática analítica. A importância de o analista levar em linha de conta a matriz cultural em que a experiência analítica decorre, o que se passa no exterior, no mundo, no presente e no passado do paciente, decorre ainda da mudança de ênfase que se vinha operando na Psicanálise, da experiência intrassubjetiva do paciente para a experiência do que se passa na mente do analista e na relação entre ambos (Mitchell, 1988).
Para esta visão, tiveram especial importância os trabalhos de Winnicott (1967, 1971) sobre a terceira área de definição do humano, a área criativa, saída da ilusão primária do encontro entre o bebé e a mãe, o espaço potencial. É nesta área que a comunicação significativa e a psicanálise se inscrevem, e o sujeito aprende a lidar com a tarefa sempre inacabada de conciliar o mundo interno com o externo. É também nesta área criativa que surgem o objeto e os fenómenos transicionais, expandidos, na maturidade para a vida da cultura, da arte, da ciência.
Na crescente complexidade da perspetiva psicanalítica, adquire especial relevo a tendência para uma visão mais integrativa dos modelos libidinal e das relações de objeto (Coderch, 2001), modelo no qual
as pulsões encontram o seu lugar e as relações de objeto ganham sentido. Na abordagem hipercomplexa proposta, assinalam-se os contributos dos trabalhos saídos da Psicoterapia e da Psicanálise Familiar (Eiguer, Enriquez, Kaës, Mijolla, Rouchy, citados por Correa, 2003) para a compreensão da transmissão, com a relevância atribuída à história e à cultura do lugar de proveniência e de acolhimento do paciente, bem como à estória vincular da sua família, à história da sua comunidade alargada e do seu povo. É nesta complexidade que o par analítico, também lugar de representação e de encenação do contexto, viverá e encontrará sentido intersubjetivo para a matriz cultural do paciente.
Os fenómenos de grupo interessaram desde cedo o fundador da Psicanálise. Em 1921, Freud (1921/1955), preocupado com o fenómeno do nazismo, debruçou-se sobre o grupo e as massas para compreender a sua dinâmica inconsciente. Analisou o preço que o sujeito paga para fazer parte do grande grupo, ser protegido e não ser ostracizado: a ab-rogação do seu sentido de identidade separado, da sua capacidade de julgamento e de decisão. Analisou também como a projeção do ego ideal sobre o líder liberta o indivíduo da sua consciência moral. O interesse pelo grupo esteve sempre presente, desde a conceção de horda primitiva e do papel do édipo como possibilitador da civilização (Freud, 1913/1996, [1930/1996, 1939/1996).
Mais tarde, Bion, com base na sua experiência durante a Segunda Guerra Mundial e nos conceitos kleinianos de clivagem e de identificação projetiva (Bion, 1961; Klein, 1975/1991), investigou o pequeno grupo regredido, enunciando as suas posições básicas, de dependência, de ataque-fuga e de acasalamento, distinto do funcionamento do grupo orientado para a tarefa. Sublinhou, ainda, a natureza paradoxal da condição humana, carente do “narcisismo”, bem como do “socialismo” para poder pensar e poder comunicar (Bion, 1961/1991).
Quanto ao grupo interno, havia sido esboçado pelo fundador, Freud, nos trabalhos inaugurais de uma nova época, intitulados Luto e Melancolia (1917/1996), Além do Princípio do Prazer (1920/1996), O Ego e o Id (1923/1996) e Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926/1996). Klein (1975/1991), inspirada nestes e na clínica infantil, e Fairbairn (1952/1994), na clínica de adultos esquizoides, encetaram uma nova
teoria das relações de objeto, na qual a fragmentação inicial da vida mental, as defesas e as ansiedades primitivas vieram para primeiro plano (Mitchell, 1981; Ogden, 2002).
A noção da mente como um lugar concreto interno onde vivemos revolucionou tanto a Psicanálise quanto os conceitos de clivagem e de identificação projetiva haviam sido fundamentais para a compreensão das qualidades e da dinâmica das personagens que habitam a psique. A descoberta da vida fantasmática primitiva do bebé, bem como do seu desenvolvimento, permitiu a conceção de pais internos atuantes de peças animadas de realismo absoluto. De lento percurso de integração, estes objetos, inicialmente parciais, e as relações internas entre eles evoluem, desde os primeiros meses de vida, de conceções fragmentadas, distorcidas e fantásticas, de uma animação edipiana primitiva, violenta e sádica, para uma conceção integrada, amorosa, criativa e mais realista dos pais (Klein 1932/1997).
O papel da inter-relação entre o “fora” e o “dentro”, mediada pelos mecanismos de introjeção e de projeção na construção do sentido das realidades interna e externa, bem como o lugar de dentro do objeto interno, concreto, permitiram a concetualização da mente como um teatro (Meltzer, 1978). É neste lugar, palco e cenário, que os figurantes, os objetos do self e o self — atores de partes clivadas dos objetos, do self, da libido e do ódio, de partes do corpo, etc. — representam os seus papéis.
Este pequeno grupo interno alarga-se mediante o percurso identificatório com outras identificações significativas, as quais, no contexto analítico, animam os sonhos com diversas personagens, interpretadas, desde Klein, Fairbairn e Bion, como representantes da pulsão, de partes do self e do objeto, em inter-relação, a viver e a simbolizar uma narrativa passada, atualizada e criada. Esta conceção teve ainda diversas implicações, quer na perceção da relação transferência-contratransferência, quer na conceção do sonho: este, por exemplo, além de possuir valor de retorno do recalcado e de função de satisfação do desejo (Freud, 1900/1996), passou a ser concebido com uma dimensão debutante do pensamento simbólico (Symington & Symington, 2014).
Assim, como consequência do difícil processo de desenvolvimento e de integração no percurso analítico, só quando os figurantes do
teatro da mente têm um estatuto unitário, algo realista, e quando o indivíduo simboliza conteúdos até então inacessíveis ou irrepresentáveis, o par analítico consegue aceder à dimensão contextual, histórica, dos objetos.
Na contemporaneidade, a compreensão do grupo interno não se consegue efetivar sem a comparticipação da compreensão dos fenómenos da transmissão transgeracional, da família e do grupo no intrassubjetivo. Esta expansão do lugar do inconsciente para fora do sujeito conduziu a Psicanálise à consideração de uma terceira tópica e de uma metapsicologia do negativo, do agir. Sublinhamos, na presente reflexão, os contributos de Abraham e Torok, Aulagnier, Brusset, Green, Kaës, Pichon-Rivière e Roussillon.
Os conceitos de “cripta” e de “fantasma” (Abraham & Torok, 1978/1996), pioneiros no estudo dos fenómenos da transmissão transgeracional, iluminaram o modus operandi do legado traumático nos contextos familiar e social, mediante o não-dito, o desmentido, o apagamento da memória, através dos quais o indivíduo passa a conter no seu inconsciente uma parte do passado traumático de outrem, significativo. O passado está encriptado, no sentido de ser inacessível ao indivíduo: não possui a chave compreensiva, de desencriptação, uma vez que esta foi excluída da cadeia simbólica. A sua compreensão do sofrimento, bem como do sintoma é impossível. O indivíduo vive a cripta, mediante o agir e o soma.
Por outro lado, o intrapsíquico de natureza inconsciente grupal passa a ser tomado em linha de conta mediante uma nova compreensão, advinda da terapia psicanalítica da família. Relevando o papel dinâmico dos “organizadores grupais” (Kaës, 1993/2004), conceito distinto do anterior kleiniano de “grupo interno”, estes operam tanto no desenvolvimento intrapsíquico, quanto no exterior: no desenvolvimento dos vínculos de grupo. Enquanto pertença do aparelho psíquico intrapsíquico, os organizadores são depositários de fantasias primitivas antecedentes à própria subjetivação do indivíduo e pertencem a duas categorias distintas: hiper ou hipo redutores. Na primeira categoria, consideram-se formados por vínculos organizados de
modo diádico, indiferenciado; na segunda, por vínculos organizados de forma triádica, mais rica e criativa.
No que respeita ao lugar depositário da experiência traumática, considera-se, na contemporaneidade, o lugar externo ao sujeito: o inconsciente ectópico (Pichon-Rivière, 1965/1982), o qual, embora concernente a um inconsciente individual, é habitado por outros inconscientes. O aprofundamento deste conceito (Brusset, 1989/2005, 2005), bem como a sua extensão ao inconsciente politópico (Kaës, 2015) convidam-nos à consideração de um inconsciente existente num lugar distinto, para lá do intrassubjetivo: o lugar do intersubjetivo, de grupo familiar e da comunidade.
Segundo esta conceção, a alienação e o seu correlato delírio operam em três lugares distintos do conflito: no intrapsíquico, no intersubjetivo e no “trans-subjetivo” (Kaës, 2015): no psicossocial e no institucional. A ectopia do inconsciente conduz-nos a uma circunstância paradoxal na qual a constante dinâmica entre o interno e o externo nos coloca numa situação de impossibilidade de separação estanque entre aqueles três espaços, dadas as interferências e as inter-relações existentes entre si.
Ainda no que respeita à transmissão do reprimido, sublinha-se a construção do ideal do ego, anterior à dissolução do complexo de Édipo, bem como do “projeto identificatório” (Aulagnier, 1968/1990), saído da sua resolução final. O “projeto identificatório”, iniciado nas etapas precoces nas quais a idealização está presente, carrega uma dependência idealizante dos primitivos objetos, e representa, em cada etapa posterior, “um compromisso em ato” (Aulagnier, 1968/1990, p. 214). Este compromisso respeita ao reprimido operado entre o “porta-voz”, o agente da função materna, e o corpo do bebé; e entre esse “porta-voz” e a ação repressora: a função paterna. A sua transmissão garante a ordem cultural, presente no simbólico da linguagem e do social.
Quanto aos traços evocativos do trauma, bem como às feridas narcísicas e aos aspetos do negativo (Correa, 2003), estes são repetidos, mediante a atuação dos laços/vínculos nos espaços intra e intersubjetivos, causando o sofrimento e o sintoma.
É neste contexto que a Psicanálise contemporânea é compelida à consideração por uma terceira tópica, a qual diz respeito a uma compulsão à repetição do negativo da história. Com base no desenvolvimento
das conceções sobre o negativo (Green: 1993/2011, 2000, 2002), concebe-se uma compulsão do negativo (Roussillon, 2012): se na primeira tópica o negativo, ou o que não pôde ser transformado em palavra mediante o processo secundário, corresponde ao inconsciente, na segunda o inconsciente corresponde ao clivado, às identificações narcísicas com a sombra do objeto e ao superego. Na terceira tópica, o inconsciente corresponderia ao atuado, ao negativo encenado.
A elaboração da compulsão do negativo permite dar cumprimento ao objetivo estipulado por Freud para a Psicanálise: o empossamento do Id pelo Ego (Freud, 1920/1996). Para Roussillon (Roussillon, 1999), este desiderato cumpre-se na Psicanálise contemporânea mediante o assenhoreamento pelo sujeito do que outrora o assujeitou. De facto, segundo este autor, a clivagem, o desmentido (recusa), bem como o desligamento representam os principais mecanismos de defesa presentes nas patologias-limite e nas mais paradigmáticas da clínica atual. No que respeita ao processo de elaboração do negativo, percorre o eixo de evolução simbólica intersubjetiva do par analítico, partindo das atuações, ao onírico, ao imagético, até ao associativo e narrativo, até encontrarem um lugar representacional adequado.
A Psicanálise atenta nos objetos e nas suas matrizes, nos fenómenos da cripta, dos organizadores internos, dos vínculos, do inconsciente ectópico, do projeto identificatório, da compulsão e da atuação, bem como no trabalho do negativo, saído do eixo transfero-contratransferencial, podendo permitir o acesso à representação: tornar positivo o negativo, e presente o ausente (Green, 1975/1988; Urribarri, 2022).
Para a compreensão do conceito de “matriz”, é necessário ainda retomar o conceito inaugural de “mãe meio-ambiente”, de Winnicott (1965, 1949/1975), como forma de acesso transgeracional ao agido e ao negativo.
O ambiente, a matriz na qual a experiência com o objeto ocorre (Winnicott, 1958/1983), é de tanto ou maior relevo quanto o que decorre da relação com a mãe, enquanto objeto. Deste modo, na transferência-contratransferência, o par analítico experiencia aspetos relativos a esse ambiente, a essa matriz, por vezes de difícil acesso, porque
confundido com as dinâmicas relativas ao da relação com o objeto. Referimos o efeito contextual, de matriz, na qual a experiência intra e intersubjetiva ocorrem: o pano de fundo, o chão, o palco da mente (Bollas, 1987; Grotstein, 1999; Meltzer, 1978; Ogden, 1991).
São os casos nos quais o irrepresentável da falha, da interrupção do going on being, se torna objeto de estudo na análise, o negativo da ausência adquire uma dimensão mais real do que o positivo da presença (Winnicott: 1949/1975, 1958/1983), e o gesto violento, quase fatal, porque suicida, irrompe enquanto expressão agida de um ambiente negativo ancestral.
O negativo transgeracional urge por entrar na cadeia simbólica do sujeito, num momento avançado da análise, numa busca desesperada por significação para o vazio existencial, há muito sentido, mas nunca significado, expressão de uma derradeira esperança de deixar de viver na falha (Ogden, 1995, 2021). Na clínica, este negativo surge amiudadas vezes em associação com a experiência do vazio, do luto e da angústia de aniquilamento, nos quadros-limite do masoquismo e da depressão grave.
Dada a condição de irrepresentabilidade do negativo, é na relação de transferência-contratransferência, mediante a emergência das atuações, que a sua entrada ocorre. A falha de inscrição na cadeia das representações associa-se ao desligamento como forma de impedir a ligação ao objeto.
É perante um sonho do analista que a violência da irrepresentabilidade irrompe. Mediante a atenção autoanalítica do analista, o sonho poder estar, numa fase inicial, relacionado com os seus organizadores grupais e com o seu passado infantil.
Porém, é da consideração desse mesmo sonho como manifestação extratransferencial, não do inconsciente do analista, mas do inconsciente ectópico do paciente, que uma nova dimensão onírica contratransferencial emerge: o aspeto neurótico do analista depara com o sofrimento não pensado no interior do objeto do paciente e coloca-se ao serviço da compreensão do par (Lewkowich, 2020; Migone, 2022).
Formula-se a hipótese de aquele sonho se relacionar ainda com um ambiente avoengo, desconhecido, encriptado e irrepresentável do paciente, e de possuir um conteúdo significativo: a eventual chave. Este movimento do par analítico condu-lo ao caminho da simbolização
progressiva do encontro do sentido: do gesto potencialmente suicida à partilha e ao estabelecimento de hipóteses compreensivas.
O processo de análise do negativo dramaticamente atuado entra na cadeia simbólica, mediante a sua forma mais primitiva: a representação sonora. A recordação de um elemento sonoro, precedente à atuação, constituiu o elemento contextual, o pano de fundo evocativo do trauma irrepresentável da família do objeto avoengo, e, bem assim, na cadeia associativa, a depressão precoce do objeto.
O elemento sonoro proporciona a partilha emocional do par analítico, constituindo não só a primeira representação do fantasma — primeva expressão da pulsão anterior à entrada na cadeia simbólica imagética (Isaacs, 1948) — como também o fator significante da emoção evocada no par, e, nesse sentido, o aspeto organizador e condutor do nascimento da narrativa (Grier, 2021).
O par depara com um luto transgeracional suspenso, uma ausência, presente no desmentido familiar intersubjetivo e no intrassubjetivo, o qual havia colocado o indivíduo fora da posse da sua estória e da possibilidade de se constituir narcisicamente empoderado do seu projeto identificatório, bem como da sua história familiar, grupal e cultural.
A elaboração do negativo conduz o par a ligações até então impossíveis para o indivíduo: o seu sofrimento de vazio, narcisismo, dificuldades relacionais íntimas e ansiedade de castração relativas ao projeto de paternidade. A sustentação do trabalho analítico permite novas coconstruções subjetivas, as quais constroem a vida do sujeito, onde antes existia a identificação com o esvaziamento demencial do objeto avoengo.
O indivíduo acede ao sofrimento do desenraizamento histórico e cultural e ao inconsciente ectópico, sintónicos quer com o luto avoengo irrealizável, quer, ainda, com o narcisismo negativo do objeto. O narcisismo e o sofrimento de vazio do sujeito articulam-se com o desligamento precoce dos laços mãe-bebé, transgeracionalmente repetidos.
O senhor S. fazia psicanálise três vezes por semana havia quase três anos quando teve um acidente de viação que por pouco não lhe roubou a vida. Visivelmente transtornado, relata como tudo ocorrera: viajava de regresso a casa, à noite, a ouvir música, na estrada ribatejana
secundária habitual, quando se despistou e embateu num sobreiro. O carro foi para a sucata, capô e motor destruídos.
S. havia procurado análise aos 25 anos, por um sentimento generalizado de incapacidade afetiva, impeditiva de constituir família, e um certo sentimento de vazio. Bem parecido, educado e bem-sucedido numa profissão liberal na área económica, tivera vários “casos”, como lhes chamava: relações com mulheres com as quais vivera dois, três meses, sempre em sofrimento, pois delas e de si escondia o facto de não conseguir corresponder-lhes a entrega emocional.
No último ano de análise, o senhor S. vivera, pela primeira vez, um estado afetivo intenso pela companheira, com a qual vivia há um ano, estado que o par analítico denominou de “paixão”. Inicialmente desligado, vazio e narcísico, sentia-se reconstruído e seguro. Encetava, segundo ele, “o caminho do trovador”, o qual já não o inferiorizava: não temia o ridículo, nem o desamparo emergido nos momentos mais intensos da entrega afetiva e de vulnerabilidade. Cantava para a amada a canção “dramática”, intitulada “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel, bem como a “satírica”, “Quand on est con”, de Georges Brassens. Pretendia que fossem um fiel retrato do seu “estado de coisas”, inconscientemente ainda oscilante.
S. parecia sofrer repercussões de uma depressão precoce, associada a dificuldades alimentares nos primeiros tempos de vida: havia “rejeitado o seio”. O intenso sentimento de rejeição, projetado no encontro amoroso, houvera-o impedido de se apaixonar. O par analítico havia identificado uma bipolaridade afetiva, reencenada nas vivências narcísicas de fusão no estado de enamoramento. Sentia-se ora em risco de morte, se desamparado pelo objeto de amor, ora em negação, em desvalorização desse estado e em defesa narcísica secundária, de humor cínico, se no amor confiava. As duas canções pareciam retratar essa bipolaridade: a impossibilidade de sobreviver ao abandono amoroso, expresso na canção “Ne me quitte pas”, por um lado, e a sabedoria protetora do funcional e desdenhoso do amor falso self, implícita na cantiga “Quando on est con”.
A notícia recente da gravidez de um menino tornara-o feliz, a ele, homem ainda recentemente afastado da ideia da procriação. Os últimos meses da análise haviam sido vividos com entusiasmo pela descoberta de projeções e de revivências da sua infância, elaborações,
segundo ele, “preparatórias da paternidade”. Revisitava o seu passado, à luz da nova compreensão, e algum familiar, em parte já nosso conhecido, mas agora renovado mediante a nova perceção alcançada.
Resumidamente, os seus pais, moçambicanos, atualmente com mais de quarenta anos, haviam chegado a Portugal, aos quatro e aos seis anos, com as respetivas famílias em fuga da guerra civil, no pós-25 de Abril de 1974. A família do pai, muçulmana, era amiga da família da mãe, católica. Essa amizade havia-lhes valido uma sólida entreajuda durante os difíceis anos da reinserção no continente. O tio-avô paterno, dono de um negócio afortunado em Portugal, tomara para si as despesas da educação de S. como forma de ajuda aos jovens pais. S. nutria grande afeição e admiração por ele. Na transferência, S. havia oscilado entre sentir-me uma mãe ausente, deprimida como a sua, esgotada pela tarefa permanente de insuflar vida no humor desolado da avó, sentir-me inútil e má analista e ver-me como um tio-avô, protetor e rico. Quando, mediante a projeção, me “via” esgotada ou sombria, reencontrava, mediante a enação, a mãe ou a avó: atrasava-se para me dar tempo de “recarregar baterias” de pacientes como a avó, incuráveis, ou para me permitir pensar nele e preparar um sorriso, sempre ausente do semblante daquelas duas mulheres. Quando mais afastado da culpa de dano primitivo ao objeto, e em defesa dela, via-me como uma fonte providencial de riqueza e de apoio, um tio-avô Bibe, do qual temia separar-se ou aceitar a velhice e a finitude.
As fantasias de responsabilidade pelo estado emocional da mãe e da avó haviam-no condicionado a uma existência de “fardo às costas”, que, até há cerca de um ano, o havia impedido de se responsabilizar por um projeto familiar seu. O pai, homem trabalhador e “positivo”, perante o desligamento da esposa, havia encontrado apoio emocional na sua própria família e, pensava o paciente, desprezava secretamente a mulher e a sogra, ambas “negativas”.
Na infância, quando S. chorava e amuava, o pai e os irmãos gozavam com ele, dizendo parecer-se com a avó. Na transferência negativa, S. havia temido reencontrar em mim essas mulheres “negativas”, pelo que me havia denegrido, tal como fizera às anteriores namoradas, que haviam sofrido com a sua arrogância, frieza e superioridade.
A vergonha e a humilhação de se sentir pobre, moçambicano e negro em colégios de crianças abastadas, europeias e brancas, havia
surgido na dinâmica transfero-contratransferencial: tratava-me por “vocês”, referindo-se ao meu tom de pele branco e a uma vida supostamente feita de facilidades. A vergonha e o ódio pelos pais humildes, residentes numa habitação social exígua, o desprezo pelos dois irmãos, mais novos, todos eles, no passado infantil do paciente, dependentes da assistência social, bem como a inveja encoberta destes pelas suas atuais estabilidade afetiva e fertilidade haviam sido elaborados mediante a desvalorização na transferência negativa: no passado, aludira, com sarcasmo, à necessidade de eu redecorar o consultório em concordância com o nível económico dos pacientes, superiores e bem estabelecidos na vida como ele.
Recentemente, S. havia tomado a iniciativa de propor a redução das sessões, alegando sentir-se melhor, e pretendia terminar a análise após o nascimento do filho. Eu havia concordado com as melhoras, mas discordado do término: revira os vividos contratransferenciais recentes, de ausência de imagens, de sentimentos e de associações, com os quais me havia familiarizado nos dois primeiros anos de análise, anos que haviam dado lugar, no último ano de análise, a uma intensa relação transfero-contratransferencial. Parecia haver algum retrocesso ou paragem no processo analítico, pois, não obstante o entusiasmo e a vivacidade vividos no amor, no projeto familiar e na relação analítica, aparentava dar indícios de perdurarem ainda algumas expressões da sua imaturidade emocional: imaginava a vida como uma sucessão de etapas a vencer, quiçá uma forma de combater o vazio e algum sem-sentido existencial, ainda presentes.
De facto, um estado de sono havia reemergido em mim, algo como uma função alfa revertida, uma tela beta em substituição da habitual rêverie. Pese embora se assinalarem aspetos positivos transferenciais, não temer ser ridicularizado nem rejeitado na sua expressão de sedução primitiva e edipiano, quando, por exemplo, trauteava as referidas canções de amor dedicadas à mulher, eu sentia sono quando o fazia.
Numa noite, após uma dessas sessões, havia sonhado estar dentro de um espaço cerrado de vegetação escura e ouvir um longínquo canto melancólico de mulher. Corri à sua procura, granjeei um portão e encontrei a minha mãe exangue, numa cama de ferro, numa clareira da floresta. Acordada, havia estranhado a minha associação: “seria possível, vinte anos após a sua morte, ainda perdurar no luto?
Seria uma neurose minha, uma incapacidade de fazer lutos ou o luto de uma mãe demoraria assim tanto tempo?”, interrogava-me, sem encontrar resposta satisfatória.
De volta à sessão, na qual o Sr. S. relatava o acidente, havia surgido na minha mente um canto lúgubre, sem nexo. Algo como uma hipótese plausível, consonante com o sono sentido nas sessões de canto, se desenhou: “Teria S. adormecido ao volante?” Interroguei-o.
“Não”, respondeu. “Vinha a ouvir música cabo-verdiana e o noticiário de África”, como era seu costume. A estrada estava deserta e escura e, não sabia como, perdera a noção da condução por frações de segundo. Acordara contra um sobreiro. Lembrou-se dos pensamentos desse final de dia: do trabalho, a correr bem, e de um sonho tido no fim de semana anterior, o qual se havia esquecido de me contar na segunda feira passada, entusiasmado que estivera a relatar os sentimentos surgidos aquando da visualização das imagens ecográficas do segundo trimestre.
No sonho, saía de uma habitação primitiva, fechada e sem luz, feita de canas e de folhas, e defrontava um grupo de judeus em perseguição dos beduínos do Neguev. Pensara no estado atual do mundo, no extermínio do povo palestiniano, em Gaza. Haviam emergido o rancor pelo ódio xenófobo para com as diferenças fenotípicas, bem como memórias de ser gozado e ostracizado no jardim infantil. Embora protegido pelo tio Bibe, ninguém o poupara à discriminação vivida no colégio particular: o tom de pele, a religião e os costumes diferentes não haviam sido bem-aceites pelos pares.
Parecíamos regressar a um campo conhecido do par analítico, quando me surgiu na mente o meu sonho. Tomei-o, pela primeira vez, como podendo conter um significado contratransferencial. Investiguei: “Que música estava a ouvir?” S. animou-se: “Ouvia uma morna”; e trauteou o que me sugeriu ser um lamento. Daquela vez, não senti sono. O trautear emergia de um canto obscuro da sua autenticidade, até então desconhecida do par.
Imagens irrecuperáveis surgiram-me, bem como um sentimento vivo, quente, de tristeza. S. falava: uma das notícias ouvidas antes do acidente respeitava a “recentes descobertas de jazidas do genocídio dos tutsis”. Uma longa evocação, com afeto de revolta, percorreu o par analítico. Interroguei: “Teria ficado cego de ódio durante a condução,
em identificação com aquele grupo étnico?” Assinalávamos o regresso ao passado da sua família em fuga da guerra civil. Porém, como conceber a inflexão daquela raiva, num momento tão feliz da sua vida? A culpabilidade inconsciente relativa ao bullying sofrido pelos pares, pelos irmãos, que o gozavam, representava ainda um poder, quiçá suficiente para exterminar um povo de irmãos e de colegas. O riso emergiu, em defesa contra a crueldade da vingança em fantasia.
Nas sessões seguintes, o senhor S. prosseguiu, animado com as notícias da gestação do filho. Surgira um episódio de desentendimento com o irmão a seguir a si: este havia-lhe dito, tal como em criança, quando S. falava de história — agora, de economia —, que “S. dizia coisas sem sentido”, tal como “a maluca da avó”. S., irritado, amuara e não falara o resto da noite.
A equivalência pejorativa conduziu o paciente ao passado familiar, ainda superficialmente conhecido da análise. Os avós paternos e a avó materna haviam sofrido de pobreza durante os anos de fuga e de reinserção no continente. Especialmente a avó materna, cujos marido, pais e outros familiares haviam soçobrado numa aldeia de cubatas perto de Tete, em 1972, num massacre. A avó, atualmente sexagenária, ficara demente pouco tempo depois de S. nascer. “Quando uma pessoa sofre assim, tem de enlouquecer. Não acha?” Ficámos em silêncio. Na contratransferência, eu parecia atingida, destruída, à beira de um novo estado de espírito, algo como um abismo. Na minha mente, o mesmo som, sem nexo, surgido aquando do relato do acidente, ecoou. Disse: “Quando os seus irmãos lhe dizem que é maluco como a avó, é como se sentisse que lhe vaticinam o mesmo destino de sofrimento… pensar em abandonar a análise parece tê-lo levado a agir um drama semelhante ao da avó que perdeu a família e enlouqueceu.”
Na segunda-feira seguinte, apareceu transtornado. Angustiado com as sessões da semana anterior, investigara, pela primeira vez, o sucedido em Tete. Nunca tivera proximidade com a avó, enquanto os seus irmãos eram por ela acarinhados. Os ciúmes relativamente a este amor haviam parecido representar partes maternas odiosas e rejeitantes projetadas sobre aquela figura; nutria ressentimento pela mãe, devotada à avó. Conversara com a mãe e soubera “coisas inimagináveis”: a avó perdera no massacre um filho, além do marido e familiares, e estava grávida da mãe. Tinha ido ao rio com outras mulheres,
abastecer-se de água, quando tudo acontecera. O bebé, que já andava, havia ficado na aldeia, com os primos de idade próxima e mais velhos. Ao voltarem, a aldeia havia perecido, queimada. Os mortos, no chão. Familiares do pai de S., habitantes de uma aldeia mais longínqua, haviam tomado conta da avó grávida e de outros familiares sobreviventes. Fora entre os amigos dos familiares do pai que a mãe de S. viria a conhecer o futuro marido. A avó emudecera durante cerca de quatro anos. Só em Portugal começara a falar, mas nunca recuperara o olhar vivo e a alegria; pouco tempo depois do nascimento da filha, perdera a razão.
Nas sessões seguintes, S. elabora o seu passado familiar e cultural, e constrói-se subjetivamente. A avó não conheceu mais nenhum homem. Trabalhou nas limpezas, e quando a filha constituíra família, ficou a residir com ela e ajudava-a a cuidar dos netos e nas tarefas da casa. A mãe havia sido criada pela família do pai, porque a avó, quando ela nasceu, não tinha leite nem era capaz de lhe pegar ao colo. Esclarecia-se a depressão do objeto e o que sempre pensara ter sido a sua rejeição da mãe. Ficávamos emocionados, em silêncio: habitados por imagens advindas da partilha empática. S. recuperava da identificação primitiva com a mãe, também ela identificada com a depressão profunda da avó: a mãe havia vivido num estado fusional com a mãe, e encontrara para a sua vida o sentido masoquista de restaurar e de cuidar do seu objeto trucidado, pela sua fantasia, e pelo genocídio, na realidade. O paciente havia-se identificado com a depressão materna e com o sem sentido existencial da avó.
O par emudecia, perante o ominoso, o silêncio da morte após o massacre, bem como, criativamente, o partilhava: o desmentido do grupo, o silêncio familiar, a cripta do luto e do ódio. Imagens mentais e afetos percorriam o par analítico numa comunhão empática. Os sons podiam agora ouvir-se no nosso interior como o início de uma metaforização introdutória da cadeia simbólica; novas imagens surgiam. O projeto identificatório primitivo, construído no ideal primitivo ao tio Bibe, integrava-se num novo ideal de paternidade, mais assimilado ao pai e à coconstrução analítica.
O estado de melancolia implícita, desconhecido do par analítico, associou-se à morna evocada na mente do paciente aquando da viagem acidentada de regresso a casa e das imagens mentais suscitadas
pelas notícias de guerra em África. O sonho da analista encontrou um sentido partilhado no par, de luto suspenso, contextual, sem história ainda conhecida. O sonho do paciente revelou conter aspetos imagéticos do passado histórico e cultural do seu povo, dele desconhecidos: a extensão do genocídio, as habitações primitivas de canas e de folhas.
A compreensão da emergência da loucura da avó, aquando do seu nascimento, bem como do seu ressentimento pelas chalaças dos irmãos, esclarecia-se: a avó não havia suportado rever o negativo da perda do seu menino primogénito, revisitada no nascimento de S., o neto primogénito. S. temia aquela sua identificação avoenga, e enlouquecer. Associou o seu desastre ao pânico encriptado de enlouquecer aquando do nascimento do seu filho. Novas perspetivas surgiram sobre os objetos e sobre a história do senhor S., a sua família e a sua comunidade originária. As reconstruções históricas e sintomatológicas demoraram ainda mais dois anos de análise.
O estado de sonolência da analista, antecedente ao desastre do paciente, assinalava a paralisação da sua função de rêverie. Só quando sonha, começa a pensar. Apercebe-se de pouco valerem as melhoras sintomáticas do paciente, a relação emocional com a mulher e a paternidade, não alicerçadas num profundo renascimento: o par teria de permitir a experiência afetiva de se afundar, morrer simbolicamente, e de ressuscitar: encontrar a depressão materna e a avoenga, e o paciente contar que a analista “ne le quitterais pas”. O paciente precisava de deixar de temer o ridículo de ser “con”, por amar, a defesa erguida perante a falha dos cuidados primários e das descontinuidades traumáticas.
O sonho (contratransferencial) da analista, precedente do agir suicida, surge como uma abertura inicial à entrada da cadeia simbólica do sofrimento do paciente. O seu inconsciente albergava uma parcela do inconsciente ectópico do paciente: aquele capaz de fazer ressoar na sua experiência pessoal de vazio a dor da perda e dos lutos negativos dos objetos. A representação onírica da analista testemunhou a matriz emocional da dor encriptada do paciente, a dor para a qual este não encontrara ainda compreensão suficiente: o objeto não conseguira cuidar de si, ocupado em salvar o seu próprio objeto, esvaziado no
desespero pós-traumático. Por outro lado, a metáfora onírica representou uma nova visão sobre a incapacidade de amar do paciente e sobre a sua defesa narcísica, falso self: no sonho da analista, era preciso saltar o portão, a defesa por clivagem e afastamento; ir ao encontro da depressão materna, a mãe da analista no sonho, e daquela avoenga do paciente, representada no sonho pelo cântico melancólico.
Este som, vivido inicialmente pela analista com um referencial depressivo, surge na contratransferência, mais tarde, sem significado, “sem nexo”, aquando do relato do acidente do paciente. Evocativo da matriz do trauma, encriptado no sujeito, a elaboração contratransferencial permite ao par a transição do afeto melancólico, representado pela depressão branca do objeto e do paciente, para a existência sem sentido, demencial, da avó.
O gesto suicida constituiu uma atuação do desespero, um pedido por significação desse estado de vazio existencial. O paciente não poderia terminar a análise num estado no qual a maior realidade psíquica constituiria a presença dessa ausência de sentido. O vazio representava o negativo do trauma transgeracional: a perda de sentido existencial do objeto avoengo, após a perda do filho, do marido e dos familiares.
A aproximação da paternidade impulsiona o ato suicida: a atuação da identificação com a sombra do objeto avoengo. Receia o vaticínio dos irmãos: enlouquecer como a avó enlouqueceu quando o paciente nasceu; e teme enlouquecer com o nascimento do filho. No momento do seu gesto suicida, o paciente desconhece esse facto. Desconhece o genocídio, desconhece ter a avó perdido o primogénito no massacre; desconhece ela ter emudecido por cinco longos anos, quando a mãe era bebé, e depois ter enlouquecido, quando ele nascera.
Porém, a repetição dos laços e o trauma inscreveram-se no inconsciente do grupo familiar e são sua pertença intrassubjetiva. O gesto suicida é espoletado por uma morna, evocativa de um primitivo sonoro, ao qual se associa a dor da perda, bem como pelas notícias de África, o seu continente ancestral. A temporalidade transgeracional é perdida pelo efeito da atemporalidade do trauma.
O sonho do paciente, tido na semana anterior ao agir violento, havia sido esquecido, remetido para o negativo do recalcamento. Assinalava uma pressão inconsciente pela entrada na cadeia simbólica do
par analítico. O paciente não o evoca, a não ser quando a analista toma o seu próprio sonho como um facto analítico: o esquecido faz-se presente e o seu conteúdo, de genocídio dos beduínos do Neguev pelos judeus no seu sonho, entra na associação verbal do par.
A perseverança na elaboração permite ao par o acesso ao inconsciente exterior do sujeito e a entrada na sua própria subjetividade: o sonho não representava a história de outro povo, mas, sim, a do próprio, materno. A vergonha e os ressentimentos narcísicos ganham outra significação: defesas, em identificação com a cultura muçulmana paterna, contra a depressão irrepresentável relativa ao genocídio do povo materno.
Na abordagem hipercomplexa proposta, ilustrou-se a forma como o sintoma agido na clínica da contemporaneidade remete a análise para um novo campo metapsicológico, no qual se considera uma terceira tópica: além da inicial, decorrente do inconsciente do recalcado, seguida da do clivado, pondera-se a do agir, e, mais além, o inconsciente ectópico, quando considerada a interface com os fenómenos da grupalidade, da família e da comunidade na vida intrassubjetiva e intersubjetiva.
Assim, preocupamo-nos com os aspetos decorrentes dos trabalhos com o negativo, bem como com os decorrentes do projeto identificatório, da transgeracionalidade, das mensagens enigmáticas implantadas, a cripta, bem como com os dos organizadores grupais, laços perpetuados nas vivências familiares, grupais e comunitárias, nas quais os traumas coletivos se inscrevem.
Numa etapa adiantada do processo analítico, tanto o sintoma como o sofrimento psíquico encontram novo significado. Referimos uma fase na qual já se estabeleceu uma integração psíquica adiantada, bem como se firmaram os ganhos relativos à triangulação psíquica, à subjetivação, ao interesse autoanalítico e à vida relacional, em expansão.
Nesta circunstância, o gesto suicida, que nos remete para a clínica contemporânea do agir e do negativo, encontra uma nova significação, não só de cessação de uma existência condenada à vivência na falha, como também de um gesto desesperado por esperança de inscrição e de empoderamento da sua dimensão familiar, grupal, histórica e cultural.
Do ponto de vista metodológico, a nova atenção dispensada à forma como a hipercomplexidade se inscreve no par analítico, nomeadamente os agidos e os negativos transfero-contratransferenciais, excluídos da cadeia simbólica, os quais forçam a sua entrada simbólica de modo violento, são tomados como factos analíticos mutativos. O sonho contratransferencial, o qual representa o negativo da rêverie ausente na presença do paciente, bem como o som significativo extratransferencial do paciente, o qual representa o negativo da presença do analista, constituem as primeiras manifestações emergentes no par, relativas àquele terceiro lugar do inconsciente.
A associação e a elaboração analíticas permitirão o acesso: ao contexto do trauma do objeto avoengo, o pano de fundo onde teve lugar o genocídio; ao contexto do objeto do sujeito, a mãe-ambiente; bem como ao empoderamento da história pessoal, familiar e comunitária.
ABSTRACT: The contemporary clinic is indebted to a hypercomplex view of the dynamics of the analytic pair. This view considers not only the demands of internal work, integration, the phantasmatic, libidinal and object developments, the intresubjective and intrasubjective elaborations, those arising from creative co-construction present in transference-countertransference, but also the demands arising from absence, the phenomena of the negative, as well as the extension of the place of the unconscious, repressed, and projected, to the unconscious of action, family, and group.
In the proposed view, the internal matrix where intrasubjective experience occurs – the emotional and cultural environment in which the object resides within the subject – as well as the family and community inter-subjective matrix – where relationships and affective bonds are organized and perpetuated – represent the negative scenario of the object. At an advanced stage of the analytical process, the analytic couple accesses those matrices, the encrypted story, through the analysis of the negative of the transference-countertransference relationship.
The elaboration of hypercomplexity allows for the empowerment of subjectivity: personal and family stories and the historical context of the group. The ilustration of this approach is illustrated through a clinical case, in which the suicidal gesture represents the positive side of the absent negative: the context of ancestral genocide.
KEYWORDS: Genocide, Matrix, Negative, Suicide.